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Noticia e Informacao contextualizadas
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  • Foto do escritorLuís Peazê

O Punhal de Pedra, a única mulher templária e o romance da Rita Mayer

Atualizado: 26 de jul. de 2021


Você está no meio do deserto e de repente é apanhado por uma tempestade, vento e areia. Fica sufocado, por momentos tem a sensação de que perdera os sentidos, no instante seguinte começa a entender e em seguida tudo passa, mas há uma surpresa: você perdeu o rumo. Não sabe para que lado está o sol, o ar está carregado e ao redor o horizonte é uma imagem única.


Até que um fiapo de luz surge de um lado, aumenta lentamente e uma profusão de texturas cresce até dentro da sua mente. É neste exato momento que você percebe a dimensão de ser humano, de sentir medo, de pressentir o incompreensível, de ser apanhado por algo que não entende e do impulso de, mesmo assim, lidar com isso armado de pré-conceitos adquiridos de fragmentos de saberes, isto é, você sabe quase nada.

Todas essas sensações eu experimentei intimamente por conta de algumas coincidências que começam com o resgate de meu livrinho O Punhal de Pedra que parte das lascas da pedra em que Jacó teve o sonho bíblico e um punhal que tenho comigo, relíquia de meu avô, assisti-o a forjar e depois fazer o cabo de osso, ouvindo histórias de uma região do extremo sul do Brasil, onde há lajeados e cavernas paleolíticas... No início do século XIX, contava Vovô, escondiam escondiam mulheres e crianças naquelas cavernas, índios amigos também, era tempo de disputas fronteiriças, atrocidades sem chance de justiça eram um perigo iminente, no ar... A partir daí criei uma ficção emendada com fatos históricos desde o Êxodo dos Judeus…


As coincidências começaram a aumentar com um achado na estação ecológica de descarte da esquina, uma publicação do Diário de Notícias (2003), exemplar de Tomas Mann, de sua obra prima Os Quatro Irmãos de José; - meu Deus! Eu li a coisa aos 15 anos de idade. O próprio alemão Thomas a considerou uma Magnum Opus e poucos se lembram ou sabem que sua mulher com quem teve seis filhos era brasileira e que, antes disso fora apaixonado por um homem. Edição impecável em capa dura, colofão sem costura mas tão bem colado que lembra encadernação tradicional, o Diário de

Notícias (2003) publica com autorização da Editora Livros do Brasil (Lisboa) Os Quatro Irmãos de José romance baseado num profundo estudo da História pelo próprio Thomas, num momento em que rivalizava protagonismo com o próprio irmão, Mann evoca o mundo mítico dos patriarcas e dos faraós, as antigas civilizações do Egito, da Mesopotâmia e da Palestina – com as suas divindades e rituais religiosos –, e a força universal do amor humano em toda a sua beleza, desespero, absurdo e dor. O resultado é uma brilhante amálgama de ironia, humor, emoção, perceção psicológica e grandeza épica. Haja fôlego, hoje em dia, com tamanha demanda virtual, quando se ouve que o mundo, em 2022, será “megaverse”.

Vergilio Paz, Avô paterno de Peazê

Quando sou apanhado no meio desta tempestade por um trabalho acadêmico de um militar da Marinha Portuguesa, sobre a origem do sobrenome/apelido “Paz”, de meus avós paternos, alentejanos agora confirmado de raízes fundas… Parêntesis: - mais de uma vez recebi cheque com o meu nome errado e graças à amizade com o gerente do banco, em Petrópolis, RJ (1982/83), pude descontá-lo; o pagador escreveu “Paz” porque pensou que eu estava a soletrar p e a z ê…


Segundo essa investigação, João Paz tornara-se meio confidente do Rei de Portugal na altura em que o Brasil estava para ser descoberto. Teria participado da expedição de Pedro Álvares Cabral e sua missão secreta seria "verificar" as informações do próprio Pero Vaz de Caminha; ele teria escrito cartas ao amigo Rei e, para alivio geral, era tudo verdade mesmo: naquela terra tudo o que se plantasse daria... João Paz era judeu, meio mouro e por isso perseguido duplamente, sem contar que na Península Ibérica era tempo em que ninguém sabia se Portugal seria Espanha ou vice-versa, portanto correndo-se o risco de nem existir Portugal no mundo, João Paz gritava em praça pública contra a inquisição, teria ido até Roma discutir o babado...

A origem da família Paz, com brasão e tudo, caiu no meu colo por estar debruçado sobre a fundação foral da Freguesia que abriga este aprazível bairro Bom Retiro, em Vila Franca de Xira, uma herdade de Dona Froile Ermiges de Ribadouro, ou, Dona Floila, a única mulher templária que existiu. História de um lugar de Feiras Francas, lugar de “Homens Bons” conforme leio em documentos oficiais da Idade Média (1190). A propósito, foi em Vila Franca de Xira, visitada por Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e outras personalidade que vieram beber uns copos com o Rei, que a decisão de deixar aquele naco enorme de terra do outro lado do Atlântico com o filho Pedrinho, para não perder esta muralha no ponto mais privilegiado da Europa para o mesmo Atlântico, acesso para o velho Med, bem no topo do giro norte do oceano, coisa que os navegantes da época sabiam apenas empiricamente... Até hoje e isso não pode ser mudado, a não ser que a Pangea decida, Portugal é o ponto mais perto de tudo no planeta, daí a sua importância. No subsolo e superfície de seu mar territorial, sete vezes maior do que o seu território terrestre, passa de tudo, todas as cargas do mundo, todos os cabos de comunicação...


Sem mencionar que chega ao balcão de oPONTO para provar meu licor de groselha a mãe de uma arqueóloga… Se até um texto precisa vírgulas, para respirar, nós meros humanos também precisamos de uma paradinha de vez em quando...


Bem, é aqui, nessas ruas hoje nomeadas de escritores, que também se assenta uma outra história sobre as mulheres, aliás, Bom Retiro é um bairro feminino, não tenho dúvida… D. Sancho I, filho do Rei Henrique Afonso, ambos templários embora haja pouco registo a respeito, doou à Dona Froila esta herdade rica e alta, mirante para o Tejo, além Tejo e para a cauda do Ribatejo. Bem, tornou-se Vila Franca de Xira… A história é linda.

Por fim, antes de perceber que havia um horizonte a mais, me chega às mãos Os Nove Braços do Hanukiah, livro da amiga Advogada de Lisboa, Rita Mayer Jardim.


A Rita me surpreendeu. Você aprende que advogados não sentem nada, são frios, até que esse preconceito se despe, fica nu e envergonhado. Numa linguagem de crônica, meu gênero preferido, com a precisão de jornalista que foi a Rita antes de decidir-se pela advocacia especializada em cidadania portuguesa, este romance navega em águas rasas, no início, e delicadamente vai aos poucos mergulhando nas profundezas de uma paixão inusitada, da personagem principal, jovem, por um veterano, e o fio condutor são as pegadas sefarditas em Portugal, nos Estados Unidos e Brasil, incluindo a densidade amazônica. Inicia pelo desaparecimento de um candelabro judaico do museu da sinagoga de Savannah, no estado norte-americano da Geórgia, quando uma estranha mensagem em português é deixada no seu lugar.


Os segredos das ruas tortuosas de Jerusalém e a dura colonização do sul dos Estados Unidos, a diáspora judaica de Marrocos e as profundezas da Amazónia brasileira, Os Nove Braços do Hanukiah é um romance à volta do extenso legado dos judeus sefarditas, povo expulso de Portugal a certa altura, mas sobretudo o romance é mesmo sobre a preservação da memória, a força do preconceito e o poder do amor.




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