Isto é um país? Que país é Este? Que país é Esse… onde tivemos a sorte de nascer?
- Luís Peazê

- há 3 dias
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Atualizado: há 2 dias

Durante 8 dias (sem contar o trabalho anterior e posterior) fui o field reporter, fixer e outras cosas más do Editor Senior da Vox Media USA, que veio ao Brasil para cobrir o evento de 8 de janeiro, em Brasília, e depois alguns dias no Rio de Janeiro entrevistar personalidades, estudiosos, políticos de carteirinha na validade e sem validade, advogados e pessoas ordinárias, incluindo motoristas de aplicativo, garçons, meninas e meninos na praia, e eu próprio, às vezes ventríloco ao inverso (coisa de louco), intérprete, guia, segurança, e somente vou saber, tudo o que fui, bem mais adiante no tempo. Saravá!
A vontade do jovem Zack, meu chefe na reportagem, deu origem ao nosso título como dupla: PeaZack. Pois, ambiguamente, ele sendo judeu, querendo em 8 dias (pessach?) entender se nós finalmente estaríamos libertados da escravidão, se nossa Democracia finalmente estaria florescendo saudável, ou não, e eu, bem, de P a Z final não sei se somos um país, “que país é este”, se é mesmo o dos versos de Affonso Romano de Santanna, ou é esse da Legião Urbana, porque após todas as entrevistas, mergulho da história antiga e recente do Brasil, vasculhar as gavetas jurídicas, legislativas, constitucionais, de governo em governo do império através das ditas ditaduras e ditas moles, constituintes, presidências, banhados e aterros de partidos, puxadinhos partidários, promiscuidades de siglas e o sambaquatro de instituições mil, incluindo as financeiras degradadas, de associações disso e daquilo à igrejas, religiões e facções distintas, gêneros de toda a sorte, após todo esse escrutínio fiquei com a certeza da minha crônica anterior, de que o Brasil precisa desruptir a corrupção, corrompê-la, já que nos especializamos na coisa, nos apropriamos de um bem cultural de além mar, como o fizemos com o café, futebol, cana-de-açúcar e os cambaus, aí sim eu teria a resposta para o título, e do P em diante não seria a sonora pergunta: - “puta que pariu” isto é um país, que país é este, que país é esse ao qual queremos chegar, nascer, viver e morrer, do qual cada de um nós ainda no útero se pergunta (outra pergunta): - onde é que vou amarrar o meu bode?
Duas curiosidades oportunas: 1) existe um acompanhamento internacional da percepção da corrupção pelos cidadãos, em cada país; 2) segundo essas pesquisas, o Brasil tem um índice baixo de corrupção... Quase me afoguei, engasgado, a garganta entupiu, tossindo muito, desculpa...

Zack Beauchamp publicou e ganhou um prêmio do Instituto Pulitzer o livro “The Reactionary Spirit: How America's Most Insidious Political Tradition Swept the World (O Espírito Reacionário: Como a Tradição Política Mais Insidiosa da América Varreu o Mundo), por “insidiosa” considere: algo traiçoeiro, enganador, que age de forma oculta e gradual, parecendo inofensivo no início, mas causando dano sério e progressivo, como uma doença, ou um comportamento dissimulado que arma ciladas. – É mole?
Como é que vou explicar para o Zack que universidades no Rio de Janeiro, pra não ir muito longe, vão à falência, entram no abandono físico, material, populacional? Como vou explicar que viadutos quilométricos são construídos com inauguração apoteótica, e anos depois vão “parcialmente” abaixo, para a construção de um túnel? Como explicar que a primeira vila de trabalhadores da construção da cidade deu origem espontânea a mais de 1700 vilas precárias semelhantes, sem o zelo civil, humanitário, da administração municipal, hoje com mais de 15 milhões de habitantes essas vilas, aglomerações de moradias e muita lage, com caixas d´água que aquela população mantém cheias comprando de carros-pipas (a história verdadeira e completa é bem pior), a maioria em morros, outras à beira da Baía da Guanabara e espalhadas em zonas afastadas do centro histórico onde foi declarada a independência do Brasil, centro este transformado em vazio existencial metropolitano, que após tantas histórias pra contar apenas abriga uma Gaiola das Loucas (reduto de vereadores) e no ex-buraco do lume (pouca gente sabe o que é, menos ainda sabe a história desse buraco) a sombra daquela mão muda para o alto em bronze gritando: “somos contra o racismo”?
De tanto pensar encontrei um jeito, de dizer ao Zack o que somos, o que é o Brasil, isto é, inventei uma resposta, porque nem Macunaíma acertou amplamente o significado civilizacional do patropi. Daí, após ensaiar várias explicações, cravei: somos uma câmara zoontológica em permanente tensão magnética, oscilação de latências, imensamente irrigada por uma convulsão de fluxos humorais. É isto. Explico o que entendo por zoontológico, humanamente falando (?), é uma visão filosófica, crítica, desconfiada (cética?) da animalidade no contexto antropocêntrico. De modo que o animal homem, a mulher também e todos os demais, na aparência, instinto, olhar, bunda, monte de vênus, tomates (designação ibérica dos testículos), capacidade sensorial, são privilegiados e demandam uma abordagem inter e transdisciplinar de muita filosofia, e principalmente tempo, para compreender. - 8 dias? Hã rã, estamos aqui já fazem 526 anos e ainda não sabemos, Bah, Uai, Oxente, por aí “all over” Zack!
Bem, era um trabalho, de quatro mãos no convés, velejar é preciso, seguimos em frente entrevistando pessoas interessantes, de conteúdo, histórico profissional, conhecimento, de ricas experiências de vida… Em posições super relevantes nas áreas Jurídica, Legislativo Federal, Estadual e Municipal, Consultoria Política, Jornalismo, Estatística, Direito e História, Cultura e, obviamente, muitas pessoas aleatoriamente sem sabermos além do primeiro nome… Mas não vou abordar o que levantamos, trabalho a ser publicado na Vox Media, no entanto posso revelar algumas percepções minhas, que confirmei ouvindo os entrevistados, e posso revelar o que “não”, estranhamente, ouvimos…

Em dado momento encontrei eco numa desconfiança que sempre tive; que o brasileiro é desconfiado. Ao conhecer alguém, primeiro desconfia, despois se afeiçoa, ou não. Como na propaganda do Fernando Pessoa para aquele xarope ruim para a saúde, que vicia a gente, e que ficou famoso: “primeiro a gente estranha, depois entranha”. Aumentei a minha desconfiança também de que o brasileiro não é solidário, mas é afetuoso e isto faz uma grande diferença, no dia a dia. Em grandes catástrofes ou no condomíno onde mora, ele peca. Mas no corpo a corpo, aqui entre nós, beleza, valeu, beijinho pra cá e pra lá, abração, tamu junto! - Um traço bem brasileiro que impressionou o Zack eu posso revelar: brasileiros pobres, na miséria mesmo, que vivem na rua dividindo espaço com resíduos descartados por gente que não mora na rua, portanto sem civilidade alguma, são capazes de brincar, rir, debochar até. Só nesse país mesmo! E dizer que a pauta do Zack foi entender como tem sido, como está e qual seria o prognóstico da Democracia no Brasil.
Somando a Constituição, os limites entre si do Executivo, Legislativo e Judiciário, as fronteiras de responsabilidade do governo federal com os estaduais e destes com os municipais, tudo religiosamente documentado em Leis disso e aquilo com muitos Artigos academicamente bem elaborados, os sotaques políticos, resíduos oligárquicos, as igrejas e sindicatos, times de futebol, os alcances do centrão, os 3% que definirão as próximas eleições, o sabonete da atriz namorada do jogador, somando tudo, continuamos um país do futuro.
Por fim, posso abordar aspectos da profundidade até a estratosfera brasileira que não foram mencionados nas entrevistas que conduzimos:
Duas coisas. Primeiro, não ouvi a Voz do Brasil, ironia, originariamente chamada Hora do Brasil, com 90 anos de idade. A Voz do Brasil me lembra meu avô ouvindo um rádio de quatro válvulas, olhando para o rádio às 7 horas da noite; apoiava um punho fechado num dos joelhos, ficava torcendo o cigarro de palha na boca com a outra mão, fazendo sucessivos esgares com irritação e resmungando. Umas das frases que ele costumava repetir com clareza era: - se eles vierem aqui, eu cago eles a pau!
Vovô era Cambará, mas foi capataz da fazenda do General Zeca Neto (personagem de O Tempo e o Vento, de Érico Verissimo) que era Maragato... Pai era como eu, aprendi com ele, não votava em ninguém; entendia de cavalos, serviu a CPOR no Rio Grande do Sul, e, quando Brizola ameaçou "revolucionar", ele pegou em armas e foi para o Palácio Farroupilha, formar o batalhão de resistência; mas Brizola teve que fugir, vestido de mulher, e meu pai teve que voltar para casa, caminhando 20km, ficou tudo parado, e então nunca mais confiou em ninguém... Décadas mais tarde, na agência de propaganda onde ganhei medalha de ouro, com a Campanha O Dia Tudo Mundo Lê (Jornal), ficavam irritados comigo porque ao me perguntarem se eu era Collor ou Brizola, eu dizia que não era nenhum, eu era Gaúcho!
Meu avô, meu pai, a parentada toda daquela geração havia vivido no interior, plantando, trabalhando duro, criando galinha, porco, ovelha, coelho, abrindo poço artesiano com pá e suor, cuidando da própria vida sem a ajuda oficial do município, estado, governo, e defendendo-se de assaltos de grupos de desgarrados que circulavam erraticamente na região entre a margem norte do Rio Guaíba e a fronteira com o Uruguai. Então, precursora àquela frase “si hay gobierno soy contra”, Vô Enéas dizia: - se eles vierem aqui, eu cago eles a pau – se referindo aos candidatos a cargos políticos, delegados, presidentes e qualquer dono de cangalha.
Ora, a Voz do Brasil fez a cabeça de várias gerações, no mínimo abriu uma brecha por onde entrou o regime mandão, rígido, autoritário; a instituição das aulas de OSPB fez a sua parte também. Uma merda.
Para terminar, não ouvi a palavra mágica que consolidaria a fórmula para a Democracia “quasi-perfeita”: Ouvidoria.
Já pensou como seria perfeita a Democracia “neste país” se esse povo tivesse a noção de Responsabilidade Solidária, no sentido jurídico e humano do termo? E se a Ouvidoria ouvisse de verdade, se a maioria dos cidadãos soubesse que existe uma Ouvidoria municipal, estadual, federal? Fala Brasil! Seria o paraiso; eu votei, aguardei a execução, legislação, práticas, justas às promessas; não ocorrendo o que me foi prometido, bastaria reclamar na Ouvidoria e pronto, chegaríamos ao paraiso. Desse país e seu arcabouço modernoso de arquitetura constitucional, estrutura jurídica e jurisdicional, alinhamento organizacional do excutivo ao legislativo ao judiciário, à segurança e proteção (militares e polícias), e o socorro ao cidadão. Repleto de hospitais e ambulâncias, um sistema de saúde eficiente, o carrocel flexível partidário tentando melhorar ainda mais, os recursos abundantes oriundos da bela carga tributária, o sistema e aparato da educação germinando, florescendo, desabrochando, no escuro da noite enquanto dormimos soa um grito inaudível onde palavra alguma jamais haverá pisado, para concluir com uma frase de Rainer Maria Rilke, na falta de sarcasmo suficiente para responder que país é este…
Que País é Esse - Legião Urbana
Nas favelas, no senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
No Amazonas, no Araguaia-ia-ia
Na Baixada Fluminense
Mato Grosso, Minas Gerais
E no nordeste tudo em paz
Na morte eu descanso
Mas o sangue anda solto
Manchando os papéis
Documentos fiéis
Ao descanso do patrão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Terceiro mundo se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Fonte: Musixmatch
Compositores: Renato Manfredini Junior
Letra de Que País É Este © Edicoes Musicais Tapajos Ltda.
Que País É Este? Affonso Romano de Santanna
1
Uma coisa é um país, outra coisa um ajuntamento.
Uma coisa é um país outra um regimento.
Uma coisa é um país, outra o confinamento.
(...)
há 500 anos caçamos índios e operários,
há 500 anos queimamos árvores e hereges,
há 500 anos estupramos livros e mulheres,
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.
Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é que é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode se sacode.
Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.







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