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Noticia e Informacao contextualizadas
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  • Pe. Gilberto Cunha *

BR116


No cair daquelas tardes eu escolhia os últimos assentos do ônibus para descansar o meu corpo cansado dos treinos intermináveis do nosso time. O veículo haveria de cortar os trinta quilômetros até chegar a minha cidade. Era uma aventura trafegar aquela faixa de asfalto que cortava as cidades e que muitas vezes também cortou vidas. O corpo doído acomodava-se no estofado, uma mistura das cores vermelha e amarela e pela janela eu podia ver parte das cidades que acendiam as suas luzes. Assim, por muito tempo, foram as tardinhas de meus dias.

Meus colegas, muitos deles, moravam às margens da BR 116 e era possível localizá-los pelas diagonais das torres das igrejas, lugares sagrados de cada lugarzinho onde nas décadas de 30 as gentes vindas do interior de abrigavam para trabalharem em Porto Alegre. Durante as viagens eu podia localizar onde moravam meus colegas de futebol. E, passado quase cinquenta anos, ainda tenho hábito de cuidar as torres das igrejas e em cada uma delas a imagem daqueles amigos.

Quando a BR cruzava a ponte do Rio Gravataí, à direita, eu podia ver a torre azulada da igreja São Paulo, Bairro Niterói. Ali, entre as muitas casas, moravam o Jair, o Batista, o Newton e outros. Mas, à esquerda, eu podia ver a torre da Igreja da Conceição, lugar onde morava o Manoel, o Ademir. Mais adiante, na mesma BR, era possível ver a torre da igreja São Luiz, o Centro da Canoas, lugar onde morava o Celso, o Felix e outros mais. À direita, um pouco antes da Pracinha do Avião, havia uma estrada que levava ao Bairro Nossa Senhora das Graças, próximo ao Bairro Barreto, e onde havia o grande time do Oriente. Era um celeiro de meninos bons de bola. Naquele bairro existia uma linda igreja com a sua imponente torre e um padre muito famoso e que tinha o sobrenome de Leão, primo de outro padre Leão, o da Igreja São Luís.

Havia os bairros da esquerda da BR que me pareciam os mais pobres, mas muito ricos em gente. Atrás do Centro havia um Bairro chamado Harmonia, lá também havia um “baita time” e de lá saíram muitos meninos para os grandes clubes, mas, pasmem, não tinha igreja. Mais adiante, Bairro São Luiz, próximo à Refinaria Alberto, havia uma igrejinha com a sua torre em interminável construção. Ali, mais adiante, na mesma Rua da Igreja, havia o time do São Luís do grande lateral esquerdo Mauro que chutava com os dois pés de forma impecável e do grande goleiro Sérgio, cujo pai sonhava-o como substituto do Goleiro Leão na seleção brasileira.

Um pouco mais de tempo entrava em Esteio, terra do inesquecível Lansul, treinado pelo Seu Adão Pereira. Para quem não sabe, talvez tenha em alguma parte da internet a história desse time que foi o primeiro Campeão do Campeonato “Dente de Leite” no ano de 1970, time de Flávio, Antônio, Alcenir, Nino, Eusébio, Castanha, Júlio Cezar e, disseram-me, do grande Claudinho. Um pouco mais e chegava a minha hora de desembarcar e então andava um pouco mais pela Rua Salgado Filho e entrava pelo portãozinho simples daquela casa à Rua Soledade onde havia sempre um prato à beira do fogão para eu matar a minha fome...

Hoje, quando o meu carro desliza solto pelo asfalto da BR 116 eu ainda vejo as torres das igrejas que continuam intactas e que são testemunhas vivas daqueles tempos em que, adolescente, eu sonhava com estádios e torcidas... E, passados todo esse tempo eu guardo vivo em meu coração a imagem de tantos amigos que fizeram parte de minha vida e que, por vezes incontáveis, transitaram pela BR 116...

*Pe. Gilberto Cunha - Padre e Psicólogo

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