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Portugal – Brasil, um mar fadado ao sucesso(r)?


[Publicado originariamente no Jornal da Economia do Mar, Lisboa - Dezembro 5, 2017 ]

“Mais duro e complicado é que eu lhe dê a minha opinião sobre o seu Brasil… e V. menos céptico que Pilatos, exige a verdade, a nua Verdade, sem chauvinismos e sem enfeites… Onde a tenho eu, a Verdade? (…) Só lhe posso comunicar uma impressão de homem que passou e olhou. E a minha impressão é que os brasileiros, desde o Imperador ao trabalhador, andam a desfazer e, portanto, a estragar o Brasil…”

Assim escreveu Eça de Queirós, em sua Carta do Brasil (1888), ele estava em Paris, e, se ele se escondeu no heterônimo coletivo Fradique Mendes, talvez por ser o assunto muito cabeludo, por que eu não poderia começar, me defendendo antecipadamente também, ecoando as suas palavras? Dito isto, eu cravo, o Brasil continua estragado, talvez fadado ao seu sucessor, o Brasil de amanhã, uma vez dito o país do futuro, neste caso tal futuro parece nunca chegar. À deriva, se distanciando cada vez mais de Portugal.

No que tange a Economia do Mar, se é que haja algo que o mar jamais tangencie, tenho a impressão de que cavamos um buraco oceânico entre as nossas culturas, entre o descobridor e o colonizado (índio, caboclo, escravo e degredado), entre o povo independente e o imperador europeu, lusitano. É até possível que, em alguns momentos, falemos a mesma língua sem entender patavina o que um e outro quer dizer.

Do meio do Atlântico, mais precisamente onde as gêmeas correntes marítimas de Santa Helena quase se tocam, numa faixa estreita de águas internacionais fronteiriças às ditas ZEE (Zonas Económica Exclusiva) dos dois países irmãos de sangue, eu contemplo os horizontes, ora aonde o sol nasce, ora aonde o sol se põe, aliás aproveito para lembrar do primeiro romance de Ernest Hemingway de quem sou diletante estudioso. Hemingway, membro do clube da Geração Perdida, fundado por Gertrude Stein, Ezra Pound, Pablo Picasso e F. Fitzgerald, entre outros notáveis que ambicionavam mudar o mundo mas nada faziam de concreto, utilizou dois personagens representando aquela geração, colocou um título em cima e escreveu (1926) O Sol Nasce Sempre, assim dito em Portugal, O Sol Também se Levanta, traduzido no Brasil do original The Sun Also Rises. E aquela geração perdida estava infectada de ironia e por um vazio diante da vida, cujos valores morais, destruídos pela primeira guerra, e talvez por uma demanda reprimida, luxúria pouca era bobagem, valores que poderiam muito bem ser comparados com os de hoje. Ou seja, nada teria mudado. E por que então haveria de mudar entre o Brasil e Portugal, se o mundo todo parece ter embarcado naquele trem com destino incerto?

Identidade Marítima

A comparação é boa. Brasil e Portugal parecem ocupar vagões desse trem paulatinamente colocados para trás a medida que a viagem avança. E continuam apartados, parecendo um casal tímido. Do Brasil, se tem a impressão de que tudo é melhor em Portugal, mas se ouve tanta reclamação de portugueses com o que passa do Algarve ao Porto; um desavisado e precipitado pode pensar que os portugueses não gostam de portugueses. Enquanto ouço em Portugal que o Brasil ainda é visto como uma terra promissora, inesgotável, mas garanto, Eça escreveria a mesma carta hoje, incluiria palavrões e eu repetiria tudo em letras garrafais. Na minha santa ingenuidade prefiro acreditar que, assim como falta ao brasileiro a “mentalidade marítima”, até hoje de costas para o mar, empurrado que foi (pelos portugueses e ingleses) para o interior, ao português carece resgatar a sua “identidade marítima”; trata-se de um tesouro de Portugal, ninguém pode lhe privar desse tesouro a não ser o próprio português. É mesmo um bem instalado na sua alma que deveria refletir nos olhos, e nos atos do dia a dia.

A notícia boa é que não há um buraco entre o Brasil e Portugal. Há mesmo um mar de oportunidades; sem medo de abusar de um trocadilho barato. É claro, é preciso imaginar que os políticos venais e os lobistas imediatistas não existam. Fazendo de conta que isso seja possível, este observador faz um convite: aceitar que atingimos a menarca da era fractal dos processos estocásticos. Tudo é miúdo e complexo, e pode provocar uma ignição aleatória, por exemplo, a partir de um evento aparentemente isolado (dos “memes” aos “hashtags”, das opiniões de grupos minoritários a questões ditas “raciais” ou “religiosas”, que frequentemente não são no íntimo nem uma nem outra, ou de “gênero” que hoje em dia podem ser listados às centenas, para nosso delírio). E, se isso é provável em alguma área, por um silogismo simplório, poderá impactar o todo, mais cedo ou mais tarde.

Sem perder de vista que estamos falando de alto mar, adicione-se aí o conceito de “Responsabilidade Solidária”, na acepção jurídica do termo; por exemplo, numa pendenga litigiosa de questionável avaria grossa onde entre quatro mil contentores há pelo menos cinco partes envolvidas judicialmente e em vários países ao mesmo tempo, sem falar da agressão ao próprio mar? Somemos o conceito de “Ambiente Total” (posto que a definição de “meio” ambiente faliu) desde o usufruto das riquezas inumanas da natureza à ecologia do ser. Ou vamos escolher o reducionismo de pensar o mar isolado de tudo, mar por si só e ponto? A propósito, não são as águas do mar a maior parte da superfície do planeta Terra? Pior ainda, vamos enfiar a cabeça no chão e pensar cada segmento de mercado, cada setor produtivo, cada fatia social, cada país, isoladamente? No caso particular de Portugal, está prestes a possuir mais água de mar do que terra, com a consolidação da sua plataforma continental.

Pausa para um mergulho em pleno mar: num corte transversal curto e seco, até meados do século XX, os fisiocratas viam na terra e nos elementos da natureza a fonte dos valores dos bens, e os clássicos (de Adam Smith a Marx) defendiam que o valor era criado com o trabalho. Então surgiu Schumpeter, não por acaso em plena consolidação do império de Rockfeller, que chegou a refinar 90% de todo o petróleo mundial, pela Standard Oil. Até aqui, os neoclássicos defendiam que o valor se cristalizava nos preços, que por sua vez eram identificados precisamente nas curvas de oferta e demanda, tendendo a se auto equilibrarem. Assim, o valor migra do processo produtivo (nos clássicos), para o mercado (nos neoclássicos). Nada nunca foi por acaso, o mundo passou a girar cada vez mais rápido e Schumpeter vem com a teoria do fluxo circular (ciclos econômicos). E a valorização em função da concorrência, não a concorrência de preços, mas de novas mercadorias, técnicas, fontes de suprimento, excelência. Ele penetra na indústria para constatar que a “inovação” pode criar “valor” e insere outro plano na discussão: o da socialização do progresso técnico, da valorização do processo produtivo no seio das empresas. A cadeia de “valor” é dissecada com amplitude no âmbito do transporte marítimo