Vivemos num oceano de ignorância
Velejar é se soltar numa pipa sobre o mar, minha visão poética, e ingênua, de um jeito de usufruir, manejar e utilizar o ambiente marinho. Com sorte, contribuir para a disseminação do conceito de Responsabilidade Solidária, no sentido jurídico e humano do termo. Mas eu gosto de velejar, e nem todas as pessoas gostam, por ene motivos... E a contextualização aqui é o drama em que insistimos viver, porque a maioria de nós, primeiro, não tem a consciência prática de que estamos todos amarrados uns aos atos e consciência dos outros, segundo porque ainda não alcançamos uma macro consciência coletiva sobre as nossas necessidades mais básicas, por exemplo: - quantos de nós tem a noção de que a cada duas respirações que damos, durante nosso ciclo cicardiano, no famigerado

calendário gregoriano, em nosso convivio íntimo e social cartesiano, repetindo, a cada duas respirações, uma consome oxigênio vindo do Oceano. Sim, o oceano é responsável por 50% do oxigênio da Terra. E 97% das reservas de água do planeta; e representam 99,9% da biosfera — quase tudo o que nos nutre, nosso sustento, está submerso. E a importância do Oceano de longe para aqui...
A imagem que abre este artigo é de uma rede de pesca industrial. Ficou enredada em corais, na Austrália (obtida da Parley For the Oceans) e não representa muito comparada com a realidade trágica: - anualmente, redes de arrasto pesadas raspam uma área do fundo do oceano maior do que o Canadá; ou vários países da Europa, um continente inteiro, interferindo no carbono armazenado no leito marinho, destruindo corais e organismos diversos, dizimando a vida marinha, o início da cadeia alimentar, os "nutrientes" inferidos acima, dos quais dependemos para nos manter vivos.

Velejando pela costa da Austrália, passando pela Grande Barreira de Corais (imagem aqui ao lado), eu conto em "Alvídia, Um Horizonte a Mais" que ancoramos para abastecer e um amontoado de rede no convés de um barco de pesca me chamou a atenção; me pareceu uma árvore gelatinosa, amarelo-ouro e eu não sabia que eram animais, corais negros, cnidários, colônias de pólipos ancorados em esqueletos duros de carbonato de cálcio, parecendo pedra, ou árvore, e os corais que eu vi eram negros, arrastados de uma profundidade onde a luz do sol não alcança, por isso são negros, e raros. Eu não sabia nada disso naquele momento (1995), era totalmente ignorante no assunto, assim como estava aprendendo a velejar e a viver no mar, num veleiro que eu acabara de construir com as próprias mãos, sem nunca ter construído algo parecido, realizava um sonho em franco processo.
Pois o pescador daquele barco, ao perguntá-lo o que era aquilo, me respondeu: — São corais; perdi a rede; se quiser, pegue pra você.
Abaixo um extrato de filme do YouTube onde aparecem dois corais negros que doei ao Museu Oceanográfico de Rio Grande, dois corais que aquele pescador me deu.
O que a narrativa, do jornalismo a todas as demais esferas da sociedade, pode fazer, contribuir?
As redes de arrasto de fundo, pesca comercial, são enormes. As maiores chegam a ter uma largura maior do que a de um campo de futebol (mais de 70m). Sua utilização é absurdamente destruidora do ambiente total: as embarcações de pesca arrastam essas redes lastreadas pelo fundo do mar, até cerca de 400 metros de profundidade. Tudo o que não consegue escapar pelas suas malhas fica preso. Prática de pesca que destrói os próprios ecossistemas que visa explorar — uma única rede pode danificar uma área de até 1550 km quadrados do fundo do oceano, equivalente ao município de São Paulo, em um único dia.
Enquanto isso nos defrontamos com outra problemática criada por nós também, pois nenhum outro animal degrada o seu próprio habitat e vizinhanças como os seres humanos: o problema do "lixo" que é um sintagma sem sentido, mas convencionalmente aceito para resíduos e descartes, embora estes não sejam ordinariamente utilizados, porque não remetem à "coisa que eu não quero", ao contrário nos impõem "trabalho".
Mas as expressões corretas, descarte e resíduos, nos inferem e sugerem comportamento, ações conscientemente de Responsabilidade Solidária e é aqui onde o nosso maior pecado reside.
Se não é útil, descartamos, como uma ponta de cigarro, por exemplo. - Já observou que o fumante estica o braço para descartar a bagana, quando está em via pública; mas ele não joga dentro da sua casa; ele descarta perto do pé e pisa, amassa a bagana, como se estivesse corrigindo um mal feito, ou inconscientemente se comporta como se estivesse evitando um incêndio universal, talvez. Outros exemplos de não fumantes são possíveis também, que revelam nossas insanidades; como por exemplo as pessoas que amam animais de estimação e as levam para a via pública para suas necessidades vitais, e xixi pode fazer em qualquer lugar, só não pode "cagar", algumas recolhem a merda, outras nem tanto... Depois vem os copinhos de pláticos, garrafas de cerveja no parque, saco "de lixo" e por aí afora, literalmente...
Por esta linha de reflexão, eu venho buscando compartilhar, há décadas, a noção de Ambiente Total, em oposição à "metade" ou "via", "meio" ambiente; associada à tentativa de contextualizar sempre, notícias, aprendizagem, e toda a atividade humana.
O que fazer, como proceder, viver?
R.E.P. é a resposta!

REDESENHE o modo de pensar materiais, métodos, sua mente...
EVITE o descarte de plásticos, derivados e poluentes...
PRESERVE o ambiente que ele o/a preservará e a todos nós.
Por fim, não foi apenas poesia a frase lá no início. É que aprendendo a viver no mar, me afeiçoando ao ambiente marinho, consegui, talvez acidentalmente, aceitar o fato de que o ambiente ao redor, quando se está a bordo, impõe uma atenção sóbria e terna, séria e complacente, um certo equilíbrio entre liberdade e vontade com interatividade da dinâmica espacial e temporal. - Complexo? - Você pensa que a vida não é complexa? - No mar, por exemplo, o vento não lhe deve nada e vem e vai de acordo com um sistema sobre o qual não temos a menor capacidade de administrar; as ondas e as demandas físico-químicas, fluídicas, hidrodinâmicas, enfim, impõem a você uma atenção permanente, de modo que, quanto mais você aprende sobre tudo isso, mais você respeita e aceita. O prémio é se alinhar a isso e viver a ponto de explorar a maior preguiça que alguém já pode explorar. - Ah! Que bom! Por isso, velejar é se soltar numa pipa sobre o mar.









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