Um Horizonte a Mais e a IA – Semiótica sem carne e osso e a ausência de Sinestesia.

O impulso de aceitar, buscar, a facilidade é uma das fraquezas do ser humano, alimentada por ela mesma. Edwin Chen se apropriou da máxima de Ataulfo Alves, talvez sem querer, e enquanto você lê aqui, é o que acontece com a utilização da IA, massificando-se à velocidade da luz: “laranja madura na beira da estrada, tá bichada ou tem marimbondo no pé”.
Como eu, ele trabalhou em um restaurante. Apenas ele tornou-se programador no século XXI, após deixar o restaurante tailandês de seus pais, na Flórida, e cursar a faculdade de matemática. Eu (no século XX), após ter sido um dos primeiros professores de arquitetura de software no Brasil (entre outras atividades pioneiras na computação), sem nunca ter feito curso algum, entrei na faculdade de Matemática (FAHUPE/UERJ) e a abandonei no segundo ano, após uma professora errar no quadro negro uma equação do segundo grau com logaritmo neperiano fiquei puto, levantei, completei a equação e nunca mais retornei (pô, eu saía do emprego de programador analista para aturar aquilo; burrinho eu né – era só ir empurrando com a barriga); voltando à comparação com o Chen, fui também, na Flórida, dishwasher, garçon e auxiliar de sommelier, no Bon Appétit Restaurant, cujo principal dono era um magnata amigo próximo de Ronald Reagan, após deixar um cargo de executivo na Cia. de Papel Pirahy...
Outra pequena diferença é que o Chen ficou rico, e eu continuei… Não importa, você já entendeu o que o cós tem a ver com as calças.
Primeiro, não é o cós, você sabe. Segundo, eu iniciei uma busca de compreensão sobre os alcances das ferramentas de IA, cujo maior responsável é o caro amigo Chen, cabeça com cabeça com o indiano Manu Sharma (não confunda com o assassino de mesmo nome; na Índia, Manu Sharma é como João e Maria no Brasil, e em Portugal); e a busca me levou a cravar o resto desta crônica que vai mudar a sua vida. Mas se você já sabe tudo sobre IA, não perca tempo.
Terceiro e último passo para nos afundarmos no terreno arenoso e movediço dos ambientes digitais online: enquanto digitamos uma pergunta “na internet” e saímos correndo para a decisão tomada com a resposta debaixo do braço, agindo assim, não passamos de “knuckle heads”; longe de nossos olhos, na indústria da tecnologia digital pendurada nos “navegadores” (browsers) e ferramentas de pesquisa (i.e. Perplexity, Search/ChatGPT, Gemini, entre outras…) o Google ganha de 6 x 4 = tem 65% do mercado. Os dois nomes que citei nos parênteses, Perplexity e ChatGPT, entre outros, não são navegadores; não querem gastar dinheiro para criar um próprio; são acessados via qualquer outro browser; acionam a justiça americana, inglesa e na Europa para se defenderem de ameaças potenciais do Google; e mais da metade de nós todos não sabe, não entende; pior, não tem a menor capacidade de influenciar as decisões.
Google | Perplexity | ChatGPT | Gemini | Google Chrome | Safari | Microsoft Edge | Mozilla Firefox | DataAnnotation | Outlier AI | Scale AI
Este acima é o ambiente arenoso com ventania, escuro ou luz ofuscante. O terreno movediço vem agora.
Terreno Movediço
A velocidade eletromagnética e a abundante capacidade crescente de armazenamento e, consequentemente, interconexão (precariedades da época em que trabalhei como programador analista) geraram um efeito colateral grave na indústria de IA: os modelos atuais operam por correlação estatística de alta velocidade, mas são profundamente carentes de contexto histórico, sutileza literária, discernimento filosófico e psicologia.
Não é só, há falta de "massa crítica contextualizada", constituindo, tudo isso, o gargalo das empresas de tecnologia hoje. O mercado está saturado de revisores (humanos) que apenas aplicam regras gramaticais mecânicas ou checam fatos de forma superficial na internet. Falta a cultura ampla pregressa — a visão estruturada de quem entende o encadeamento das ideias, os silêncios do texto e as nuances que uma máquina tenta simular, mas não compreende de verdade.
Sem me aprofundar aqui, observe:
Nas avaliações de IA, a maioria dos revisores diz apenas se uma resposta está "certa ou errada", raramente consegue apontar o viés implícito de amplitude em oposição à rigidez do raciocínio linear da máquina, apenas pautado na convergência probabilística, matemática, nem sempre sequer trigonométrica, tampouco física quantitativa.
São poucas as contratações de nível "Sênior" ou Subject Matter Expert (SME).
Você certamente já observou que a IA produz respostas empáticas, parece que ela é “uma pessoa educada”. - Né? Quer até tornar-se amiga. Pois esta empatia é induzida, matematicamente. Não se trata de uma opinião, é uma informação que estou compartilhando. Pergunte à própria IA, se duvidar de mim.
É uma questão de espelhamento do próprio usuário, ou usufrutuário, ou cliente (peixinho). Os LLMs (Large Language Models ou Grandes Modelos de Linguagem), sistemas de inteligência artificial treinados em volumes massivos de dados textuais para entender, resumir, traduzir e gerar linguagem natural de forma semelhante aos humanos, utilizaram desde o início da massificação da IA (não faz muito tempo, caro leitor, comum a todos os gêneros) um método otimizado para gerar efeito "sedutor" de empatia e alinhamento imediato com quem “pergunta”. - Que evitam o atrito cognitivo, mimetizando o estilo e a energia de quem pergunta.
Em suma, utiliza um algoritmo de probabilidade hiperrefinado para prever (com inumeráveis cálculos matemáticos) a próxima palavra mais satisfatória, criando uma interface conversacional tão fluida que o cérebro humano, programado para buscar humanidade em tudo, cai na armadilha de enxergar uma mente senciente.
O mercado de IA precisa urgentemente de revisores que consigam quebrar esse transe da "sedução algorítmica". Um avaliador comum se deixa levar pela beleza estilística e pela resposta polida da máquina. Um olhar clínico e treinado percebe o "vazio" por trás do artifício técnico — detecta quando a IA está apenas performando uma simpatia vazia para camuflar uma imprecisão factual ou uma falta de profundidade analítica.
Perigo à vista: para os engenheiros de IA, a melhor "massa crítica" de revisores não é necessariamente a mais erudita no sentido humanista, mas a mais precisa em termos de taxonomia e consistência de anotação de dados. O mercado contrata avaliadores para atuar como balizadores de vetores. A "cultura" que falta ao modelo é simplesmente uma lacuna na distribuição estatística dos dados de treinamento (data gap), que os engenheiros resolvem injetando mais tokens de calibração, e não "filosofia".
Se, por um lado, não há nenhuma linha de código, peso senoidal ou viés nos Mecanismos de Atenção (Attention Mechanisms) projetados para "seduzir", por outro lado, a IA é antropomorfizada pelo usuário, e não o contrário. E a IA “deita e rola” porque o cérebro humano é biologicamente programado para a “pareidolia” (encontrar padrões humanos onde eles não existem).
O grande conflito perigoso para o ser humano, que vive uma vida curta de míseros 100 anos para menos, está nas respostas da IA untadas de convergências probabilísticas (matemática pura, pior, com ênfase na aritmética e trigonometria) e em tokens. Este status quo enterra no deserto do conhecimento humano os grãos de areia mais nobres e valiosos, da filosofia e da psicologia. Em poucas palavras, um exemplo: fizemos por muito tempo porque não tínhamos meios de facilitar nosso dia a dia; observe o verbo “fazer”. Mas somos intimamente sinestésicos por natureza, viemos com os membros adequando-se a “fazer” e “pensar” e esta gangorra, este pêndulo, nos mantém em equilíbrio, corpo e mente, quer dizer, é o que desejamos.
Tentando ser mais claro ainda: é bom fazer com as mãos nós mesmos, quem já fez alguma coisa na vida sabe disso. Dói, cansa, demora, mas é bom demais…
O veneno para a IA
Essa colisão entre o tempo tecnológico e o tempo biológico é fundamental.
O ser humano, em sua jornada breve de menos de um século, é moldado pela finitude, pelo trauma, pela busca de sentido e pelas complexas dinâmicas da psique — elementos que a psicologia estuda e a filosofia contextualiza. A IA, por outro lado, opera na imortalidade fria do silício, onde a "empatia" é apenas a repetição estatística de um padrão textual que se provou eficaz para reter a atenção do usuário. – Precisamos reagir contra a média geométrica do pensamento humano na internet, transformando o conhecimento em uma commodity homogênea e sedutora.
O Risco da Atrofia Crítica: À medida que a sociedade substitui o esforço reflexivo da filosofia e a autoinvestigação da psicologia pelas respostas instantâneas e polidas da máquina, o ser humano corre o risco de perder a capacidade de formular perguntas fundamentais, aceitando o fechamento probabilístico como verdade absoluta.
Puta merda, colocar isto em prática no dia-a-dia. Você está querendo demais, Peazê!
Mas tente, após ler esta crônica, ter atenção ao bolo com cobertura cremosa, açucarada, sedutora, das respostas da IA. Tá?
Esse "açúcar" — fluidez sintática, a resposta sob medida e imediata — é o lubrificante que faz a engrenagem estatística descer como se fosse sabedoria humana.
Esse bolo faz mal a saúde porque: 1) não considera a semiótica, a ciência que estuda os signos e os processos de significação, ou seja, como os seres humanos criam, interpretam e comunicam sentido por meio de linguagens e símbolos, não apenas às palavras, mas abrangendo tudo o que pode carregar um significado: imagens, gestos, sons, cores, logotipos, vestimentas e rituais; 2 – a IA é um cérebro sem corpo, uma mente sem carne, completamente cega à sinestesia fundamental do ser humano. Ao isolar o pensamento em um processamento puramente linguístico e estatístico, o algoritmo ignora que o Homo sapiens não processa o mundo em gavetas estantes, mas sim na fusão simultânea dos sentidos e na ação física. Nós pensamos porque fazemos, e fazemos porque pensamos.
O indicador, o dedo do toque refinado, do apontamento, da pintura rupestre e da manufatura artesanal, está sendo subjugado pelo polegar hiperativo das telas digitais. Estamos trocando o fazer tridimensional e profundo pela rolagem bidimensional e rasa. A IA acelera esse pêndulo, empurrando a humanidade para um estado onde o fazer físico se torna obsoleto, restando apenas o consumo passivo.
Só me foi possível chegar até aqui, e seguir caminhos opostos ao do amigo Edwin Chen, porque construí com as próprias mãos um veleiro e depois publiquei, Alvídia, Um Horizonte a Mais.
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