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Rui Barbosa Batista: “Sonho que, no fim desta loucura, todos saberemos viver com menos”

Rui Barbosa Batista é jornalista na Agência Lusa, fundador da Associação de Bloggers de Viagem Portugueses e escreve no blogue Bornfreee. Escreve para a Fugas a partir do Porto.



Primeiro, a surpresa. Distante. Afinal, a China parece um outro mundo, uma realidade invulgar. Depois, o início da preocupação: atinge o “meu” Irão e vejo bons amigos em genuína inquietação. Subitamente, rasga o nosso quotidiano, desassossega a nossa liberdade, estamos num estranho filme de ficção…


OPINIÃO CORONAVÍRUS https://www.publico.pt/2020/03/21/fugas/opiniao/rui-barbosa-batista-sonho-fim-loucura-saberemos-viver-menos-1908285


Nápoles e Matera eram sonho antigo a concretizar este Março. Abril seria de regresso à Colômbia e de, finalmente, tirar as Galápagos (Equador) dos sonhos e inscrevê-las nas mais belas experiências de vida. Esfumaram-se ambas num ápice, certamente o mesmo destino dos Jogos Olímpicos Tóquio 2020, o meu grande desafio profissional deste ano.


Desde as primeiras notícias sobre a covid-19, passei pelo México, Guatemala, Arábia Saudita, Tailândia e África do Sul. Ainda não era hora de alarme social. Nem de medidas de combate à pandemia. Imagino que tudo estará bem diferente.


No fim-de-semana cumpri os dois primeiros dias de teletrabalho. Enquanto reparto a secretária com histórias para o meu livro de viagens e difíceis decisões para a IPSS do Porto na qual sou director, em regime de voluntariado, já percebi o principal desafio: manter a sanidade mental. Creio que um trimestre não bastará para respirarmos em paz.


Não desejo “encharcar-me” de filmes e séries na Internet — prescindi de TV em 2010 —, pois acho que este momento merece reflexão. Quando uma existência agitada recebe a dádiva do “tempo”, é bom que este também sirva para pensar. Em nós, nos nossos e nos outros. E, sobretudo, em todos.

A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos”, dizia-nos Marcel Proust. Aproveitemos a sua sabedoria.


O crescente individualismo, o consumismo desenfreado sem consciência ambiental, os valores do humanismo, a galopante empatia pelas “coisas” e não pelos outros...


Há um ano estava em Kutupalong, Bangladesh, no maior campo de refugiados do mundo. São 1,2 milhões de rohingya que fugiram de um genocídio na Birmânia. Vivem acantonados, em condições sub-humanas. O que faz o mundo? Fecha os olhos à sua cruel situação e ajuda a Birmânia a bater sucessivos recordes de receitas de turismo.


Aqui – como em muitos outros lugares onde imperam vergonhosas crises humanitárias – (quase) todos lavamos as mãos, e nada tem a ver com a covid-19. Sou um privilegiado confinado ao conforto de uns 80 m2 de apartamento, tenho a despensa aconchegada. Não penso queixar-me.

Sonho que, no fim desta loucura, todos saberemos viver com menos. Que nos vamos tornar mais conscientes e minimalistas, não só em viagem. Vivemos uma oportunidade de ouro para mostrarmos, enquanto indivíduos e sociedade, o melhor de nós, privilegiando e cuidando do bem comum. É esvaziar egos e, nestes exigentes tempos, fazermos mais do que simplesmente usufruir das tecnologias: sermos cidadãos mais activos, críticos, criativos, voluntários, presentes, empáticos com os outros…


Durante esta apneia social, reflictamos sobre sentimentos. Percebamos quem nos faz verdadeira falta. Não é estranho que a maior prova de amor seja forçarmo-nos a manter a distância física? Anseio, sobretudo, pelo reencontro com os meus pais, cujos legítimos receios de contágio estou a respeitar. Como o “toque” é importante…


Enquanto não recuperarmos uma normalidade que espero mais consciente, vou alimentando os dias com o mais ansiado sonho de viagem, embrenhar-me na mais simples e genuína ruralidade nas soberbas montanhas do Paquistão.


Texto escrito no dia 15 de Março de 2020

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