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Portugal no Brasil - “Vinhos e o pêndulo”: Dirceu Vianna, único Master of Wine de língua portuguesa.

Atualizado: Out 20


Do Vale do Tejo conversei com Dirceu Vianna, em Londres, sobre sua participação singular no evento Vinhos de Portugal 2020, esta 7ª edição inédita com “lives” de provadores e 60 produtores portugueses, realização (São Paulo e Rio de Janeiro) Editora Globo. – Ora bem, é singular a participação do generoso e competente Dirceu Vianna -Vianna Wine Resources tanto quanto o é demonstrar virtualmente pela Internet o inesgotável universo de sabores, texturas e personalidades do vinho; bebida para uns, alimento para outros, e, nas palavras do único Master of Wine de língua portuguesa no mundo, além de ser um “pêndulo histórico”…

“Os vinhos que estamos bebendo hoje são apenas retratos que nos mostram as preferências dos consumidores atuais juntamente com as condições que a natureza nos oferece nesse momento“

Para quem não sabe, um Master Wine é uma qualificação garantida pela vetusta instituição “Institute of Masters of Wine” fundada em 1955 no Reino Unido. E, como todos sabemos, poucos privilegiados chegam perto da Rainha.

Enquanto recebia as respostas de Dirceu, me chegava literalmente pelo mar, a bordo da última edição da Revista de Marinha (Portuguesa) o relato de Reinaldo Delgado sobre centenas de barris de vinhos dos deuses do Porto às praias da Holanda, de um navio naufragado por minas alemãs levando as raridades e sacarias de cebola para a Inglaterra, em plena Guerra. - Calma, isso foi na Segunda, ao final de 1918. O fato é que, assim como o café e o sexo, o vinho mexe com o nosso paladar e a mente há milhares de anos. Mas poucas culturas e tendências humanas comportamentais, como a do café, passaram por camadas seculares de civilizações em constante aperfeiçoamento até o topo; o vinho não para, vai além… Já se ouviu de vinhos portugueses a fermentar clandestinamente sob tumbas em cemitérios, se sabe de exóticos meios de extração e amadurecimento da bebida ao redor de mundo, vinhos de mel, vinhos que não são vinhos, e vinhos nobres que cabem em qualquer bolso.

Eis um resumo do que poderia ter sido um compêndio enciclopédico se, em plena pandemia viajando para falar de vinhos, Dirceu Vianna dispusesse de mais tempo:


Escolhendo os vencedores do IWSC International Wine & Spirit Competition


P&P: O que espera encontrar e, neste caso, o que espera alcançar no evento Vinhos de Portugal?

DV: Esse ano o evento completa sete anos e desde o início foi um grande sucesso. É realmente maravilhoso presenciar produtores frente à frente com os consumidores compartilhando histórias, degustando seus vinhos e desenvolvendo o conhecimento e a paixão por vinhos, principalmente vinhos portugueses pelo qual os brasileiros tem grande afinidade.

Vai ser um desafio fazer com que um evento digital tenha o mesmo efeito de um evento presencial, pois esses dias que passamos no Brasil são realmente mágicos, cheios de energia positiva. Por outro lado, esse ano conseguiremos entrar dentro das casas dos consumidores para contar histórias e compartilhar conhecimento mais tranquilamente. Nesse aspecto acredito que será mais didático e sofisticado. Vai dar a oportunidade para as pessoas ouvirem, aprenderem e poderão revisar as Lives e Masterclasses. Outra vantagem para quem se inscrever nas provas será a oportunidade de ter acesso à várias garrafas por um excelente preço. Uma boa desculpa para reunir a família ou um pequeno grupos de amigos, com as devidas seguranças, para apreciar os vinhos depois das provas.

O aumento do conhecimento do consumidor que participa desses eventos desde o início é palpável. Eu noto isso pelas perguntas durante as minhas apresentações. Espero que em 2021 o evento volte a ser presencial e acredito que as pessoas que participarem do evento online vão obter um crescimento exponencial no seu conhecimento sobre os vinhos Portugueses.

P&P: A propósito, contei mais de 60 produtores portugueses programados para o evento, responsáveis em 2019/2020 por uma produção de 6,5 milhões de hl, segundo o IVV; enquanto a taxa de consumo é de aproximadamente 60 litros per capita/ano, e no Brasil no passa de 390 milhões de litros por ano e 2,3 litros de consumo por cabeça; como relativizar com números e cenários tão distintos?

DV: Nos países europeus sabemos que vinho é alimento, faz parte do nosso dia a dia. De forma geral a europa é um mercado maduro com consumo per capita elevado e o desafio é fazer os consumidores europeus apreciar vinhos de maior qualidade e que se disponham a pagar um pouco mais por uma garrafa de vinho.

O consumo de vinhos no Brasil ainda é muito pequeno. As estatísticas apontam 2,3 litros per capita, mas na verdade se formos considerar vinhos finos, de Vitis vinífera, esse consumo não ultrapassa 0,5 litro.

Ainda existe muito trabalho a ser feito para que o consumidor brasileiro descubra os encantos do vinho, seus aromas, texturas, sabores, histórias e os benefícios que o consumo moderado traz a saúde. Mesmo que os impostos elevem demasiadamente o preço do vinho, que nesse caso é considerado um artigo de luxo e não como alimento, o mercado brasileiro, mesmo assim, representa um grande potencial. A grande vantagem é que Portugal possui vinhos de vários estilos e preços para satisfazer qualquer tipo de consumidor esteja ele onde estiver.

O papel de quem trabalha no setor do vinho é simplificar o tema para não assustar quem estiver disposto a trocar o monotonia de beber a mesma marca de cerveja todo dia e estiver buscando novas experiências, sejam essas culturais, históricas ou hedonísticas.

P&P - Sua experiência fabulosa no universo global dos vinhos inspira longa apreciação de vários ângulos, qual a sua opinião sobre a transição que sabemos houve da cultura vinícola do modo mais tradicional para o atual panorama industrial e de mercado; foi totalmente concluída esta transição ou ainda há "focos de resistência com o mesmo sucesso que havia no passado naquele modo de produzir e consumir vinhos"? Me refiro, por exemplo, ao fato de que até certo tempo atrás não se produzia vinhos em regiões áridas como na Austrália, nordeste do Brasil, lugares semelhantes na África... DV: Os vinhos que estamos bebendo hoje são apenas retratos que nos mostram as preferências dos consumidores atuais juntamente com as condições que a natureza nos oferece nesse momento. Além disso o panorama vinícola muda constantemente devido ao desenvolvimento da ciência que de certa forma nos permite explorar nossas regiões, algumas quentes e áridas, outras regiões mais frias como Suécia, Rússia, Inglaterra, etc.

Desde a antiguidade os locais onde os vinhedos são cultivados e os estilos dos vinhos vêm mudando e continuarão mudando. Talvez seria mais interessante pensar nessa dinâmica como algo em constante transição. São tendências que vem e vão, como um pêndulo. Algumas ficam, muitas desaparecem e algumas dessas acabam retornando. Os estilos de vinhos laranja, vinhos de talha, etc são um bom exemplo disso. É por esse motivo que eu vejo o mundo do vinho como algo em constante transição, infinito, desafiante e fascinante. P&P - Tal como o Café, em que os baristas profissionais e provadores nutrem preferências muitas vezes nem percebidas pelos consumidores finais (que invariavelmente nem sabem consumir Café ou o que pode ser apreciado no Café), o que pode ser feito para aproximar a demanda de qualidade dos experts, degustadores e críticos, do consumidor final de Vinhos?


DV: Primeiro é preciso aceitar que certos consumidores não estão interessados em aprender, mudar hábitos ou ouvir críticos. Estão satisfeitos em comprar vinhos de estilos similares ou até mesmo uma marca especifica dia após dia. Apenas uma pequena proporção da população está realmente interessada em se aprofundar, explorar e aprender. Para esse público existem várias pessoas dispostas a guiá-los e que se dizem experts, mas na verdade poucas realmente são. O desafio para essas pessoas é identificar um expert que elas respeitem, gostem e confiem, e seguir os conselhos e recomendações da mesma forma seguimos críticos de filmes, de livros e de esportes. Em contrapartida esses experts precisam usar terminologia fácil, simplificar e descomplicar o assunto para aproximar os consumidores e guiá-los com naturalidade e simplicidade à boas experiências sempre visando compartilhar estilos de vinho que ofereçam personalidade, qualidade e excelente relação entre custo e benefício.


P&P - Feita uma analogia com o Café, agora com relação ao consumo de Vinho per capita, assim como o índice Livros por cada leitor/ano, é tão difícil incrementar o bom hábito de beber bom vinho (expandir mercados, aumentar a lucratividade, a escala de vendas, etc) quanto é o de aumentar o índice de leitura? Ou o marketing da indústria vinícula não vê problema no grau cognitivo dos seus targets?


DV: É um desafio mudar hábitos e expandir mercados principalmente no setor do vinho pois o marketing da indústria está atrasado em comparação aos outros setores como a indústria automobilística, de perfumes ou até mesmo de produtos destilados. Eu acredito que a situação que estamos vivendo irá resultar em menos produção de vinhos no futuro. A tendência mundial aponta para um consumo menor de vinho, entretanto melhor qualidade. Esse certamente deveria a trajetória de países europeus como Portugal, Franca e Itália onde o consumo per capita já é elevado. Em outros países, como Brasil, China, Rússia, Peru, Polonia, ainda existe grande espaço para desenvolver mercado, o que em si não é difícil. O difícil é fazer as várias partes da cadeia trabalhar em conjunto para o bem comum.


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Vinhos de Portugal 2020 ocorre entres os dias 23 e 25 de Outubro, em São Paulo e Rio de Janeiro, provas presenciais e "live". Realização Editora Globo https://vinhosdeportugal2020.com.br/




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