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Giovanni Ricciardi - o Escritor Corporal e a Topografia do Leitor


Já disseram de tantas formas que ler um livro é viajar e “O Escritor Corporal” de Giovanni Ricciardi provou para mim que as travessias que um livro é capaz de oportunizar ocupam um espaço, como diria Maria Rilke, onde palavra alguma jamais haverá pisado. Chegou-me pelo correio em Vila Franca de Xira, no bairro que foi herdade da única mulher templária de que se tem notícia, Dona Floile, e eu devorei-o várias vezes, apenas com os olhos, sem tempo para folhear página por página, com fome de ler de verdade. Livro tem essa possibilidade, pode ser degustado de várias formas, mais de uma vez, invariavelmente com um sabor diferente. Ao Natal, finalmente, fiz o banquete, comi o presente feito uma criança. Ei-lo:


Giovanni é sociólogo e modesto afirma não sabe escrever, mas pensa, estuda, investiga, lê e relê, conversa com as suas fontes de estudo, e escreve tudo, um luxo. Já pensou, poder perguntar para Sócrates em carne e osso de onde ele tirou aquela ideia de silogismo, ou por que pensar que o ser existe? Giovanni fez algo semelhante com escritores nobres, do Brasil, ouviu pacientemente o ego de cada um, deixou-os expostos por vontade própria para desenhar com a linguagem acadêmica a natureza do ser escritor, de onde vem, para onde vai, porque anda pra lá e pra cá este ente querido que ocupa o topo da pirâmide intelectual, nem sempre com dinheiro no bolso, apesar da necessidade dos editores imporem valor monetário as suas obras. E o “escritor” insiste em dizer que não escreve para ganhar dinheiro, alguns até se ajeitam na cadeira num esboço de desdém à fama. Ao dissecar o corpo-mente de cada escritor, Giovanni constrói esqueletos individuais nus e honestos, sem rigor ao significante e significado, embora navegue discretamente por ali, e conclui que todos são uma coisa só. Escrevem. Cabe a nós lê-los, digo eu.


Com a obra de Giovanni em minhas mãos, em meu colo, em todas as posições em que se pode ler um livro, no sofá, à mesa, no banco do carro, deitado na cama, em pé encostado na parede, esses livros que a gente não consegue largar, retorna a capítulos, passa os olhos à frente transgredindo a ordem dos fatores, foi assim que completei a tarefa que minha necessidade, ou pobreza, de endorfina intelectual me pedia, em meio aos afazeres de ganhar o pão de cada dia. E, nesse exercício diletante, de repente dou uma risada, impagável. Alguém escrevera ter encontrado um anel dentro de um livro antigo, pois eu gostaria de saber – amigo Giovanni – quem esteve naquele Café em Roma no dia em que “O Escritor Corporal” foi despachado pelos Correios para minha morada? Entre a capa e a primeira página veio escondida durante toda a aventura logística, da Itália até Portugal, uma nota de caixa para “3 copertos”. Mistério, dos melhores romances policiais, desses que a curiosidade febril nos leva à última linha num sopro só.


A sociologia dos escritores, classificação acadêmica da literatura para esta obra de Ricciardi, é uma singularidade sem precedente, a ser copiada com outros grupos de autores literários. Giovanni estudou com isenção e pretensões acríticas não o estilo e formas de cada ator investigado, mas suas razões íntimas, ímpetos acidentais do âmago individual ou revelações subconscientes, enfim, a capacidade criadora e o que estimula essa turbina de letras que peregrina pelo mundo nas páginas de um livro. Esse arquetípico objeto do saber.


Prazer ao ler depoimentos de amigos escritores com quem pude desfrutar alguma intimidade, conviver por exemplo num quarto de hotel enquanto participava de eventos, ou mesmo numa mesa de jantar que eu mesmo pude cozinhar, e até de episódios inusitados, ah, esse eu tenho que contar: ter recebido um pijama de presente da Olga Savary *, na noite de lançamento de meu livro “Crônico – a história do gênero crônica”, na Bolivar, em Copacabana; se desculpara por não poder ficar para os drinks e deixando em seu lugar aquele embrulho, o pijama azul; quando abri em casa não acreditei, aliás, acreditei sim, pois em outra oportunidade ela bate a minha porta com outro presente que nunca entendi a razão do horário, 09:00hs da manhã, e da falta de data comemorativa; era um pote de barro decorativo. Acho que o melhor de cada escritor é ser imprevisível. Como o Fausto Wolf * que desculpou-se em sua coluna no jornal – ora, amigo, não precisava – por não ter ido ao meu lançamento à noite, porque tomara um porre à tarde. *Ambos amigos in memoriam.


Daí, sobre o “Escritor Corporal”, em vez de comentá-lo, tive a ideia da “topografia do leitor”. Olhei ao redor personagens do meu dia a dia, personalidades que vou conhecendo, uma a uma, atores socias que sentem-se de alguma forma à vontade no Café Peazê a ponto de confiarem revelações pessoais, reclamações, confissões profundas redundantemente dramáticas como qualquer cena humana é mesmo e de fato. Tudo é um drama em nossas vidas. Como cada um leria aqueles escritores que Giovanni dissecou? - Imaginei, nesta linha, outros grupos de criadores literários, desde aqueles que não alcançaram grande destaque, cada corpo-mente dissecado tão bem por Giovanni Ricciardi em sua mesa de estudo visceral, a la Herófilo e Galeno.


Faço essa analogia com a dissecação de corpos para entender os males que perambularam durante a vida daquele indivíduo, porque a certa altura razões pessoais me obrigaram a descartar livros, e os queimei numa fogueira. Confesso. Virgílio também queimou escritos, Kafka fez igual e Mallarmé, ao pressentir a morte, pediu que queimassem suas obras – ora, estava frustrado por não ter conseguido concluir “A Grande Obra” – e morreu no dia seguinte, asfixiado.


Afinal, como cada tipo de leitor lê, por que o faz, transformou-lhe o que leu? As 1000 palavras dessa crônica mudariam a sua vida? Seria possível, assim, suavizar os contornos do mundo?


Plagiando e adulterando Mallarmé, a vida (de cada um nós) foi feita para acabar num livro.


https://portal.unila.edu.br/noticias/o-escritor-corporal-e-o-novo-lancamento-da-edunila


Sobre Giovanni Ricciardi - aluno de Murilo Mendes e de Luciana Stegagno Picchio na Universidade de Roma, bolsista do Istituto di Sociologia da mesma Universidade, do Instituto de Alta Cultura e da Fundação Gulbenkian de Lisboa, já professor nas Universidades de Bari e de Nápoles-L’Orientale, recebeu, em 1998, o prêmio APCA; em 2007, a Medalha da ABL e, em 2017, o Diploma de Honra ao Mérito da Academia Catarinense de Letras.

Entre seus livros: Sociologia da literatura; Lineamenti di una sociologia della produzione artistica e letteraria; Avanguardia e stabilizzazione della coscienza creatrice; Auto-retratos; Soerio Pereira Gomes: uma biografia literária; Acquerello del Brasile; Antologia della letteratura portoghese (org. com Roberto Barchiesi); Scrittori brasiliani; Biografia e criação literária (entrevistas aos escritores brasileiros) em 7 volumes; Utopia, resistência, perda do centro; A literatura brasileira de 1960 a 1990.

Dados da obra

Ano de publicação: 2021 Autor: Giovanni Ricciardi Idioma: Português Número da edição: 1ª Número de páginas: 266 ISBN: 978-65-86342-03-1 Preço: R$ 21,90

Como adquirir

Os livros podem ser adquiridos na sede da EDUNILA: Bloco 4, Espaço 2, Sala 12 (UNILA PTI) Aos interessados em comprar pela internet, solicita-se que entrem em contato via e-mail editora@unila.edu.br que serão repassadas as informações necessárias sobre o pagamento e a posterior remessa do livro.