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Noticia e Informacao contextualizadas
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  • Foto do escritorLuís Peazê

O que têm em comum o Café de Merda, o Licor de Merda e o teatro francês.

Atualizado: 17 de jul. de 2021



A expressão “Merda” que os artistas de teatro dizem uns para os outros, numa estreia, quer dizer que “desejam boa sorte”, neste caso representada por abundância de merda à frente do teatro. Merda de cavalos, isto é, bosta. Quem conhece New York, que não tem nada a ver com o assunto do título, sabe que bosta de cavalo tem um cheiro forte que pode navegar pelo ar de Midtown, Manhattan, até o Central Park. Há passeios no Central Park para turistas de primeira viagem em charretes puxadas pelos quadrúpedes que deixam suas marcas por onde andam, sem cerimônia. E fede.

Na França, ia-se de charrete ao teatro. Cada charrete desembarcava a malta à frente do teatro, e isso ia acumulando bosta nas imediações. Então, quando havia bastante cheiro de merda, significava que a estreia havia recebido público, muito público.


A relação daquela merda toda com café é curiosa. Em primeiro lugar, o Café, na forma de restaurante, foi um formato de convívio social criado em Paris, por um italiano e até hoje há a briga, inútil, por quem teria inventado o aprazível hábito de sentar-se a uma mesa e conversar com amigos saboreando um cafezinho, após uma bela refeição. A revolução francesa, as melhores ideias de Montesquieu, Voltaire, Lavousier e tantas histórias, de Gertrude Stein, Hemingway e Picasso a Sartre e tantas Madames Bovaris que inspiraram romances eróticos, do Oiapoque ao Chuí, aconteceram neste Café: Le Procope.

Por falar em erotismo, esta semana, na lojinha oPONTO, conversando com o jornalista dono de O MIRANTE, Joaquim Emídio, apaixonado pelo Brasil, ele lembrou de uma entrevista que fizera com a minha amiga querida Olga Savary (in memoriam), especialista em poesia erótica, e ficou intrigado quando lhe contei que ela me deu um pijama de presente, no lançamento de meu livro de crônicas, CRÔNICO - A História do Gênero, na Livraria Bolivar, de Copacabana. Coisas que só acontecem em Copacabana. Aproveito e registro as minhas saudações aos ex-donos, que começaram com bancas de jornais e evoluíram para as Livrarias Letras & Expressões em Ipanema e Leblon, e esta em Copa, todas fechadas pelo efeito merda Brasil. Obrigado Egídio e Rodolfo, mais uma vez e é pouco...

Nesta época em que tudo anda tão veloz para o futuro, lembrar da história pode ser terapêutico. Por exemplo, não é por acaso que o brasão brasileiro tem um ramo de café, e um de fumo. A expressão "é fumo", que quer dizer "é foda" tem tudo a ver... Primeiro foi o ciclo do açúcar, misturado ao do fumo, havia mão de obra gratuita (uma tragédia humana) onde se plantava tudo dava. Então os barões deitavam e rolavam. Mas a terra tinha ouro, e a mesma mão do facão que rastelava o canavial, passou a cavar com pá, de graça, e extrair pedras preciosas, à quase à quase extinção.

Foi aí que um certo português pau mandado do Rei foi ter com um francês na fronteira das Guianas, para discutir uma pendenga de limites geográficos, e jogou um charme para a mulher desse francês, conseguindo no adultério um punhado de sementes do ouro da próxima época. Café. Começou ali o ciclo do que passou a ser a maior exportação do Brasil, e até hoje o Brasil é o maior exportador de café do mundo.


A dimensão da coisa é tão grande que, após a queda da Bolsa de Nova Iorque em 1929, Getúlio Vargas, que daria um tiro na própria boca no seu quarto no Palácio do Catete, mandou queimar, em São Paulo, mais de 70milhões de sacas (de 60kg cada) de café. Daria para suprir o consumo mundial, da época, por três anos. O mesmo raciocínio perverso, naquele combalido e inalienável rico país, ao longo do tempo já destruiu produções inteiras de cebolas (eu vi com os próprios olhos uma montanha de cebola sendo destruída, no litoral do Rio de Janeiro), de leite, soja, trigo, milho, cérebros e gente, ora bem, para conter a queda do preço de mercado. Mas a merda relacionada ao café brasileiro não entra por aí. Entra assim, oh:



No Brasil existe o Café Jacu, raríssimo. É produzido a partir das fezes do jacu, uma ave, que come a polpa, sua digestão produz um processo único de enriquecimento enzimático e é, portanto, nas fezes do bichinho que se encontram os grãos prontos para a torra. Tanto o Café de Jacu, quanto o café das fezes do gato do mato Kopi Luwak, na Sumatra, Indonésia, proporcionam o mais nobre e mais caro café do mundo, o café de merda.

Para não terminar assim essa história, uma curiosidade: o café turco que eu aprendi com meu avô alentejano, dormindo sob um barranco às margens do Rio Camaquã, e fiz muito em pescarias com meu querido pai, acima do Rio Jacuí: ferve-se a água num fogo de chão, ou no fogão à lenha e, para extrair o café, enfia-se um tição incandescente para assentar o pó no fundo do bule, da cambona. Em São Nicolau, no Rio Grande do Sul, minha querência, há o Festival Anual do Café de Cambona. Café é coisa tão séria que, na Turquia, há uma lei de 1475 que permite à mulher pedir divórcio se der merda na relação, isto é, se o marido não lhe der uma certa quantidade de café por dia.


Quanto ao Licor de Merda, do título, trata-se de uma bebida tão saborosa e delicada quanto um beijo na bochecha de uma freira. Conhecida em Portugal, inédita no Brasil apesar do know how do Macunaíma. Luís Nuno Sérgio, de Coimbra “é uma canção, é uma mulher” (a troca da letra é minha), em 1974 quando merda era atirada no ventilador pelos políticos de direita e esquerda, criou a bebida com uma receita única à base de leite caramelado com frutas. Saúde!




AICC - Associação Industrial e Comercial do Café.

Em Portugal é a associação dos torrefactores de café.




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