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Ouro e Pó, a Urna Funerária e uma Brahma bem gelada.


Acima, Bidonville (Favela) nos arredores de Paris (Reportagem El Pais, by MARC BASSETS, foto by ERIC HADJ).

Abaixo, Sra. Elizabeth Alexandra Mary inspeciona armazenamento de ouro (WPAPool/Getty Images). Aproximadamente 600 mil barras de ouro, 7.500 toneladas, em US$ 300 bilhões.


- Foi! Tiraram correndo aquela roupa já encardida e levaram para o casório. Foi. – voz grave, sotaque baiano, a cada frase Sivaldo cunhava o sentido do que dizia com a interjeição “foi”, acentuada. Confirmava, desenhava os últimos riscos do cenário que traduzia tão bem. Um script perfeito de como era a sua vida no interior da Bahia, como ganhava o pão de cada dia em plantações de cacau e milho.


Sivaldo contou-me esta história inusitada: - havia uma única roupa utilizada para ocasiões especiais para o principal personagem, e as ocasiões iam de casamento e batizado a velórios, neste caso, obviamente, o personagem principal era um ente morto, como a Sra. Alexandra, da Inglaterra, ora no mais badalado evento, em que alguém vira pó, da história do ano 2022. A diferença era que o caixão daquele velório, na Bahia, não era de carvalho.


Sivaldo contava sério a história de “time sharing” do fato (terno), e ríamos de não aguentar. Eu, a Helga, o Futuio (seu irmão mais moço) e o Jegue, este chamado assim porque era pequeno e forte, carregava dois sacos de cimento na cabeça, 60kg vezes dois. Seu irmão adquiriu o apelido Futuio porque contara numa roda, bebendo cachaça numa birosca, que havia casado com uma moça que trabalhava na zona do meretrício, e combinara com ela assumir em cartório a paternidade do seu filho de pai desconhecido, para ganharem ajuda do “guvernu”, repetia ele enquanto os bêbados à volta riam às gargalhadas, e ele repetia que era para garantir o “futuio”, futuro financeiro. Futuio morava numa casinha de duas peças, construída por ele, robusta de tijolos e cimento aparentes, duas peças apenas e quarto de banho, muito arrumadinha e era orgulhoso de uma estante construida com restos de madeira, decorada com garrafas de uísque descartadas, de marcas e idades proeminentes; ele as enchera com água de chá preto e amarronzado.

Retornando à história de Sivaldo: - Foi! Tiraram correndo a roupa daquele parente morto lá, e levaram para o meu irmão que ia casar com aquela onça pintada. Foi!


É preciso registrar que bebíamos Ypioca, para mim a melhor cachaça que existia até aquela data, quando ainda a marca cearense não havia sido comprada por uma multinacional inglesa. Era tenuamente amarelinha, tinha um perfume suave de verão, descia na garganta fazendo cosquinhas, subia para a cabeça lentamente, com preguiça buscando as melhores vontades que a gente pode ter, sem pressa e fazendo a gente rir.


Sivaldo contou-nos que tinha um dente de ouro, no lugar daquele buraco – apontando com o dedo sujo de cimento para uma falha de molar. Mas tirou o pedaço de ouro para pagar a entrada no terreno em que construira sua casa. Sivaldo contou-nos que era prática também o “time sharing” de dentes de ouro; um emprestava para outro em ocasiões como namorar, assinar papéis, etc. Conhecemos a casa, muito boa, rigorosamente limpa, arrumada com esmero comovente, espaçosa, já com a estrutura toda pronta, robusta, faltava somente o acabamento, pequena e tinha dois andares, e um desenho muito criativo. Sivaldo ia construindo aos poucos com materiais que ganhava de construções em que trabalhava. Sivaldo fazia tudo e fazia muito bem. Estrutura básica, copro, cobertura, qualquer tipo de telhado ou laje, hidráulica, elétrica, acabamento. Dizer de Sivaldo "Pedreiro de Mão cheia" era pouco. Um gênio, um artista. Sem saber escrever nem ler.


Naquele ano, na Bahia, 2006, Sivaldo nos convidou para visitarmos um amigo que era bem casado com uma antiga trabalhadora também da zona do meretrício mas, ao contrário do Futuio, era muito bem de vida como empreiteiro. Conforme combinado, passamos na casa de Sivaldo e lá estava ele e a família, mulher e filhos, um de colo outro ainda bem novinho. Sua mulher trabalhava num restaurante onde fazia de tudo, embora ganhasse um salário mínimo para apenas uma simples função de faxineira: assava no forno de barro enorme, comida mineira, cozinhava em panelões e também servia as mesas naquele restaurante movimentado do sul da Bahia, sim, e limpava tudo antes de ir para casa. Era magrinha, raquítica, dava pena só por isso. Era a folga dela e lá estavam todos bem arrumados para o passeio de domingo. Sivaldo vestia bermudas, chinelos e um blazer de lã. Disse que vestia aquele casaco só em ocasiões especiais, mas era dele, não emprestava para ninguém. Chegou bebendo cerveja em lata e com uma sacola com munição para a viagem que levaria uns 30 minutos, até a casa de seu amigo, que nos esperava com uma peixada à baiana.

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Chegando lá, após as apresentações, fomos comprar bebidas para o almoço. Eu contribuiria com as cervejas, vinho e refrigerantes. Apenas havia um problema, que descobrimos ao chegarmos no botequim, e tivemos que usar de muita picardia, jeito para sensibilizar o dono do estabelecimento a vender bebidas alcoólicas: porque estava ocorrendo um velório no recinto aos fundos.


- Mas e esses clientes? – me referi baixinho para Sivaldo, meia dúzia de jagunços calados, sentados escondendo sem muita eficácia copinhos de pinga às costas no balcão e nos bancos num canto da parede, naquele boteco escuro, empoeirado.


Com uma discrição digna de espião russo, o proprietário vendeu-me duas dúzias de Brahma (a tradicional), não deveríamos beber muito, e uma garrafa de vinho gaúcho de qualidade duvidosa, mas era o que se podia fazer naquelas circunstâncias.


Um brinde aos meus amigos, um viva todos, Deus salve a todos!

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