pub-1948941825289788

Dia em que o primeiro livro português foi impresso, hoje, em 1487. Não foi bem neste dia, mas…



Em tempos de guerra, inquisição ou distanciamento social, uma boa dica é ler, até que a humanidade retorne ao seu curso, seja para onde for. E nunca foi tão fácil ler. Há quem diga, hoje, que de tanta fartura, lê-se mal, de tudo, aos pedaços, desordenadamente. Afinal, deve aquele velho adágio ser lido ao contrário, “o hábito não faz o monge”? Faz? Enquanto pensemos na resposta folheio as páginas da história da leitura, lembrando o que conversei com o próprio Professor Roger Chartier (2001), investigador francês da história da leitura, sobre o que a leitura provocava no leitor na época da Rosa, a biblioteca inatingível da Idade Média, em que dois noviços seguravam e desenrolavam um longo pergaminho, para o padre superior, de mãos entrelaçadas às costas, ler a coisa caminhando ao longo daquela tira enorme.


Para início de conversa, provocava mais compreensão, tempo para introspecção, espaço para questionamento, porque perguntar, a exemplo do método socrático, é a melhor forma de aprender. Enquanto afirmar é o jeito mais curto de mostrar ignorância.


Voltando à Idade Média, um pouco mais adiante, já fora dela, saiu o primeiro livro em Portugal, era 1487, segundo os historiadores que inclusive discordam entre si sobre a data verdadeira, uns falam em julho, outros em março, mas cravam que foi numa pequena cidade do norte de Portugal e a raridade publicada não foi na língua de Camões, e sim em hebraico, isto, o Torá, ou Pentateuco, os cinco rolos que representam os primeiros livros da Bíblia, escrito por um só vivente, ou cristo, para metade da população da Terra, Moisés o autor.


A história dessa primeira publicação é mesmo uma crônica genuína, em que os cronistas completam as lacunas do que não se sabia e, ao contrário de ficar algo não dito, com o tempo ter-se-á muito o que falar: me refiro ao que dizem as más línguas, que o Pentateuco foi roubado de onde ficava guardado, perto do seu berço original, no Faro.


Somente dez anos à frente, veio o primeiro livro publicado em Portugal em português, antes das primeiras publicações de Camões, Fernando Pessoa e Eça de Queirós. Uns historiadores teimam que o primeiro livro em português, lanhado de tinta pelos primeiros tipos de chumbo, foi o “Sacramental”, outros sapateiam e querem “Constituições que fez o Senhor Dom Diogo de Souza, Bispo do Porto”.

A verdade é que, a partir daí, a cultura lusófona nunca mais parou de descobrir novos mundos, fazer cabeças, de reis a aborígenes, de africanos a asiáticos e macunaimas. Com ou sem acordos ortográficos, passando até pelos desvairados da paulicéia dos anos 30, que dizem “si” em vez de “se” e outras brincadeirinhas linguísticas. Por falar nisso, sabe o Mário?


Embora no website da Sociedade Portuguesa dos Autores eu não encontrei registro da efeméride, pela internet afora há que naquela casa o Dia do Livro Português foi sacramentado. Então foi, e ponto.


Eu, que sou modesto, tenho o meu primeiro livro em português publicado no ano 2000, Alvídia - Um Horizonte a Mais, a dez metros das areias da praia de Ipanema, Casa Laura Alvim cheia, para ver o duplo lançamento, porque a cabresto lancei bravamente “O Primeiro Simpósio do Semblante Nacional”, uma sátira ao jeito do brasileiro votar em seus governantes. Já, o primeiro livro publicado em Portugal “Poesia em Alto Mar & Nós”, foi em 2018. Quer dizer, não foi bem em Portugal, foi a meio caminho, sobre o Atlântico, quando deixei o dedo pressionar fundo na tecla “enter” e liberei a edição impressa e digital em alto estilo, alto porque estava lá nas nuvens voando para Lisboa. Posso assim dizer que o lançamento deste livrinho recebeu centenas de passageiros, e a maioria estava dormindo.


©1997/2020 by Luis Peazê