pub-1948941825289788 Dia do Livro, primeiro vôo cruzando o Atlântico, dia do sonho

Dia do Livro, primeiro vôo cruzando o Atlântico, dia do sonho


Morre Cervantes, morre Shakespeare, daí cravar a data como o Dia do Livro, sem discussão. Apesar de alguns chatos insistirem que o autor do romance moderno, Dom Quixote, morrera um dia antes, morreu não, aliás ele nunca morreu, assim como o inglês. E chama mesmo a atenção da gente a morte, mais do que o nascimento porque não sabemos ainda no que vai dar…


Hoje, por exemplo, nascem crianças e ninguém está preocupado em dar destaque, mas há destaque abundante sobre as mortes por insuficiência respiratória provocada, entre outras destruições no organismo, por um certo vírus que ninguém sabe onde nasceu, como nasceu, porque nasceu. Ainda.


A notícia corre rápido como nunca, trafega à velocidade da luz via satélite, lá no espaço e muito mais rápido ainda no solo dos oceanos, e invade a ignorância da maioria sobre a terra, que repete, reage contra ou a favor, deste ou daquele homem de gravata. As pessoas morrem e as pessoas que ainda estão vivas criam superficialidades tais como um “meme”, nome e coisa insípidos, capaz, contudo, de mover montanhas na ilusão desses ignorantes, egotizados à alta potência. E por que o meme é tão poderoso assim, que, mesmo insignificante é capaz de mobilizar multidões com um gatilho no dedo? - Um click e bummmmm! Morre uma idéia, nascem outras, que morrem e assim sucessivamente.


Porque ler, para alguns, dói. E sem a leitura, das coisas, do entorno, do mundo, cognitiva ou abstrata, mas acima de tudo espontânea, não se desenvolve imaginação própria, genuína, não voamos além de onde nos dizem não podemos voar. Ou como dizia Sartre, ler é completar o que o escritor escreveu. Quer dizer, eu digo ao avesso, o que ele disse foi: literatura é escrever e deixar que o leitor complete o texto, intua a próxima inflexão, sentença, e assim por diante…


Veja só: - reza a história maldita que Santos Dumont, o primeiro a realizar o sonho de voar em torno da Torre Eifel, não acreditava ser possível, à época, a travessia do oceano Atlântico em um monomotor. Mas um português cabeça dura, e sonhador, convidou outro gajo e peitou. Vamos! Foram e deram com os burros n´água várias vezes, aos trancos e solavancos chegaram à antiga colônia, e conseguiram amealhar o feito de terem sido os primeiros a cruzarem aquele marzão voando a motor.


A idéia era celebrar os 100 anos de Independência do Brasil. Sacadura Cabral era o nome do piloto, nascido no dia da morte de Cervantes e de Shakespeare, Dia do Livro, lembra? Registe-se que o navegador convidado dá nome hoje em dia a avenida onde fica da sede da Editora Porto em Lisboa, Gago Coutinho.


Mas a história que eu li do meu jeito, juntando páginas aqui, parágrafos ali, isto é, não necessariamente num só livro, de um só autor, é a seguinte: não houve Independência nada. O Brasil virou um braseiro, mas nunca ficou independente de coisa alguma. O pai do Dom Pedro – personagem alegórico no enredo de carnaval “Digo ao povo que fico” – estava enredado com os Franceses e Ingleses, mais caído para o lado de Shakespeare do que Sartre. Era em torno do ano 1822, ele vivia justamente onde eu vivo agora, Vila Franca de Xira, daí as “franqueadas”, e a palavra “república” andava na boca de muitos como os “memes” caem hoje na boca da maioria, desmiolada. Inteligente, astuto, o pai de Dom Pedro foi para o Brasil, fez de conta que iria ficar com o filho e aquele enorme latifúndio para si, mas quando as coisas tomaram outro rumo, entre Lisboa, Londres e Paris, e gritos de Espanha ficaram mais esganiçados, ele voltou e assumiu Portugal em grande estilo. Isto é, era uma vez uma República lá e cá, que ficou monarquia e logo em seguida tomou cores de república mesmo. E ninguém nunca mais entendeu direito o que de fato aconteceu. Quer dizer, o povo continuou povo e os senhores e oportunistas continuaram mudando de acordo com as circunstâncias.


Deram nome, a uma rua no Rio de Janeiro, de Sacadura Cabral. No bairro Gamboa. Ali a aristocracia republicana flanava e até residia. Quando se ia com burros buscar água no Catete e onde hoje é Botafogo, mais adiante as chácaras de laranjeiras até o que é hoje o Leblon se proliferaram rotuladas de lugar de gente fina. Quando isso se consolidou, a Gamboa deu lugar ao abrigo de soldados que haviam lutado na Guerra de Canudos, no nordeste árido e pobre, e então começou a primeira favela do Rio de Janeiro, ali perto no morro da providência. Hoje são mais de 600 espalhadas pela cidade maravilhosa.


E esta é a história lida “Nas Esquinas do Rio”, “Nas Esquinas de Lisboa”, às margens do Tejo, dedicada ao Dia do Livro, 2020.


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