pub-1948941825289788 Criança & Poesia, muito para aprender com ambas.

Criança & Poesia, muito para aprender com ambas.


21 de março celebramos, ou deveríamos celebrar, o Dia Internacional da Poesia e o Dia Internacional da Criança, uma efeméride ambivalente e ambígua. - Na verdade, quase sinônimos, a criança secular que vive dentro de cada um nós, assim como a poesia que nasce pura e por mais que a desfrutemos ou até a violemos, não param, a verdadeira poesia e criança, de renascer em si mesmas. Enfim, criança, ou rebento, brotos arranjados em versos, com rima ou aparentemente desfigurados em concreto, poesia, não se explica. A criança também. Se acompanha o crescimento. Mas raramente nos damos conta de que com elas podemos e devemos aprender.


Palavra dita, flecha atirada e um beijo na boca, são das poucas coisas que não se pode mais desfazer, assim como o guincho inaudível de flores desabrochando durante a noite chorando orvalho, um mundo onde palavra alguma jamais haverá de pisar… O mérito da poesia, assim como a inocência de uma criança é poder brincar nesta gangorra do incompreensível. Um adulto sequer pararia para entender.


Em tempos de guerra, como a que estamos enfrentando contra um inimigo incomum, nós mesmos, cada um intimamente enquanto um batalhão errático avança sobre nós e parece que vamos perder a qualquer momento; digo novamente, nesse episódio viral que revira o mundo todo, toda a gente, e tudo dentro de nós, a criança e a poesia podem ser alternativas de saídas, alívio.


Dizem os especialistas em pedagogia que a criança começa a aprender poesia antes mesmo de articular a primeira palavra, através dos suspiros que brotam do seio materno, do ninar, das cantigas antigas e pelo repertório de carinhos verbais e onomatopaicos com que se ensaiam os primeiros passos da comunicação com um bebê. Há educadores que defendem que a poesia não deveria ser ensinada ao lado da língua, da alfabetização, das aulas de gramática muito menos, e eu concordo. Poesia é uma energia que se expande a partir inclusive e frequentemente de vernáculos que exprimem nem subjetividades nem substantivos, antes disso movimentos ou imagens cristalizadas como mancha de sangue em pedra de mármore, com a leveza de uma chuva de pólen. Ora, se até do silêncio total, que não existe, se pode fazer poesia, como aprisioná-la na sintaxe e na semântica, medi-la com uma régua gramatical?


Poesia não enche barriga, já ouvi isso muitas vezes. Você é uma (eterna) criança, também já ouvi. Para os tombos das crianças e dos poetas Deus põe a mão por baixo. Não ouvi bem assim, mas sou eu quem o diz deste modo. Por isso uma das lições que a poesia poderia nos dar, nesse momento, é a de tentarmos ler nos silêncios do texto, dos textos. Não engolir de qualquer jeito, esperar um pouco, temperar, sorver devagarinho o bolo alimentar que brinca de gato e rato nas páginas do jornal, e não simplesmente aceitar tudo como um ponto final. Tenho fome, e me sinto triste quando perco a criança dentro de mim. Ela deve estar a flor da pele, ela precisa levar as mãos sujinhas à boca, para ouvir da doçura dos lábios da mãe: - venha cá, meu anjinho da mamãe, lavar essas preciosas mãozinhas.

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Luís Peazê é jornalista, escritor e tradutor (Por Quem os Sinos Dobram de Ernest Hemingway)



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