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Colóquio/Letras Fundação Gulbenkian Querida Cidade de Antônio Torres

Atualizado: 18 de ago. de 2023


Resenha por Godofredo de Oliveira Neto*

ColoquioLetras 213 - Maio/Agosto 2023

QUERIDA CIDADE de Antônio Torres, membro da Academia Brasileira de Letras


* Godofredo de Oliveira Neto é Membro Titular da cadeira "Barão do Rio Branco" da Academia Carioca de Letras, membro do PEN Clube do Brasil, da Academia Europeia de Ciências, Letras e Artes (Embaixador para a América Latina) e do Conselho de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Entre outras condecorações, recebeu a Medalha Euclides da Cunha da Academia Brasileira de Letras e a Medalha Cruz e Sousa do Estado de Santa Catarina. Em 2018, foi eleito membro da Academia Catarinense de Letras para ocupar a cadeira 10, cujo patrono é Francisco Antônio Castorino de Farias. Dirigiu o departamento de Ensino Superior do Ministério da Educação do Brasil (MEC) entre 2002 e 2005 e foi pró-reitor da UFRJ entre 1990 e 1994 -- mais adiante sua bibliografia.


O título Querida Cidade, belo e enigmático paratexto que provoca curiosidade no leitor e, desse fato, o faz mergulhar no mundo da ficção, aponta a conhecida habilidade de Antônio Torres no mundo romanesco. Lembremo-nos de um outro título seu, Meu Querido Canibal. O fio condutor da obra é a formação de um menino, tal jovem Ulisses do Brasil profundo, que sabe que vencerá estradas, rodoviárias, poeira, montes e vales se lograr terminar os estudos regulamentares. A referência à educação guia a carreira de Torres.

Educação e arte salvarão o Brasil. A carreira do menino é a metonímia dessa assertiva. Esse traço memorialístico, que nada tem de autoficção na acepção que a teoria da literatura dá a esse termo, é bom que se precise, nos transporta para mundos — tal o Sertão é o mundo do Guimarães Rosa —

no fundo por todos sobejamente conhecidos. São os obstáculos da condição humana. Mundo sedutor e atemorizador. Os percalços do rapaz criam forte tensão no decorrer da leitura e a partir daí saem

realçadas frases lapidares, vocabulário concreto em formidáveis sinestesias plasmadas e resumidas na frase «Uma pintura é música que se pode ver e uma música é pintura que se pode ouvir» (342).


O enredo lê-se como uma metáfora detalhada de um Brasil que tenta acertar mas que jamais consegue êxito nessa empreitada. Os anos de Juscelino Kubitschek são citados com exuberância. Todo romance é romance das origens. A referência aqui à reflexão de Marthe Robert e o seu Romance das Origens, e Origens do Romance ajuda, por certo, na leitura desse extraordinário livro de Antônio Torres:

«Mamãe, como dizer-lhe que iria voltar para casa, tendo numa das mãos a mesma maleta encardida com que saíra havia quatro anos, e na outra um livro intitulado As dores do mundo?»

Antônio Torres - Academia Brasileira de Letras

A infância do narrador vem descrita com todas as letras como a gênese do adulto. São as experiências juvenis que decidem gostos, desejos e paixões. É imprescindível, entretanto, não entender Querida Cidade como uma biografia de infância. Não é a eventual semelhança entre o personagem e o autor que deve ser levada em consideração, mas o ato pelo qual o autor assume de forma explícita a identidade entre ele e o seu narrador, pensando aqui em Lejeune no seu livro O Pacto Autobiográfico. A dupla liberdade do autor e do leitor matizam essa interpretação. O narrador de Querida Cidade trabalha com a ambiguidade, o que faz crescer o texto e comprova o domínio da técnica romanesca de Antônio Torres. É que, mesmo que a história remeta a uma infância realmente vivida, este tipo de narrativa propõe uma infância inevitavelmente imaginária. Claro, se o autor tem fantasmas, o leitor também os tem, e muitos. O menino de dez anos, que sai de casa na década de 1950 e vai morar com um tio, perderá o apoio financeiro após o desaparecimento deste. Na estação de trem, a tia e o menino aguardam a volta do tio, mas o trem de ferro fumacento, violento e barulhento tem as suas idiossincrasias. O tio não voltará, foi-se para onde? E para desolação e amargura do menino, sabe-se depois que o tio não era aquela figura honesta idealizada pelo jovem. Bem ao contrário.


O recurso à filosofia de Schopenhauer — «Um título despertou-lhe a atenção: As dores do mundo [...] Quem sabe aquele tal de Arthur Schopenhauer viria a ser o oráculo de que precisava para o entendimento de suas circunstâncias?» (71) — desvela o escritor latente que, mais tarde, já não «saberia dizer se todas as suas situações eram reais ou as teria lido em algum lugar» (72). O mundo em volta do menino crescido pode desabar junto com ele. O menino grande será um escritor reconhecido. Mas a suposta vitória é constantemente ameaçada. Demissões no emprego — «cabeças vão rolar» (364) —, desilusões. O escritor está integrado na sociedade mas essa sociedade é regida por outros valores, o lucro financeiro.


O artista não pode virar as costas à vida, mas as dificuldades impedem a plenitude e a felicidade. O relacionamento amoroso também desmorona, amor sinónimo de desamor, traição, ciúmes, chagrind’amour, para citar um pensamento próximo de Schopenhauer — «Adultério — Quem lhe garantia que a sua mulher também não estivesse trilhando por caminhos clandestinos? Vai ver, para vingar-se dele, empatando o jogo» (392).


Antônio Torres, grande leitor de Machado de Assis, sabe que um real maravilhoso esperado não existe, que as versões de cada querelante e fofoqueiro dominam o mundo. Como sobreviver eticamente nessa selva? Na página 418 vem citada a famosa passagem da cena final de Os

Sertões, de Euclides da Cunha. Cinco mil soldados, fuzis em punho, prontos a cuspir fogo em quatro revoltosos de Canudos, um velho, dois homens feridos e uma criança. É essa a justiça de Deus aprendida no Sertão, ou a justiça dos homens, que o Ulisses sertanejo, antes de tudo um forte, esperava? Essa perversidade, esse massacre? Ao vencedor as batatas, penso no nosso genial Machado. Não bastara esses desalentos, vem a saúde. Rotina de consultas e exames médicos.

Proibição do cigarro e do álcool — «o seu desemprego acabou sendo mais suportável do que a abstinência tabagista e alcoólica» (401).


Essa irrupção da barbárie, lembro os ensinamentos de Lukács, opõe o esforço pessoal ao plano coletivo. E aos desígnios da natureza. A fragilidade da ética e da ideologia familiar lá de trás do escritor empurra o narrador para um eu-ideal que não existirá. Não há, de fato, como existir plenamente num mundo que não está ao alcance transformador vivido pelo menino no seu ex-universo. Agora o espaço de atuação transformadora é mínimo, talvez nenhum. Já o sabíamos desde a página 194 — «Definitivamente a cidade ainda não o curara do terror provocado pelo bárbaro festim dos mortos na sua infância algo selvagem».


O recurso a escritores, músicos, artistas de todas as épocas, letras de músicas conhecidas, fartamente elencados no decorrer do texto, imploram a ajuda vital para a sobrevivência do menino adulto e suavizam a citada leitura sinestésica e permitem ao leitor uma respirada. Mas é difícil.


Aliás, as pitadas de humor também abrem espaço durante a leitura para boas risadas, é verdade.

As lembranças do pai o acompanham na vida e na arte literária. «E assim ele se ia, quer dizer, se foi, ou se teria ido. Não de cidade em cidade atrás do filho que à luz de um candeeiro lhe havia lido aquele poema, mas a caminho de Deus, com quem queria fumar o charuto da paz...».


A referência paterna não podia faltar nesse belíssimo romance. Barthes fala no seu Prazer do Texto que sem a figura do pai não haveria prazer na literatura. O narrador traveste o vivido através da arte. Mas lá nas profundezas do seu eu descansa, aparentemente adormecido, o passado, que desperta, ameaçador, ao menor ruído da memória. Com a Querida Cidade, Antônio Torres nos tensiona, nos ensina, nos mostra, nos empurra para o abismo? Não, ufa. A última frase do livro nos sossega:


«Entre sonhos e sustos, sobrevivemos.» A arte ganha sempre.

Godofredo de Oliveria Neto - Academia Brasileira de Letras

Godofredo de Oliveira Neto, suas Obras:

  • Faina de Jurema (1981)

  • O nome e o verbo na construção de São Bernardo (1988)

  • A ficção na realidade em São Bernardo (1990)

  • O bruxo do contestado : romance (1996)

  • Pedaço de Santo (1997)

  • Oleg e os clones (1999)

  • Marcelino Nanmbrá: o Manumisso (2000)

  • Ana e a margem do rio: confissões de uma jovem Nauá (2002)

  • Libertinagem & estrela da manhã (2006)

  • Marcelino (2008)

  • Cruz e Sousa: o poeta alforriado (2010)

  • Amores exilados: romance (2011)

  • Secchin : uma vida em letras (2013)

  • Ilusão e mentira : as histórias de Adamastor e de Lalinha (2014)

  • Falando com estranhos: o estrangeiro e a literatura brasileira (2016)

  • Grito (2016)

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