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Noticia e Informacao contextualizadas
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A Flor da Selva, o neorrealismo Portugal - Brasil, lirismo e Café

Atualizado: 18 de ago. de 2023


Após comer um Bolo Rei, prenda de seu tio que acabara de regressar de Petrópolis, Rio de Janeiro, onde viveu o filho do Rei de Portugal, a Princesa Isabel e este modesto observador, o miúdo Manuel Monteiro, pai do atual sócio-gerente da torrefação A Flor da Selva, Jorge Monteiro, decidiu sair de Melgaço, extremo norte de Portugal e ir para Lisboa, conferir se tudo lá era mesmo tão bom quanto aquele bolo.

Era por volta de 1937, quando Manuel radicou-se em Lisboa a trabalhar como aprendiz em mercearias; tornou-se sócio em um negócio e, em 1950, empreendeu solo o que é até hoje, e na mesma morada, com o mesmo torrefador alemão Probat, ainda à lenha, A Flor da Selva, onde esta semana o Café Peazê recebeu um lote especial das mãos do Francisco Monteiro, barista de coração, que embora formado nos melhores cursos do ramo, obteve esta aprendizagem única em berço tão singular na cultura do café, herdeiro desta história digna de um filme…

Retornando ao miúdo Manuel Monteiro, vale registar que seu tio Manuel San Payo, quem lhe dera aquele Bolo Rei, foi um fotógrafo famoso da época do Estado Novo e que, ao emigrar para o Brasil com 19 anos, formou-se no Liceu de Artes e Ofícios e na Escola Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro) e aventurou-se também nos primórdios do cinema, tendo no currículo títulos tais como A Cabana do Pai Tomás, além de exposições mundo afora… Retornando a Portugal foi o “retratista” de personalidades famosas, incluindo a real família Orléans e Bragança.


Da mesma forma que poucos se dão conta da trajetória espetacular que o grão de café faz desde a planta cafeeira, as várias etapas do plantio, cuidado meticuloso que demanda para cada terroir, colheita igualmente delicada, os tipos de cerejas, e vai aumentado a demanda por técnicas milenares e cada vez mais sofisticadas sem abandonar as exigências de seus primórdios, passando com igual rigor pela maturação dos grãos até a torrefação, não menos exigente na moagem e extração segundos antes de cair no copinho que alcança nossos lábios, língua, paladar e alma, pouca gente sabe que, na Travessa do Pasteleiro n0. 40 há monumental esmero e resistência para preservar a tradição e a qualidade do café oferecido aos clientes ao pé da porta, literalmente.

Tive a sorte, divina, de ser guiado por um comerciante altruísta, não raro encontrado em Portugal, embora não raro também sejam os que não preservam este bem imaterial do relacionamento humano, obtive recomendações que pesquisa de mercado nenhuma consegue de modo tão confiável. Entre elas, marcas e fornecedores selecionados em décadas de experiência, o nome A Flor da Selva.


Foi em 2020, quando fui a pela primeira vez visitar o Sr. Jorge Monteiro que havia atendido meu telefonema com uma simpatia e paciência incomum, solidariedade. Eu dizia ao Sr. Jorge Monteiro que estava para abrir meu sonho de Café Peazê, no âmbito de um conceito de loja física e online oPONTO

para oferecer a um público particular produtos Regionais & Tradicionais. Ouviu-me com paciência e, no minuto seguinte, já desejava que meu projeto tivesse sucesso. Dois meses após eu lhe visitava e conhecia o Francisco Monteiro que as imagens deste texto exibem sua apresentação de barista memorável.


Levei-lhe uma amostra de um kg de café do Brasil, que ganhei das mãos de Hellison Afonso, da Família Afonso, Cristina, Minas Gerais, Prêmio Cup of Excellence em vários anos com notas acima de 94 pontos. Então o Francisco torrou, moeu e serviu ali, diante de meus olhos, extraído numa moderna Fiamma, a “bica” perfeita. -Claro, moído assim no mesmo ato da torra e, como a amostra havia viajado do Brasil para Portugal, permanecido em meu veleiro por ano e meio, sofrido “um tanto”, não esperávamos que desnudado seu véu revelasse um prazer inenarrável, embora tenha surpreendido pelo aroma e aparência dos grãos torrados na minúscula Hander alemã…

Véu de noiva, é em que se transforma uma plantação de café na floração daí expectativa de sabor quando se toma um café, talvez…


Se eu comecei com um respeitado Brazzi, do especialista Nuno Roma, agora passo a ter também um lote especial Café Peazê moído a cada dosagem num moinho vintage, italiano Quick, de 1960, e oferecido também em grãos ou em pó em simpáticos saquinhos pardos de 200 gramas: A Flor da Selva.


Quanto ao neorrealismo do título, retornemos ao tio do pai do Sr. Jorge Monteiro. Não bastasse ser um fotógrafo famoso, seu filho, portanto primo de Manuel Monteiro, foi o criador da primeira versão da marca A Flor da Selva, uma imagem africana que, mais tarde, evoluiu para apenas ramos de café, atual logomarca. Muito lirismo, caro leitor, muito.


Pois aquele português de Melgaço, Manuel San Payo, que deu aquele Bolo Rei ao Manuel Monteiro, enquanto no Brasil casou-se lá e teve filhos, entre eles o laureado pintor português Nuno San-Payo, nascido em Petrópolis, 1926.

Nuno San-Payo faleceu com 88 anos enquanto entre 2013 e 2014 ocorria em Vila Franca de Xira, no Museu do Neorealismo Alves Redol, uma exposição exclusiva de sua obra. Em 2020 as herdeiras de Lídia San Payo, irmã do pintor, doaram definitivamente, para este museu único do mundo, uma pintura mural encontrada numa parede interior de um imóvel da família, que ia ser vendido…


O mural, pintura a seco sobre reboco tradicional assinada pelo pintor Nuno San-Payo, data de 1955, com as dimensões de 1,87m X 0,70m foi avaliada em vinte mil euros.



  • Conversar com Francisco Monteiro sobre café é ter uma aula completa sobre a escolha de grãos verdes, a torra nos seus vários padrões, para o tipo de extração, seja cafeteira doméstica, francesa, italiana ou expresso em máquinas tradicionais e automáticas.


  • Trouxemos em nossa carrinha oPONTO um lote arábica de grãos do Brasil, e um lote recém chegado de Angola, Amboim, robusta portanto, e mais uma boa quantidade do blend Magnólia, o "café da casa" Flor da Selva, já moído para servir aos clientes do Bom Retiro, em Vila Franca de Xira. A carrinha e a loja ficaram perfumadas, e poucos aromas mais sedutores do que um cheirinho de café novinho...








2 Comments


Unknown member
Aug 14, 2021

"Véu de noiva, é em que se transforma uma plantação de café na floração" uma boa visão para quem como eu ainda não teve a oportunidade de admirar uma plantação por essa época...

Obrigado Luís pelo pedacito de história, ainda com a vantagem do relacionamento de alguns dos factos com Vila Franca de Xira.


vizinho Tó

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Luís Peazê
Luís Peazê
Aug 14, 2021
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Obrigado Tó Vizinho, é mesmo linda, mas há em VFX no Parque Luis César Pereira uma planta que lembra a florada do café e parece que está nesta fase por esta época :-)

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