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Jornalismo? Nas Esquinas de Lisboa


Em primeiro lugar, a ideia deveria ser o jornalista não sabe nada, por isso pergunta, investiga, confere a informação, por fim pede dinheiro para trabalhar mas não vende a notícia nem se for para a própria mãe. Errado, caro aluno, digo leitor, ou melhor, senhores debatedores do evento no Centro Cultural de Belém SETE VIDAS SETE DEBATES O FUTURO DO JORNALISMO. – O quê? Sete vidas? Li direito? Sete debates? Santo Deus! Quanta pompa para discutir se o Jornalismo é ou não é um negócio, se está bem das pernas ou não, se diz a verdade ou apenas meias verdades?

Alguém disse que primeiro foi o verbo, não é? Neste sentido o jornalismo deveria ser uma ação, com o sujeito antes e vários predicados depois, inclusive no outro dia, a continuidade da notícia, matéria prima do jornal. E jornal, neste caso como a etimologia nos lembra, é o diário. A santa crônica, com origem no Cristianismo. Para delírio geral, um dia eu acordei e resolvi contar para o mundo A Origem do Gênero Crônica, até então ninguém havia contado, isto é, reportado, investigado, entrevistado uma massa representativa de especialistas e foi assim que nasceu o Crônico, meu livrinho de cabeceira. Recomendo clicar aqui e comprá-lo já, prometo que após “estranhá-lo, o entranhará” para sempre, obrigado Pessoa.

Crônica e jornalismo são indissociáveis, meus caros, mas eu tenho uma definição própria que distingue a crônica do jornalismo puro. No texto jornalístico, o jornalista entra na oficina com um serrote e um martelo em cada mão, e só. Na crônica, ele se abastece de inúmeras ferramentas, pode até nem utilizá-las mas elas estão ali, se a pressa não for muito grande ele utiliza... Um graminho, uma suta, um formão, uma serrinha menor, um esquadro, a trena, e não raramente a sua colher de pau.

No século XVIII o índice de literatice era tão baixo (eu sei, hoje é pior) nas populações dos grandes

centros, leia-se Londres, Paris, Lisboa, Milão e Viena, para citar alguns, eram poucos, que escritores eram contratados para escrever para os periódicos da época. Os folhetins, as gazetas, os matutinos e vespertinos, desde que ainda não havia sido inventado o espaço virtual online em tempo real. Pensava-se, perguntava-se, datilografava-se, levava-se para uma tipografia, montava-se letra por letra cada frase em chumbo e, após mais meia dúzia de operações, imprimia-se o dito cujo jornal. Daí em diante era fácil, bastava-se carregar fardos destes troços em caminhões e atirá-los em cada esquina, para as pessoas comprarem e lerem sentadas num café. Havia gente viciada naquele cheiro de tinta, tal era a instantaneidade da notícia fresca, e ela durava semanas, meses até, as pessoas a consumiam aos poucos, dividiam pedaços entre si, misturavam elas mesmas e promoviam verdadeiros banquetes gastrônimicos, se empanturrando. Acredite, muita coisa era mentira, ou invenção, nas entrelinhas que é onde mora o perigo. Hoje, quem diria, as notícias já nascem quase mortas, nos alimentamos de produto industrializado, sem medo de abusar da metáfora, a notícia atualmente é uma droga, ou uma piada de mau gosto.

E, quando algo vai mal entre os homens de boa vontade, o primeiro impulso é buscar o responsável. Sobre o jornalismo é fácil. O culpado é o jornalista e ponto.

Poderia não sê-lo, se no início deste século ele tivesse aprendido a usar um palavrão chamado metadado, alguns mais inteligentezinhos poderiam ter aprendido a escrever algumas linhas em html e bummmmmm, não haveria essa histeria do medo das mídias sociais. Sugiro as primeiras linhas deste parágrafo para debate.

Tendo ultrapassado o espaço de quinhentas palavras, meu limite para uma crônica diária ao tempo de beber um expresso, penso ter perseguido os seis mandamentos de Calvino: leveza (falhei), rapidez (fui bem, escrevi em 15 minutos), visibilidade e consistência (só os críticos poderão dizer), e esqueci, não por acaso, da exatidão e da multiplicidade.

Por fim, deixo isto: Freud escandalizou um grupo de senhoras numa palestra, ao afirmar que “o animal racional se diferenciou do animal irracional quando passou a ofender intelectualmente o seu semelhante”, e deu exemplos in loco. A frase de Freud é verdadeira, exceto a invenção deste cronista de que ele a pronunciara diante de uma platéia escandalizando as senhoras. Cuidado, nem tudo o que se escreve, e imprime, é verdade. Na Internet, este risco é o ar que se respira.

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