Após lançar a campanha pela tarifa
especial reduzida de envio de livros pelos Correios fui questionado de diversas
maneiras. A pergunta mais interessante que me fizeram, pessoas de diferentes classes
sociais e profissão, foi esta: TARIFA LIVRO, o que é isso? Embora, curiosamente, pessoas
entenderam de imediato, daí as centenas de adesões diárias.
A Sra. Vera, atendendo meu telefone para o Professor Eduardo Portella, interrompeu a
mensagem que eu deixava em sua secretária eletrônica e foi logo dizendo "isso me
interessa". Fiquei animado. Mas entabulamos conversa e logo percebi que a Sra. Vera
se referia ao preço do livro. Ela lembrou que o preço do papel era um influenciador
determinante, sobrepusemos nossas vozes na tentativa de nos fazer entender e, quando eu
ouvi-a dizer "mas como vai fazer isso? não pode ter um preço padrão para o
livro", aí eu não tive dúvida que deveria recomeçar do início e esclarecer a
TARIFA LIVRO, o que é isso.
Exemplos desse mal entendido, notadamente culpa minha, é lógico, não me faltam.
O caso da Advogada especializada em Direito Autoral e Agente Literária Marisa Gandelman
é um indicador da incompreensão, ou indiferença à TARIFA LIVRO, o que dá no mesmo. Ao ser consultada por mim sobre a sua
adesão à TARIFA LIVRO, no
lançamento de um de seus clientes o escritor Antonio Torres , ela apontou
para a lombada de um livro na prateleira da Livraria Letras & Expressões, no Leblon
(RJ), e disse: - É, mas como o atendente dos Correios irá discernir sobre o que é um
livro brasileiro? Eu acabara de introduzir a ela o resumo da campanha pela TARIFA LIVRO, citando com ênfase o
texto da Lei do Livro em que assinala "estabelecer tarifa, especial, reduzida para o
envio de livro brasileiro", ponto.
Tem algum fundo de pertinência, a questão levantada pela advogada. Mas e aí, morreu
Neves, ela não me disse por que NÃO aderiu à campanha, e não demonstrou interesse em
saber como poderia aderir. Em suma, enviar livros pelos Correios, para ela, não deve ser
problema, ou não deve ser caro, ou sei lá o quê deu na Marisa para ignorar a campanha.
Um caso que me intrigou bastante foi com a Professora Dra. Tânia Rösing. Quem não sabe,
ou não lembra, ela idealizou há 22 dois anos as hoje famosas Jornadas Nacionais
Literárias, que acontecem em Passo Fundo, RS, a cada ano ímpar. Quando soube desse
evento eu morava na Califórnia, em 1998, e lendo pela Internet as notícias eu disse para
mim mesmo, este é o maior show de literatura do planeta. Até hoje eu ainda acho que é.
Um espetáculo em prol da leitura, do livro, do hábito de ler. Não estou sozinho nesta
impressão, pois há quem diga que "se você ainda não foi às Jornadas Literárias
de Passo Fundo, ainda não entrou na literatura brasileira". Por tudo isso, e pelo
fato de a Professora Dra. Tânia Rösing ter um de seus livros com o título
"Repensando a Leitura", fiquei intrigado com o fato dela não ter entendido a
campanha TARIFA LIVRO. Ora,
telefonei-lhe para Passo Fundo, expliquei a campanha. Enviei-lhe o mesmo e-mail que
continuo enviando para todas as pessoas. Respondi sua réplica "Peazê, não entendi
direito, pode detalhar, o que queres que eu faça?" Bem, é claro que com uma
pergunta dessas eu abusei da oportunidade: pedi-lhe que fizesse a adesão à campanha,
informasse no mini site seu nome completo, ocupação, estado onde vive e e-mail, ou
simplesmente retrucasse meu e-mail assim: "evidente que eu aprovo". Como fez o
Paulo Coelho, lá dos Pirineus. Também pedi que a Profra. Tânia cometesse um depoimento
a favor da TARIFA LIVRO, e dei-lhe o
exemplo do Moacyr Scliar que, sempre gentil, respondeu-me de bate-pronto. Pedi ainda (eu
peço mesmo) que a Profra. divulgasse a campanha na Universidade de Passo Fundo, ora ela
é a atual Diretora da Editora da universidade. Mas a deixei bem à vontade para
simplesmente aderir à campanha, que já seria mais um voto entre o milhão que pretendo
obter. Ah, pedi tanto que ia esquecendo, pedi também para ela, como membro executivo que
é do PNLL - Plano Nacional do Livro da Leitura, que obtivesse desse aparato institucional
apoio à campanha.
O pedido ao PNLL foi feito também através de seu Web site, pelo seu formulário online
para entrada de projetos e solicitação de apoio. No meu caso aqui, o apoio é somente de
adesão verbo-nominal e divulgação. Fiz esse sacrifício porque a Profra. Tânia me
disse, naquele telefonema, antes mesmo de eu terminar de explicar em cinco linhas a
campanha TARIFA LIVRO, que "para
algo dar certo sobre o livro e a leitura, de agora em diante, tudo tem que passar pelo
PNLL". Ok, Professora, feito o dever de casa. Vamos ver se dá certo.
Já troquei e-mail, e farpas, com o Secretário Executivo do PNLL, Filósofo José
Castilhos, presidente da Fundação UNESP, e nada de adesão do tal de PNLL. E agora?
Casos curiosos não faltam, em duas semanas de campanha online PELA TARIFA ESPECIAL
REDUZIDA DE ENVIO DE LIVROS PELOS CORREIOS. Quem tiver curiosidade, no link
"notícias" do mini site da campanha, dá para ler passo por passo o andamento
da epopéia.
Então, respondida a pergunta do título, espero, resta inferir a razão dessa pergunta
pulular por aí: acho que o problema é o hábito de leitura. De quem não lê, é fácil
entender, mas para quem lida com leitura profissionalmente, deve ser a rapidez com se anda
lendo, ou a monotonia. Só pode ser isto. Ou implicância comigo, eu mereço.
Uma pessoa, porém, que talvez não tenha lido um único livro inteiramente na vida, me
fez uma pergunta que abre um horizonte amplo para reflexão: O que você vai ganhar com
isso, Peazê? Para quê todo esse trabalho, desenvolver Web site, digitar esses nomes de
adesão, escrever esses textos, confrontar-se com pessoas, mendigar adesões, tudo de
graça, gastando o teu tempo que poderia estar sendo empregado em coisas exclusivamente
pessoais?
De uma coisa eu estou certo, é muito bom o prazer que sinto a cada adesão e incentivo
que recebo diariamente. Obrigado.
A TV Globo não faz jornalismo, apenas entretém (27/06/2006)
[Publicado no Observatório da Imprensa sob o título: Não é jornalismo, é
entretenimento.] Clique aqui para ler>>>
A saúde da imprensa 03 de julho de 2006
Desde que o rum creosotado deixou de ser vendido em armazéns
de secos & molhados, a imprensa está doente de um mal que ela abomina, mas não
percebe. A parcialidade. Pelo menos no que se refere à cobertura da saúde.
Não há enfermidade pior para um jornalista do que ser
parcial. E a pior doença é aquela em que o ser enfermo não sente dor, os sintomas ficam
escondidos, e quando eclodem já é tarde.
Depois dessa intoxicação de metáforas, logo no lead, vamos
desatar o nó gordiano do título.
Quando a saúde é a pauta de um jornal, ser parcial é um erro
devastador. É comum os repórteres entrevistarem médicos da medicina oficial, lesional,
estrutural, hegemônica, e não contextualizarem com fontes de outras
medicinas. É comum repórteres abordarem as questões dos remédios sintéticos, da
indústria farmacêutica, da indústria química, e não contraporem às várias outras
formas de terapêuticas naturais. Sem esgotar a lista de parcialidades, é
comum repórteres abordarem o sistema de saúde pública e privada do ângulo dos
hospitais, do Conselho de Medicina e do Ministério da Saúde, cegos aos riscos dessas
liturgias sociais. Mas acredito que o fazem por pura ignorância.
Hermético? É o seguinte: o jornalismo não passa de uma
crônica superficial de um mundo que se tornou complexo ao extremo. Só um idiota não
percebe quanto mal esconde este pano um mundo complexo ao extremo.
Que esconde bem também. Ou alguém discorda que o mundo de hoje é tão
simples quanto o mundo do tempo do feuilleton?
As próximas linhas tentarão envelopar um assunto que
demandaria laudas, pois ninguém mais lê artigo que ultrapasse 700 palavras, segundo os
entendidos em textos finger food:
As simples expressões outras medicinas e
naturais, utilizadas acima, certamente levam a mente do jornalista apressado
para um canto que ele julga ser de atores menores do cotidiano. Também não vale defender
que há fartura de matérias sobre a homeopatia, por exemplo, os fitoterápicos, a
medicina ortomolecular e etc. Por isso mesmo, porque essas matérias destacam essas
terapêuticas como alternativas, no sentido menor do termo.
Teria o jornalista que cobre a saúde se transformado num Janus
tolo, aprisionado onde a empresa, a coisa, a instituição são mais importantes do que o
indivíduo? E por isso ele faz a sua pauta oficial somente daquilo que é oficial, como se
o oficial fosse o mais saudável?Ele mesmo
estaria se vendo como jornalista, não como um ser independente que pensa, ou melhor, que
computa ergo sum, que processa informação? Enxerga que o empreendimento erguido em prol
da saúde estatística adoece o indivíduo? Enxerga que a indústria de drogas
(propriedade de conglomerados financeiros) é um dos mercados mais promissores da bolsa de
valores, e isso tem efeitos colaterais? Que a ciência vem florescendo em proll do capital
e da sua astúcia, em efeito viral? Enxerga que o estado adota esse enredo sórdido porque
também não enxerga o indivíduo, só vê o contribuinte na coluna receita?
O bonde errado
Um ex-diretor financeiro de um laboratório farmacêutico
americano declarou para o Herald Tribune (01/03/2003): O
primeiro desastre é se você mata pessoas. O segundo desastre é se as cura. As boas
drogas de verdade são aquelas que você pode usar por longo e longo tempo.
E
é comum uma matéria de jornal atacar a notícia de que os remédios estão cada vez mais
caros, mais proibitivos, como se isso fosse um mal. Consegue o jornalista enxergar outro
ângulo? Que sinaliza para o mal que as drogas causam ao organismo humano; que sinaliza
para os equívocos da terapêutica hegemônica. Por esse ângulo, seria bom que os
remédios fossem mesmo proibitivos, proibidos, na verdade.
Só
a Aspirina mata anualmente 10 mil pessoas por sangramento digestivo nos Estados Unidos.
Recentemente a revista Época recomendou a adoção de Aspirina para prevenção da
velhice. A terapêutica da medicina oficial se baseia apenas nos efeitos esperados das
drogas sintéticas. Ignora os demais efeitos, não esperados e gerados pelo próprio
organismo humano que tende a eliminar substâncias estranhas a ele, sobrecarregando suas
funções, estressando-se além da conta. A medicina oficial condena à infelicidade do
paciente qualquer complicação adicional, ou piora do seu quadro clínico, lava as mãos.
Não é por acaso que os remédios nos Estados Unidos têm um mark up que chega a 1000%;
para atender às eventuais demandas judiciais; e seus ciclos de vida são gerenciados pelo
método da obsoletização em cinco anos.
Por fim, porque acabou o espaço aqui, a medicina é uma
disciplina, não é ciência. E a medicina baseada somente na ciência e tecnologia mata
mais do que as doenças e guerras podem arcar sozinhas; há várias medicinas modernas e
tradicionais que tratam da saúde do ser humano fiéis à primeira lei de Hipócrates
primeiro não lesar. O jornalista não está consultando essas fontes.
Assim, a própria imprensa adoece o mundo com o seu modo
parcial de fazer a crônica diária da saúde. Veja, ilustre jornalista, o belo tipo
faceiro que o senhor tem ao seu lado. E no entanto acredite: ele adoce, morre, porque o
senhor pegou o bonde errado. -----------
Luís Peazê (MTB 24338) é escritor e jornalistahttp://www.clinicaliteraria.com.br/clinicaliteraria.htm
.
Sécurité! Sécurité! Sécurité!
Traduções de notícias do estrangeiro soçobrando!
O que você faria, se ouvisse no
meio de uma metrópole uma voz apreensiva sussurrando, no seu ouvido, a chamada do
título? Se for um cidadão de qualquer profissão exceto do jornalismo, pensará que
está ficando louco, ouvindo vozes do além. Mas um jornalista entraria em estado de
alerta; em seguida iria querer saber de onde exatamente está vindo; daí em diante é a
rotina de apurar, apurar, apurar e, às vezes, traduzir corretamente antes de publicar a
notícia.
Recentemente fui pego como um
cidadão comum pela notícia de que Mike Tyson envolveu-se em confusão numa boate de São
Paulo, e li a matéria. Andava meio nocauteado de tanta notícia incerta sobre quem seria
indicado para punição na CPI do mensalão, e fiz um desvio para, como dizem os
americanos, limpar o sistema (em português talvez fosse melhor traduzir
clean the system para zerar a paisagem mental, mas, pensando
melhor, às vezes a coisa envolve zerar-se espiritualmente (com uma notícia sobre Mike
Tyson?), deixemos como está). Pois o que aconteceu foi eu ser nocauteado de vez,
literalmente pela tradução das respostas do famoso e bizarro boxeador.
Você diria, muito circunlóquio, não fui direto ao
ponto. Paciência, trabalhar com tradução é assim, parece que vai ser fácil, mas nunca
é. Contudo, é instigante, e vamos direto ao ponto, o espaço aqui é pequeno, como nas
redações, onde a pressa é um vício da notícia:
Após ler várias frases entre aspas, traduções de
respostas de Tyson ao repórter, desconfiei que havia sérios problemas de interpretação
do tradutor. Ao final não tive dúvidas dos danos na e da notícia. Deduzi que a
causa fora a pressa do redator ou a sua falta de experiência, injustificável em
qualquer dos casos, mesmo que repórter, tradutor e redator tenham sido a mesma pessoa, ou
não. A partir daí farejei uma notícia subjacente, ouvi um sussurro e fui investigar. E
a notícia é: as traduções de notícias estrangeiras e de entrevistas com
personalidades internacionais estão com sérias avarias, soçobrando em alto mar.
Bem ao final da entrevista com Tyson o repórter coloca
entre aspas uma de suas respostas, assim: tudo o que eu quero é ser deixado
sozinho. Dois parágrafos acima, Tyson havia revelado que após o seu declínio no
Box, sentia-se abandonado, logo conclui que a frase traduzida, com problemas, teria sido
all I want is to be left alone. A nossa língua também quer ficar em paz, ela
não precisa levar tantos socos assim. Problemas como esse soçobravam ao longo de toda a
matéria, que contou com um colaborador, dois jornalistas, e sabe-se lá quantos mais a
leram antes de ir para as páginas (impressas e digitais) do jornal.
Minha pesquisa na Internet e em jornais impressos
prosseguiu, tendo prospectado uma fábula de lixo perigoso, tanto na superfície dos
textos traduzidos, de notícias reproduzidas de agências internacionais, quanto em suas
profundezas. A última notícia, traduzida da Associated Press, que provocou este aviso de
acidente no mar da informação jornalística, foi a de um australiano e de um
neozelandês náufragos, encontrados à deriva num bote salva-vidas no 11o,
digo, 12o dia.
A manchete anunciava um dia a menos de deriva, até aí
tudo bem. Mas logo no primeiro parágrafo uma frase soou como um direto no queixo. Os
homens estariam trazendo um motor de iate de 60 pés para um cliente de Sydney,
Austrália. Ora, o texto abria com a localização da notícia em Hanói, Vietnam, como
poderiam estar trazendo algo? Certamente eles estavam levando, assim como a
gramática e a mente do leitor estiveram levando uma surra. Mas o pior estava para vir.
Investiguei no texto original de AP e de outros veículos chineses e australianos (graças
à Internet) e descobri que os pobres náufragos levavam um motor yacht, que
é um tipo de veleiro equipado com um possante motor, podendo fazer longas viagens sem
utilizar as velas. Descrição irrelevante para o leitor em português, pois, quem é do
ramo se refere a motor yacht assim mesmo, e tanto faz, continua sendo veleiro.
Grande. A propósito, tinha 20 metros, portanto, 6 pés a mais do que o noticiado. Quem é
do mundo dos barcos sabe quanta diferença isso faz.
Bem, o texto era um acidente atrás do outro. A frase
ao final, sem edição, sem copy desk, e com muita pressa ou pouca atenção, dispensa
comentários: Nos aconchegávamos juntos um ao outro como dois bebês para nos
mantermos aquecidos durante a noite. Durma-se com um barulho desses!
Entre a matéria do Tyson e esse naufrágio, encontrei
muitas outras semelhantes, isto é, com problemas graves de tradução. Não cito nomes
porque não se trata de um patrulhamento gratuito, nem pensar. Mas de um chamado de
distress, um alerta de problemas no horizonte, um apelo para que um salvamento
seja posto em curso, bens e vidas podem ser salvos. Por falar nisso, pelo código de
comunicação náutica, as expressões Sécurité! Sécurité! Sécurité! May Day! May
Day! May Day! Help! Help! Help! S.O.S não querem dizer exatamente a mesma coisa.
O aviso se justifica porque uma dessas expressões
utilizada na ocorrência errada pode causar pânico, ou socorro tardio, e, no caso das
traduções de notícias, é tão fácil resolver, não há necessidade de danos maiores.
Conversando com cientistas da
oceanografia tenho ouvido freqüentes reclamações quanto a péssimas traduções, assim
como de descrições impróprias em textos jornalísticos sobre eventos científicos em
geral. Isso não deixa de ser um problema de tradução, interpretação. Assim, o
público está recebendo desinformação, é aí que está o problema. Por isso, caros
colegas (repórteres, chefes de redação, diretores e donos de veículos), já que a
Internet, os editores de texto, os dicionários temáticos e de expressões idiomáticas
on-line facilitaram tanto a vida da gente, não custa investir um pouquinho mais de
atenção na hora de traduzir e interpretar, pelo menos.
Atenção, revisores de plantão:
este texto foi escrito, propositalmente com pressa, em exatos 40 minutos, com base no
repertório memorizado, portanto, mãos à obra.
Luís Peazê é escritor e
jornalista (MTB 24338), tradutor de Por Quem os Sinos Dobram de Ernest
Hemingway. Dirige a Clínica Literária consultoria e agência de notícias e
preside o Instituto Brasil Costal BRCostal, entidade dedicada à difusão das
questões do meio ambiente marinho e mentalidade marítima
Em Conversa na Catedral, de Mario Vargas Llosa, há
diálogos de uma prostituta com um político. Prostitutas são um elemento recorrente na
obra do escritor peruano. E, como retratou tão bem o episódio histórico de Canudos em A
Guerra do Fim do Mundo, me ponho a pensar como eu faria uma resenha, se ele escrevesse A
Pequenez do Presidente, recorte da nossa crise política atual:
A chamada comercial de mais este golpe do mestre Llosa é instigante. Um jornalista e o
concierge de um hotel do Distrito Federal trocam confidências sobre o que ouvem de
suas mulheres. Uma é cafetina e a outra a sua mais requisitada prostituta. As conversas
se dão no Píer, restaurante da cidade, e revelam segredos do alto escalão do governo
brasileiro no fatídico ano de 2005.
Mesmo o leitor mais desatento irá devorar a narrativa até a última letra,
indiferente à alternância atemporal de fatos, típica de Mario Vargas, que se costuram
uns aos outros até a última linha. Motivação? O jornalista vive com a cafetina Jane,
bem mais velha e arrogante mas que lhe financia o uísque importado, carro novo e roupas
finas. A passividade do jornalista só não é irritante porque ele sabe muito, e conta
tudo para o amigo concierge. Este, por sua vez, descrito como um "monge
afeminado" acaba por salpicar o livro de um despertar da libido selvagem só
comparado aos Sete Minutos de Irving Wallace, se é que livros despertam libido. O concierge
vive com a mais bela prostituta de Jane, Karina.
Repetindo o início de Conversa na Catedral, quando Santiago pergunta a si mesmo
"Aonde foi que o Peru se fodeu?", Llosa faz a mesma indagação para o Brasil,
através de Pedro. Aliás, Santiago também era jornalista. Mas o resto das 505 páginas
de A Pequenez do Presidente são uma verdadeira catarse literária, quase em desespero, e
por isso provocante pois, de toda a sua obra pseudo-auto-biográfica, é aqui que o
peruano parece contar toda a verdade sobre o que viu e ouviu das paredes do poder na
América Latina. Ex-candidato a presidente do Peru, escreve com conhecimento de causa.
Apologista do neo-liberalismo, em voga numa época que colocou de uma só vez Menem e
Collor no poder, perdera as eleições para o futuro corrupto e golpista Fujimoro, que
vencera-lhe nas urnas com um discurso de esquerda para logo em seguida trocar de casaca,
diametralmente. Em A Pequenez do Presidente, Llosa joga de chofre essa cartada e sai
explicando por que, afinal, o Brasil terminou como o Peru.
Formado em filosofia e literatura e nascido na alta burguesia, Llosa sabe como ninguém
como as coisas acontecem em grande estilo, na corte, no jet set e coisa e tal. Mas
falta-lhe estofo do corriqueiro, não sentiu o cheiro do berço da malandragem e das ruas,
especialmente do Brasil, e busca socorro na ficção dos dois personagens centrais. Mais,
ao contrário do que possa parecer, também não entende muito do que habita no recôndito
ventre maltratado da consciência e memória das prostitutas, ninguém de fato sabe, por
isso inventa tudo. Mas inventa bem, e entretém o leitor menos acanhado quando esmera-se
na descrição das "coxas fornidas de Karina", chegando ao exagero de colocar na
boca do concierge: "quando Karina vem de madrugada, depois de trepar com não
sei quantos homens, suas coxas ainda estão quentes e parecem cobertas de uma oleosidade
macia de puta". Vamos ver se o leitor aguenta, prossegue a fala do concierge
para Pedro: "parece uma tara, ela me acorda pra transar e fica repetindo tudo o que
ouviu de seus clientes. É assim que ela chega ao orgasmo".
A embriaguez é outra repetição dos textos bem trabalhados de Llosa. E uísque,
charutos, ternos de linho, pulseiras de ouro, suor, meias de arrastão, malas de dinheiro
e dissimulação, tudo comum em qualquer república latina. No Brasil de "A
Pequenez" ele concentra bastante disso em carros oficiais novíssimos, deslizando
pelas largas avenidas do plano piloto, entrando misteriosos com seus vidros fumês em
jardins das mansões do Lago Sul. Não se esquece das festinhas íntimas onde se fofoca de
tudo, em torno das milhares de piscinas de Brasília. A certa altura desconfia-se que
Vargas viveu em BSB, como dizem os agentes de viagem. Até nisso ele é pertinaz.
Mas o livro ganha força é com as conspirações, traições, jogo do poder, medo,
dúvida, risco, ignorância, sobrevivência, luxúria e a desgraça cotidiana dos pobres,
argamassa de A Pequenez do Presidente. Um romance que conta a história daqueles que,
mesmo decepcionados com um presidente pequeno, mantiveram-se fiéis a ele, pateticamente.
Com a palavra o próprio Vargas Llosa: "Condenados a uma existência que nunca
está à altura de seus sonhos, os seres humanos tiveram que inventar um subterfúgio para
escapar de seu confinamento dentro dos limites do possível: a ficção. Ela lhes permite
viver mais e melhor, ser outros sem deixar de ser o que já são, deslocar-se no espaço e
no tempo sem sair de seu lugar nem de sua hora e viver as mais ousadas aventuras do corpo,
da mente e das paixões, sem perder o juízo ou trair o coração."