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A economia
da cadeia produtiva do livro

Fábio de Sá Earp e Goerge Kornis

 

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Por Quem os Sinos Dobram
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Tarifa Livro. O que é isso?

Após lançar a campanha pela tarifa especial reduzida de envio de livros pelos Correios fui questionado de diversas maneiras. A pergunta mais interessante que me fizeram, pessoas de diferentes classes sociais e profissão, foi esta: TARIFA LIVRO, o que é isso? Embora, curiosamente, pessoas entenderam de imediato, daí as centenas de adesões diárias.

A Sra. Vera, atendendo meu telefone para o Professor Eduardo Portella, interrompeu a mensagem que eu deixava em sua secretária eletrônica e foi logo dizendo "isso me interessa". Fiquei animado. Mas entabulamos conversa e logo percebi que a Sra. Vera se referia ao preço do livro. Ela lembrou que o preço do papel era um influenciador determinante, sobrepusemos nossas vozes na tentativa de nos fazer entender e, quando eu ouvi-a dizer "mas como vai fazer isso? não pode ter um preço padrão para o livro", aí eu não tive dúvida que deveria recomeçar do início e esclarecer a TARIFA LIVRO, o que é isso.

Exemplos desse mal entendido, notadamente culpa minha, é lógico, não me faltam.

O caso da Advogada especializada em Direito Autoral e Agente Literária Marisa Gandelman é um indicador da incompreensão, ou indiferença à TARIFA LIVRO, o que dá no mesmo. Ao ser consultada por mim sobre a sua adesão à TARIFA LIVRO, no lançamento de um de seus clientes – o escritor Antonio Torres –, ela apontou para a lombada de um livro na prateleira da Livraria Letras & Expressões, no Leblon (RJ), e disse: - É, mas como o atendente dos Correios irá discernir sobre o que é um livro brasileiro? Eu acabara de introduzir a ela o resumo da campanha pela TARIFA LIVRO, citando com ênfase o texto da Lei do Livro em que assinala "estabelecer tarifa, especial, reduzida para o envio de livro brasileiro", ponto.

Tem algum fundo de pertinência, a questão levantada pela advogada. Mas e aí, morreu Neves, ela não me disse por que NÃO aderiu à campanha, e não demonstrou interesse em saber como poderia aderir. Em suma, enviar livros pelos Correios, para ela, não deve ser problema, ou não deve ser caro, ou sei lá o quê deu na Marisa para ignorar a campanha.

Um caso que me intrigou bastante foi com a Professora Dra. Tânia Rösing. Quem não sabe, ou não lembra, ela idealizou há 22 dois anos as hoje famosas Jornadas Nacionais Literárias, que acontecem em Passo Fundo, RS, a cada ano ímpar. Quando soube desse evento eu morava na Califórnia, em 1998, e lendo pela Internet as notícias eu disse para mim mesmo, este é o maior show de literatura do planeta. Até hoje eu ainda acho que é. Um espetáculo em prol da leitura, do livro, do hábito de ler. Não estou sozinho nesta impressão, pois há quem diga que "se você ainda não foi às Jornadas Literárias de Passo Fundo, ainda não entrou na literatura brasileira". Por tudo isso, e pelo fato de a Professora Dra. Tânia Rösing ter um de seus livros com o título "Repensando a Leitura", fiquei intrigado com o fato dela não ter entendido a campanha TARIFA LIVRO. Ora, telefonei-lhe para Passo Fundo, expliquei a campanha. Enviei-lhe o mesmo e-mail que continuo enviando para todas as pessoas. Respondi sua réplica "Peazê, não entendi direito, pode detalhar, o que queres que eu faça?" Bem, é claro que com uma pergunta dessas eu abusei da oportunidade: pedi-lhe que fizesse a adesão à campanha, informasse no mini site seu nome completo, ocupação, estado onde vive e e-mail, ou simplesmente retrucasse meu e-mail assim: "evidente que eu aprovo". Como fez o Paulo Coelho, lá dos Pirineus. Também pedi que a Profra. Tânia cometesse um depoimento a favor da TARIFA LIVRO, e dei-lhe o exemplo do Moacyr Scliar que, sempre gentil, respondeu-me de bate-pronto. Pedi ainda (eu peço mesmo) que a Profra. divulgasse a campanha na Universidade de Passo Fundo, ora ela é a atual Diretora da Editora da universidade. Mas a deixei bem à vontade para simplesmente aderir à campanha, que já seria mais um voto entre o milhão que pretendo obter. Ah, pedi tanto que ia esquecendo, pedi também para ela, como membro executivo que é do PNLL - Plano Nacional do Livro da Leitura, que obtivesse desse aparato institucional apoio à campanha.

O pedido ao PNLL foi feito também através de seu Web site, pelo seu formulário online para entrada de projetos e solicitação de apoio. No meu caso aqui, o apoio é somente de adesão verbo-nominal e divulgação. Fiz esse sacrifício porque a Profra. Tânia me disse, naquele telefonema, antes mesmo de eu terminar de explicar em cinco linhas a campanha TARIFA LIVRO, que "para algo dar certo sobre o livro e a leitura, de agora em diante, tudo tem que passar pelo PNLL". Ok, Professora, feito o dever de casa. Vamos ver se dá certo.

Já troquei e-mail, e farpas, com o Secretário Executivo do PNLL, Filósofo José Castilhos, presidente da Fundação UNESP, e nada de adesão do tal de PNLL. E agora?

Casos curiosos não faltam, em duas semanas de campanha online PELA TARIFA ESPECIAL REDUZIDA DE ENVIO DE LIVROS PELOS CORREIOS. Quem tiver curiosidade, no link "notícias" do mini site da campanha, dá para ler passo por passo o andamento da epopéia.

Então, respondida a pergunta do título, espero, resta inferir a razão dessa pergunta pulular por aí: acho que o problema é o hábito de leitura. De quem não lê, é fácil entender, mas para quem lida com leitura profissionalmente, deve ser a rapidez com se anda lendo, ou a monotonia. Só pode ser isto. Ou implicância comigo, eu mereço.

Uma pessoa, porém, que talvez não tenha lido um único livro inteiramente na vida, me fez uma pergunta que abre um horizonte amplo para reflexão: O que você vai ganhar com isso, Peazê? Para quê todo esse trabalho, desenvolver Web site, digitar esses nomes de adesão, escrever esses textos, confrontar-se com pessoas, mendigar adesões, tudo de graça, gastando o teu tempo que poderia estar sendo empregado em coisas exclusivamente pessoais?

De uma coisa eu estou certo, é muito bom o prazer que sinto a cada adesão e incentivo que recebo diariamente. Obrigado.

PELA TARIFA ESPECIAL REDUZIDA DE ENVIO DE LIVROS PELOS CORREIOS.

___________
© Luís Peazê


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Um serviço do site Amigos do Livro


Falta pouco para nunca mais lermos jornais do mesmo jeito
O jornal online mudou alguma coisa na imprensa? Procurei um especialista em Internet para especular sobre um certo traço Leia mais>>>

 

A TV Globo não faz jornalismo, apenas entretém (27/06/2006)
[Publicado no Observatório da Imprensa sob o título: Não é jornalismo, é entretenimento.] Clique aqui para ler>>>


A saúde da imprensa
03 de julho de 2006

Desde que o rum creosotado deixou de ser vendido em armazéns de secos & molhados, a imprensa está doente de um mal que ela abomina, mas não percebe. A parcialidade. Pelo menos no que se refere à cobertura da saúde.

Não há enfermidade pior para um jornalista do que ser parcial. E a pior doença é aquela em que o ser enfermo não sente dor, os sintomas ficam escondidos, e quando eclodem já é tarde.

Depois dessa intoxicação de metáforas, logo no lead, vamos desatar o nó gordiano do título.

Quando a saúde é a pauta de um jornal, ser parcial é um erro devastador. É comum os repórteres entrevistarem médicos da medicina oficial, lesional, estrutural, hegemônica, e não contextualizarem com fontes de “outras medicinas”. É comum repórteres abordarem as questões dos remédios sintéticos, da indústria farmacêutica, da indústria química, e não contraporem às várias outras formas de terapêuticas “naturais”. Sem esgotar a lista de parcialidades, é comum repórteres abordarem o sistema de saúde pública e privada do ângulo dos hospitais, do Conselho de Medicina e do Ministério da Saúde, cegos aos riscos dessas liturgias sociais. Mas acredito que o fazem por pura ignorância.

Hermético? É o seguinte: o jornalismo não passa de uma crônica superficial de um mundo que se tornou complexo ao extremo. Só um idiota não percebe quanto “mal” esconde este pano “um mundo complexo ao extremo”. Que esconde “bem” também. Ou alguém discorda que o mundo de hoje é tão simples quanto o mundo do tempo do feuilleton?

As próximas linhas tentarão envelopar um assunto que demandaria laudas, pois ninguém mais lê artigo que ultrapasse 700 palavras, segundo os entendidos em textos “finger food”:

As simples expressões “outras medicinas” e “naturais”, utilizadas acima, certamente levam a mente do jornalista apressado para um canto que ele julga ser de atores menores do cotidiano. Também não vale defender que há fartura de matérias sobre a homeopatia, por exemplo, os fitoterápicos, a medicina ortomolecular e etc. Por isso mesmo, porque essas matérias destacam essas terapêuticas como alternativas, no sentido menor do termo.

Teria o jornalista que cobre a saúde se transformado num Janus tolo, aprisionado onde a empresa, a coisa, a instituição são mais importantes do que o indivíduo? E por isso ele faz a sua pauta oficial somente daquilo que é oficial, como se o oficial fosse o mais saudável?  Ele mesmo estaria se vendo como jornalista, não como um ser independente que pensa, ou melhor, que computa ergo sum, que processa informação? Enxerga que o empreendimento erguido em prol da saúde estatística adoece o indivíduo? Enxerga que a indústria de drogas (propriedade de conglomerados financeiros) é um dos mercados mais promissores da bolsa de valores, e isso tem efeitos colaterais? Que a ciência vem florescendo em proll do capital e da sua astúcia, em efeito viral? Enxerga que o estado adota esse enredo sórdido porque também não enxerga o indivíduo, só vê o contribuinte na coluna receita?

O bonde errado

Um ex-diretor financeiro de um laboratório farmacêutico americano declarou para o Herald Tribune (01/03/2003): “O primeiro desastre é se você mata pessoas. O segundo desastre é se as cura. As boas drogas de verdade são aquelas que você pode usar por longo e longo tempo”.

E é comum uma matéria de jornal atacar a notícia de que os remédios estão cada vez mais caros, mais proibitivos, como se isso fosse um mal. Consegue o jornalista enxergar outro ângulo? Que sinaliza para o mal que as drogas causam ao organismo humano; que sinaliza para os equívocos da terapêutica hegemônica. Por esse ângulo, seria bom que os remédios fossem mesmo proibitivos, proibidos, na verdade.

Só a Aspirina mata anualmente 10 mil pessoas por sangramento digestivo nos Estados Unidos. Recentemente a revista Época recomendou a adoção de Aspirina para prevenção da velhice. A terapêutica da medicina oficial se baseia apenas nos efeitos esperados das drogas sintéticas. Ignora os demais efeitos, não esperados e gerados pelo próprio organismo humano que tende a eliminar substâncias estranhas a ele, sobrecarregando suas funções, estressando-se além da conta. A medicina oficial condena à infelicidade do paciente qualquer complicação adicional, ou piora do seu quadro clínico, lava as mãos. Não é por acaso que os remédios nos Estados Unidos têm um mark up que chega a 1000%; para atender às eventuais demandas judiciais; e seus ciclos de vida são gerenciados pelo método da obsoletização em cinco anos.

Por fim, porque acabou o espaço aqui, a medicina é uma disciplina, não é ciência. E a medicina baseada somente na ciência e tecnologia mata mais do que as doenças e guerras podem arcar sozinhas; há várias medicinas modernas e tradicionais que tratam da saúde do ser humano fiéis à primeira lei de Hipócrates “primeiro não lesar”. O jornalista não está consultando essas fontes.

Assim, a própria imprensa adoece o mundo com o seu modo parcial de fazer a crônica diária da saúde. Veja, ilustre jornalista, o belo tipo faceiro que o senhor tem ao seu lado. E no entanto acredite: ele adoce, morre, porque o senhor pegou o bonde errado.
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Luís Peazê (MTB 24338) é escritor e jornalista
http://www.clinicaliteraria.com.br/clinicaliteraria.htm


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Sécurité! Sécurité! Sécurité! Traduções de notícias do estrangeiro soçobrando!

 

O que você faria, se ouvisse no meio de uma metrópole uma voz apreensiva sussurrando, no seu ouvido, a chamada do título? Se for um cidadão de qualquer profissão exceto do jornalismo, pensará que está ficando louco, ouvindo vozes do além. Mas um jornalista entraria em estado de alerta; em seguida iria querer saber de onde exatamente está vindo; daí em diante é a rotina de apurar, apurar, apurar e, às vezes, traduzir corretamente antes de publicar a notícia.

 

Recentemente fui pego como um cidadão comum pela notícia de que Mike Tyson envolveu-se em confusão numa boate de São Paulo, e li a matéria. Andava meio nocauteado de tanta notícia incerta sobre quem seria indicado para punição na CPI do mensalão, e fiz um desvio para, como dizem os americanos, “limpar o sistema” (em português talvez fosse melhor traduzir “clean the system” para “zerar a paisagem mental”, mas, pensando melhor, às vezes a coisa envolve zerar-se espiritualmente (com uma notícia sobre Mike Tyson?), deixemos como está). Pois o que aconteceu foi eu ser nocauteado de vez, literalmente – pela tradução das respostas do famoso e bizarro boxeador.

 

Você diria, muito circunlóquio, não fui direto ao ponto. Paciência, trabalhar com tradução é assim, parece que vai ser fácil, mas nunca é. Contudo, é instigante, e vamos direto ao ponto, o espaço aqui é pequeno, como nas redações, onde a pressa é um vício da notícia:

 

Após ler várias frases entre aspas, traduções de respostas de Tyson ao repórter, desconfiei que havia sérios problemas de interpretação do tradutor. Ao final não tive dúvidas dos danos na e da notícia. Deduzi que a causa fora a pressa do redator ou a sua falta de experiência, injustificável em qualquer dos casos, mesmo que repórter, tradutor e redator tenham sido a mesma pessoa, ou não. A partir daí farejei uma notícia subjacente, ouvi um sussurro e fui investigar. E a notícia é: as traduções de notícias estrangeiras e de entrevistas com personalidades internacionais estão com sérias avarias, soçobrando em alto mar.

 

Bem ao final da entrevista com Tyson o repórter coloca entre aspas uma de suas respostas, assim: “tudo o que eu quero é ser deixado sozinho”. Dois parágrafos acima, Tyson havia revelado que após o seu declínio no Box, sentia-se abandonado, logo conclui que a frase traduzida, com problemas, teria sido “all I want is to be left alone”. A nossa língua também quer ficar em paz, ela não precisa levar tantos socos assim. Problemas como esse soçobravam ao longo de toda a matéria, que contou com um colaborador, dois jornalistas, e sabe-se lá quantos mais a leram antes de ir para as páginas (impressas e digitais) do jornal.

 

Minha pesquisa na Internet e em jornais impressos prosseguiu, tendo prospectado uma fábula de lixo perigoso, tanto na superfície dos textos traduzidos, de notícias reproduzidas de agências internacionais, quanto em suas profundezas. A última notícia, traduzida da Associated Press, que provocou este aviso de acidente no mar da informação jornalística, foi a de um australiano e de um neozelandês náufragos, encontrados à deriva num bote salva-vidas no 11o, digo, 12o dia.

 

A manchete anunciava um dia a menos de deriva, até aí tudo bem. Mas logo no primeiro parágrafo uma frase soou como um direto no queixo. Os homens estariam trazendo um motor de iate de 60 pés para um cliente de Sydney, Austrália. Ora, o texto abria com a localização da notícia em Hanói, Vietnam, como poderiam estar “trazendo” algo? Certamente eles estavam levando, assim como a gramática e a mente do leitor estiveram levando uma surra. Mas o pior estava para vir. Investiguei no texto original de AP e de outros veículos chineses e australianos (graças à Internet) e descobri que os pobres náufragos levavam um “motor yacht”, que é um tipo de veleiro equipado com um possante motor, podendo fazer longas viagens sem utilizar as velas. Descrição irrelevante para o leitor em português, pois, quem é do ramo se refere a “motor yacht” assim mesmo, e tanto faz, continua sendo veleiro. Grande. A propósito, tinha 20 metros, portanto, 6 pés a mais do que o noticiado. Quem é do mundo dos barcos sabe quanta diferença isso faz.

 

Bem, o texto era um acidente atrás do outro. A frase ao final, sem edição, sem copy desk, e com muita pressa ou pouca atenção, dispensa comentários: “Nos aconchegávamos juntos um ao outro como dois bebês para nos mantermos aquecidos durante a noite”. Durma-se com um barulho desses!

 

Entre a matéria do Tyson e esse naufrágio, encontrei muitas outras semelhantes, isto é, com problemas graves de tradução. Não cito nomes porque não se trata de um patrulhamento gratuito, nem pensar. Mas de um chamado de “distress”, um alerta de problemas no horizonte, um apelo para que um salvamento seja posto em curso, bens e vidas podem ser salvos. Por falar nisso, pelo código de comunicação náutica, as expressões Sécurité! Sécurité! Sécurité! May Day! May Day! May Day! Help! Help! Help! S.O.S não querem dizer exatamente a mesma coisa.

 

O aviso se justifica porque uma dessas expressões utilizada na ocorrência errada pode causar pânico, ou socorro tardio, e, no caso das traduções de notícias, é tão fácil resolver, não há necessidade de danos maiores.

 

Conversando com cientistas da oceanografia tenho ouvido freqüentes reclamações quanto a péssimas traduções, assim como de descrições impróprias em textos jornalísticos sobre eventos científicos em geral. Isso não deixa de ser um problema de tradução, interpretação. Assim, o público está recebendo desinformação, é aí que está o problema. Por isso, caros colegas (repórteres, chefes de redação, diretores e donos de veículos), já que a Internet, os editores de texto, os dicionários temáticos e de expressões idiomáticas on-line facilitaram tanto a vida da gente, não custa investir um pouquinho mais de atenção na hora de traduzir e interpretar, pelo menos.

 

Atenção, revisores de plantão: este texto foi escrito, propositalmente com pressa, em exatos 40 minutos, com base no repertório memorizado, portanto, mãos à obra.

Luís Peazê é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de “Por Quem os Sinos Dobram” de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária – consultoria e agência de notícias e preside o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e mentalidade marítima

http://www.aventuranobrasilcostal.com.br

 


A Pequenez do Presidente [14/08/2005]

Em Conversa na Catedral, de Mario Vargas Llosa, há diálogos de uma prostituta com um político. Prostitutas são um elemento recorrente na obra do escritor peruano. E, como retratou tão bem o episódio histórico de Canudos em A Guerra do Fim do Mundo, me ponho a pensar como eu faria uma resenha, se ele escrevesse A Pequenez do Presidente, recorte da nossa crise política atual:

A chamada comercial de mais este golpe do mestre Llosa é instigante. Um jornalista e o concierge de um hotel do Distrito Federal trocam confidências sobre o que ouvem de suas mulheres. Uma é cafetina e a outra a sua mais requisitada prostituta. As conversas se dão no Píer, restaurante da cidade, e revelam segredos do alto escalão do governo brasileiro no fatídico ano de 2005.

Mesmo o leitor mais desatento irá devorar a narrativa até a última letra, indiferente à alternância atemporal de fatos, típica de Mario Vargas, que se costuram uns aos outros até a última linha. Motivação? O jornalista vive com a cafetina Jane, bem mais velha e arrogante mas que lhe financia o uísque importado, carro novo e roupas finas. A passividade do jornalista só não é irritante porque ele sabe muito, e conta tudo para o amigo concierge. Este, por sua vez, descrito como um "monge afeminado" acaba por salpicar o livro de um despertar da libido selvagem só comparado aos Sete Minutos de Irving Wallace, se é que livros despertam libido. O concierge vive com a mais bela prostituta de Jane, Karina.

Repetindo o início de Conversa na Catedral, quando Santiago pergunta a si mesmo "Aonde foi que o Peru se fodeu?", Llosa faz a mesma indagação para o Brasil, através de Pedro. Aliás, Santiago também era jornalista. Mas o resto das 505 páginas de A Pequenez do Presidente são uma verdadeira catarse literária, quase em desespero, e por isso provocante pois, de toda a sua obra pseudo-auto-biográfica, é aqui que o peruano parece contar toda a verdade sobre o que viu e ouviu das paredes do poder na América Latina. Ex-candidato a presidente do Peru, escreve com conhecimento de causa. Apologista do neo-liberalismo, em voga numa época que colocou de uma só vez Menem e Collor no poder, perdera as eleições para o futuro corrupto e golpista Fujimoro, que vencera-lhe nas urnas com um discurso de esquerda para logo em seguida trocar de casaca, diametralmente. Em A Pequenez do Presidente, Llosa joga de chofre essa cartada e sai explicando por que, afinal, o Brasil terminou como o Peru.

Formado em filosofia e literatura e nascido na alta burguesia, Llosa sabe como ninguém como as coisas acontecem em grande estilo, na corte, no jet set e coisa e tal. Mas falta-lhe estofo do corriqueiro, não sentiu o cheiro do berço da malandragem e das ruas, especialmente do Brasil, e busca socorro na ficção dos dois personagens centrais. Mais, ao contrário do que possa parecer, também não entende muito do que habita no recôndito ventre maltratado da consciência e memória das prostitutas, ninguém de fato sabe, por isso inventa tudo. Mas inventa bem, e entretém o leitor menos acanhado quando esmera-se na descrição das "coxas fornidas de Karina", chegando ao exagero de colocar na boca do concierge: "quando Karina vem de madrugada, depois de trepar com não sei quantos homens, suas coxas ainda estão quentes e parecem cobertas de uma oleosidade macia de puta". Vamos ver se o leitor aguenta, prossegue a fala do concierge para Pedro: "parece uma tara, ela me acorda pra transar e fica repetindo tudo o que ouviu de seus clientes. É assim que ela chega ao orgasmo".

A embriaguez é outra repetição dos textos bem trabalhados de Llosa. E uísque, charutos, ternos de linho, pulseiras de ouro, suor, meias de arrastão, malas de dinheiro e dissimulação, tudo comum em qualquer república latina. No Brasil de "A Pequenez" ele concentra bastante disso em carros oficiais novíssimos, deslizando pelas largas avenidas do plano piloto, entrando misteriosos com seus vidros fumês em jardins das mansões do Lago Sul. Não se esquece das festinhas íntimas onde se fofoca de tudo, em torno das milhares de piscinas de Brasília. A certa altura desconfia-se que Vargas viveu em BSB, como dizem os agentes de viagem. Até nisso ele é pertinaz.

Mas o livro ganha força é com as conspirações, traições, jogo do poder, medo, dúvida, risco, ignorância, sobrevivência, luxúria e a desgraça cotidiana dos pobres, argamassa de A Pequenez do Presidente. Um romance que conta a história daqueles que, mesmo decepcionados com um presidente pequeno, mantiveram-se fiéis a ele, pateticamente.

Com a palavra o próprio Vargas Llosa: "Condenados a uma existência que nunca está à altura de seus sonhos, os seres humanos tiveram que inventar um subterfúgio para escapar de seu confinamento dentro dos limites do possível: a ficção. Ela lhes permite viver mais e melhor, ser outros sem deixar de ser o que já são, deslocar-se no espaço e no tempo sem sair de seu lugar nem de sua hora e viver as mais ousadas aventuras do corpo, da mente e das paixões, sem perder o juízo ou trair o coração."

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