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Repensando a Leitura, Animando a Escola e a Biblioteca:
A cura para o analfabetismo cultural

Luís Peazê*

Com este tomo de Leitura e Animação Cultural – repensando a escola e a biblioteca nas mãos, me ocorreu a analogia com uma frase de um carpinteiro naval amigo, sobre a construção dos barcos de madeira. Disse-me ele: quando se constrói um barco realizando um sonho, a alma que habita o tronco das árvores vai aos poucos se integrando com a alma do próprio sonhador e ali começa a história de ambos, que nunca mais se dissociam um do outro, barco e construtor.

Falar de barcos, leitura, sonho e livros é um movimento natural e recorrente para mim, da mesma forma deveriam ser indissociáveis a escola da biblioteca, estas da cultura, e obviamente os agentes sociais dos livros e multimeios de leitura, produzindo todos juntos uma onda orgânica e realimentadora do saber. E foi exatamente esta visão que eu tive logo na apresentação feita pela Professora Tania Rösing, desta coletânea de artigos, produzidos a partir da discussão e reflexão dos princípios e metodologias desenvolvidas no curso de Especialização em Leitura e Animação Cultural, do Centro de Referência de Literatura e Multimeios da Universidade de Passo Fundo, RS.

A visão, contudo, se deu pelo viés do "na-prática-não-é-isto-que-acontece" na conclusão que a Prof. Tania faz ao comentar a importância da dinamização de bibliotecas escolares e a transformação de bibliotecas em centros multimidiais de promoção de leitura, posto que a leitura é prática social de interesse de todas as áreas do conhecimento, "especialmente quando se constata um analfabetismo cultural em diferentes segmentos profissionais". Afirmação forte, mas discorde se for capaz – pronto, o livro se torna um desafio. A cura.

E a sua leitura é animada, poderia não ser, quando se entende o seu propósito: um livro que ensina a se ensinar a ler, e onde se aprender a ler, neste caso quem não for um educador de leitura, sabendo que, para ensinar a ler tem-se que aprender a ensinar aprendendo com os leitores. Por fim, para se ensinar e aprender qualquer matéria, saber ler é fundamental.

Eu sei ler? Perguntei e mergulhei no primeiro capítulo, "Contribuições Teóricas para o desenvolvimento do leitor: teorias de leitura e ensino", pensando, honestamente, que fosse marear logo nas primeiras vagas, e quando me dei conta estava já em alto mar, lendo inclusive o contraste não apenas sonoro entre o português e o espanhol desta edição bilíngüe.

O interessante, e aí aparece o mérito dos organizadores, é que os textos se coadunam indiferentes às preferências cognitivas dos seus autores, pois, se um opta pelo registro in loco da referência bibliográfica, que remete o leitor ao rodapé e dali às estantes das bibliotecas propriamente ditas, o outro escolhe o subterfúgio da expressão coloquial, para, ambos, criarem imagens que podem remeter o leitor criativo à produção de um conto, se quiser. Por exemplo: ao estabelecer um paralelo entre alunos de leitura que provêm de famílias com pouca ou nenhuma escolaridade, diga-se, não acostumados com bilhetes domésticos, leituras e referências a jornais, revistas e, francamente, nem a livros, e alunos que aculturam-se socialmente através inclusive destes meios de leitura e hábitos e costumes qualquer coisa sofisticados, um dos autores aproveita para criar-nos mentalmente uma biblioteca de referências imperdíveis, tais como em Bamberger, Bakhtin, Terzi, Rojo, Shirley B. Heath, por aí. E temos ou não temos assim, um cenário real, factível? Daí, como aprender e ensinar leitura neste contexto?

Outro autor, como se tivesse combinado com o anterior, refere-se à conhecida afirmação de Paulo Freire: "A leitura de mundo precede a leitura da palavra". O caso da criança que abre os olhos e lê o teto, os corpos gigantes das pessoas curvadas olhando para dentro do berço, depois ela lê as árvores, o vento, os animais, as coisas ao redor e aquilo que lhe servem à boca, quando um belo dia todos os substantivos são reapresentados a ela com este sobrenome e um nome próprio, ela descobre a palavra, as regras escritas e começa a ler o mundo novamente, agora através do letramento. Mais adiante o mesmo autor nos põe também na cena de um conto a ser escrito, lembrando o hábito de crianças ainda não alfabetizadas imitando o gesto dos adultos lerem – a idéia é para afirmar que a leitura está definitivamente introjetada no modus vivendi do homus sapiens, mas o conto está ali antes de tudo. E estamos lendo, inclusive lendo nas entrelinhas deste próprio livro que ensina a ensinar a ler.

E assim por diante seguem-se os demais artigos, inclusive citando a bibliografia dos organizadores, uma simbiose singular em livros do gênero. Nesta altura, se o livro nas suas mãos pecou foi em reafirmar sistematicamente a necessidade da criação de Centros de Promoção de Leitura de Múltiplas Linguagens e não vir com sons, cheiros, desenhos animados e coloridos, eletrônicos, interconectados, e com textos interativos e multimidiais. O que seria impossível, portanto um pecado inescapável, absolvido. Isto é, ainda estamos com o velho livro nas mãos, e lendo sobre tudo isso, sobre uma terra a ser descoberta. Talvez um dos motivos para não termos chances de marear, estando bem ocupados trabalhando sobre o convés da leitura.

A propósito, a hiper organicidade textual citada acima é abordada no livro de modo sintético, mas com mérito que merece destaque, posto que o assunto é tão novo quanto extenso, é tão desconhecido quanto afugenta àqueles que dele conhecem pouco ou nada, criando um escudo de inibição, no caso dos educadores. "Na verdade, a resistência em discutir os novos mídias em sala de aula parte geralmente da insegurança do próprio professor, que, de um lado, não domina ainda esses equipamentos e, de outro, também se sente excluído".

E a primeira parte termina, contudo sem antes deixar de assumir contornos ligeiramente difusos no artigo intitulado "Como planejar a pesquisa em leitura". Mas eu perguntaria: como ensinar a planejar pesquisa em leitura para ensinar a ler, em apenas um artigo? Talvez então, este artigo seja o que demande uma leitura mais atenta do que os outros, ou mais lenta, mais reflexiva, cerebral, abstrata. Quem sabe.

Corta para a Formação do leitor infanto-juvenil, pois até aqui não havia uma idade definida para o nosso público alvo, portanto, supondo que a resenha de um livro que pretende ensinar a ensinar a ler esteja sendo lida somente por adultos, cuidado, entrar-se-á numa área em que nós adultos afundamos no nosso passado e nos recusamos ao resgate de nós mesmos, embora afirmem os psicólogos de plantão, seja esta a saída para todos, nunca naufragar por opção. Sendo assim, coragem, viremos a página e rumemos para a "Natureza e funções da literatura infantil". E tenhamos uma aula de história, para nunca mais utilizar a expressão "cara de bobo como se estivesse num conto de fadas". Os contos de fadas nem sempre comportam as fadas, tampouco desaguam em finais felizes. Pensemos: quanta diferença há entre narrar um conto para uma criança conhecendo as suas fontes, e narrá-lo com a mesma ignorância dos infantes? Ora, se acreditamos que aqueles três porquinhos vivem exatamente como naquela última edição encadernada com capa dura e ilustrações recentes, não haverá nada, um gesto, um tom de voz, um sinal de que há um algo mais, verdadeiro, na história, e ela fica como em nós mesmos, submersa no passado, para sempre. Os dois primeiros artigos são meritórios exatamente por isso, não nos convidam somente a fazer chover batendo com as pontas dos dedos, depois com as palmas das mãos e finalmente com os pés, levando a audiência a imaginar um temporal sobre o telhado. O texto explica e explica bem. Uma aula. Nem por isso o façamos como num quadro de Bruguel (Jogos Infantis) em que ele retrata as brincadeiras de rua com os personagens sem nenhum sorriso nos lábios. E, novamente, adquire-se uma biblioteca, pois um dos artigos tem um lastro de três páginas com referências bibliográficas, portanto valoriza-se aqui o conteúdo – para a forma e estilo há muito tempo nesta própria resenha faz-se vista grossa. Sem culpa.

Parte três, terra à vista: A biblioteca como centro de ações educacionais e culturais. Já anunciava em sua apresentação, a Professora Tania Rösing, na França a biblioteca é um centro irradiador de conhecimento que modela o sistema de ensino. A biblioteca como eixo estruturador curricular. Aos livros! Aos espaços de leitura, aos projetos, conteúdos e animação cultural, à leitura na biblioteca multimídia, entre o poder e o desejo, à sala de leitura como espaço de animação cultural, à política educacional... Apesar destes títulos, os artigos não têm necessariamente o tom de planfletagem, mas não deixam de ser um mote com sabor de um novo paradigma, ou de uma sugestão de novo paradigma, necessário. Com destaque à experiência da Universidade de Extremadura, através do seu seminário interfacultativo de leitura como plataforma de cooperação entre instituições, pela novidade que representa para o educador/leitor brasileiro, e por ser o mais extenso dos artigos do livro – com algumas reservas pode-se, guiado por ele, provavelmente montar-se uma biblioteca modelo – bem didático. Estrategicamente colocado antes do artigo que transporta a contribuição francesa para o tomo, uma referência para os tomadores de decisão na esfera estrutural de ensino oficial.

E aqui, a poucas páginas do colofão, "A biblioteca e a sala de leitura como espaço de animação cultural" se nos abre diante dos olhos com um poema de Antonio Cícero, Guardar, fazendo analogia com o significado da palavra biblioteca que ao contrário de sua origem etimológica não deve permanecer associada à caixa de livros, ao lugar sombrio, inóspito, ranzinza. Se faltava poesia já não falta mais, naveguemos no que o autor sugere, num "território de produção de sentidos".

O fechamento deste livro de coletânea de artigos sintetiza o seu vasto conteúdo no seu último título: "ressignificando a escola", de modo que a biblioteca deve assumir um novo status no processo educacional e cultural. Ponto.

Resumo este produzido por um dos organizadores, não por acaso o criador há vinte e dois anos da maior movimentação cultural literária no Brasil, as Jornadas Nacionais de Literatura, que nasceram no seio do Mundo da Leitura, apelido carinhoso do Centro de Referência e Multimeios da Universidade de Passo Fundo, embrião para o curso de especialização em leitura e animação cultural, fonte para o presente livro, a pura realização de um sonho. Que de agora em diante passa a conter a mesma alma, embarcação e autores, numa coisa só. Leia mais>>>.

Os artigos citados acima são de autoria dos professores Tania Rösing, Paulo Becker, Hercílio Fraga de Quevedo, Maria Fátima Ávila Betencourt, Cláudio Joaquim Paiva Wagner e Eliana Teixeira (UPF); Sérgio Capparelli (UFRGS); Vera Teixeira de Aguiar e Luciana Lhullier Rosa (PUC-RS); Nanci Gonçalves da Nóbrega (UFF); Angela Kleiman (Unicamp); Leiva de Figueiredo Vianna Leal (UFMG); Eloy Martos Nuñez (Universidade de Extremadura, Espanha) e Max Butlen (Academia de Versalhes, França).

Copyright ã 2003 Luís Peazê – escritor e jornalista (MTB 24.338) dirige a Clínica Literária www.clinicaliteraria.com.br


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Leitura e Animação Cultural - repensando a escola e a biblioteca - organizado por Tania M. K. Rösing e Paulo Becker.
Editora UPF
Para comprar e-mail: livraria@upf.tche.br


A Face Oculta: Inusitadas e Reveladoras Histórias da Medicina - Moacyr Scliar
By Luís Peazê

Um ambulatório de histórias disposto em público, ou revisitado, visto que é fruto da seleção dentre centenas de crônicas publicadas por Moacyr Scliar, é A Face Oculta: inusitadas e reveladoras histórias da medicina. O título, contudo, não passa de um ator engessado, sobre uma cama de hospital, durante todo o filme em que é a personagem principal de um enredo que prende do início ao fim, sem trégua. A começar pela ilustração de capa, reprodução de La Cura Della Follia (a cura da loucura) de Hieronymus (Jerome) Bosch (1450-1516), o conjunto anuncia a montagem de um Frankstein que deu certo. Ao contrário da utilização não tão apropriada da mesma pintura de Bosch na capa de Veronika Decide Morrer (Paulo Coelho), A Face Oculta de Moacyr Scliar vence de imediato pela pertinência, conteúdo e habilidade do autor, e conhecimento de causa poder-se-ia acrescentar sem o risco do exagero.

Enquanto Bosch subvertia um costume medieval de extrair pedras do cérebro das pessoas, pintando a extração de uma flor sem deixar de pincelar as cores lúgubres de seu próprio tormento infernal, e do intenso pessimismo e ansiedades do seu tempo, criando para observadores de séculos remotos uma combinação do sórdido com o caricato, oitenta textos de Moacyr Scliar, datados a partir de 1993 até 2001, compreendem um vitral epígono que informa, diverte, emociona, ensina e dá prazer de ler, atributos que todos os livros deveriam transportar.

Felizmente o subtítulo socorre a tempo o que levam as duzentas páginas deste início de um tratamento de insanidades e doenças, digamos, de concepção cultural. Em determinado ponto, após abordar assuntos tais como o tamanho do pênis, a pílula do amor, sífilis, gonorréia, dissecação de cadávares, Jesus, Hitler, o caso de hipocondríacos que chegam aos consultórios com uma lista de males que lhes afligem, ou que a certa altura da consulta se perguntam "o que mais eu tenho, deixe-me ver", e a função do peido na vida do homem comum, MS retira de sua estante mental uma citação de Michel de Montaigne (1533-1592): "Os bons médicos são aqueles que tiveram as doenças que se propõem a tratar", passando-nos a receita que estamos esperando, afinal de contas: "Minha tese: os médicos escrevem para dar vazão à ansiedade que deles se apossa diante da responsabilidade da profissão. Obviamente, isto não faz literatura: todo escritor é um angustiado, mas nem todo angustiado é um escritor. Escrever não é só desabafar, requer o domínio de uma técnica literária. Mas quando um médico escreve bem, podemos ter obras-primas, como é o caso dos contos de Tchekov. Que, entre parênteses, era um excelente médico. Ele dizia que a medicina era sua esposa e a literatura, a amante. Pelo visto, atendia bem às duas." Este é um fragmento de uma das crônicas "Literatura e Medicina, 12 obras inesquecíveis", um desfile fabuloso de referências, aliás o livro é isso como um todo.

Mas até aqui folheamos as páginas de A Face Oculta como se rodássemos um cata-vento, de três pás. Onde, uma avança para a erudição bem medida, vem a outra sobrepor-se com humor e a terceira com a curiosidade frugal, necessária para cativar. Traços marcantes da obra de Moacyr Scliar. O restante, dessas inusitadas e reveladoras histórias da medicina, é dissecado com a candura típica do médico que diz: "vai doer só um pouquinho", enquanto afunda uma agulha enorme no glúteo do paciente. Pois já estamos tão acostumados com o livro em nossas mãos que não percebemos que estivemos mesmo é, convivendo com o autor, num ambulatório ruidoso de histórias, caldeado por   instrumentação, terminologias e práticas milenares que se confundem com a explicação de males atuais. Por fim, dando a sensação a quem lê de estar saindo para um dia de trabalho sorvendo um picolé.

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Editora Artes & Ofícios - Porto Alegre LANÇAMENTO 26/04/2001
224 páginas - 14x21 - ISBN 85-7421-051-X
maria.jpg (2899 bytes) Maria de Cada Porto, um guia de criação literária
Moacir C. Lopes
Ed. Quartet (9a edição)

Por Luís Peazê*

Ao ler uma obra-prima do passado, nós a absorvemos inteiriça, acabada, completa, da mesma forma como olhamos para uma das pirâmides do Egito, mas é preciso desvendá-la. Ou não a lemos, incapazes de compreendê-la, por preguiça, talvez; intuimos que ela esteja desatualizada; ela foge de nossos dedos temporais que querem agarrar somente o consumível instantâneo, a tal ponto, no terceiro milênio, que instruções do tipo misture água e beba já é muito.

Ilusão típica de um marinheiro de primeira viagem. O impacto do contato inicial com a múmia de um faraó, ou simplesmente com a reedição de um autor importante, será sempre mais forte e grave do que os rumores que ainda conservam o mal da ansiedade dos que acabaram de atirar as suas amarras no cais.

Moacir C. Lopes nos dá as coordenadas do rumo verdadeiro em seu Guia da Criação Literária1, uma verdadeira confissão de náufrago, que se vê diante da morte lenta e irreversível, portanto guia.jpg (5936 bytes)sincera, ou de um homem que se despe em público sem pudor para salvar a própria vida, ou provar que é inocente.

É comum o espanto pelas dificuldades ou pelo "inusitado" sobre aquele autor em voga ao construir o seu recém-nascido best-seller, pois este já vem com todas as informações impressas nas orelhas, nas costas e nas cintas e banners promocionais. Poucos se indagam, entretanto, sobre o laborioso trabalho ou golpe de gênio dos antigos escritores, como um Victor Hugo que escreveu numa única noite o romance Os Últimos Dias de um Condenado, e Goethe que levou quarenta anos para concluir o seu Fausto, e Cervantes que utilizou seus nove anos de prisão para ironizar a cavalaria da sua época, cada qual legando ao mundo uma obra ímpar.

Tudo isso Moacir C. Lopes levava a sério quando estreou na literatura no início da segunda metade do século passado e temos o privilégio de lê-lo aqui e agora em carne e osso, resgatado de um naufrágio que nunca foi completamente explicado. Mas enfim, ele está bem vivo, deixe-mo-lo continuar contando a sua história através deste seu amigo, admirador e ingênuo velejador das letras.

Era 1959, Moacir havia escrito e jogado fora os manuscritos, reescrito e jogado fora novamente por seis ou sete vezes antes de publicar o seu romance de estréia, Maria de Cada Porto2, e arrebatar os mais importantes prêmios literários da sua época. Jorge Amado, Luís Câmara Cascudo, Rachel de Queiroz, Antonio Olinto, M. Cavalcanti Proença e Wilson Martins, entre tantos outros nomes expoentes da literatura brasileira, reverenciaram a aterragem de Moacir nas águas da Baía da Guanabara, vindo de alto-mar com cicatrizes do estirpado Estado Novo ainda abertas no lombo. Nos bastidores da política nacional abriam-se estradas no mapa da Amazônia de cima a baixo e pelo seu través e, na barriga do Brasil, Brasília dava chutes prestes a nascer. No entanto, Maria de Cada Porto não tem absolutamente nada a ver com isso. Cita-se aqui estes dados apenas como plotagem, antes de nos perdermos neste oceano, cuja porção equivalente a um copo d’água é tão cheia de rica vida como o embrião do próprio mundo. Atenção, o naufrágio vai começar!

A_Ostra_e_o_Vento.jpg (5015 bytes)Maria de Cada Porto, assim como toda a obra de Moacir C. Lopes (12 títulos) não tem compromissos com teorias literárias, estilística, semântica, semiologia, sintaxe, morfologia ou outras disciplinas e subdisciplinas ministradas em faculdades de letras, mesmo assim é impecável a ponto de Moacir ser estudado por mestrandos e doutorandos e, um de seus mais aclamados romances, A Ostra e o Vento3, ter sido objeto de teses em vários países – mais? – ele é rigorosíssimo com detalhes ínfimos, mas nem tanto, como o uso da vírgula. Para quem tem problemas de respiração mental, ler Moacir não há risco de afogamento nem asfixia; para quem quer aprender a escrever, comece observando suas vírgulas, quando menos esperar você já avançou uma página, estará pra lá da arrebentação.

Aos 17 anos ele resolveu que seria um ficcionista. Começara pela literatura de cordel, depois pelas lendas medievais de Carlos Magno e os Doze Pares de França. Já marinheiro pela vontade de fugir das agruras de um nordeste impiedoso e pelo desejo de conhecer o mundo que se estendia além dos serrotes de Quixadá, aproou para os romances indo ao Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, depois aos clássicos franceses, aos russos, aos ingleses, aos portugueses e por fim, como toda viagem por mar, voltou ao ponto de origem, lendo os melhores brasileiros de todas as épocas. Num dado momento foi em pessoa conhecer e cumprimentar Érico Verissimo, contou-me Moacir, para ver o homem que tinha fôlego para O Tempo e o Vento. Estas andanças foram lhe dando visão espacial e, ao expandir a imaginação, cristalizou-se-lhe uma vontade – de ser escritor. Foi assim que Moacir começou.

Ao topo dos setenta anos de idade, reuniu suas experiências de professor em faculdades de comunicação e jornalismo em um curso de criatividade literária, contrariando o amigo Jorge Amado que lhe dissera certa vez para ater-se exclusivamente a escrever seus romances e não ficar perdendo tempo com outros tipos de escrituras, e muito menos editora, atividades esta que lhe consumiu três décadas de vida e lhe fez um verdadeiro rombo no casco. Raramente os naufrágios dramáticos acontecem em praias abrigadas – ele estava em mar alto novamente, milhas e milhas longe da costa. Aviso aos navegantes e patrulheiros em guarda: Moacir é inocente.

Era um tempo em que a mordaça e autoritarismo da ditadura no Brasil comia a solta, entrava um militar na Cátedra (nome da editora de Moacir), batia na mesa com um bastão – assim mesmo – e gritava: - quero publicar este livro. Um amigo amante de João do Rio me disse que Moacir publicou célebres autores, mais de mil, a maioria estreantes, mas dali também saíram muitos livrosO_Almirante_Negro.jpg (4012 bytes) imperfeitos, mal escritos, apinhados de erros, manufaturados por alguma mão truculenta. Ora, não podia ser diferente. Moacir abandonara o ambiente da marinha oficial brasileira e passou a revelar os porões imundos, reminiscência dos navios negreiros e obscenidades do império e de seu próprio tempo como marujo embarcado. Talvez uma face do estigma que lhe acompanharia vida à fora. Todos os seus livros narram mais de uma dúzia de episódios sórdidos, mas nenhum revolta tanto quanto o Almirante Negro4, história verídica narrada como ficção da vingança dos marujos que se amotinaram contra os maus-tratos desumanos pelos oficiais de bordo. Imaginemos a seguinte punição, seja qual for o delito: colocar um marinheiro amarrado em pé e com as pernas abertas sobre duas bolas de ferro rolando lateralmente com o jogo do navio nas vagas do mar, isto após ele ser castigado com duzentas e cinqüenta chibatadas, e depois atirá-lo no porão escuro, sem água, a beber o próprio mijo, e matar-lhe aos poucos jogando sobre ele água com cal. É óbvio que a marinha de guerra não consentiria que Moacir escrevesse tudo isso, mesmo que teimasse em afirmar que eram trapos de casos costurados na sua ficção. Mais comovente ainda é ter visto no lançamento do Almirante Negro, na Casa de Cultura Laura Alvim (Ipanema, Rio, 2000), membros da família do protagonista para provar que tudo era verdade.

"Novidade não houve, somente a fadiga dos quatro dias de uma viagem calma mas longa como a esteira que o navio desenha atrás de si. No segundo dia caí do beliche com um jogo mais forte; de resto, gastara o tempo em serviço ou lendo ou dormindo (...). Estava de serviço nessa tarde, olho na tela do radar, gritei..."

De repente houve um estrondo e o navio começou a inundar. Correria, pânico, desordem, desmandos, acidentes de percurso – no instante seguinte as balsas são baixadas de qualquer jeito, era o naufrágio. Em pouco tempo o enorme casco de aço afundou e as vozes só eram ouvidas no meio da escuridão porque faziam eco em outras balsas. Gritos querendo uma nesga de esperança de quem estava no mesmo barco, e nestas horas as reservas individuais de toda a natureza se revelam de modo integralmente nu, e a força física, de caráter, personalidade e espiritual nem sempre se nivelam numa ordem lógica, além do quê a onda de sede que cresce dentro do peito de um náufrago é tão implacável quanto as próprias ondulações contínuas e montanhosas do mar revolto. Adicione a incerteza de tudo, salvamento e tempo, rumo e resistência, não há sofrimento maior. Mas você está ali e seu instinto é sobreviver, logo...

Já foi dito em algum lugar que o horizonte a mais de todo o homem que não se contenta em passar em branco por esta vida só vale a pena quando ele aproveita o persurso de seu cruzeiro, e não necessariamente o porto de chegada, mas Moacir contraria esta verdade de modo definitivo. É em cada porto que ele se diverte pra valer e enche o seu Maria de casos tão puros e singelos quanto cruéis e malditos, tão cômicos e comoventes quanto aventurescos e patéticos, tudo visto com os seus próprios olhos, debruçado na borda do convés de um torpedeiro apoitado de prontidão, ou nas ruas em torno de um cais, ou ainda sob o mosquiteiro na cama de uma prostituta saborosa que alguns de seus personagens namoravam até para casar.

Ao contrário de Hemingway que saia da literatura, logo após o bombardeio da Baía dos Porcos, para entrar para a história quando Moacir irrompeu no mundo literário, C. Lopes esbanja artifícios estilísticos, recursos de narrativa, arquiteturas temporais mistas na sua narrativa, e poderia-se dizer Maria é cheia de adjetivos e substantivos – não é por nada que vocábulos, especialmente náuticos, utilizados por Moacir são freqüentemente mencionados como exemplos em dicionários da língua portuguesa. Mas há pelos menos dois pontos de contato íntimo com o estilo de um e de outro mestre: o realismo dos diálogos e a teoria do iceberg daquele, que afirmava ser dispensável escrever tudo desde que o autor tenha profundo conhecimento de causa. De mar e de vida de porto em porto Moacir tinha e continua tendo. Acabo de saber que em breve sairá Onde Repousam os Náufragos5, mais um livro, mais uma de suas histórias de dentro e de fora da caserna, doa a quem doer.

Permanentemente resistente à outra face do seu estigma em terra firme, no solo movediço da crítica literária que parece ser suscetível às letras como se elas produzissem enjôo marinho. Ora, o medo e a falta de fixação em um horizonte mais largo são invariavelmente a causa de um mal facilmente superado, pois há poucos lugares mais seguros do que flutuar no movimento das ondas do mar, ou de um texto original.

Esta reedição de Maria de Cada Porto da Editora Quartet, lembra bem um veleiro de madeira que acabou de circunavegar o globo e descansa humildemente no píer de um sofisticado iate clube. Quem não sabe nada não percebe em seus arranhões e vestígios de corrosão salina a prova dos tesouros e prazeres acumulados. Quem sabe algo, por exemplo olhar de frente para o vento e escutá-lo, cheirá-lo, sem receio de deixá-lo vincar o próprio rosto pelo tempo, já começa ganhando por ler uma obra-prima que não é movida por rajadas passageiras, foi aprovada há mais de meio século, experimentada, insubmergível, por apenas R$27,00. Não se trata de propaganda, é até possível se encontrar um exemplar talvez da primeira edição por R$5,00 num sebo qualquer. Por fim, quem chegou do mar após longo tempo navegando quer os pés no chão; tudo menos o ressaibo comercial.

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* Luís Peazê é escritor, jornalista e consultor. Dirige a Clínica Literária www.clinicaliteraria.com.br Autor de Alvídia, Um Horizonte a Mais (narrativa autobiográfica da aventura de largar tudo, construir com as próprias mãos um veleiro na Austrália e aprender a velejar sozinho no Mar da Tasmânia e depois mais de 5000 milhas no Mar dos Corais, tudo por um sonho).

1. Guia prático de criação literária
Moacir C. Lopes

Neste Guia, Moacir C. Lopes, autor de Maria de cada porto e A ostra e o vento, refaz parte de sua trajetória literária, ensinando a candidatos a escritores o caminho das pedras. Trata-se de um curso completo, que inclui desde uma breve história da literatura, em que gêneros e estilos são comentados, a dicas de como produzir um texto literário com correção, qualidade e original. De tudo o que é explicado, são dados exemplos, o que torna o Guia mais prático do que acadêmico. Fundamental para professores de literatura e promotores de oficinas literárias. E imprescindível para quem quer aprender a escrever como um mestre.

Ed.Quartet – ISBN 85-85696-42-7 – 256 págs. – 14 x 21 – R$25,00

2. Maria de cada porto
(9a edição)
Moacir C. Lopes

Mais uma obra-prima de Moacir C. Lopes relançada pela Quartet. Romance de estréia do autor, Maria de cada porto é uma narrativa ousada que nos conta o drama de marinheiros náufragos que, enquanto esperam a salvação ou a morte, refletem sobre sua rotina a bordo e sobre o seu passado de festas, amores e desamor em cada porto. Ed.Quartet – ISBN 85-85696-52-4 - 256 págs. - 14 x 21cm - R$ 27,00

3. A ostra e o vento
(9a edição)
Moacir C. Lopes

Romance que deu origem ao premiado filme de Walter Lima, Jr., A ostra e o vento. Conta a história do desabrochar sexual de Marcela, uma menina que mora numa ilha e tem como companhia apenas seu pai, um velho e possessivo faroleiro, e um amigo também idoso, Daniel. A aparição do desejo em Marcela coincide com a chegada de um misterioso personagem, que, mesmo sem ser visto, causa a maior reviravolta na ilha. Pequena obra-prima, A ostra e o vento, por sua ousadia e beleza, projetou Moacir C. Lopes como expoente do romance no Brasil e no exterior. Moacir C. Lopes é autor de O Almirante Negro (Revolta da Chibata - A Vingança).

Ed. Quartet – ISBN 85-85696-32-X – 160 págs. – 14 x 21 – R$18,00

4. O Almirante Negro (Revolta da Chibata - A Vingança)
Moacir C. Lopes

Neste romance, Moacir C. Lopes, autor de A ostra e o vento, alia pesquisa histórica à imaginação para reproduzir a luta do marinheiro João Cândido e seus companheiros de motim para se livrar dos maus-tratos sofridos a bordo dos navios da Marinha do Brasil, em movimento de 1910 que ficou conhecido como Revolta da Chibata. Depois de conseguir levantar os mais importantes navios da Esquadra, ameaçar bombardear o Palácio do Catete, então sede da Presidência da República, e outros alvos estratégicos, os marinheiros obtiveram a promessa de que seriam abolidos os castigos desumanos e de que seriam anistiados. Quando devolveram o comando dos navios, foram duramente reprimidos, com fuzilamentos, prisões e outras penas não previstas em lei, numa nova versão de Canudos. Narrativa indispensável para quem se interessa pela história dos movimentos populares no Brasil. Ed. Quartet – ISBN 85-85696-30-3 - 224 págs - 14 x 21cm - R$ 20,00

5. Onde Repousam os Náufragos (no prelo)


A CÉU ABERTO
João Gilberto Noll

Ed. Cia das Letras

ISBN8571645981
Páginas168
Formato14 X 21
Peso0,228 kg cm
PreçoR$ 26,50

Carlos Alberto Pessoa Rosa1

Gargalhava, o mar quase encobrindo meus pés, as ondas se repetindo, sem abismos, portanto sem ecos, o ruído provocado pelas quebras abafava o que nascia em minhas entranhas, é interessante como o gargalhar se aproxima do orgasmo, a água a roçar a areia, nuvens altas, nas mãos a figura de um navio quebra-nuvens: A céu aberto

Comprara o livro há um ano, várias tentativas até conseguir terminá-lo, não compreendia, uma massa esquisita assomava no peito e me afastava da leitura, Noll, quase um sinal, desses pichados nas alturas dos prédios, era o nome estampado no sonho de uma viagem atmosférica, a esquizoidia a percorrer espaços e cenários inesperados, o trabalho com a linguagem, a história de mil e uma noites vivida por ‘personopatas’, rompendo a linearidade, espaço-tempo arcaico, arquetípico, o fluxo contínuo, o próprio título carregado de infinitos, o Ser consigo mesmo, na fragmentação que é a essência de cada um de nós, não na fantasia de uma unidade com presente-passado-futuro, de um Self integrado, mas nas entonações do psicopata, afinal somos variações infinitas do esquizofrênico e do maníaco-depressivo, o homem assumindo o próprio destino, perdido, o Estado e a Igreja sendo incendiados por terroristas anônimos vindos do estrangeiro, a realidade interna e externa cheia de cisões, fragmentos (ex)pulsos, cheia de (im)pulsos destrutivos, amor transformado em sadismo, um pavor das relações de objeto, de carne e osso, dos vínculos familiares...

Agora percebo, pasmado com a pós-modernidade da viagem, cada partícula como um objeto real encapsulado num território particular de personalidade que o engolfou e, diante da liberdade oceânica, posso gargalhar à vontade, ao redor não passo de uma ilusão-continuidade-fluxo, resenha-fruto do que enraivece-inunda, de quando as palavras passam a ser as próprias coisas que os objetos designam, A céu aberto, levou-me à ilha dos Cisnes de Beckett, ao som de Schöenberg, à normalidade de um Artaud, vi as orelhas de Van Gogh em alguma página, Debussy, Ravel...

O horizonte sempre surpreende, este mais um garimpado por Noll, impressões sensoriais movediças em um mundo onírico mas ao mesmo tempo tão reais que nada mais me resta a não ser gargalhar — talvez não passasse de um ciumar o que se manifestava no peito e agora é gozo.

1 Médico-escritor. Publicou ‘A cor e a textura de uma folha de papel em branco’, contos, prêmio ficção nacional CEPE/UBE; ‘Destinos de Vidro’, contos premiados, Ed. Meiotom; ‘Mortalis: um ensaio sobre a morte’, ensaio, prêmio Xerox/Livro Aberto.


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ISBN: 8586488100
Editora:
Ed.Dantes
Páginas:
291

MEMÓRIAS DE UM RATO DE HOTEL
Ed.Dantes
Maciel Arthur Antunes
DR.ANTONIO

by Luís Peazê

O apócrifo "no primeiro crime o maior bandido é sempre a vítima" poderia ser a primeira frase das Memórias de Um Rato de Hotel (Dantes Editora), de Maciel Arthur Antunes, o Dr. Antonio, ladrão gaúcho que atuou no Rio de Janeiro no início do século. Mas ela somente aparece no quarto conjunto de fólios, após um preâmbulo do narrador, de um artigo de João do Rio e de um prefácio de Plínio Doyle. E se não bastasse, há um posfácio, assinado por João Carlos Rodrigues, cujo encerramento outorga ao leitor o benefício da dúvida, quanto ao verdadeiro autor.

Quem não resiste a uma leitura precoce do final de um livro? De acordo com a pesquisa de João Carlos Rodrigues, há somente três exemplares destas memórias impressas: um na Biblioteca Nacional, outro nas mãos de um segundo bibliófilo, mas nunca visto, e este que deu origem a presente reedição.

Qualquer um que empunhe as rédeas da narrativa ou ignição, estamos diante de um desses enigmas que pouco importa se é enigma ou mero golpe de mestre, desde que é obra literária rara, em pelo menos três sentidos.

Do bibliófilo, contemplamos a maneira singular com que certa vez, roçou suas mãos na provável primeira edição deste livro, segundo ele mesmo, de capa muito feia e de autor desconhecido, mas que lhe chamou a atenção pelo título, mais que isso, um termo nele inserido, estranho ao rato de sebos. Ele não conhecia rato de hotel. Mais ainda espantado ficara, com essa anotação manuscrita em uma página solta e alienígena ao tomo original: "O autor deste livro é João do Rio".

Não bastasse a lembrança do estilo rasante e realista do cronista do início do século, sua vertente é-nos oferecida vigorosa e de chofre através da reprodução de um artigo por ele assinado em A Notícia (Rio de Janeiro, 20/08/1911). Realçando a figura de Dr. Antonio, nos chama a atenção de modo curioso, para a representatividade que um país deve ter perante o mundo, até mesmo com relação aos bandidos, anexando a defesa, no mínimo irrefutável "…no mal ou no bem, divisão inicial das religiões de que o código se apropriou indevidamente para criar a polícia, a garantia dos medíocres e a chicana…". Diz ele, com sarcasmo: "A Inglaterra que criou a expressão ‘representative men’, tem representativo para todos os casos…" mais adiante, citando Jack o Estripador, Sherlock Holmes, "o mesmo aconteceu na América com o insuportável Nick Carter".

Nem começamos a leitura propriamente dita das Memórias de Um Rato de Hotel, e temos tanto nas mãos que mal podemos sustentar. Por quanto será inevitável embarcarmos nesta aventura, seja pela recomendação veemente de um colecionador de livros de 94 anos, seja pela desconfiança de que João do Rio é o inventor de tudo e por isso mesmo há um fundo de verdade - um jornalista nunca deixa de ser um jornalista - seja pela habilidade e candura do gatuno Dr.Antonio, seja pela (in?) verossimilhança revelada nas declarações do posfácio do pesquisador João Carlos Rodrigues. Esta aventura, aliás, transportará uma sutileza sui generis que o bibliófilo Plínio Doyle comete quando confessa que não era dado a leitura de romances policiais. E por mais que ele insista, tratar-se o livro deste gênero, fica-nos o tempo todo a impressão de uma fábula jornalística, e da mesma forma lhe devoramos até o fim, mesmo conhecendo o desfecho.

De um jeito ou de outro passamos a saber tudo sobre o rat’-d’hôtel, e é isto que vai nos interessar o tempo todo, queremos os detalhes da notícia. E sem muito esforço encontraremos um ladrão dentro de nós, não pela afeição ao ato de roubar em si, mas pela beligerância intrínseca à natureza humana, um permanente estado indomável contra a posse-do-outro e a favor do diletantismo puro. Queremos possuir e imediatamente desfrutar. Já nascemos assim e morremos do mesmo jeito.

Dr. Antonio é um flâneur como o era João do Rio, um "bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa…". Vestiam-se impecavelmente e perscrutavam as ruas, embora um com o objetivo de roubar as cenas e degustá-las perdulariamente no jornal através de suas crônicas, o outro para bater carteiras de ricos fazendeiros. Ambos entretanto anteviam o imperceptível. Dr. Antonio revela de início que lia e escrevia quase nada, João do Rio sabe-se, tinha cultura literária suficiente para citar Fausto e Homero, fazer analogias com personagens de Mirbeau e referir-se em vocábulos estrangeiros como se fosse a sua própria língua - diferença entre eles?

Mas a astúcia de um ladrão sofisticado poderia muito bem ter se valido da leitura de apenas esses três nomes, e na hora de contar a sua própria vida jogar ao ar "Cosi il mondo! Como diz Mefístófeles". Gatuno que operava em hotéis do Rio do início do século, foi preso várias vezes, estando na cadeia mais tempo do que esteve em plena atividade, nunca ficou provado um único crime seu, nunca foi pego em flagrante, certa vez teve até que mentir e dar dinheiro para que lhe ajudassem a socorrer um bebê achado na rua, noutra, após roubar a carteira de uma senhora lha devolveu com algumas notas adicionais penalizado com a sua pobreza.

João do Rio dedicou muitas laudas ao ambiente de um presídio, pela ótica dos presos. E tal qual Dr. Antonio, João do Rio conhecia as mulheres mundanas, os punguistas, os vagabundos, as ruas, chegando ao ponto de fazer poesia para elas como se fossem musas. E é assim, que logo no início, nos afeiçoamos à personagem principal desta história narrada de dentro de uma cela, possivelmente ao próprio João do Rio "…no silêncio do frio do cárcere, na escura galeria, tal qual como no Conde de Monte Cristo (de tal forma a vida é um romance!)".

Tanto faz por onde começar uma história, esta por acaso se desenrola de modo linear no tempo, entretanto bipolarizada, pelos pré e pósfácio, faz com que os fatos narrados gravitem espiralados entre um suposto autor imaginário (bem sabemos que João do Rio era o pseudônimo de Paulo Barreto e utilizara outros nomes também) que pode ter existido de verdade, e um cronista que se foi identificando cada vez mais com o ficcional mas que escrevia tudo e somente o que enxergava. Assim, espiando o desfecho ou atravessando pacientemente o seu início, meio e fim bem demarcados quanto as tramas policiais, fique atento para a importância da mentira como elemento subjacente nessas memórias de um rato de hotel. Em pelo menos três oportunidades a existência da mentira é a única forma de se conhecer os verdadeiros culpados do crime, ou se descobrir o verdadeiro crime. Literário?

Numa ocasião Dr.Antônio confessa um crime não cometido e vai preso, talvez por tantos outros que cometera de fato, para se ver livre da tortura. Compra duas passagens para ele mesmo, de Recife para o Rio, e simula o suicídio de um de seus próprios "eus", ao roubar grande soma de um deflorador que fugia a bordo do vapor em que viajavam. Em nota do suposto suicida, acusa o crime hediondo como sendo praticado contra a sua amada, se diz incapaz de matar o agressor fugitivo por isso o afogamento voluntário com todo dinheiro e jóias do criminoso. E passa a viagem inteira consolando-o mesmo que este se sinta aliviado por ter a vida assegurada. A obra em si é verídica, reeditada que está, podendo daqui a um século perfeitamente ser encontrada por outro rato de sebos. Por enquanto nos resta embarcar num tilbury e percorrer os vinte e três anos (1889-1912) de roubos charmosos e prisões ingênuas, num Rio de Janeiro que fervia de transformações físicas e sociais. Vale lembrar que João do Rio desmentiu veementemente o jornal O Imparcial, da acusação de que teria sido ele o ghost writer da série (publicada em A Notícia) Memórias de João Cândido, o marinheiro, o então recém-liberto líder da Revolta da Chibata, episódio histórico ocorrido em 1910 (Moacir C. Lopes O Almirante Negro Ed.Quartet).

Por fim, revendo a peça teatral de João do Rio Que pena ser só ladrão, nitidamente influenciada pelas memórias do Dr. Antonio, pode parecer que Maciel Arthur Antunes quizesse explicar porque fez tudo o que fez – nas mãos do leitor a cumplicidade ou "o benefício da dúvida".

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