Via Ricordi and Vallazze,
near Piazza Aspromonte
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Vai che sei solo!
Como dizer: não há ninguém atrás
de você, ande rápido.
by John Hemingway
20/10/08Milan, além do tráfego caótico, é também a cidade do
ciclismo profissional.
Há a Sei Giorni em
janeiro, um dos principais eventos em ambiente fechado na Europa, a partida da Milan-San
Remo da frente da igreja de SantAmbrogio, em março, e o Gran Finale do Giro, nos fundos do castelo medieval Sforzesco, em
junho.
O Giro di Lombardia
ocasionalmente termina na cidade e em 1992 vi o jovem Tony Rominger vencer a corrida com
seus braços abertos, uns bons cinco minutos à frente da massa de corredores. Eu descia a
Corso Buenos Aires, em direção ao centro, e acidentalmente estava lá. Quando os
competidores restantes vieram emparelhados pela avenida, a 70 Km/ph, sabiam que Rominger
vencera a corrida, mas os segundo e terceiro lugares ainda podiam ser conquistados para um
belo final na Lombardia, pois finalizar bem a
mais antiga "clássica de um dia" era uma grande honra. Para muitos desses
profissionais significaria a diferença entre o anomimato e uma carreira para ser
lembrada.
Vi a massa de bicicletas e num segundo elas haviam
desaparecido, um ímpeto de corpos esguios, quadros ultraleves e pneus incrivelmente
finos. Foi e continua sendo uma combinação de velocidade e beleza intoxicante. As
incontáveis horas de treino, os mais de 40.000 km de estrada, dieta e médico especiais,
ferviam à pressão máxima nos trinta segundos de reta final.
Não havia nada parecido, pensei. E, a despeito dos recentes
escândalos de doping, o ciclismo tem sido um dos mais difíceis esportes.
Devi imparare a soffrire (a gente tem que aprender a sofrer) foi como os meus
companheiros italianos de pedaladas me iniciaram, quando comecei a treinar com eles para
algumas das corridas de longa distância nos Dolomites. Eles me disseram que
se você pretende chegar ao final de uma Gran
Fondo, em menos de doze horas, tendo coberto mais de 200 kms, com 4.000 metros de
descida e subida, num calor escaldante, ou mesmo na neve, dependendo da estação do ano,
então é melhor acostumar-se ao fato de que o ciclismo é um esporte que não
perdoa". É um esporte que lhe empurra ao limite de sua resistência, e quando você
atinge este limite não há como esconder-se. Quando você esgota sua energia, ou tem uma crisi di fame (por não ter-se alimentado o
suficiente), você não vai a lugar algum, simplesmente para.
Milão é plana como uma mesa de bilhar, mas ao sair da cidade
e passar a pista de corrida de Monza, a estrada começa a subir. Se você continua
pedalando, como nós fazemos frequentemente, a aproximadamente 40 kms alcançará Como ou
Erba, e a partir daquele ponto você não tem opção a não ser subir, se você quiser
chegar até o outro lado e apreciar a vista do lago. Uma diferença interessante, eu acho,
entre os EUA e a Itália, são as estradas das montanhas. Nos Estados Unidos,
especialmente no oeste, desde que eles começaram a usar dinamite, muito raramente as
montanhas passaram a ser vista como obstáculos. A idéia era tornar a coisa prática e
alongada, gradientes graduais eram preferidos no lugar das estreitas, acentuadas e
serpeantes estradas que se vê na Itália. Muitas estradas que sobem são, na verdade, o
que eles chamam de "vecchi mulatieri", antigas trilhas de mulas que o exército
construiu e utilizou na Primeira Guerra Mundial. Algumas dessas trilhas tem um gradiente
de 20% ou mais, o que implica em subir pedalando sem poder sentar no selim, porque a roda
dianteira irá elevar-se e você não pode ficar muito inclinado para frente, pois sua
roda traseira irá tender a sair de sob o seu corpo. Você tem que achar a posição exata
no centro do quadro, para manter a mesma pressão sobre os dois pneus.
Não é preciso dizer que estes aclives são extremamente
cansativos, e em corridas de longa distância, onde você não tem apenas um trecho de 10
km de subida para terminar, mas usualmente uma série deles, e uma das expressões mais
ouvidas ao se passar por um ciclista é: chi me lo fa fare?" (quem me mandou
fazer isso?).
Pedalando com esforço na subida, com as pernas pesadas e
pingando suor de cada poro do seu corpo, você se pergunta como alguém pode ser tão
insano em tomar parte nessa metáfora de tortura em massa sobre duas rodas, e ainda pagar
para isso. Naturalmente que você também ouve com frequência a expressão:
Hai voluto la bici, pedala! ou quis a bicicleta, agora pedala!
Ao longo dos anos eu conheci muitas pessoas com a mesma
paixão pelo ciclismo, mas com certeza a mais interessante foi Robin. Em 1987 eu precisava
arranjar trabalho e me inscrevi num treinamento para professor de inglês, numa escola de
línguas local. Já havia ensinado inglês, mas sem saber muito de didática ou
gramática. Não que isso fosse um problema naquele tempo. Qualquer um que pudesse
falar inglês poderia se chamar de professor. Na Milão do consumo livre dos anos 80, os
ricos estavam sempre a procura de um novo símbolo de status, e aulas particulares de
inglês eram uma novidade relativa. Robin era de Liverpool e mudara para Milão para ficar
com a sua namorada italiana.
Ele era bem alto e desajeitado, tinha cabelos curtos e negros,
uma cara longa e pálida e olhos azúis. Ele tinha um senso de humor excepcional e estava
sempre fazendo as pessoas rirem. Era desinger e estudara em uma das melhores
escolas da Inglaterra, e obviamente sentia-se satisfeito por estar em Milão, porque era
onde "o design acontecia". Ele tinha muitas idéias e trabalhava num
estúdio na cidade. Disse-me que queria desenvolver o que ele chamava de "móveis de
baixo custo para o povo", coisa de qualidade que todos pudessem usufruir. Mas não
estava tendo muita sorte. O desinger, para o qual trabalhava, basicamente se
apropriava de suas idéias lhe dando muito pouco em troca. O que era um lugar comum em
Milão. Um aprendiz usualmente trabalhará por nada no que os milaneses chamam de
"stage". Você aprende do mestre e, se ele lhe enganar, você mantém a boca
fechada, e algum dia você se torna um mestre também.
Era uma relação que os italinos entendiam, mas Robin, sendo
britânico, não podia compreender. Ele tivera sucesso em tudo o que fizera. Era
intensamente competitivo e enquanto adolescente participara de uma corrida de bicicleta de
nível nacional, em pista de ambiente fechado, e vencera. "Não há nada como a
velocidade", ele dizia.
Amava bicicletas e pensava abrir sua própria loja antes de
decidir se tornar piloto e alistar-se na Força Aérea Real. Voava em Tornadoes
nas Scottish Highlands e acabara de completar seu vôo the treinamento quando sofrera um
acidente.
Desempenhava uma missão de fuga de radar, em baixa altitude,
e teve que ser ejetado de seu avião no momento em que voava de cabeça para baixo. Isto
quer dizer que ele primeiro foi expelido em direção ao chão, e depois puxado para cima,
para o ar. As forças da gravidade foram tão intensas que, ao descer de paraquedas na
terra, ele estava num estado de choque, e acabou caminhando sem rumo por dois dias, até
poder organizar os pensamentos.
Quando reportou-se ao seu oficial de comando, foi declarado
"AWOL - absent without leave" (infrator por abandono de trabalho sem motivo
aparente ou aviso prévio) e repreendido. Para Robin isto foi como "já que você
está caindo, agarra-se na toalha e derruba tudo no chão", fez com que ele
refletisse sobre muitas coisas.
Começara a perceber, refletindo sobre os membros de sua
classe que haviam morrido em vôos de treinamento, os documentos que ele vira sobre o
procedimento de proteção da família real e na eventualidade de um ataque nuclear, e a
atmosfera geral de insanidade racional, que eram coisas que ele não podia tolerar, e
pediu baixa. Deixou a Força Aérea Real e mudou-se para Londres, para estudar design.
Depois de algum tempo eu perdi contato com Robin, mas, a cerca
de dois anos, após ter feito o curso de inglês, esbarrei com a sua namorada numa esquina
no centro de Milão. Ela disse que os dois haviam terminado e que Robin estava trabalhando
para um artigiano em Brianza, fazendo quadros
de bicicleta.
Aquela foi a última notícia que ouvi sobre ele e algumas
vezes fico imaginando, se ele continua na Itália ou, se voltou para o Reino Unido.
"A melhor coisa é trabalhar com as suas mãos" disse-me ele certa vez, e eu
gosto de pensar que ele esteja correndo em algum lugar numa das bicicletas feitas por ele
mesmo.
Copyright © 2002 John
Hemingway
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John Hemingway
- É historiador, graduado pela UCLA com especialização em
História da América do Sul, é também escritor e colunista para periódicos italianos.
Concedeu esta entrevista exclusiva à Clínica Literária© por telefone
e por e-mail, autorizando também com exclusividade, a tradução de um artigo recente
publicado em O Libero, de Milão, onde dá um testemunho tocante sobre "Por
quem os sinos dobram", isto é, a trágica conta de suicídios em sua
família, iniciada por seu bisavô, seguida por seu avô, o famoso escritor Prêmio Nobel
de Literatura (1954) Ernest Hemingway e continuada por seus filhos,
incluindo o próprio pai de John e outros netos de Ernest.
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