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Edicola - o que nós temos aqui?
Um rápido olhar em Milão, de dentro de uma banca de jornal na Piazzale Loreto

by John Hemingway
20/10/08

Há quanto tempo eu vivo em Milão? Metade da minha vida, mais ou menos, ou certamente mais tempo do que já vivi em qualquer outra cidade, incluindo Miami.

Voltando no tempo, quando eu estudava na UCLA, no início dos anos 80, se alquém me dissesse que eu acabaria vivendo dezoito anos aqui, tenho certeza que eu daria uma gargalhada. Sempre quis ir à Itália, mas Milão não se encaixa exatamente na idéia que eu tinha da itália. Não é uma cidade turística ou ensolarada. Para ser honesto, tenho que dizer que ela é bem acinzentada.

Mas aí é que está, muitas coisas mudaram desde que eu cheguei em Milão. Para começar, aqui não há muita gente. A partir de 1984, em torno de 200.000 pessoas mudaram-se para os subúrbios, embora durante o dia dificilmente nota-se a diferença. Há carros por todo o lado, e o tráfego, em dias de chuva, or quando há uma batida no trânsito, literalmente engarrafa e pára. Milhares e milhares de trabalhadores são despejados na cidade todas as manhãs.

A paixão dos italianos por automóveis beira à obsessão, e o norte da Itália possui uma densidade de carros per capta maior do que em qualquer outro país, Estados Unidos incluído. Para todo o italiano, "La Macchina", ou o carro, nivela-se no topo com o amor materno e o café, na lista de itens essenciais para se viver bem.

Um italiano sem um carro não é um italiano, e um estrangeiro a pé é ainda mais patético. Eu tinha um carro há cerca de um ano, um Citroen AX 1989, mas raramente utilizava-o e era um desperdício de dinheiro com o seguro, assim, acabei me desfazendo dele. Voltei a ser um pedestre e não posso dizer que sinto falta de dirigir.

A maioria das coisas de que eu preciso estão à distância de uma caminhada. Se eu preciso de um pão ou de um litro de leite, há uma padaria do outro lado da rua. Compro meus jornais na banca na Piazzale Loreto. Moro no começo da Viale Monza e desta forma, todas as manhãs, antes do café, caminho com o meu cachorro até a banca de jornais, edicola, para apanhar uma cópia do Corriere.

As edicolas são do tamanho de um galpãozinho de fundo de quintal e dentro delas há espaço para duas pessoas, talvez três, se movimentarem. Elas têm um pouco de tudo e o que se vê em primeiro plano depende do horário.

Após a meia-noite são expostos os vídeos pornôs que normalmente ficam meio escondidos atrás de uma cortina de contas. Durante o dia esses vídeos vão para o segundo plano e à ireita, logo na entrada, ficam todas as revistas estrangeiras - a edição americana da Playboy, as egípcias e indianas equivalentes da  People Magazine, Der Spiegel, Point du Vue, National Geographic e a usual seleção: Time, Newsweek e a The Economist.

À esquerda ficam os jornais, estrangeiros e nacionais, e então todas as revistas de automobilismo, misturadas a lançamentos ultrapassados de vídeos e livros que uma vez foram parte de campanhas promocionais de jornais. Os italianos, generalizando, não lêm muito, e quando eles absorvem as notícias e novidades tendem a fazê-lo pela TV. Desta forma, os jornais sempre utilizam algum tipo de truque publicitário para vender mais cópias. Neste ano a maioria deles está oferecendo vídeos, enquanto que no ano passado foram livros de culinária, com fascículos que devem ser colecionados semanalmente, e antes disso foram as enciclopédias em CD-rom e o dicionário ilustrado Inglês-Italiano.

Há também modelos de carros, tanques de guerra e bonecas para crianças, tudo ladeado pelos vídeos pornográficos. Espaço é ouro neste quiosque entupido, como em todos os lugares de Milão, o que faz das coisas acasalarem-se num estranho visual.

No desfile de novos calendários (outra obsessão italiana) para o próximo ano, somado à safra básica de bundas nuas de belezas mediterrâneas, há um calendário tricolore com o perfil de Mussolini. Perguntei ao dono da edicola se não era anormal ter um calendário de Il Duce e ele me respondeu que eu ficaria surpreso com o número de cópias vendidas. "Há uma espécie de revivescência no ar", ele confidenciou.

Acima dos calendários, logo atrás das decorações de Natal, há as revistas de informática. A maioria dos milaneses tem um computador, mas não são muitos os que estão conectados à rede da internet, apesar de que Milão é a única cidade do mundo completamente cabeada com fibras óticas.

A Itália, deve-se lembrar, é uma terra de contradições. É o país do Papa e da Igreja Católica, onde a maioria dos italianos é assumidamente católica, mas onde raramente alguém vai à Missa afora nas datas de Natal e Pácoa.

É um país de pessoas fascinadas por todas as coisas estrangeiras, que adoram salpicar palavras de outras línguas nas suas conversas e propagandas, mas ao mesmo tempo estão convencidas de que a Itália, apesar de todos os seus problemas, é o lugar mais lindo do planeta, e sua cozinha não perde para nenhuma.

Com relação à comida não há como argumentar. Pode-se reclamar da burocracia ou do tráfego, ou até do clima, mas nunca será possível criticar a culinária italiana. E se alguém criticá-la é porque não entendeu nada sobre a vida e o que faz tudo nela valer a pena.

A grande distinção entre americanos e italianos é que os primeiros comem para viver, e os segundos vivem para comer.

Para cair nas graças de um italiano basta conversar sobre comida. Pergunta-se a ele qual o seu prato favorito e nove dentre dez vezes provavelmente será algo que nunca se ouviu falar, alguma coisa regional, talvez conhecida apenas por sua gente da terra natal lá do sul. E, quando ele for do sul, provavelmente insistirá com um convite para provar um desses pratos em sua casa.

Aí vêm os vinhos. Há tantos deles, uma variedade tão grande oriunda de toda a península, que uma vida não seria suficiente para prová-los todos.

Meus favoritos são o Marzemino e o Prosecco, de Veneto, qualquer Dolcetto de Piemonte e um forte, no entanto macio, de Puglia, chamado Primitivo di Manduria.

A edicola tem um grande número de revistas dedicadas aos vinhos e à comida, mas eu compro um exemplar apenas quando minha esposa está procurando uma nova receita.

Resumindo, há lugares piores no planeta, onde uma pessoa poderia viver. Milão não tem o mar com o qual eu cresci em Miami, ou os grandes espaços do Oeste Americano, mas se come bem aqui. Ou, como os italinaos dizem, bisogna acconentarsi, a gente deve ser grato por aquilo que tem.

Copyright © 2002 John Hemingway
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John Hemingway - É historiador, graduado pela UCLA com especialização em História da América do Sul, é também escritor e colunista para periódicos italianos. Concedeu esta entrevista exclusiva à Clínica Literária© por telefone e por e-mail, autorizando também com exclusividade, a tradução de um artigo recente publicado em O Libero, de Milão, onde dá um testemunho tocante sobre "Por quem os sinos dobram", isto é, a trágica conta de suicídios em sua família, iniciada por seu bisavô, seguida por seu avô, o famoso escritor Prêmio Nobel de Literatura (1954) Ernest Hemingway e continuada por seus filhos, incluindo o próprio pai de John e outros netos de Ernest.

Entrevista:

CLÍNICA LITERÁRIA: Sr. John Hemingway, falando sobre hábito de leitura, tendo sido educado na América, neto do Prêmio Nobel de Liteatura 1954, sendo historiador, professor, escritor e colunista vivendo na Europa, como o Sr. vê o futuro da "leitura" colocando em perspectiva as tendências das diversas mídias e veículos de multi-leitura - embora estejamos tratando aqui de um processo muito lento que não pode ser abordado antes de um macro período de tempo? -- Considerando a massiva produção editorial de literatura tendendo cada vez mais e ser produzida por um número cada vez menor de publishing houses (i.e.globalização), onde cada país puxa a sardinha para o seu assado, mas como sabemos a água tende a escoar sempre pelo lado mais profundo. Sabemos que a pergunta é meio longa, mas, ora, queremos conversar sobre leitura.

JOHN HEMINGWAY: Bem, sou otimista quanto ao futuro dos livros e da leitura e da literatura em geral. É verdade que vivemos numa era onde a mídia visual (televisão e cinema) tende a dominar, mas elas são, pelo menos na minha opinião, mídias passivas. Isto é, aos espectadores é dada a história que o diretor quer que eles vejam. A literatura, por outro lado, é ativa. O leitor obviamente está lendo o que o escritor escrveu, mas ele (leitor) tem que imaginá-la, e a visão que cada pessoa faz daquela imagem é singular, única. Nós criamos, cada um de nós, nossas próprias realidades virtuais bem personalizadas cada vez que tentamos imaginar a personagem ou a locação descritas num livro. Mentalmente isto é muito mais criativo do que simplesmente sentar diante da TV ou de uma tela de cinema. Não que eu seja contra estas mídias, longe disto, por favor, apenas penso que LER tem esta dádiva.

CL - Qual é a sua fomação como leitor, quero dizer, o que e como foi desenvolvendo e aperfeiçoando espontaneamente o seu interesse por literatura através do tempo? E o que o Sr. lê hoje em dia?

JH - Minha formação como leitor? Boa pergunta. Acho que quando eu era bem jovem a minha leitura esteve muito ligada à natureza e ao mar. Na minha adolescência eu lembro um grande número de Heinlen (Stranger in a strange land) e Asimov e praticamente tudo o que estivesse ligado à ficção científica. Claro, todos os livros de meu avô e outros grandes escritores americanos, Fitzgerald, Steinbeck, Faulkner, etc. De escritores atuais eu tenho que dizer que o meu favorito é o Paul Auster. Seu "New York Trilogy" é um assombro. Borges é outro favorito. Estudei espanhol na universidade e li muitos de seus livros em espanhol. Gabriel Garcia Marquez é um gigante e é um escritor que eu acho me influenciou bastante, profissionalmente falando. Posso estar errado, mas eu acho que ele é alguém apaixonado pelo som das palavras. Neste sentido, um verdadeiro poeta.

CL - Por favor, nos fale dos seus projetos profissionais.

JH - No momento, em paralelo ao trabalho como professor de história e tradutor, escrevo contos e artigos para jornais. Artigos como este que Luís Peazê traduziu, publicados no Libero, aqui na Itália. Os contos devem ser em breve publicados por uma editora nos Estados Unidos.

CL - Bem, não poderíamos perder a oportunidade de lhe perguntar sobre o seu ilustre avô, Ernest Hemingway. Lembra-se de algum comentário dele dirigido aos leitores em geral?

JH - Infelizmente ele se foi quando eu ainda era muito pequeno. Meu pai me falava bastante dele e disse que Ernest acreditava que um escritor tem que trabalhar duro, e era isto o que ele fazia. Que ele tem que didicar-se totalmente na sua arte, ou ofício, era o que ele dizia. Papai também me contou que ele disse que "você" tem que ter humildade para revisar ou jogar fora qualquer coisa que "você" escreva que não esteja bom o bastante. Você tem que ser exigente consigo mesmo, porque se você não for ninguém mais será. E é esta a imagem que meu pai me deu sobre meu avô, um homem que não iludia a si próprio, que foi honesto consigo mesmo em tudo o que fez.johnsfamily.jpg (47115 bytes)

Biografia de John Heimingway:

Nasci em 19 de agosto de 1960, em Miami, Florida. Meu pai, Gregory H. Hemingway, era o terceiro filho de Ernest Hemingway. Minha mãe chamava-se Alice Thomas. Tenho sete irmãos e irmãs e sou o segundo mais velho dentre os filhos de três esposas de meu pai. Minha infância foi passada em Miami, mas terminei a High School (1979) em Connecticut, na escola que meu pai era professor. Sou graduado pela U.C.L.A. (University of California, Los Angeles) em 1983 com B.A.em History (specialização em História da América do Sul). Em 1984 mudei-me para a Itália, onde vivo até hoje. Minha esposa Ornella Canedoli é canadense/italiana e temos um menino de cinco anos de idade, Michael. Sou professor, tradutor e escritor.

Uncle Leicester Hemingway

Tio Les
by John Hemingway

Ele era muito parecido com o seu irmão, e à noite, ou do outro lado de um quarto escuro, ou quando você bebia um pouco demais você até pensava que ele era o grande escritor em pessoa. Com pelo menos 1,90m de altura, estatura pesada como o próprio Ernest, o mesmo sorriso largo e a o timbre alto de voz característica de Chicago, meu tio Leicester foi uma pessoa que eu nunca vou esquecer.

Morava numa casa estilo colonial com sua família no topo da ilha San Marino, entre Miami e Miami Beach, e enquanto eu estive lá, entre os anos de 1973 e 1977, havia sempre uma visita para jantar ou beber um drinque. Ele tinha literalmente centenas de amigos e conhecidos e seu entusiasmo por tudo que fazia era tão contagiante que, por onde quer que ele andasse, estava sempre rodado de atentos ouvintes.

Penteava os cabelos pretos agrisalhados para trás e usava um par de óculos com armação preta e pesada que aparentava algo entre um trabalhador de escritório e um poeta beat dos anos sessenta. Era dezesseis anos mais moço do que Ernest e dezesseis mais velho do que meu pai. Era o último filho vivo e tem muitas coisas de sua personalidade e caráter que me fazem lembrar de meu pai Gregory e meu avô Ernest.

Gostava de estar rodeado de pessoas e se divertir, mas podia também permanecer longamente solitário. Se houvesse alguém por perto para conversar ele conversaria, mas frequentemente lá estava ele no quintal dos fundos, ouvindo o vento nos pinheiros, pensando sileciosamente, empilhando achas de lenha que ele utilizava quase todas as noites na lareira. Nunca me falou muito sobre a sua família, mas eu sei que ele amava o seu irmão e que tendia a culpar a sua mãe pelo suicídio do pai. Obviamente que você não poderia afirmar que minha bisavó foi a culpada. Uma depressão clínica desenfreada atacou a família -- o pai e mais três filhos cometeram suicídio até então. Desta forma era mais fácil culpar alguém do que lidar com a realidade de uma má sorte genética. 

Tal qual meu avô, Tio Les era um grande viajante. Estava sempre pronto para ir para algum lugar e consumiu grande parte da sua vida pulando de ilha e ilha no Caribe. Depois de servir o exército, durante a guerra, ele foi diretor de uma compania de navegação nas Ilhas do Caribe por dois anos, depois disso, nos anos sessenta e setenta, ele dirigiu e imprimia o único jornal das Ilhas Bimini. Chegou até a "criar" a sua própria ilha, ou "república" como ele chamava.

Com uma boa soma ganha com a biografia de seu irmão ele criou uma ilha artificial, sobre uma barreira de corais ligeiramente fora das águas territoriais das Bahamas. Ele chamava o "seu país", do tamanho de um campo de futebol, de "Nova Atlântida". Pensava que entre tantas coisas ele poderia usá-la para ensinar a democracia para jovens e experimentar formas de governo.

Chegou a imprimir o seu próprio selo e fazer uma petição às Nações Unidas para reconhecimento. Até tinha uma foto dele com Hubert Humphrey, o vice presidente de Johnson, pendurada no banheiro de hóspedes de sua casa. Infelizmente a ilha do Tio Les não durou muito. Dois meses após ele conclui-la um furacão a destruiu.

Tal meu pai,    era difícil considerar Tio Les um seguidor da moda. Ele possuia sim um terno e gravata, visto na foto com o vice-presidente dos Estados Unidos, mas seu traje habitual era uma vistosa camisa Cuban Guyabara e uma calça cáqui desbotada. E eu acho que nunca vi Tio Les com um par de sapatos de couro. Preferia canvas dock side ou qualquer tipo fácil de enfiar os pés sem a preocupação que estivessem secos ou molhados, limpos ou sujos.

Muitas pessoas olhavam para o jeito que ele se vestia e para o velho carro de segunda-mão que dirigia achando que ele não era sério como seu irmão e que lhe faltava o trato e a elegância de Ernest. Certamente que ele não tinha a notoriedade e alcançado o sucesso de Ernest, mas isso, o nível de Ernest, eu duvido que qualquer um de nossa família alcançará. Meu avô era uma pessoa difícil de se conviver e acompanhar. Um gênio é um gênio e não pode ser copiado.

Mas Tio Les tinha uma idéia clara do que era certo e errado e como um homem deveria viver. E dignidade foi uma coisa que ele não considerava superficialmente, achava que havia muitas coisas que se poderia fazer para realçá-la ou perdê-la de vez.

Socorrer seus amigos, sua família, quando necessário, era a segunda natureza de Tio Les. Ele não esperava ser convencido, ia e fazia tudo o que estivesse ao seu alcance. Sei disso porque quando eu tinha treze anos minha mãe sofreu uma afecção mental. Ela tinha dupla personalidade, ou esquizofrenia, e esta não tinha sido a primeira vez que ela tinha tido problemas, mas foi a primeira vez que eu, como filho mais velho -- minha irmã era um ano mais moça do que eu, meu irmão seis -- tive que pensar sobre uma solução.

Meu pais haviam se divorciado quando eu tinha seis anos e meu pai foi viver em New York. Estávamos em casa e minha mãe foi presa por dirigir embriagada. Um policial apareceuu na nossa porta no dia seguinte, disse-me o que acontecera e perguntou se havia alguém para tomar conta de nós durante o fim de semana, enquanto minha mãe estivesse detida. 

Respondi que conhecia uma senhora, a mãe de um amigo da escola. Então ele nos colocou no carro da patrulha e nos levou até a casa dela. No trajeto ele percebeu que estávamos nervosos e tentou brincar com a situação dizendo com um sorriso: - vejam todas estas pessoas tolas lá fora. Elas pensam que vocês três estão presos. Anos depois, relembrando aquela viagem eu pensei como ele foi gentil e como deve ser difícil às vezes para um policial.

Ficamos na casa de meu amigo por dois dias e sua mãe foi muito amável conosco e antes de nos levar de volta para nossa casa ela comprou comida e encheu nossa, então,  geladeira vazia.

Minha mãe foi solta, mas duas semanas mais tarde foi presa novamente por dirigir embriagada. Desta vez, quando o policial fez contato com a mãe do meu amigo ela telefonou e perguntou se não tínhamos parentes em Miami. Imediatamente pensei no Tio Les. Porque a mãe do meu amigo explicou para mim que, por causa do péssimo estado de minha mãe, se ninguém da família tomasse conta de nós, o Estado da Flórida iria nos internar em abrigos públicos para menores, separados, um em cada lugar. 

Naturalmente que Tio Les e sua esposa, Doris, disseram à polícia que tomariam conta de nós. E foram nos apanhar num de seus velhos carros, uma viagem pela estrada aterrada Venetian até o topo da ilha onde moravam.

Lembro que no início, mesmo tendo um lugar para ficar, eu não era feliz. Tive que deixar minha escola e meus amigos e estava num ambiente completamente estranho.

Eu devia estar emocionalmente chocado e escrevia cartas e mais cartas para meu pai, seu irmão, meu outro tio Jack, para qualquer um que pudesse, eu pensava, me tirar de lá.

Tudo parecia fora de controle e eu estava tentando estabelecer, do meu jeito confuso, uma forma qualqer de ordem. Foi um período difícil da minha vida e meu Tio Les sabia. Seu pai morreu quando ele tinha 13 anos de idade e por causa do desastre financeiro que a sua mãe teve que lidar ele foi enviado para a casa de sua irmã mais velha e seu marido no Hawaii. Ele nunca me contou isso. Eu descobri anos mais tarde quando alguém me enviou um livro com o título "Hemingway de A a Z" com uma rápida biografia dele, revelando que vivera lá quatro anos de sua vida.

Quando eu estava com treze anos, magricelo e desajeitado como somente um adolescente pode ser, lembro ter dito para ele que achava que eu nunca seria alto e forte como ele. Perguntei como ele era na minha idade. De repente ele perdeu o sorriso, franziu o cenho e disse: "- exatamente como você". Deveria estar olhando para mim e revendo a sim mesmo, um sobrinho tímido e introspectivo. 

Quando eu finalmente desisti de escrever cartas comecei a ler os livros de meu avô. Li Farewell To Arms, Men Without Women, Nick Adams Stories e todos os demais. Fiquei fascinado, eu acho, pela idéia de estar relacionado a alguém que podia escrever tão bem. Parecia tão grande, tão irreal. Mas quando eu tive contato com For Whom The Bell Tolls, Por Quem os Sinos Dobram, lembro que numa tarde estava lendo o livro na mesa da sala de estar daquela grande casa no topo da ilha, era agosto e estava muito quente, muito úmido também, e eu vestia bermuda cáqui, sem camisa, descalço, e Tio Les aproximou-se pelas minhas costas, em silêncio, e colocou sua mão no meu ombro ossudo e disse: "- ele escreveu isto para rapazes como você, Johnny, lembre-se disto".

Acho que jamais recebi, ou nunca irei receber, um cumprimento mais significativo na minha vida. Ele não disse mais nada. Deixou assim, mais foi o bastante. Por Quem os Sinos Dobram é um livro que vai no âmago de tudo o que meu avô acreditava. Sacrifício, coragem, abnegação e tudo expressado lindamente em um poema no início do livro pelo poeta John Donne.

Nenhum homem é uma Ilha, inteiramente em si mesmo; todo homem é uma partícula do Continente, uma parte da Terra. Um Torrão levado pelo Mar diminui a Europa, como se um Promontório fosse, da mesma forma que a Herdade Feudal de teu amigo ou a tua própria também. A morte de um único homem Me diminui, porque eu sou parte do Gênero Humano. Portanto, nunca queira saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti.

Regras para a gente inspirar a nossa vida, sempre pensei, sobre a dignidade de um homem, qualquer homem. Ele não poderia dar-me muitas coisas, materiais, mas no seu próprio jeito subentendido e através de suas ações mostrou-me o que é importante na vida.

Quatro anos mais tarde eu deixei a casa da ilha, a diabetes de Tio Les deteriorou ao ponto dos médicos decidirem amputar as suas pernas, então, para não qurendo se tornar um estorvo na vida de ninguém, terminou ele mesmo com a própria vida.

Copyright 2002, John Hemingway  - Agosto, 2002 - Libero, Milão, Itália.

NOTAS DO TRADUTOR:
"John Hemingway me contou que desde a adolescência mantém na sua carteira o poema de John Donne, que inspira o nome do maior romance de seu avô, Por Quem os Sinos Dobram"

"John me contou também que acabara de escrever o artigo traduzido ao lado, quando eu lhe telefonei para sua casa em Milão, Itália"

"John ficara impressionado com a coincidência, eu estar traduzindo o livro de seu avô, que segundo ele é o mais forte dentre todos, no momento em que ele escrevia o artigo". Luís Peazê 


Montana
Montana
by John Hemingway
(tradução por Luís Peazê)

Quando você é jovem comete loucuras, dizem. Ou talvez faça as mesmas coisas que qualquer um mais velho faria, mas não faz porque é mais sábio e perdeu a espontaneidade que é algumas vezes criativa, algumas vezes desastrosa. Nos meus vinte e cinco anos eu vivia com meu pai em Montana, numa cidade universitária chamada Missoula. Papai ainda trabalhava como médico e eu acabava de regressar aos Estados Unidos depois de meu primeiro ano em Milão, Itália.

Era verão e no início pareceu que tudo ia bem. Papai era maníaco-depressivo sujeito às estações do ano. Quer dizer, se ele não estivesse tomando medicamentos, automaticamente escorregava para a fase de crise tão cedo o tempo mudasse. Quando isso acontecia estar com ele era como fazer um piquenique na ladeira de um vulcão prestes à erupção. A vida tornava-se bem problemática.

Ernest também sofria do mesmo mal e as três de suas novelas inacabadas, publicadas pos mortem, The Garden of Eden, Islands in the Stream*, e True at First Light foram supostamente escritas no fervor de períodos de maníaca-depressão.

Era a condição permanente de saúde de meu pai, que eu lembre, e até 1983 nunca teve problema em reunir os seus pedaços após um ciclo de autodestruição. Mas a última vez foi diferente. Tinha acabado de se divorciar e perdera o emprego após quebrar o nariz do administrador do hospital onde era médico.

Como de costume, com o frio do mês de setembro, ele descia de sua montanha e acomodava-se no estado de depressão, que durava geralmente através do inverno até o início da primavera. Quando lhe telefonei, no final de junho de 1985, ele estava no meio das duas fases e ficou surpreso ao me ouvir. Eu tinha acabado de cruzar a fronteira do Canadá e estava em Buffalo, sem um tostão, pensando se ele não teria uns cem dólares para me dar de modo que eu pudesse chegar até a Costa Oeste.

"Sem problema", disse-me ele, e quis saber quem em particular eu estaria planejando visitar. Para ser honesto tenho que admitir que não havia ninguém na Califórnia nem em Seattle que eu pudesse contar, além dele mesmo, então lhe respondi que estava pensando em visitá-lo. "Você tem certeza que é isto que você quer?" ele me perguntou.

"Faz tanto tempo" eu lhe respondi. Disse e confirmei que era de fato o que eu queria, mas acho que ele não acreditou em mim. Tenho certeza que ele pensou que eu diria qualquer coisa só para obter o dinheiro. Muitos da sua família e amigos mantinham bastante distância dele desde sua crise de 1983 e, enquanto a idéia de ver um de seus filhos lhe excitava, senti que ele já se preparava para o desapontamento.

Papai manteve a sua promessa e quando o dinheiro chegou eu comprei uma passagem da Greyhound para Montana.

Estava contente por sair de Buffalo e pensei que se o pior acontecesse a passagem era válida para qualquer destino dentro dos Estados Unidos, tinha dois dias para pensar (o tempo de viagem até Missoula) e onde quer que eu repensasse revê-lo poderia simplesmente permanecer no ônibus e continuar até o Oeste.

No segundo dia de minha viagem inter-estadual o ônibus parou para o jantar em Butte, Montana, e eu telefonei para meu pai, para lembrar-lhe que eu estaria chegando em Missoula naquela mesma noite, às nove horas. Disquei o seu número umas seis ou talvez dez vezes e ninguém atendeu. No final eu calculei que ele estivesse fora, num restaurante, e estaria lá me esperando quando eu desembarcasse.

A viagem até Missoula levou em torno de uma hora. Quando cheguei lá estava escuro e o ônibus foi para a estação na periferia da cidade. O motorista me ajudou a puxar minha mochila do meio das outras bagagens e eu olhei em volta para ver se meu pai estava lá. Fui a única pessoa a desembarcar e não havia nenhum automóvel no estacionamento.

Entrei na estação e perguntei para o único funcionário de plantão se ele tinha visto um homem de aproximadamente cinquenta anos esperando pelo meu ônibus. "Não" foi a resposta, não havia aparecido ninguém com as descrições que lhe dei.

Então eu telefonei para papai e novamente o aparelho no outro lado da linha tocava, tocava e ninguém atendia. Nesse momento o ônibus partiu e aquele funcionário fechava a estação. Nada mais passaria por lá até às oito horas da manhã seguinte e a menos que eu quisesse ficar trancado na sala de espera, até o outro dia, eu teria que sair.

Joguei minha mochila nas costas e comecei a caminhar na direção da estrada. Calculei que se ele não tinha aparecido e não respondia o telefone então ele não queria me ver.

Restavam quinze dólares do dinheiro que ele me enviou, não iriam durar muito, assim pensei em tentar a sorte pedindo carona. Havia um caminhão reluzente numa parada não muito longe da estação e eu decidi que a melhor coisa a fazer era andar naquela direção. Mas ao chegar no caminhão, seja pelo olhar pouco convidativo do motorista ou porque eu não estava convencido de desistir de meu pai, caminhei em outra direção e passei a noite enroscado no asfalto, numa lavadoura de carros abandonada, mais adiante na estrada.

Acordei meio dolorido na manhã seguinte com os primeiros raios do novo dia oblíquos sobre    as montanhas que rodeiam Missoula. De pé eu podia ver uma neblina rala pairando no centro da cidade, perto de um dos dois rios que a cortavam. Estava contente por ter ficado e pensei que, se não houvesse nada mais, meu pai herdara de meu avô Ernest pelo menos o instinto de escolher lugares estupendos.

Olhando para o vale, a sensação de espaço e silêncio me convenceu que valeria a pena telefonar uma vez mais para meu pai. Então eu caminhei até a parada de caminhões, encontrei um telefone público, disquei seu número e desta vez ele respondeu. Sua voz era sonolenta, ainda estava na cama e acho que ele não sabia quem estava telefonando. Quando se deu conta de quem era pareceu surpreso que eu estivesse em Montana. Desculpou-se por não ter ido me encontrar na estação e explicou que não poderia, naquele instante, me apanhar porque já estava atrasado para o trabalho, deixaria a chave de casa sob o tapete da porta de entrada e um cheque sobre a mesa para eu comprar comida.

Seu apartamento ficava num edifício ao lado de um dos rios. Estava um desastre. Louça suja, latas de cerveja espalhadas por todo canto e uma atmosfera de que ali morava uma pessoa desesperada por alquém que lhe cuidasse.

Fiz o melhor que pude. Limpei o apartamento e lhe devolvi alguma ordem que ele abandonou quando estava deprimido. Nos atualizamos quanto as nossas vidas e ele me falou sobre seus problemas recentes, seu divórcio e como ele estava tentando reerguer-se nas próprias pernas novamente.

Ele estava trabalhando, embora fosse na clínica da Penitenciária Estadual em Deerlodge, tinha um emprego e acreditava na importância do trabalho. Era uma função tediosa que um amigo lhe arranjou após a última crise e tudo o que fazia era olhar a garganta dos prisioneiros e receitar antibióticos em alguns casos de VD.

Pelo menos ele estava praticando de novo e isto servia como âncora, pensei, que poderia segurá-lo quando começasse a derivar.

Durante quatro semanas isto funcionou e eu pensei que era possível desta vez que ele administrasse sua condição psíquica, ou talvez a curasse e daí norteasse uma vida normal como qualquer pessoa que não fosse maníaca.

À noite, quando ele voltava da clínica, costumávamos comer fora, e quando ele tinha uma folga pegávamos o carro e íamos para a reserva Indígena, pescar no lago Flathead, ou para lugares que ele queria me mostrar e onde poderíamos, no outono, caçar veados com arco e flecha.

Numa dessas noites ele não retornou para casa e na manhã seguinte, quando eu estava na sala assistindo TV, a porta da frente se abriu e meu pai deu um passo para dentro vestido como drag queen.

Acho que ele não esperava me ver porque rapidamente deu um passo para trás e bateu a porta. Fiquei parado lá, sentado no sofá e pensei na frase de Ernest "Gigi, eu e você pertencemos a uma tribo muito estranha", ela era verdadeira.

Ele dissera isto para meu pai quando papai foi preso pela primeira vez aos quinze anos por vestir-se como mulher. Eu sabia, como todos na família, que ele gastava muito dinheiro em sapatos femininos e vestidos, mas ouvir era uma coisa, ver era totalmente diferente.

Eventualmente ele voltou, abriu a porta da frente e subiu a escada para seu quarto na ponta dos pés, sobre os sapatos de salto alto e de vestido.

Quando ele desceu, após o banho e vestindo roupas de homem, eu não perguntei nada e ele também não me deu nenhuma explicação. Calculei que se quisesse falar a respeito ele falaria. Nunca falou e eu deixei assim. Entretanto acho irônico que o filho mais moço de Ernest Hemingway, indubitalvelmente mais parecido em termos de inteligência, senso de humor e habilidade para a caça fosse também bisexual.

Ele deveria ser um bom personagem para um dos livros de meu avô. Brilhante, mesmo assim tragicamente fracassado, transportando em si mesmo as sementes da sua própria destruição. 

Depois daquela manhã a raiva dentro dele começou a crescer. Demitiu-se do trabalho na penitenciária e foi tornando-se gradualmente mais e mais agressivo comigo. Qualquer coisa servia como pretexto para uma briga. Um jogo de tênis, uma opinião expressa, a decisão sobre onde ir para um café. Eu estava sendo empurrado ao limite do meu auto-controle e cheguei bem perto de perdê-lo.

Mas antes que isso acontecesse ele foi preso. Tinha tentado trocar um cheque de sua ex-esposa, vestido de mulher, numa drogaria. O juíz ao qual ele foi apresentado soltou-o porque "Montana precisava de médicos", mas lhe advertiu que ao vê-lo novamente iria jogá-lo no xadrez. Uma semana mais tarde, após discutir comigo, forçou a entrada num restaurante para breakfast, sem camisa. Sabia que naquele determinado restaurante ele não poderia entrar semi-desnudo. Quando o proprietário lhe disse que teria que se retirar ele chutou a porta de vidro e a quebrou.

Um policial o prendeu na manhã seguinte e desta vez o juíz lhe disse que ele podeira escolher: ir para uma Clínica de Tratamento Mental em Butte ou para a cadeia até que ele se sentisse preparado para a Clínica. Durante a audiência ele se recusou a reconhecer a autoridade do juíz e foi congelado na cadeia por duas semans até que decidiu internar-se numa clínica.

Neste meio tempo eu estava trabalhando na floresta com um amigo, usando o carro de meu pai para transportar lenha para clientes em Missoula. Não faturava muito, mas não faturaria nada se não tivesse o carro. Então, quando papai saiu da cadeia e foi para a clínica de Butte, me enviou um recado que queria o seu carro de volta. De início fiz de conta que não anotei o recado, mas ele veio até Missoula e me disse que teria que tomar o carro de mim.

Passei aquele dia rodando na caminhonete de meu amigo e à noite tomei uma decisão. Comprei uma passagem da Greyhound até Butte, caminhei da estação até o estacionamento da clínica e lá estava o seu carro estacionado. Tinha um jogo de chaves reservas comigo, então eu abri a porta liguei o carro e sai dirigindo.

Passei um mês e meio trabalhando em San Diego até que recebi um telefonema de papai. Ele me ameaçava denunciar para a polícia como ladrão se não devolvesse seu carro em Montana. Lhe disse que devolveria, mas em vez disso comprei uma passagem àerea para Milão. No dia da partida despachei as chaves pelo correio, do aeroporto de Los Angeles, com um bilhete lhe dizendo que lamentava muito tudo aquilo.

Em janeiro ele me escreveu dizendo que não guardava mágoa de mim e que provavelmente teria feito a mesma coisa se estivesse no meu lugar.

Copyright 2002, John Hemingway

NOTA DO TRADUTOR: Gregory Hemingway (69), pai de John Hemingway, morreu em outubro de 2001 na penitenciária feminina em Miami, pois havia se submetido a cirurgia para troca de sexo e passara a se chamar Gloria Hemingway. Foi casado quatro vezes e teve sete filhos.

Segundo Lorian Hemingway, uma das filhas de Gregory H.,``Papai era um homem de grande compaixão e vivia em constante auto-procura... Acredito que ele queria mais que tudo favorecer as pessoas e ser amado". Lorian Hemingway escreveu "Walk on Water" (livro de memórias), indicado para o Prêmio Pulitzer de 1999.

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Luís Peazê  português - english - espanhol

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