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JESUS CHOROU

No livro dos livros, que é dividido em capítulos fragmentados em versículos curtos, consta que o menor deles é: Jesus chorou. Uma engenharia editorial jamais superada. Para conferir a sua menoridade leia em João 11:35, e constate também a sua condição de verso acataléctico. Ali, além de não faltar uma só sílaba, tudo está dito. Aproveite e leia a história sobre Betânia, ou pelo menos O sinal milagroso.

Oremos, digo, pensemos: a civilização está cheia de sinais, gestos significativos e frases testamentais que influenciaram o curso da história, e até de verdades apócrifas, onde, parece, o seu tamanho está ligado ao seu poder de absorção universal, quanto menor mais eficaz. Vou falar de Lula, me dê um tempo, e, inspirado na arquitetura bíblica de economia de palavras, espero falar da Rosinha também.

Como negar o efeito de frases tais como: Lázaro, venha para fora. Minutos depois, o morto de quatro dias, ressuscitado, estava sentado à mesa comendo com as irmãs e convidados. É uma passagem forte, registrada na Bíblia – como duvidar? Mais um exemplo, contemporâneo: como desdenhar o efeito da frase, “deixo a vida para entrar para a história”, e não refletir que a lama teria matado o suicida autor da sua própria inscrição lapidar, tirando-lhe o privilégio de purificar-se de um ressaibo histórico. Salvou-se com uma frase de efeito. De algum modo ficou vivo para sempre. Está complicado? Paciência, estamos nos tempos bíblicos. É preciso fé.

Victor Hugo, autor do épico Os Miseráveis e do Corcunda de Notre-Dame, tem como sua verdadeira obra-prima Os Trabalhadores do Mar, comovente pela exaltação do trabalho, da dedicação e perseverança. Ele acreditava que as três lutas do homem são a religião, a sociedade e a natureza. Que apontam para as suas três necessidades: precisa ser, daí o tempo; precisa criar, daí a cidade; precisa viver, daí o arado e o navio, para ir e vir, talvez. Mas há três fatalidades iminentes, nessas conclusões: a dos dogmas; a das leis; e a das coisas. Em Notre-Dame, Victor denunciou a primeira. Em os Miseráveis ele revelou a segunda. Em os Trabalhadores do Mar ele indicou a terceira. Às três fatalidades junta-se o coração humano, eternamente inexplicável. Começo a me aproximar do torneiro mecânico que recebeu o diploma de presidente. Lula chorou.

O povo havia morrido, fedia, os seus órgãos bons eram gradualmente infectados pelos órgãos vizinhos em estado de putrefação, e metade do país não percebia. Houve a catarse, as urnas encheram-se de votos de esperança, operou-se um milagre aparente, como afinal de contas são todos os milagres, e tudo mais sobre a terra, posto que a vida não passa de uma tremenda ilusão, como dizem os técnicos em economia – são os humores do mercado, a única coisa palpável.

Antes mesmo da sua posse, já há Marias e Martas ungindo os pés de Lula com bálsamos de nardo puro. Antes mesmo dele chegar oficialmente à rampa, já acumulara frases de efeito que o comprometem e definem a bíblia dos quatro anos vindouros de mandato. Muitas para destacar. Uma delas foi dita no Dia Internacional dos Direitos Humanos (10/12/2002) que também foi o Dia do Palhaço: “Aprendi, ao longo dos anos, que as principais armas nessa luta são o esforço para informar e informar-se e a determinação de compreender e de ser compreendido”. A outra ele repete quando lhe faltam palavras, ou lágrimas: “eu não posso errar”.

Presidente, imploro: chore, nomeie, opere milagres, vista-se bem, passeie bastante, converse com todo mundo, repreenda os seus discípulos, use e abuse do seu diploma de escolhido do povo, cedo ou tarde um Judas Iscariotes o denunciará, mas enquanto isso não acontece, imploro, beba esta taça três vezes ao dia e na hora da Ave Maria: "eu não posso errar".

Daí a minha preferência pelas frases curtinhas.

PS: Rosinha, prometi falar de Rosinha. Ela foi ao Bill Gates, uma espécie de deus, oferecer-lhe os fundos do estado, ou as aberturas abandonadas do cais do porto, para que ele enfie ali um centro de desenvolvimento tecnológico. Esqueceu a nossa evangélica governadora que o Rio é o berço da Cobra (computadores) e dos serviços de informática, e que há os santos de casa, os melhores programadores do mundo moram aqui. Falta-nos, e isto é grave e fundamental, o hábito da metodologia, mas Rosinha, ora, isto é uma questão de catequese, nada mais, deveria ser a sua praia, portanto ore também: "eu não posso errar". Pelo amor de Deus. A propósito: perguntei a Carol Rava, Public Affairs da Bill & Melinda Gates Foundation, se há projeção no gigantesco orçamento daquela instituição para investimento em educação no Brasil, e lá de Seatlle ela respondeu curto e grosso: não.

Rocinha
Rocinha e Alagados são mostras de desrespeito a direitos
[matéria da BBC by Rafael Gomez, Dezembro, 2002]
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25/02/09
Dia Internacional dos Direitos Humanos
Nas Esquinas do Rio – A arte da Inclusão Social
by Luís Peazê

Chegou-me pela internet um texto com o seguinte título: Como melhorar o Brasil? E uma lista de comparações entre países ricos e pobres balizadas na idade dos países, na suas fontes naturais de recursos, qualidades geológicas, dimensões territoriais, capacidade industrial, volume de exportação, comparando até a capacidade intelectual de indivíduos de países pobres com a dos ricos.

Pensei de imediato que estes seriam bons parâmetros para começar a pintar o quadro da inclusão social – e a pergunta do título daquele texto seria a mensagem pretendida – como o pintor parado diante da tela virgem escolhendo estilos e inclinações pessoais.

Percebi olhinhos assustados no escuro, ao nascer, carentes de água, comida e mel. Lendo o teto inexistente, o céu inatingível, as paredes pálidas, a janela sem arco-íris, a terra seca. Seres que nascem famintos fazendo a leitura do mundo sem saber o be-á-bá.

A despeito da tela em branco, tudo ao redor me pareceu aglutinar todas as cores, e portanto negro, ou ausente de luz, um quadro óbvio posto que da lista daquelas comparações a diferença básica ressaltada e única apontou para a cor das peles. Uma arte polêmica, é isto que eu vou pintar? Indaguei-me.

Vejamos: lista o texto que a diferença entre países ricos e pobres não se justifica pela idade longeva em relação a emergência recente, visto que países antigos como o Egito e a Índia, com mais de 2000 anos de vida, são pobres, enquanto que, por exemplo, o Canadá, Austrália e Nova Zelândia, há pouco mais de 150 anos eram quase desconhecidos, mas são ricos.

A diferença não estaria também nos recursos naturais de que dispoêm os ricos em relação aos pobres. Pois o Japão, por exemplo, com território exíguo e 80% montanhoso, ruim para a agricultura e criação de gado, é a segunda potência mundial – absorvendo matéria-prima de todo o mundo e exportando produtos transformados, acumulando riqueza feito uma imensa fábrica flutuante no Oceano Pacífico.

A Suíça, que não tem nem mar, possui uma das maiores frotas navais do mundo; não tem cacau, mas tem o melhor chocolate do mundo; possui parcos quilômetros quadrados de extensão territorial e inverno rigoroso durante dois terços do ano, mas cultiva a terra e produz os melhores lácteos da Europa. Japão e Suíça não têm recursos naturais abundantes, mas exportam serviços e tecnologia também, com qualidade insuperável e referência padrão; são pequenos países, mas gozam de uma imagem de segurança, ordem e trabalho, convertidos numa caixa forte do mundo.

A lista deixou de fora os Estados Unidos, cujos índices “produto interno bruto” e “renda per capita” são os maiores do mundo, sem entretanto produzirem de fato tudo o que consomem, importando quase todo o bem que desfrutam, ou produzindo-os off shore, mesmo assim exportam estilo de vida. Dependem do petróleo externo e vendem internamente uma das gasolinas mais baratas no mundo, enquanto a Venezuela, o quinto produtor mundial de petróleo, agoniza tanto quanto o paupérrimo Paraguai. A Malásia, uma pequena ilha, é um dos tigres da Ásia, constrói os arranha-céus mais altos do mundo, o sultão vive no centro da sua capital num castelo com portões banhados a ouro, mas verte miséria nas ruas e arrabaldes mostrando a céu aberto pessoas vivendo abaixo de níveis de pobreza e degradação humanamente inaceitáveis.

Injustiça! Acho que vou começar com este pincel.

Aquela lista ainda inclui a comparação da inteligência de povos de países ricos com a dos pobres. Mas a lista de altos postos executivos da ONU, os quadros funcionais dos laboratórios científicos de empresas privadas multinacionais e de institutos como o MIT, e os bancos das melhores universidades do mundo elencam gente de nacionalidades diversas, logo não há diferença quando se tem oportunidade de educação, que seja absorvida quando se tem condições ideais de alimentação e um sistema de saúde eficiente, e algum dinheiro no bolso, para começar. Achei outro pincel. Acho que já tenho um quadro na mente.

Sem desenhar os contornos do sexo, da raça, da crença dogmática, do rito espiritual. Sem fazer rima pobre com a perspectiva banal. Prefiro o plano infinito, até o tamanho do grão mais fino de areia, partida e chegada, existência, força divina inercial.

Uma pintura quente. Aspergir a esmo. Jogar cores ao léu. Borrifar. Pintar um mundo colorido onde a Declaração dos Direitos Humanos seja uma linha divisória entre o bem e o mal. Tão fácil. Tanto quanto a primeira frase da carta institucional do organismo gigantesco chamado Nações Unidas: “já que as guerras nascem na mente do homem, é na mente do homem que devemos construir as defesas contra a as guerras”.

Quase pronto. Retoque final. Limpar os borrões da hipocrisia, diluir a retórica em formol, raspar as nuances da ironia, emsombrear o ego das tintas, gritar! Ora, misturar todas as cores, cobrir a tela branca e fria com aquele manto negro novamente, um quadro de carne e osso, real, sangue de uma só cor, contendo todas as cores, a cor do juízo final na mente das pessoas que não carecem de inclusão social.

Este quadro ficará exposto para sempre
recomenda-se fazer um minuto de silêncio
e reflexão ao observá-lo.

Copyright © 2002 Luís Peazê
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