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Falta pouco para nunca mais lermos jornais do mesmo jeito

Por Luís Peazê*


O jornal online mudou alguma coisa na imprensa? Procurei um especialista em Internet para especular sobre um certo traço poucas vezes lembrado na mídia e pelas pessoas em geral. O que se escreve e se lê na mídia é algo vendido e comprado ou é notícia simplesmente? Está implícito aí um conceito ingênuo mas que faria sentido. Notícia não se vende, deveria ser gratuita, o que se vende é o espaço para propaganda, que viabiliza a imprensa. Vã utopia, mas vamos lá, o artigo já começou.

Com uma frase emprestada do escritor Arthur Koestler, o Sr. Francisco Camargo, Presidente da CLM Software, empresa de gestão de tráfego na Internet, respondeu a minha primeira pergunta assim: “Depois que a bomba nuclear foi inventada não deu mais para desinventá-la”. E, como uma bomba faz, ele foi logo desnudando sem o menor pudor aquilo que jornal nenhum teria coragem de fazer; contando como é feito o negócio por trás das páginas da Internet.

Enquanto o jornal impresso dispõe do jurássico IVC, que afere a circulação, e de suas pesquisas de mercado, morosas, a Internet dispõe de uma tabulação infernal qualitativa e instantânea, ao alcance de um clique. As conclusões que circulam por aí (na Internet!) é de que o jornal impresso adquire cada vez mais capacidade analítica, profundidade, deixando para a “net” os furos, a instantaneidade. Balela. Há muito mais do que isso acontecendo e a vaca já foi para o brejo, se olharmos direitinho.

Já não lemos mais jornal do mesmo jeito, e falta pouco para nunca mais lermos como antes. Foi isso o que o Sr. Francisco insinuou logo de cara e de modo muito mais contundente. Não dá para “desinventar” a Internet – disse ele –, e ela vai acabar com a imprensa escrita – vaticinou. Ah, ouço um vozerio, assim como diziam que o rádio iria acabar com a chegada da TV, que o livro seria substituído pelo e-book, agora eu digo, isto é, o Sr. Francisco, diz que as letras vão acabar. - Não agora – ajeita –, nem daqui a pouco, levará um tempo. Mas será uma coisa totalmente diferente, com imagem, som, interatividade e provavelmente com outras novidades. Ele lembra que a câmera fotográfica levou mais de 50 anos para atingir o atual potencial tecnológico, enquanto a Internet em menos de 10 anos já modificou o comportamento do homem em vários aspectos. Um percentual razoável da população do planeta, segundo última pesquisa do gênero divulgada nos Estados Unidos, claro, onde há 152 milhões de internautas. O Brasil, segundo o estudo, está em 11o lugar com 13 milhões. Desprezar esses números não é coisa que publicitário algum faria, nenhum gerente de marketing e nenhum empresário de porte, especialmente quando esses números podem ser traduzidos em dados qualitativos, com um simples clique. É aqui que queríamos chegar.

O coleguinha era caixeiro viajante

Perguntei ao Sr. Francisco se a Taxa de Controle de Vendas muito utilizada para aferir a “monetização” (ah, se todo mundo usa essa aberração, por que eu não posso?) na Internet poderia ser utilizada para, vamos dizer assim a “monetização qualitativa em termos de feedback” dos leitores de jornais, no que diz respeito ao tipo de notícia, ao conteúdo da notícia, e inclusive das opiniões, que inundam os jornais? – Claro que é possível - respondeu na bucha – e confirmou que veículos já lhe procuraram para consultar a respeito. O problema é que ele faz eco com uma outra especialista no assunto, a Sra. Daniella Morier que, num artigo na revista digital Webinsider, afirmou que a Internet é uma grande bagunça. Ainda não é possível crer, confiar, na informação que passa por ali. Há uma profusão de páginas, web site, blogs e podcasts, e, um veículo que comunica muito informa pouco (a recíproca pode ser verdadeira, infelizmente). O Sr. Francisco lembra que muitas informações que circulam na Internet são pseudo-verdades. Por exemplo, se eu incluir no Wikipedia que os primeiros jornalistas foram os caixeiros viajantes, especialistas em algum ofício que se metiam a dar notícias; os atuais jornalistas seriam especialistas em notícia que se metem no ofício dos outros; quantas pessoas não acreditariam?

Aliás, numa página (quase escrevi “artigo”) do Observatório da Imprensa encontrada por um programa de busca, sem data, Alberto Dines afirma para estudantes de jornalismo, abre aspas, “Se existe um modelo ideal de jornalismo, (...) é o americano. Chegam as eleições e, no editorial, eles dizem: ‘Vamos apoiar o candidato tal por isso e isso’. Apóiam no editorial, não no noticiário. Aqui, os jornais manipulam.” Não posso discordar do Dines.

A outra questão abordada com o Sr. Francisco Camargo foi a da linguagem na Internet. Considerando-se um conservador ele defende uma forma escrita mais dentro dos padrões oficiais vigentes, ou melhor, correta. Mas ele informou que, no Webmétricas (evento realizado no Rio de Janeiro em 08/06/2006 no Centro Empresarial), debaterá com outra especialista, a Sra. Risoletta Miranda, sócia do Grupo Idéiasnet, que, segundo ele, defende uma linguagem flexível, que evolua com a própria Internet. No mínimo sintomático, pois eu encontrei verdadeiros venenos mortais para a gramática, a semântica e todo um aparato cognitivo na revista digital Webinsider, cometidos justamente pelo seu editor. Teria sido de propósito, Vicente Tardin? Não estou patrulhando, estou me debatendo para sobreviver.

Monetização é o cabeçalho!

O Sr. Francisco lembrou de outra curiosidade interessante. Os jornais têm até hoje a função do copidesque e do revisor, que já foi desempenhada por ícones das letras tais como um Mário Quintana e um Luiz Fernando Verissimo, entre inúmeros imortais. A Internet nasceu, cresceu, pulou a adolescência e ninguém mais segura essa velha, assanhada e turbinada, sem revisor. Por falar nisso, as traduções de notícias das agências de notícias estão contaminadas por veneno similar àquele.

Sobre os programas de busca o entrevistado informou que eles são, ao lado da “monetização”, a maior preocupação dos gurus da Internet. Parece haver uma unanimidade entre eles. De que os programas são precários, ainda que tenham evoluido muito desde as priscas eras da Internet, na longínqua década de 1990. O Sr. Francisco diz que tem problemas para pesquisar na Internet, além da falta de credibilidade nas informações ali encontradas, uma palavra pode lhe devolver 1000 páginas e sua resposta pode estar justamente na página mil. Como saber, se “a gente não tem paciência de passar da página 5”?

Por fim, a sacramental projeção de que os atuais 6% de verba publicitária empregada na Internet nos Estados Unidos atingirão 20%, no Brasil são 2%. Se depender do esforço dos membros da IAB – Interactive Advertising Bureau, podemos apostar, o Brasil e o resto do mundo navegarão nesse mar. E voltemos à questão primeira: leremos jornais como antes? Depois que soubermos que as pessoas estão cada vez mais plugadas na net, depois que soubermos exatamente o que, quando e onde as pessoas gostam disso e daquilo, publicaremos notícias simplesmente ou seremos induzidos a publicar o que é esperado? Por quem? Pensando melhor, talvez seja melhor perguntar “se nunca mais escreveremos jornal como antigamente”?

Pensando duas vezes, talvez seja a hora de criarmos um Observatório da Internet. Mas quem comprará essa briga?


Luís Peazê é jornalista (MTB24338) e escritor, cronista e tradutor de Por Quem os Sinos Dobram, de Ernest Hemingway, dirige a Clínica Literária e o Instituto Brasil Costal, entidade dedicada às questões do meio ambiente marinho e costeiro. http://www.clinicaliteraria.com.br/clinicaliteraria.htm  


lpm-pock234.jpg (7710 bytes)No início de novembro (2003) o escritor Yann Martell ganhou o Booker Prize, prestigiado prêmio literário internacional. O livro premiado foi Life of Pi e o tema central do livro foi inspirado no livro de Moacyr Scliar, Max e os Felinos. A imprensa internacional e o meio literário reagiu tempestivamente sobre a possibilidade de plágio. Os dois escritores foram ouvidos pela imprensa. Martell admitiu publicamente ter tido inspiração no livro de Scliar. Hoje, 14 de novembro, começou a refluir qualquer possibilidade de contenda e a resposta e gesto elegantes de Moacyr Scliar, desde o início, são louvados na presente crônica. 

Elegância de um felino

Ser elegante é raro hoje em dia. Pensando bem, sempre foi. Por isso a elegância encanta, chama a atenção, é na verdade um dom, e dom infelizmente nem todos têm.

No meio das letras, Moacyr Scliar (Max e os Felinos) acaba de ressaltar sua presença, nesta galeria de talentos raros, na academia internacional de livros onde se é preciso visitar de vez em quando e mostrar que o homem, não o escritor que só tem alma, ainda vive, e passa bem.

Alguns seres mortais vivem em permanente naufrágio, nadando, lutando contra o afogamento e a míngua até a morte. Outros dissimulam que estão vivos, vivem economicamente, bancando mortos, preguiçosos, ou medrosos, até que a vida passe. Os imortais também, mas de um modo diferente, e dentre estes figuram os escritores de talento visível enquanto ainda estão vivos.

Ainda que dois dos maiores pensadores, apenas para citar nomes, Jesus e Sócrates, jamais escreveram uma só linha, para concorrer a uma cadeira vaga de imortal, entrar no mundo dos livros, é como navegar, nadar, submergir e flutuar num oceano, sem beber uma única gota d’água, o que somente em casos de grave acefalia não acontece. As consequências são profundas. Escrevê-los, então. É um risco de naufrágio o tempo todo, ou da emoção de se possuir uma ilha de repente.

Deixando a metáfora de lado, fico à vontade neste assunto, posto que com as próprias mãos construí um barco e nele naveguei durante dois anos, sem pisar em terra firme, até escrever meu primeiro livro, olhando para o próprio umbigo, embusca de um horizonte a mais (Alvídia), e o que eu queria dizer é que às vezes a gente tem que perder para ganhar.

Mas aqui temos Yann Martell, que nascera em Espanha, que vivera na Costa Rica, França, México, Alaska, no Irã,
Turquia, e finalmente no Canadá, onde pubicara o livro, que ganhara um dos mais prestigiados prêmios literários na Inglaterra, revelado para o mundo (Life of Pi), o Booker Prize. Livro este baseado na idéia central do livro de Moacyr Scliar. E o que sobrevém? Um duelo subjetivo entre a elegância e a fera, duas facetas que viajam nos ombros de nosso caráter. Água por todos os lados, e a iminência de um temporal.

Bastaria ao Martell enviar o seu livro para Scliar, com uma singela cartinha, agradecendo a inspiração, e todos os ventos conspirariam a seu favor, o resgate antecipado do naufrágio, sem sequelas, pra começar.

Mas ele foi estouvado, bateu na academia das letras um dia antes da assembléia geral, se aventurou no mar sem checar do tempo a previsão, e levou no mínimo um susto letal. Aviso aos navegantes: o homem bóia, agarrado num toco, e pode chegar as nossas praias a qualquer hora.

De outro modo, quando Moacyr declara de um jeito literário, não ter instinto litigante, mas natural, é a vitória da elegância felina e do seu aspecto nobre que no mundo animal parece ocupar o topo de uma cadeia alimentar própria, pois até na hora de devorar a presa o faz com serenidade.

Vemos aquela lambida paciente à sombra de um jacarandá, numa tarde morna e funda, plagiando Érico Verissimo, após o rugido (ou bocejo) “o livro é bom”, entre aspas porque são as palavras de Moacyr, “no fim, quem triunfa é essa metáfora, do náufrago que tem que conviver com uma fera”, onde tudo acontece dentro de nós mesmos – mas que elegância, meu caro Scliar. A Clínica Literária recomenda (e precisa?) enfaticamente a leitura de Max e os Felinos, antes do dilúvio.

Leia também de Luís Peazê:

-Vigário Geral - O Contra Ponto da Chacina
http://www.gilbertogil.com.br/ondazul.htm
http://www.luispeaze.com/artigos.htm

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