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Alvídia,
Um Horizonte a Mais
por Luís Peazê
352 pág. ISBN 85-88053-01-2
Estylita Editora - Rio de Janeiro, 2000
Preço promocional da Conversa no Píer!




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Conversa sobre enchente... e a Primeira Dama?
...lembranças
Nasci e cresci num lugar onde enchente era uma acontecimento pontual, todos os anos. Da
Rua 10 de Maio, número 1099, ia-se a pé até a estrada que
liga Porto Alegre à cidade de Canoas, estrada esta que chamávamos de "Faixa"
e, lá na Faixa, além dos trilhos dos trens que a margeiam, avistava-se o bairro do outro
lado, chamado Rio Branco, coberto de água marrom. Via-se apenas o topo dos postes de luz,
os fios e o bico das cumeeiras das casas. Ao longo da Faixa via-se pessoas e amontoado de
coisas; colchões, mesas, sofás, roupas, utensílios de cozinha, animais domésticos e
tristeza, e desespero, e cheiro ruim; era assim que eu via as coisas na minha percepção
infantil. Sabia que se tratava de sofrimento, ouvia o que os adultos diziam, sentia a
gravidade, mas não entendia como é que aquelas pessoas se deixaram pegar por aquela
situação; não entendia um monte de coisas, como é esperado de uma criança.
Em nosso bairro a enchente era um pouco generosa, alagava as ruas apenas, algumas ruas à
altura do meio das casas, apenas, outras a ponto de remover pontes dos bueiros a céu
aberto, apenas, em outras de tal modo que apenas as marolas provocadas pelos ônibus
urbanos invadiam o terreno de algumas casas, apenas... Durante essas enchentes, eu e minha
irmã muitas vezes íamos "ao colégio" com a água acima dos joelhos;
levávamos o uniforme numa sacola para trocarmos quando chegássemos. Algumas vezes
tínhamos que pular a cerca, dos fundos do nosso terreno, ganhar o terreno baldio em que
eu capinei com a ajuda de amigos para o campinho de pelada, caíamos na água que cobria o
gramado e atingíamos a rua "de trás", que era mais alta do que a da frente de
nossa casa, e caminhávamos quatro quadras para chegarmos ao colégio. Isso acontecia por
volta das 07:00 horas da manhã. No inverno fazíamos esse trajeto sobre a geada, mas esse
é outro assunto.
O que eu sentia e provavelmente influenciou a formação da minha personalidade e
caráter, não vem ao caso aqui; como era chegar para estudar num colégio caro para as
possibilidades financeiras de minha família, e encontrar colegas e amigos sequinhos,
levados de automóvel ou ônibus; como era ter que às vezes pular o muro do colégio para
chegar ao banheiro antes de passar pela frente do colégio sem o uniforme (não era
permitido entrar no colégio sem o uniforme), tomar um banho de criança, limpar o barro
dos calçados do único jeito que uma criança sabe limpar barro de si mesma, tudo isso é
frugalidade, diante dos atuais acontecimentos em Santa Catarina, no Espírito Santo, no
Rio de Janeiro, e não vem ao caso aqui...
A partir de um determinado ano, passei a ouvir que "fizeram um dique" que
impediria a enchente "na" Rio Branco ("na" porque talvez fosse
originariamente uma vila, não sei). De fato, nunca mais houve enchente "na" Rio
Branco, pelo menos cobrindo as casas de água até a cumeeira. No entanto uma coisa
continuou a existir tanto na rua 10 de Maio e em outras do
mesmo bairro, assim como "na" Rio Branco; lama, em dias de chuva, muita lama, e
poeira, muita poeira, em dias secos. Retornei lá há alguns anos, as ruas na maioria
estão calçadas, menos lama, menos poeira, apenas...
Tenho memórias bem frescas daqueles tempos, e, sobre as enchentes lembro bem da minha
avó, a Vó Luiza, que tinha uma loja de roupas e armarinho, que um dia foi fechada, e
produzia vestuário diversos em sua própria máquina de costura, enquanto eu brincava no
pátio à frente de nossa casa. Quantas vezes vó Luiza me chamou para eu enfiar a linha
no carretel para ela... Vó Luiza, em épocas de enchente, enchia uma sacola com roupas
feitas por ela mesma e ia pessoalmente entregar para flagelados; às vezes ela nos pedia,
a mim ou a minha irmã, para levarmos uma pilha de marmitas com viandas e comidas variadas
para deixar com pessoas que havíam perdido seus tetos; íamos a um "Grupo
Escolar", a escola pública do bairro, onde elas ficavam temporariamente alojadas.
Um dia assisti uma cena que, na minha estatura mental de criança, me deixou
impressionado: raspavam a cabeça de todos, adultos e crianças, uma fila de pessoas no
meio do salão da escola; "por causa dos piolhos" me explicaram.
Daquela cena, das enchentes e da fila de gente ao longo "da faixa" guardo até
hoje um determinado cheiro que me trás memórias toda vez que sinto um cheiro rançoso de
coisas molhadas, mofadas: um cheiro de tristeza, um cheiro de desespero, um cheiro de
sofrimento.
Ao contrário do que se possa inferir disso, não é uma lembrança cujo cheiro me dá repulsa;
é uma lembrança de solidariedade, uma palavra que aprendi bem mais tarde, uma lembrança
sonora, da voz de meu avô conversando com minha avó e com meu pai; "temos que
ajudar os flagelados", "separar comida, agasalho", "eles precisam de
abrigo"...
O comportamento de um cruzeirista, pra não dizer que não "conversamos no
píer", pode ser ilustrativo nesses tempos em que nunca foi tão importante
praticar-se a solidariedade voluntariosa...
Essa é a nossa mensagem de Natal, para os leitores da Conversa no Píer,
uma reflexão, um apelo ao exercício da solidariedade, e congratulações pelo Dia do
Marinheiro, 13 de dezembro.
E a primeira dama do país, hein? Por onde anda a primeira dama?

Peazê e o Capitão-Tenente Nei Lira, Agente da Agência da Capitania dos Portos de
Porto Seguro, BA - 13/12/2008, Dia do Marinheiro - ao fundo o pôster da campanha verão
legal exibindo o mascote da campanha, o Marinheirinho Pataxó.
Coversa no Píer©
2006/2008. Todos os direitos reservados à Clínica
Literária©, Conversa no Píer© e à Luís Peazê. Este material não pode ser
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