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Câncer: por que os
médicos não explicam
Uma indústria a serviço do diagnóstico precoce.
por Luís
Pleazê/Clínica Literária - Nov 05, 2009
Até os médicos têm medo de câncer, porque não sabem como derrotá-lo. Mas não é por
isso que eles não explicam para os pacientes e familiares o quão grave é este ou aquele
caso, neste ou naquele estágio, porque simplesmente não sabem ninguém sabe
pelo menos até que se descubra a cura para o câncer.
Recentemente caiu nas minhas mãos um
artigo sobre a epidemia dos diagnósticos, não só de câncer, a chamada moda do
screening, varredura no corpo humano por aparelhos eletrônicos para dizer
(observe, é um aparelho que diz) o que está funcionando mal no corpo humano. O artigo
era uma tradução livre e fui buscar o original, para fazer uma tradução profissional e
publicar na Clínica Literária. Em quize dias minha caixa postal recebeu dois exemplares
do livro Câncer: devo ser testado? Talvez não e aqui está a resposta, do
Dr. Gilbert Welch, M. D., M.P.H. da Universidade de Berkeley, CA, USA, junto com um
contrato para eu traduzir e publicar o livro na língua portuguesa.
O livro é simplesmente revelador, estimulante, e, para mim, a consolidação da seguinte
idéia: não acredite em tudo o que o seu médico lhe diz.
Vale lembrar que no início do livro o Dr. Welch relata que teve experiência de câncer
mortal com familiares; seu pai morreu de câncer quando ele ainda estava na faculdade de
medicina; sua tia, a irmã do seu pai e sua sogra, morreram de câncer. Dois amigos
vizinhos morreram de câncer; quando ele escrevia o livro recebeu a notícia de que um de
seus melhores amigos de infância havia acabado de morrer de câncer, e ele segue dando
exemplos de experiências fora da esfera médica com a doença e a dor que ela causa.
No início do livro ele cita um cartoon exposto na sala de espera de um cardiologista,
para explicar a singularidade maligna dessa doença, que ninguém conhece a cura, chamada
de câncer. No cartoon uma enfermeira corre desesperada no corredor de um hospital, com
uma nuvem de corações atrás sobre a sua cabeça e ela gritando: - socorro, socorro, é
um ataque de coração! Ele conta que utiliza esse cartoon em suas aulas inaugurais para
estudantes de medicina e invariavelmente os estudantes quase morrem de rir.
Mas ele prossegue e indaga: - como é possível brincarmos com a mais comum das causas de
morte em nossa sociedade? Os estudantes retomam a atenção e em seguida emudecem
apatetados quando ele pergunta: - continuaríamos brincando se esse cartoon fosse sobre
câncer? Corra, é um câncer de mama!
O fato do coração estar simbolicamente ligado à paixão, talvez seja uma boa
explicação para podermos brincar com mortes de ataques cardíacos quase morri do
coração, quase botei o coração para fora da boca, etc. Mas ninguém se arrisca a
brincar que quase morreu de uma hora para outra como se tivesse tido câncer.
Eu mesmo, há pouco tempo fui surpreendido com a notícia de morte repentina de um
conhecido e sua esposa (ele num dia, ela no dia seguinte) que vendiam Quinton, uma ampola
com água do mar tão especial que parece milagrosa, conhecidos estes que eram amigos
próximos de um médico com o qual escrevi a quatro mãos O Elo Perdido da Medicina.
Minha primeira reação foi perguntar a este médico: - mas você estava tratando deles,
eles reclamavam de algum sintoma doloroso, sofriam há quanto tempo? Não, foi de repente,
foram acometidos por um tipo de câncer e morreram, em dez dias.
Mesmo
com toda esta dramaticidade, que não é gratuita, o Dr. Welch prova em cada página de
seu livro que estamos sendo cada vez mais compelidos, convidados, condicionados a testes
para verificar se temos câncer, sem necessariamente precisarmos desses testes, e pior do
que isso, sendo lesados de várias formas. E uma lesão não precisa ser um câncer para
nos fazer sofrer, e inclusive nos matar paulatinamente.
Espero encontrar uma editora para publicar a tradução deste livro revelador que serve
tanto para a classe médica, quanto para os indivíduos em geral, mas em síntese o
trabalho Dr. Welch de pesquisa patrocinado pela própria Universidade de Berkeley
transformado em livro esclarece o seguinte:

Os
protocolos médicos estão aumentando o padrão de demanda de saúde e cada vez mais as
pessoas estão sendo consideradas portadoras de doenças; o que era uma tendência à
irritação passou a ser uma alergia crônica, os exemplos de outros males de similar
abordagem são abundantes.
Estudos demonstram que em média os pacientes melhoram mesmo se o tratamento for inútil
ou lesivo.
E com relação ao câncer, resumindo irresponsavelmente as 228 páginas do livro Câncer:
devo ser testado? Talvez não e aqui está a resposta, é o seguinte:
Após o paciente submeter-se a uma varredura eletrônica, um screen, tornar-se
suspeito, e aí está o grande perigo, suspeito de ter alguma desorganização celular,
ele entrará numa rota quase irreversível de terrorismo da indústria do câncer (esta
expressão terrorismo da indústria do câncer é minha).
Em seguida, o paciente com suspeita de um problema de degeneração celular, ou infecção
imprecisa, começará a preocupar-se com a possível doença ruim e seus familiares e
amigos nem vão querer mencionar o nome. Pronto, começou a sofrer, sem ainda saber se tem
ou não tem câncer.
Há outro problema aproveitado pela indústria do câncer: há incontáveis
tipos de câncer, não há um só câncer igual ao outro, todo dia aparece câncer novo.
Então o paciente sofre a coleta de amostra, frequentemente dolorosa ou lesiva e ficou
aguardando o resultado, junto como médico e os familiares e amigos, ou guardou segredo
desses dois últimos.
Raramente haverá concordância de opinião de um patologista para outro. Neste ponto o
médico, que já estava aguardando, começará a estudar (ou não) o caso através de
documentos e casos de colegas de profissão.
E por aí vai, enquanto isso o paciente foi sendo medicado com drogas de proteção,
antepara terapêutica, além de se inserir no procedimento protocolar médico que a cada
dia surge com novidades à velocidade dos avanços da indústria farmacêutica, que por
sua vez estabelece o passo e os assuntos para pesquisa nos bancos acadêmicos (este
parágrafo é inteiramente de minha responsabilidade).
Esclarece o Dr. Welch, num gráfico mostrando as possibilidades de tipos de câncer,
através de uma infinidade de pontos com matizes que vão do branco ao preto, a metade do
gráfico é do cinza claro para o cinza escuro e a outra metade é do cinza escuro para o
preto. Pois os tipos de câncer considerados malignos, povoam a metade mais escura do
gráfico, os benignos ou inclusive inofensivos, ocupam a metade mais cinza do gráfico.

Ocorre que os diagnósticos atestam com relativa precocidade os tipos de câncer benignos,
isto é, bem antes deles se desenvolverem. E os tipos benignos são bem mais morosos para
se desenvolverem do que os malignos. Segundo as pesquisas do Dr.Welch, os tipos de câncer
benignos são na maioria curados naturalmente pelas defesas do próprio organismo, desde
que este organismo tenha uma vida saudável, bem entendido. Há também uma proporção
estatística respeitável de portadores de certos tipos de câncer que nunca souberam da
sua existência, e acabaram morrendo de outros males.
Já o tipo de câncer maligno é diferente. Ele não é fácil de ser diagnosticado com
muita antecedência e um paciente seriamente afetado por este tipo pode ter feito exames,
digamos, seis meses antes e não foi diagnosticado. E aí está o nó gordiano.
Pretendo continuar esse artigo, pretendo realmente encontrar uma editora disposta a
custear a tradução do livro, mas não posso deixar de informar que, ao final do livro, o
Dr. Welch recomenda como fazer para fugir dessa terrível questão: devo ser testado de
câncer?
Luís
Peazê, que já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de
"Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária
Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal,
entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e
costeiro www.luispeaze.com/brcostal

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