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Alvídia - Um Horizonte a Mais
ISBN 85-88053-01-2
Stylita Ed. 352 pgs.


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Crônico
- uma aventura diária -
Nas Esquinas do Rio


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O Punhal de Pedra
ISBN 85-85696-43-5
Quartet Editora, 193pgs
Edição numerada (esgotada)

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Por Quem os Sinos Dobram
Ernest Hemingway
Tradução de
Luís Peazê

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O 1 Simpósio do Semblante Nacional
ISBN 85-88053-02-0
Quartet e Stylita 80 pgs.

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lixomarinhocrianca.jpg (31872 bytes)Lixo - um dia após o dia das crianças
[13/10/2009 foto: Fabiano Barreto Local Beach Global Garbage]

Por Luís Peazê

Lá se foi mais um dia em que ser criança é ganhar presente, rir, fazer qualquer criancice e receber afagos extras. Mas a criança que mora dentro de cada um permanece, arrasta pela vida um esgar para continuar sorrindo, fazendo meninices pela vida afora, contudo, medrosa, impedida, inibida, constrangida e na maioria das vezes mal educada a não fazer nada disso nunca mais, ser adulto, ora, levar a vida a sério. No ano que vem haverá o dia das crianças novamente, e tudo se repetirá, assim como se repetirá, no dia seguinte, o dia internacional do escritor.

Este sim, uma eterna criança que brinca eternamente sozinho, e não tem direito nenhum de ser criança, desde o momento em que começou a escrever, este brincar solitário, esta meninice séria, poucas vezes alegre, infelizmente.

Restam as paisagens originais, como diz Olivier Rolin que criou para si próprio o calvário, escritores criam calvários próprios, tal é a demanda por crescer, abandonar a criança que dentro dele mora, oh, rimou melhor, dentro dele mora e só raramente transborda em poesia. Restam as paisagens originais, que, segundo Rolin, instalam no escritor, eu diria na criança também, sua lavra perpétua, a tal ponto da criança eterna em um Borges declarar que só escreveu uma única vez, a primeira, Fervor de Buenos Aires, depois foram esgares dele mesmo, daquele jato único inicial na sua infância literária.

Mas sejamos objetivos, o leitor é um adulto exigente, uma criança como todas as demais, muitas vezes impertinente: uma paisagem original instalou-se na minha memória num certo dia de sol, ao cruzar a Baía da Guanabara numa daquelas antigas barcas.

Era uma vez um sábado de manhã, a barca estava meio vazia, na fileira de bancos a minha frente ia um pai, uma mãe e uma criança, quase de colo, isto é, já dava seus primeiros passos sozinha. Pelo jeito era gente humilde, a gente diz que é gente humilde por puro preconceito, mas meu preconceito diz isso mesmo, aposto que era gente humilde, e comia batatinha frita de um saco que a indústria chama embalagem “pounch“.

Estavam alegres, eram amenos, sorriam e ajeitavam a fita no cabelo da menina. Ao terminarem de comer a batata frita o pai deixou a menininha caminhar por si só e lhe deu o saquinho de embalagem para ela jogar fora. Fora da barca, pela janela. Ora, a menina não vencia a força do vento aparente, e os pais riam, brincavam docemente com a filha. 

Então o pai levantou-se, pegou a menina no colo, tomou-lhe delicadamente o saco a esta altura de lixo e o jogou com sua poderosa força pela janela, vencendo a física daqueles enormes corpos, barca e massa de ar, água e existência se deslocando sobre o espelho de mar da imensa baía moribunda.

Jamais aquela paisagem original, de delicadeza, de carinho, de paternidade, imagens tão raras, fontes de lixo existencial tão perverso hoje em dia, se dissipará da mente daquela criança, que bom, e difícil será para aquela menina acreditar que lixo não se joga fora de qualquer jeito, pois ele de um jeito ou de outro sempre acabará no mar, até infiltrar-se na cadeia alimentar, e mesmo antes, na sua meninice de lixo também, causará inúmeros outros problemas. Mas isso é para gente adulta, não é nem assunto de escritor.

Luís Peazê – escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor da "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária – Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro www.luispeaze.com/clinicaliteraria


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