Lixo - um dia após o dia das crianças
[13/10/2009 foto: Fabiano Barreto Local Beach Global Garbage]
Por
Luís Peazê
Lá se foi mais um dia em que ser
criança é ganhar presente, rir, fazer qualquer criancice e receber afagos extras. Mas a
criança que mora dentro de cada um permanece, arrasta pela vida um esgar para continuar
sorrindo, fazendo meninices pela vida afora, contudo, medrosa, impedida, inibida,
constrangida e na maioria das vezes mal educada a não fazer nada disso nunca mais, ser
adulto, ora, levar a vida a sério. No ano que vem haverá o dia das crianças novamente,
e tudo se repetirá, assim como se repetirá, no dia seguinte, o dia internacional do
escritor.
Este sim, uma eterna criança que
brinca eternamente sozinho, e não tem direito nenhum de ser criança, desde o momento em
que começou a escrever, este brincar solitário, esta meninice séria, poucas vezes
alegre, infelizmente.
Restam as paisagens originais, como diz
Olivier Rolin que criou para si próprio o calvário, escritores criam calvários
próprios, tal é a demanda por crescer, abandonar a criança que dentro dele mora, oh,
rimou melhor, dentro dele mora e só raramente transborda em poesia. Restam as paisagens
originais, que, segundo Rolin, instalam no escritor, eu diria na criança também, sua
lavra perpétua, a tal ponto da criança eterna em um Borges declarar que só escreveu uma
única vez, a primeira, Fervor de Buenos Aires, depois foram esgares dele mesmo, daquele
jato único inicial na sua infância literária.
Mas sejamos objetivos, o leitor é um
adulto exigente, uma criança como todas as demais, muitas vezes impertinente: uma
paisagem original instalou-se na minha memória num certo dia de sol, ao cruzar a Baía da
Guanabara numa daquelas antigas barcas.
Era uma vez um sábado de manhã, a
barca estava meio vazia, na fileira de bancos a minha frente ia um pai, uma mãe e uma
criança, quase de colo, isto é, já dava seus primeiros passos sozinha. Pelo jeito era
gente humilde, a gente diz que é gente humilde por puro preconceito, mas meu preconceito
diz isso mesmo, aposto que era gente humilde, e comia batatinha frita de um saco que a
indústria chama embalagem pounch.
Estavam alegres, eram amenos, sorriam e
ajeitavam a fita no cabelo da menina. Ao terminarem de comer a batata frita o pai deixou a
menininha caminhar por si só e lhe deu o saquinho de embalagem para ela jogar fora. Fora
da barca, pela janela. Ora, a menina não vencia a força do vento aparente, e os pais
riam, brincavam docemente com a filha.
Então o pai levantou-se, pegou a
menina no colo, tomou-lhe delicadamente o saco a esta altura de lixo e o jogou com sua
poderosa força pela janela, vencendo a física daqueles enormes corpos, barca e massa de
ar, água e existência se deslocando sobre o espelho de mar da imensa baía moribunda.
Jamais aquela paisagem original, de delicadeza, de carinho, de
paternidade, imagens tão raras, fontes de lixo existencial tão perverso hoje em dia, se
dissipará da mente daquela criança, que bom, e difícil será para aquela menina
acreditar que lixo não se joga fora de qualquer jeito, pois ele de um jeito ou de outro
sempre acabará no mar, até infiltrar-se na cadeia alimentar, e mesmo antes, na sua
meninice de lixo também, causará inúmeros outros problemas. Mas isso é para gente
adulta, não é nem assunto de escritor.
Luís
Peazê escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor da "Por Quem os Sinos
Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária Consultoria e
Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal, entidade sem fins
lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro www.luispeaze.com/clinicaliteraria

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