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Literatura - Business - Comportamento - Tecnologia
Sairam as credenciais, e
um material chique produzido com a chancela da Imprensa Oficial (do Estado de São Paulo).
A organização começou a merecere parabéns. Abaixo o relato do início do Fórum:
Fórum
que era da Bienal não é da Bienal
É só um Fórum sobre Livro Digital
Por Luís Peazê - publicado em
10/08/2010 17:55
<<<Em tempo real>>>
Entra evento e sai evento e
eu estou sempre me sentido marinheiro de primeira viagem. Mesmo após mais de 30 anos de
janela. Foi em 1979, a primeira vez que participei de um evento com nome de Fórum,
Bienal, Feira, Trade Show, Congresso, Seminário,Workshop, Oficina, Encontro, até de
Summit eu já participei no Brasil, nos Estados Unidos, na Austrália, na África,
no mundo; aquele foi o I Simpósio de Processamento de Dados em São Paulo e a confusão
na hora de receber as credenciais foi a mesma que experimentei em todos os demais. De lá
para cá, nunca foi um processo natural, para mim.
Então, tomando pelo lado positivo, tudo familiar, sendo assim, mãos à obra, vamos falar
deste Fórum sobre livro digital que ocorre às vésperas da Bienal Internacional do Livro
de São Paulo, no Centro de Convenções do Anhembi, mais precisamente no auditório Elis
Regina. Lindo, de primeiro mundo.
Serão dois dias de palestras, isto é, duas noites, duas palestras em cada noite, um
coquetel na abertura e nada de debates. Opa! Mas não é Fórum, evento em que o debate é
franqueado aos participantes? Não, não neste Fórum sobre o Livro Digital. Até
porque, para lançar mão de uma expressão que se alastra tal qual o é ruim
hein, ninguém merece, chega a chatear, pra não dizer irritar!
Continuando, até porque parece que no Brasil ninguém sabe sobre o livro digital, pois os
palestrantes não são caboclos, nem mamelucos, nem mestiços, de brasilidade mesmo só
há um sopro, o caso de Jean Paul Jacob (com esse nome não poderia ser
100% puro sangue), que é apresentado como engenheiro da IBM, nascido no Brasil mas vive
na Califórnia ostentando o simpático título de guru cientista que faz previsões
inéditas com décadas de antecedência. E, dizem, acerta.
Os demais são: um americano de New York, Mike Shatzkin; um
americano que vive em Londres há mais de vinte anos, John Thompson;
e um alemão, incluído na programação muito depois do press releases e da abertura para
inscrições serem divulgados por e-mails, fartamente. Vou retardar o nome do alemão,
como irreverência, pois ele não está listado no press release que utilizo para redigir
esta entrada de texto, aqui na salinha de imprensa sendo preparada a uma hora de começar
o Fórum.
Estou aqui, feito um seminarista comportado, aguardando minhas credenciais porque a
organização do evento me advertiu: chegue com antecedência, pois não ficará bem
participar do evento sem credenciais.
Pois bem, como este Fórum foi anunciado sendo parte integrante (com estas palavras) da
Bienal Internacional do Livro e, portanto, assumi que as credenciais para esta serviria
para aquele, isto é, o Fórum, e sai do Rio de Janeiro feliz da vida com minha
confirmação de credencial na maleta. Chegando aqui, homem do mar que se previne, fui
fazer a checagem de último minuto e, me saltou aos olhos um detalhe no e-mail sobre as
credenciais: fisicamente elas devem ser retiradas na recepção da Bienal do Livro a
partir do dia 12. Opa (mais um opa, dois opas num só dia)!
Resolvido, com alguns telefonemas interurbanos, três e-mails para três endereços
diferentes e a decisão de vir para o complexo do Anhembi duas horas antes do planejado.
Mas enfim, estou aqui, na salinha de imprensa, aguardando as credenciais e sentindo o
clima nos bastidores, um tal de bater cabeça natural em todos os eventos que participo
desde a década de 1970. Me sinto em casa.
Mas o mais importante,
neste relato, é que o Fórum não parece que será um Fórum. Que não faz parte da
Bienal Internacional do Livro eu já sei. A própria assessoria de imprensa da Bienal me
garantiu "uma coisa não tem nada a ver com a outra". - E as crendenciais? -
perguntei. - Não sei - me respondeu o assessor de imprensa em tom de irritação. Bem,
isso foi está sendo resolvido (estou aguardando na sala de imprensa e cobrindo -- de pau
- evento), vamos ver se o Fórum é Fórum... Quando eu ouvir todos falarem, incluindo o
alemão, eu conto tudo. Acompanhe aqui.
E espero que a
organização e os leitores leiam este relato como relato mesmo, não é uma crítica
vazia, é um relato do que acontece e que, se for útil para a melhoria de outros
eventos, que seja, se não for, é sinal de que a improvisação é a regra e vamos em
frente.
- - - - - - - - - - - -
Luís Peazê, que já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338),
tradutor de "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica
Literária Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal
BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente
marinho e costeiro www.luispeaze.com/clinicaliteraria
Literatura
- BookBusiness - Tecnologia - Tendência
Editoras assustadas com a explosão da era digital.
Por Luís Peazê
publicado em 05/08/2010 08:05
O
consumidor corre para testar as últimas novidades eletrônicas, sem preconceito, e,
atônitos, os profissionais da cadeia produtiva do livro não sabem o que acontecerá com
a sua margem de lucro.
A Clínica
Literária entrevistou, com exclusividade para esta matéria,
especialistas internacionais do livro e da leitura:
Roger Chartier French
historian, École des Hautes Etudes en Sciences
Sociales.
Mike Shatzkin New York, The Idea Logical Company
Joshua Tallent Texas, eBookArchitects
Ronaldo Lemos RJ, Fundação Getúlio Vargas, Direito Tecnologia e
Cultura
Carlos Viceconti São Paulo, DigiSign
Brian Solis - autor de briansolis.com
and Engage! Palestrante do Digital Age 2.0
São Paulo, 18 e 19 de agosto, no Sheraton WTC Hotel
John Thompson Londres, Universidade Cambridge, The
Book in the Digital Age
Rich Jaroslovsky San Francisco, Bloomberg, criador
do Wall Street online
Adam Hanft New York, New York, Creative Director at Faith
Popcorn's BrainReserve
Em plena explosão da era digital de produção de livros, que força inclusive a
globalização do anglicismo e-book, paira no ar uma preocupação com a
morte, ou doença crônica, das impressões em papel e práticas tradicionais de leitura.
Felizmente, como em toda explosão, nunca o estampido ou as conseqüências imediatas
aparentes dão a conta exata da realidade. Esta feliz descoberta foi feita pela Clínica
Literária ao entrevistar vários especialistas no assunto, incluindo dois
convidados internacionais participantes do Fórum Internacional do Livro Digital (10
e 11 de agosto de 2010), que integra a programação oficial da 21ª
Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Aliás, evento este que estimulou esta
matéria.
A Clínica Literária buscou opiniões na França, na Inglaterra, nos
Estados Unidos e no Brasil sobre esse objeto digital que anda, globalmente, atraindo tanta
atenção. E confirmou que há em curso uma confusão no meio editorial, com reflexos em
toda a cadeia produtiva do livro; de escritores a editores, destes aos gráficos e aos
distribuidores e livreiros. Aparentemente os leitores sentem apenas reflexos benéficos,
ao poderem testar novidades de leitura como se fossem brinquedos de luxo. Entretanto, os
dois extremos dessa cadeia, escritores e consumidores, no Brasil, podem estar sendo
lesados, como veremos na entrevistas.
E, como em toda confusão, não há unanimidade sobre o que mais interessa, ou seja, em
que extensão o livro de papel cederá lugar para o livro digital. Mas todos aceitam que a
novidade, como já disse o escritor americano Arthur Koestler sobre a bomba nuclear:
não dá mais para desinventá-la.
Situando o problema: o livro por cálice de vinho
A situação é a seguinte: antes do surgimento do primeiro livro digital, sorrateiramente
nascido na Internet ao virar o milênio, as editoras praticavam um modelo antigo de
produção e a distribuição era quase idêntica à criada pelo escritor Monteiro Lobato
quando ele foi dublê de tradutor e editor até mesmo enquanto esteve preso, na primeira
metade do século passado. Isto é, um autor era aceito pela casa, que lhe
garantia 10% de direitos autorais pela sua obra, impressa em papel em tiragens medianas de
3000 exemplares (ultimamente 2000 ou menos e somente de cinco dígitos para Best Sellers
tais como Paulo Coelho e a invasão de estrangeiros); os lançamentos eram previamente
negociados para as pilhas nas portas das grandes redes de livrarias (isso nas últimas
duas décadas), precariamente levados às demais livrarias por distribuidores que não
necessariamente gostam de ler, ou se interessam pelo contexto cultural do objeto livro
(característica de muitos livreiros também), e parcialmente explorados por cadernos
literários de jornais cada vez mais magros (em volume de páginas e com mais fotos em
detrimento de linhas impressas), isso se concordarmos em misturar os tipos de livros por
conteúdo, sejam didáticos, técnicos, ficção, auto-ajuda, infantil, etc.
Neste cenário o nó do sistema sempre foi a distribuição, a
logística do livro, e, o preço do livro, o ponto mais nevrálgico. Ao sair da gráfica
até o consumidor final, (lembremos que livro ocupa espaço e é pesado) o preço do livro
sofre um esquartejamento. Resguardados os 10% (naco menor) do autor, os atores na esteira
da cadeia produtiva do livro retêm seus quinhões, cada um brigando por uma fatia maior,
e o leitor é quem paga a conta. Incluído aí os ganhos dos Correios brasileiros, quando
se trata de enviar um livro para um amigo, ou biblioteca. Os Correios não praticam
política alguma de incentivo à leitura ou educação, não há uma tarifa
especial de envio de livros em nosso país. Enviar um livro de 300 páginas do Rio de
Janeiro para Porto Alegre pode custar mais do que o próprio livro.
Não é por acaso que algumas mega redes de livrarias
obtiveram junto aos Correios suas franquias próprias (instaladas no interior dos seus
centros de distribuição) para melhor administração financeira de seus custos. Mas com
todos os atores identificados, as tensões desse meio se resumiam em reagir aos humores da
economia do país, forçar e conseguir pequenos incentivos fiscais (sobre o papel, sobre
os empregados e o próprio livro pronto), resistir a inovações ocorridas em outros
países, como o caso do preço fixo do livro muito praticado lá fora, e, claro, as
tensões naturais entre editoras e livrarias de acordo com os seus tamanhos, regiões e
idiossincrasias. O livro saía das gráficas na forma códex, uma capa mole ou dura, com
orelha ou sem orelha, folhas costuradas e ou coladas, o ISBN marcado como em uma rês para
o matadouro e, aparentemente tudo ia bem de acordo com a vontade dos mais fortes, e
antigos. Matadouro não, cemitério de livros, conforme analogia de Mário Quintana.
Os números eram os seguintes, no Brasil: muito mais editoras do que livrarias, em menor
número do que de farmácias que são várias vezes mais numerosas do que as bibliotecas
(há mais municípios no Brasil sem uma única biblioteca pública do que municípios com
bibliotecas), há inclusive uma massa crítica de escolas sem bibliotecas. Ou seja, o
livro vai mal, trôpego, no Brasil, e não é de hoje. E havia, até então, um consolo
financeiro para alguns privilegiados: o governo comprava livros a peso de ouro para o
sistema de ensino, o suficiente para manter algumas editoras em pé, mas insuficientes,
contudo, para fornecer livros de graça para todos os estudantes do país, estimular o
hábito de leitura. Triste.
A prova desse triste diagnóstico é a média de leitores por habitante/ano, muito baixa,
especialmente se comparada com alguns países menos privilegiados economicamente do que o
Brasil. Neste caso parece haver uma crise ideológica entre os patologistas: a cabresto do
PNLL (Plano Nacional do Livro e da Leitura) e de entidades tais como a CBL e SNEL
(respectivamente Câmara Brasileira do Livro e Sindicato Nacional do Livro), dois
organismos que, dependendo das suas gestões periódicas, ora antagonizam-se, ora
aglutinam interesses patronais ou setoriais, ambos com fachada nacional, mas com atuação
local (São Paulo e Rio de Janeiro) e forte influência federal, divulgam os Retratos da
Leitura no Brasil, um estudo que mostra 4,7 livro por habitante/ano.
Enquanto isso o blog Observatório do Livro alardeia um número irreal de meio milhão de
livro lidos no país até junho, informando que isso é calculado pela aritmética simples
de dividir o número de brasileiros a partir de cinco anos de idade por aquela média
nacional de leitura. No minuto seguinte, tudo indica que esse livrômetro acuse mais
livros lidos. Impossível. Definitivamente, não são números confiáveis, pois, numa
mesma newsletter deste mesmo blog aparece outro índice de 1,9 livros ano lido por
habitante /ano, atribuído a uma declaração do presidente da ANL Associação
Nacional de Livrarias. O mesmo blog exibe outro índice 2,7 nesta newsletter bombardeada
semanalmente, no mínimo confundindo qualquer análise interessada.
De outro ângulo, a ANL apresenta em seu website uma pesquisa feita pela CERLAC (Centro
Regional Para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe) onde aparece o índice de
1,8 livros por habitante/ano (provavelmente bem mais próximo da realidade), o que põe a
leitura em nosso país igualada ao que precisamos aumentar em termos de consumo de vinho
(um cálice) por habitante, para alcançarmos o consumo de países grandes consumidores da
bebida dos deuses (bebemos 1,8 litros hab/ano), isto é, mais um cálice à noite, lendo
um livro, e chegamos a dois litros de vinho por habitante. Ilações várias são
inevitáveis.
Outro sinal patológico pode ser constatado num texto publicado no web site da própria
ANL, onde seu presidente o Sr.Vitor Tavarez, confunde e-book com e-reader (o dispositivo
de leitura de e-book, de livro digital), ao afirmar que o primeiro e-book que
entrou no Brasil custa R$1.000,00, e defende que os livros digitais deveriam
ser adquiridos nas livrarias e não na internet. Algo como exigir que telespectadores de
TV utilizem um controle remoto adquirido em lojas do ramo, a cada vez que forem ligar o
aparelho. Isso foi admitido pelo Sr. Vitor Tavarez no contexto de sua defesa em favor do
livro de papel e denota o tamanho do susto que o livro digital está dando na cadeia
produtiva do livro, em editores, distribuidores e livreiros. Enquanto esta matéria era
redigida, Rich Jaroslovsky, um dos entrevistado aqui, informava de San
Francisco (EUA) que e-readers acabam de chegar ao mercado por até US$139.00 (menos de
R$245,00).
Os próprios profissionais do livro parecem não se importar com essa confusão. Mas,
diferentes dos empresários das vinícolas, capazes de produzir vinho australiano até no
interior do nordeste brasileiro, estão assustados por desconhecerem como ficará sua
margem de lucro, depois do modus digital, por ignorarem os seus operandi e
vivendi.
O problema é que os
livros digitais se oferecem aparentemente muito fáceis na Internet. Fornecedores de
dispositivos de leitura, como o Kindle, Nook, Cooler, Ipad e uma dezena de outros, estão
sendo lançados à razão de meses entre uma novidade e outra, nos últimos cinco anos,
acelerando cada vez mais a febre.
Esses livros digitais disponíveis aos consumidores de novidades eletrônicas nascem com o
benefício de um preço muito menor do que o livro convencional e trazem intrinsecamente
uma ameaça ainda maior ao mercado: a possibilidade da proliferação do autor-editor,
potencialmente guindado à best seller com o apoio das redes sociais.
Nessa enchente súbita de ofertas de leitura (não necessariamente de aumento de leitores
e muito menos de aceitação generalizada do novo hábito de uso dos novos livros), vêm
as obras que caíram em domínio público, que qualquer internauta um pouco versado na
coisa pode criar e transformar em digital e disponibilizar gratuitamente na sua rede
social, ou vender em seu blog.
Isso preocupa editores, que articulam uma forma de
remuneração (i.e. contratos com autores, distribuidores e livrarias) de modo que não
percam contribuição financeira. Mas não sabem como, ainda. Deste modo, emperram a
evolução tecnológica, inutilmente.
Outro problema momentâneo, dessa enxurrada, é a miscelânea de formatos de arquivos.
Sim, porque um e-book é nada menos do que um arquivo digital que pode ser aberto num
computador, telefone inteligente ou dispositivo específico de leitura, os e-readers (para
cada um desses lugares são necessários programas para de fato abrir os
arquivos de leitura, são as aplicações, reduzidas no jargão do meio como
app). Deste modo, há vários formatos de arquivos de leitura (PDF, ePUB,
Kindle, Mobipocket, mobi, .prc, .azw, PDM/PML, etc).
Esse novo cenário criou uma espécie de Guerra do Paraguai. E a questão dos direitos
autorais e práticas de mercado estão pendentes, até quando, qual será o desfecho?
Com a palavra os especialistas
Adaptada à área específica de cada um dos entrevistados, foi feita basicamente a mesma
pergunta para todos, com o seguinte teor: como podemos afirmar algo confiável sobre o
futuro do livro, dada a velocidade das mudanças nesta revolução digital que vivenciamos
no momento e o profundo enraizamento histórico das práticas associadas com a indústria
editorial e o hábito de leitura de livros? Trata-se do mercado empurrando tudo isso para
frente, ou os profissionais do livro não estão considerando todos os fatores
que envolvem os demais hábitos e costumes das pessoas e tendências de um modo geral?
Eu não viveria dos rendimentos de editor ou de vendedor de livros nos próximos dez anos
Começamos
pelo americano Mike Shatzkin, cuja palestra abrirá o Fórum do Livro na
Era Digital na véspera da Bienal do Livro de São Paulo, e porque ele faz uma confissão
realmente para assustar. Ele é consultor muito conhecido no mercado editorial, fundador e
cabeça da empresa The Idea Logical, com sede em Nova Iorque, co-idealizador do sistema
online FiledBy, dedicado a autores independentes, muito similar à ferramenta de
autopromoção para escritores autônomos da Amazon.com.
Mike Shatzin disse que não podemos dizer nada confiável. Estamos todos apenas
tentando adivinhar. Não acho que muitos players (profissionais do livro)
estejam pensando em outros fatores. As mudanças são interativas. Tentamos algumas delas,
para ver se funcionam. Se não funcionarem, modificamos. Uma coisa de cada vez. É
dessa maneira, cerebral, que com sua experiência de mais de quatro décadas ele vê o
comportamento do mercado editorial.
Perguntado sobre o futuro modelo de negócio na indústria do livro ele concorda que este
venha a atender a uma demanda por contextualização, mas coloca isso com as suas
próprias palavras: eu chamo isso de verticalização. É a chave da minha visão do
futuro. Dito de outra forma, estamos mudando de IP para Eye Ball, isto é de
um valor de propriedade intelectual para um valor de olhar individual. Penso que nos
sentiremos em casa em comunidades online, as quais nos fornecerão bastante conteúdo,
particularmente não ficção.
Com relação à proliferação de formatos de e-books e à velocidade do aparecimento das
novidades no mercado, onde e quando isso vai parar e quem ou o quê está liderando esta
correria, os formatos, as aplicações (softwares) ou as máquinas (dispositivos) ele
respondeu o seguinte: penso que isso terminará nas nuvens (tecnologia
que permite ao usuário acessar informação pessoal ou por demanda de qualquer lugar a
qualquer hora, não precisa mais ter tudo gravado na sua máquina), com todos os nossos
dispositivos capazes de exibir qualquer tipo de informação que esteja em nossas
´gavetas´ remotas. Mas demorará um pouco até que isso se consolide. E conclui:
estamos experimentando uma grande mudança sim, e no geral eu não sou otimista nem
pessimista. Mas não tentaria viver dos rendimentos como um editor ou vendedor de livros
nos próximos dez anos.
Apenas dois formatos de e-books
Joshua Tallent, do Texas, é apresentado como o guru da
formatação de livros digitais de todos os tipos e especialista dos exclusivíssimos
arquivos digitais para livros compatíveis com o leitor Kindle da Amazon. Joshua,
considerado (nos Estados Unidos) o guru da formatação de Kindle e dos demais formatos
para dispositivos leitores de e-books, simplifica a aparente confusão de tipos de
arquivos para este ou aquele leitor eletrônico (e-reader):
Na verdade há apenas dois formatos que importam.
O Kindle/Mobipocktet e o ePUB. Os principais dispositivos de leitura em cada país lêem
arquivos ePUB, que é o formato utilizado pela Apple, Sony, Barnes & Noble e a maioria
dos varejistas americanos de e-readers. Há outros formatos surgindo periodicamente, como
o Blio, mas eles não são muito utilizados e acessíveis como o ePUB e enfrentarão
problema para atrair a atenção do público.
A maioria dos e-books pode ser adquirida dentro dos
dispositivos de leitura e aplicações típicas de e-book. Há um crescimento
significativo do mercado de aplicações unicamente de e-book, mas eu acho que a maioria
dos consumidores procura esses produtos em sites como a Amazon, B&N e na loja da Apple
(iBookstore), não em lojas de aplicativos como o iTunes e no mercado Android.
Perguntado sobre a natureza de seus clientes, ele garantiu que a maioria é de autores
independentes e profissionais, mas que já começa a sentir um crescimento de editores
pequenos e de médio porte batendo a sua porta. A maioria dos clientes não é capaz de
converter seus arquivos. Alguns lhe procuram como um único ponto de conversão e canal de
distribuição (loja online). Em geral, aprender a converter arquivos para o formato
e-book capazes de serem lidos em e-readers não é uma tarefa fácil para
amadores.
Segundo Joshua, o mercado americano está
crescendo em ambos os tamanhos de e-books, de conteúdos curtos, que as pessoas gostam de
apenas passar os olhos, e os de conteúdos longos que tomam mais tempo dos leitores. E
não dá para negar isso, pois o IDPF (o Fórum da organização para comércio e padrões
da indústria de edições digitais, de livros, revistas, jornais, softwares, etc, com
sede no Canadá) rastreia as estatísticas de vendas. No caso de outros países, esse
crescimento tende a ser menor e mais lento dada a dificuldade de importação de
dispositivos de leitura, de absorção de técnicas de conversão de arquivos e de
adaptação das editoras.
A maioria ainda ignora a segurança
No Brasil, além da morosidade e incapacidade de
adaptação apontada por Joshua, ainda temos mais problemas bem particulares, como é o
caso da segurança dos meios digitais e quanto à legislação específica do direito
autoral de obras digitais.
Para abordar estas questões foram ouvidos Carlos
Viceconti, dono da DigiSign, que lança na Bienal do Livro de São Paulo um token
(chave) chamado e-Bookey para segurança de propriedade e de leitura de e-books (e
documentos em geral) em computadores pessoais - não é compatível, entretanto com os
e-readers (dispositivos de leitura); e Ronaldo Lemos, Professor da FGV especializado em
direito digital.
Segurança e legislação, duas áreas negligenciadas
por editores e produtores digitais, o que pode com o tempo produzir um estoque de
problemas para consumidores e pendengas judiciais.
Viceconti declara que muitos empresários sequer sabem distinguir as formas de segurança,
certificação e proteção de documentos digitais. Seu problema não é necessariamente
com a concorrência - diz ele - seu desafio é convencer clientes em potencial da
importância de seus produtos, do quanto eles podem evitar problemas e perdas futuras num
mundo cada vez mais digitalizado, e vulnerável.
Legislação inexistente, as faculdades não ensinam direito digital
Ronaldo Lemos é categórico. Ele diz que
a legislação brasileira de direitos autorais feita em 1998 não trata
especificamente da internet, que acaba sendo regulada por regras gerais. Em alguns casos,
essa regulação por regras gerais pode trazer custos elevados para produtores, editores e
autores no processo de licenciamento e comercialização das obras. Tanto é assim que
não temos ainda no Brasil uma grande loja internacional de conteúdos digitais como o
iTunes. E o país acaba ficando de fora de diversas iniciativas internacionais de
distribuição de conteúdo, como o Hulu.com para conteúdo de televisão, o Netflix para
filmes e o Spotify para música.
Nenhum desses sites funciona no Brasil. E uma das razões para isso é a dificuldade de
fazer o licenciamento e gestão de direitos no país. Essas iniciativas preferem trabalhar
com outros países em que a legislação torna o licenciamento de conteúdos mais fácil e
menos complicado. Por conta disso, o Ministério da Cultura abriu um processo de consulta
pública para a reforma da lei de direitos autorais que, espera-se, pode facilitar e
tornar mais eficientes os negócios envolvendo direitos autorais.
Como Ronaldo é o responsável no Brasil pela Creative Commons (sistema online de
liberalização de obras digitais, que contou no Brasil com o aval de Gilberto Gil quando
estava Ministro das Culturas), pedimos que ele explicasse de modo simples do que se trata:
O Creative Commons é um projeto que facilita o licenciamento de obras. Ele funciona
como uma ferramenta que permite a qualquer criador intelectual dizer o que pode ou não
ser feito com a sua obra. Além disso, ele é um tipo de licença que fundamenta a
criação colaborativa. Por exemplo, a Wikipedia é licenciada em Creative Commons.
Graças à licença do Creative Commons, qualquer pessoa que contribui para ela,
melhorando um artigo já existente, não precisa pedir autorização, exatamente porque a
autorização já foi concedida através da licença. Em outras palavras, sem o Creative
Commons ou alguma outra forma de licenciamento similar, seria impossível a existência de
um projeto como a Wikipedia.
Um dos principais pontos do Creative Commons é conjugar liberdade de acesso à obra com a
possibilidade de gerar receitas. Um artista pode escolher uma licença que permita o
acesso à obra apenas para fins não-comerciais. Se ela for usada para fins comerciais, os
direitos autorais devem ser normalmente pagos. Por exemplo, meu livro Direito, Tecnologia
e Cultura é licenciado por Creative Commons. É permitida a cópia e a distribuição
para fins não comerciais. Mas ao mesmo tempo ele é publicado normalmente pela editora
FGV que vende o livro em livrarias de todo o país. Na música é a mesma coisa. Muitos
artistas licenciam suas músicas para livre distribuição comerciais. Mas quando aquela
música toca no rádio ou na televisão, os direitos autorais devem ser normalmente
recolhidos. Essa possibilidade de conjugar ampla distribuição com a exploração
comercial da obra é Creative Commons.
Perguntamos a Ronaldo sobre o volume de pendengas, perfil e áreas, tais como envolvendo
obras antigas e atuais, e se temos profissionais especializados defendendo esses tipos de
causas?
São muitos os conflitos envolvendo a internet e a tendência é que continuem a
aumentar responde ele e elabora: uma das razões para isso é que
passados mais de 15 anos de acesso público à rede no Brasil, ainda não temos uma
legislação específica tratando da internet. Os casos que chegam ao judiciário tendem a
ser decididos a partir de regras gerais. Isso faz com que as decisões sejam em muitos
casos contraditórias: um juiz decide de um jeito e outro de forma totalmente diferente,
ainda que os casos sejam similares.
Uma questão problemática é que hoje vivemos sem regulamentação específica da
internet. Com isso, os casos de responsabilização de sites, provedores e blogs são
decididos pelo judiciário sem o amparo de uma diretriz legal específica.
Por essa razão, a internet brasileira precisa com urgência de um marco regulatório. Mas
ele deve ser um marco para garantir direitos fundamentais e não para criminalizar a rede.
O que a internet precisa é da concretização dos direitos fundamentais que estão na
constituição no âmbito digital, tais como liberdade de expressão e privacidade.
Precisa também da definição de regras claras de responsabilidade para sites, blogs,
redes sociais e assim por diante. O objetivo desse marco regulatório deve ser a
promoção da inovação e do empreendedorismo na rede brasileira, na medida em que
protege os direitos dos usuários.
Existem contradições que muitas vezes condenam os sites automaticamente por conteúdos
de terceiros. É como se a companhia telefônica fosse condenada por delitos feitos pelo
telefone. Essa regra precisa ser repensada
Desde outubro de 2009 estamos trabalhando junto com o Ministério da Justiça para a
definição desse marco civil, através de um processo de consulta pública que está
disponível no site www.culturadigital.br/marcocivil. O texto, resultado das inúmeras
contribuições recebidas, deve ser encaminhado em breve para o Congresso..
Perguntamos a Ronaldo Lemos se ele percebe uma massa crítica de web sites e produtos na
Internet brasileira preparada quanto às questões legais do direito, isto é: os
produtores de obras oferecidas pela Internet no Brasil estão considerando estes aspectos
ou haveria um vácuo?
Há um desconhecimento enorme sobre direitos autorais no Brasil. Para se ter uma
idéia, a maioria absoluta das faculdades de direito do Brasil sequer ensina direitos
autorais. Com isso, mesmo entre os profissionais do direito, são poucos aqueles que
dominam a área. Fora do campo do direito o conhecimento sobre direitos autorais é ainda
menor. É fundamental pensar no longo prazo, repensar a disseminação do conhecimento
prático sobre direitos autorais.
Seus livros: Direito, Tecnologia e Cultura
Tecnobrega: O Pará Reiventando o Negócio da Música
Futuro do livro? Não se pode olhar muito longe na bola de cristal.
O sociólogo americano radicado em Londres, John Thompson
será o segundo palestrante no Fórum do Livro na Era Digital em São Paulo. Thompson é
autor do livro Books in the Digital Age (Livros na Era Digital). Professor de sociologia
da Universidade de Cambridge (Inglaterra), há duas décadas Thompson estuda a
transformação da indústria editorial do livro. Suas pesquisas giram em torno da teoria
social e política contemporânea, da sociologia da mídia e sua indústria, e o impacto
social e político de novas tecnologias e formas de comunicação.
Thompson analisa a questão e prescreve uma data para o olhar na bola de cristal. Diz ele:
A verdade é que não há muito o que podemos
dizer sobre o futuro do livro, mais do que especular. Parte pelas razões citadas na
própria pergunta. As tecnologias mudam muito rapidamente, enquanto as práticas sociais
bem mais devagar. Além disso, as pessoas não absorvem as novas tecnologias simplesmente
porque elas existem. A história está repleta de novas tecnologias que não deram em
nada. No final dos anos 1980 e começo de 1990, muitas pessoas na indústria editorial
pensaram que os CD-ROMs fossem uma nova tecnologia inteligente da época
revolucionaria o campo das publicações. Um monte de dinheiro foi investido no
estabelecimento de unidades de desenvolvimento de CD-ROM em várias editoras, visando
criar uma escala de novos produtos eletrônicos para consumidores; não deu em nada, as
unidades foram fechadas e os editores perderam uma grande soma de dinheiro.
A mesma história de expectativa inflada ocorreu
novamente no final dos anos 1990, quando muitos editores estimulados por previsões
de consultores como a Pricewaterhouse Coopers começaram a se preparar para o que
se pensava seria uma iminente e dramática explosão de vendas de e-books; isso não
aconteceu, as previsões dos consultores erraram longe e estabeleceu-se entre os editores
um período de desilusão sobre os impactos da revolução digital.
Eu mencionei esses exemplos somente para lembrar como é
fácil encarar as coisas seriamente de modo errado, quando você tenta prever o futuro
numa área tão complexa como a edição e o consumo de livros, onde as tecnologias
interagem com fatores econômicos, práticas sociais e culturais e preferências e gostos
pessoais de um modo extremamente complexo. Dito isto, indubitavelmente o que temos
testemunhado nos últimos 2 ou 3 anos, especialmente nos Estados Unidos, é novo. Os dados
mostram que, desde o lançamento do leitor Sony, em 2006, e do Kindle, em 2007, houve um
aumento brusco das vendas de e-books de meros $10 milhões de dólares em 2005 para
mais de $165 milhões em 2009 um crescimento de 16 vezes em quatro anos. Não só
as vendas cresceram dramaticamente, mas a taxa de crescimento parece crescer também. E o
lançamento do iPad no início de 2010 parece ter acelerado este desenvolvimento.
Após muitos anos, quando as vendas de e-books eram tão pequenas
quanto irrelevantes para as editoras, os e-books de repente tornaram-se uma das poucas
áreas de real crescimento. A excitação é palpável e justificada.
Contudo, não devemos nos deixar levar por este
desenvolvimento, mesmo sendo interessante e importante. Mesmo com essa grande atenção
dada aos e-books, as receitas de vendas de e-books continuam representando uma pequena
porção das vendas do comércio de livros em geral provavelmente menos do que 2%
nos Estados Unidos, e consideravelmente menos ainda na Inglaterra. Deste modo, a grande
parte do que acontece na indústria editorial está fora dos holofotes dos e-books. Além
do mais, não sabemos como as coisas se desenvolverão a partir deste ponto. Há todas as
razões para esperarmos que as vendas de e-books continuem crescendo, mas até onde elas
irão e qual a participação de mercado que irão eventualmente capturar, neste estágio,
é muito incerto.
Há na indústria quem acredite que o Kindle seria o
modulador e que o mercado de e-book iria crescer exponencialmente, alcançando 50% das
receitas das maiores editoras em dez anos; mas esta é apenas mais uma opinião entre
muitas, e pode estar errada. Pode ser que estejamos vendo, por exemplo, uma bifurcação
no mercado, com alguns leitores tornando-se dedicados a e-books, enquanto outros (Quantos?
Muitos?) continuarão preferindo ler livros em papel em vez de em telas, e ainda prefiram
ter seus livros como objetos para colocá-los em prateleiras, compartilhar com outras
pessoas e desfrutá-los como pequenas obras de arte.
A verdade é que, agora nós temos algumas evidências
de sério crescimento do aumento do mercado de e-book e os novos dispositivos de leitura
estão mais sofisticados e amigáveis para o usuário final do que há dez anos atrás. E
os editores estão disponibilizando muito mais conteúdo e formatos eletrônicos. Mas
continuamos sabendo muito pouco sobre como os leitores irão utilizar esses dispositivos,
que tipo de leitor (usuário) irá utilizá-los, e como as práticas de leitura mudarão
nesse ambiente, se elas mudarão de verdade.
Assim, não seria inteligente tentar olhar muito longe
na bola de cristal e especular sobre como serão os livros e a leitura em cinco ou dez
anos. A revolução digital é realmente uma revolução, e uma coisa a respeito de
vivenciar uma revolução é que ninguém sabe realmente quais serão as suas
consequências.
Que os editores não atrapalhem as
mudanças
Rich Jaroslovsky, editor da Bloomberg,
criador da versão online do Wall Street Journal e fundador da ONA Online News
Association (associação de web sites de notícias com sede nos Estados Unidos) publicou
recentemente um artigo que chamou a atenção da Clínica Literária ao se apresentar como
uma pessoa que num vôo de quatro horas emite no máximo quatro palavras. Está sempre com
um livro de papel nas mãos. Intimamente ligado a publicações online, entretanto e
paradoxalmente, deu sua opinião à Clínica Literária sobre o assunto em pauta que no
mínimo estimula a reflexão:
Desde quando comecei o Wall Street Journal online, minha experiência com editores
não me deixou uma boa impressão de sua abertura de cabeça para novos meios de se fazer
negócios. Entretanto, é possível pensar que os editores de livros, ao verem o que
aconteceu com as empresas de discos, jornais e outros que tentaram atrapalhar o curso das
mudanças, ao invés de abraçá-las, aprendam com aquelas experiências. Pelo menos
esperamos. Leia seu artigo na
Bloomberg, ou ouça aqui.
Ou seja, que não atrapalhem.
Gradual erosão do mercado, pelos digitais
Brian Solis é o principal palestrante convidado para o evento Digital Age 2.0
(São Paulo 18 e 19 de agosto), reconhecido globalmente como um dos mais proeminentes
líderes e autores sobre as novas mídias. Preside a Future Works e, entre seus livros,
destaca-se BrianSolis.com
and Engage! Não poderia deixar de ser ouvido pela Clínica
Literária (com exclusividade). Respondeu Brian:
"O livros são uma parte importante
da sociedade. Enquanto as inovações redefinirão a ´idéia´de livro, a dependência do
papel que ele desempenha na educação e entretenimento permanecerá constante. Os e-books
estão ganhando tração significante na medida em que são combustível natural para uma
nova geração de dispositivos digitais. A Amazon relata que os livros digitais já estão
superando as vendas de livros impressos, e por boa razão. Milhões de Kindles e iPads já
estão transformando como nós pensamos o jeito de ler e, deste modo, só podem continuar
crescendo. Entretanto, a conexão táctil e sensorial com os livros de papel continuarão
fortes num futuro próximo. Através do tempo, contudo, os e-books não só expandirão
sua participação de mercado, como irão gradualmente erodir o mercado de material
impresso em papel."
O livro de papel é um
"mobiliário social"
A Clínica Literária quis saber também
a opinião de Faith Popcorn Brain Reserve - agência de New York
conhecida mundialmente por fazer previsões de tendências. Fait Popcorn, sua presidente,
notabilizou entre estrategistas de marketing de grandes conglomerados o Relatório
Popcorn, de onde destacam-se inúmeros insights tais como a tendência do
"Lo-Co" ou "Local Cocooning" (encasulamento localizado), que tem tudo
a ver com a pauta desta matéria. Para colaborar com a Clínica Literária,
encarregou seu Diretor de Criação, Adam Hanft, guru do marketing, co-autor com Faith Popcorn
do "Dicionário do Futuro". Adam fez a seguinte declaração em nome da
empresa:
"De todas as formas de mídia e conteúdo transformadas pela
tecnologia e a revolução digital, nas últimas décadas, os livros são de longe a forma
mais carregada pessoal, íntima e psicologicamente.
Pense sobre como as experiências de consumo de livros são diferentes - em oposição ao
cinema, televisão e até mesmo jornais e revistas.
A sua natureza singular de interface entre o cérebro e a fisicalidade pura do livro
enquanto objeto, "um mobiliário social", impõe um contexto inteiramente
diferente em relação às migrações produzidas por outras tecnologias. Por esta razão,
mais do que especular sobre o falecimento do livro de papel, acredito que o discurso
intelectual relevante seja sobre os caminhos nos quais o livro irá integrar-se com a
tecnologia digital.
Daí, ao invés de uma casa sem livros - em um mundo onde o equivalente à Biblioteca de
Alexandria é compactado em um tablete digital - imagino uma prateleira de livros repleta
de livros digitais. A necessidade emocional e de status de exibição individual por
possuir livros continuará a existir, e as inovações tecnológicas permitirão uma
cópia barata de um John Grishman na forma digital que inclua texto, filme, comentário,
conteúdo especial e outros elementos."
O futuro pode ser: um texto fragmentado e sem autor
Se para entrar no futuro é preciso entender o passado, a Clínica
Literária procurou concluir esta matéria enviando a pergunta, feita aos demais
entrevistados, ao papa da história do texto, do livro e das práticas de leitura, o Professor do Collège de France, Roger Chartier:
Como podemos afirmar algo confiável sobre o futuro do livro, dada a velocidade das
mudanças nesta revolução digital que vivenciamos no momento e o profundo enraizamento
histórico das práticas associadas com a indústria editorial e o hábito de leitura de
livros?
É difícil para qualquer um, e é mais difícil ainda para os historiadores que são os
piores profetas. Podemos apenas sublinhar que esta é uma revolução realmente nova, a
digital, porque está associada a uma revolução tecnológica (do códex ao computador),
morfológica (da página à tela) e cultural (da obra como tal aos fragmentos
descontextualizados). Neste sentido, todas as condições estão estabelecidas para apagar
as diferentes heranças do passado: o códex, o livro impresso, o direito autoral, a
prática de leitura contínua. O único embargo desse diagnóstico de uma descontinuidade
radical está ligado à coexistência, hoje e suponho no futuro também (até quando?),
entre o mundo digital e as outras formas de composição, publicação e apropriação de
textos (escritos à mão e impressos). O principal desafio é entender as diferenças de
construção dessa coexistência de acordo com lugares, ambientes sociais, gerações e
gêneros de textos.
É o único meio de diagnosticar sobre o futuro, salientando tanto o apagamento de nossas
categorias clássicas da ordem de discurso (os conceitos da obra, direito autoral,
propriedade, singularidade e originalidade) pelo novo regime de produção de discurso no
qual os textos são fragmentados, maleáveis, abertos e sem autor, quanto à resistência
do livro impresso para gêneros tais como ensaios, novelas, história, etc.
Como não existe o fim da história, embora pudéssemos parar aqui, fomos um passo além e
perguntamos: como o senhor vê a evolução dos hábitos de leitura com essa tendência
digital?
Para mim responde o Professor Chartier o mais importante não é a
generalização da leitura fragmentada, descontínua, em frente à tela, mas as suas
conseqüências: o apagamento da relação entre qualquer fragmento da obra com a sua
inteireza. O códex (livro tradicional como o percebemos até hoje) permite, ou impõe,
esta relação pela sua materialidade. Ninguém é obrigado a ler todas as páginas de um
livro impresso, mas o próprio objeto impõe a percepção de sua totalidade, a
coerência, a lógica de toda a obra. No mundo digital, o fragmento, como um dado em um
banco de dados, ou em um website, é destacado da entidade textual da qual foi extraído.
Neste caso, a prática cultural de atenção descontínua e a estrutura morfológica da
textualidade eletrônica estão unidas para desafiar a definição tradicional do que é
um livro, ou um texto. Esta definição, que é baseada na idéia de coerência do
discurso tanto narrativo quando demonstrativo, será capaz de sobreviver? Ou, a nova ordem
de discurso será uma justaposição de fragmentos textuais desconectados (...e sem
autor)? Eu não sei. Quem saberá?
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Luís Peazê, que já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338),
tradutor de "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica
Literária Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal
BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente
marinho e costeiro www.luispeaze.com/clinicaliteraria
Literatura
- Política - Comportamento
Era uma vez um sonho
Dia Internacional do Livro, 23 de abril
por Luís Peazê Publicado em 23/04/2010 11:15
Era uma vez no ano 2000, recebi uma cartinha do Instituto
Cervantes do Rio de Janeiro para participar das encenadas... Cartinha!? Reli a carta, com
o selo real da Espanha, transformado numa criança com um presente nas mãos. Apaixonado
pela obra prima de Cervantes, apelidado pela sogra Ah, você é um sonhador!
de Dom Quixote, a participação com outros escritores na leitura desse livro que
atravessa séculos cada vez mais sólido e, digamos, conveniente, era a realização de um
sonho que nem cheguei a ousar. Foi um convite surpresa.
Seria em torno do Dia Internacional do Livro, instituido
originariamente na Catalunha por decreto real do Rei de Espanha Alfonso XIII na data de
nascimento de Miguel de Cervantes (7 de outubro), mais tarde pela UNESCO na data do seu
falecimento (23 de abril) que coincidiria com outras datas de escritores famosos,
incluindo Shakespeare (a este controversa, como é tudo a respeito do bardo). Mas as
encenadas deste ano de 2010 não ocorreram, no Instituto Cervantes do Rio de Janeiro,
embora no web site do Instituto haja um calendário de encenadas em várias cidades
espanholas, o que me faz refletir se já não se sonha mais no Brasil como antigamente.
O Dia Internacional do Livro deveria, a meu ver, ser
celebrado em todos os dias em que algo gente, acontecimento, nascimento, vida e
morte , é celebrado; no meio do parto, uma pausa, no meio da dor, um minuto de
silêncio, para a leitura de um livro, de uma linha pelo menos. Sonhar é preciso. O pai
de minha sogra, por exemplo, sonhava, e a cada filha que nascia escrevia um poema, a cada
chuva que caia, escrevia versos. Encontrei o seu caderninho outro dia - parei tudo e li -
iniciado no final do século XIV. É isso, casei com o resulado de um parnasianismo da
zona rural do interior das Minas Gerais.
Ultimamente, neste governo de um Presidente do Brasil
iletrado, há um esforço de um certo gueto das esplanadas dos ministérios de realçar,
alardear, enaltecer, superestimar (hábito comum em Brasília) o Plano Nacional do Livro e
da Leitura que vem tentando implementar políticas, programas, iniciativas em prol do
livro e da leitura, é verdade. Mas um olhar atento, que vem de longe, encherga fácil
muito mais brechas do que buracos tapados, muito mais caminhos para abrir, do que ruas
pavimentadas, muito mais por fazer do que poderia ter sido feito com uma simples canetada.
Mas não sejamos tão céticos, melhor uma migalha de livros
aqui, uma bibliotecazinha ali, um incentivo fiscal acolá, do que nada, ora, não faz uma
década ainda que o PNLL abriu a primeira página. Até porque há gente do bem infiltrada
no meio dos cicilianos (é linguagem figurada, minha gente, não vão me enfocar por isso,
obrigado) do Conselho Diretivo e da Coordenação Executiva do PNLL (relatados abaixo),
então a chance do sonho realizado permanece.

Peazê e Ziraldo na inauguração da Livraria
da Bolívar (2006) quando Ziraldo aderiiu à
Campanha da Tarifa Livro
Mas eu insisto em sonhar, por exemplo, com uma tarifa especial, mais barata, dos Correios para
envio de livros. Um livrinho meu de 250 gramas custa nas melhores casas do ramo perto de
35 pilas, entretanto, para enviá-lo de um estado do centro oeste para o Acre ou Chuí o
custo nos Correios é maior (do Rio para São Paulo também). Exemplos abundam. Ilações,
que venham as ilações.
Nem todos os sonhos são realizáveis, o importante mesmo é
sonhá-los, não perder a chama da vontade indomável de realizar algo, é isto que revela
a alma das pessoas, é isto que move a vida ao nosso redor para algum lugar melhor.
Não, não realizei aquele sonho que não havia nem ousado
sonhar, o de participar das encenadas, ler e comentar em voz alta Dom Quixote de La
Mancha. Sacara da estante minhas duas edições no original, meu exemplar em português,
uma versão infantil com destaque para as belas gravuras de Doré a bico de pena,
relia-as, mergulhei na cela onde Cervantes escrevera sua obra durante nove anos, bebi
vinho, me embriaguei, fui Sancho Pança, fui Qixote, fui até um moinho mulher, e no dia
das encenadas surgiu uma demanda particular importante e não pude participar. É a vida.
Serviço: O Plano
Nacional do Livro e Leitura (PNLL) é instituído pelo governo federal, por meio do
Ministério da Cultura e do Ministério da Educação. Sua estrutura de gestão é
composta por: Conselho
Diretivo do PNLL: João Luiz Silva Ferreira
MinC; Muniz Sodré FBN/MinC ; André Luiz de Figueiredo Lázaro MEC;
Jeanete Beauchamp MEC; Tânia Rösing Universidade de Passo Fundo/RS ;
Moacyr Scliar Academia Brasileira de Letras; Oswaldo Siciliano Câmara
Brasileira do Livro; Órgão Assessor: Organização dos Estados Iberoamericanos
OEI. Coordenação Executiva do PNLL - José Castilho Marques Neto
Secretário Executivo; Jéferson Assumção MinC; Carlos Alberto Xavier MEC;
Eliane Pzczol PROLER/FBN; Márcia Rosetto FEBAB; Núcleo de Apoio
Técnico: Luciana do Vale; Luís Gustavo Simões; http://www.pnll.gov.br/

Comentários:

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Minha primeira experiência
profissional com livros foi aos oito anos de idade. Cuidava para meus tios, da Editora
Nacional, as caixas de saldos fora das barracas da Feira do Livro de Porto Alegre. Lembro
que uma de minhas diárias foram pagas com uma escolha; meu pai me perguntou o que eu
queria e, como ficara encantado com a história que ele me contara sobre uma índia e um
índio, respondi que queria o Guarani. Nunca mais parei de adquirir e trabalhar com
livros. Luís Peazê |


Tenho
tudo para repelir os livros de papel, quando eu era analista de sistemas, na virada da
década de 1970 para 1980, dizia para meus amigos e escrevia em colunas de jornal que a
minha idéia de "processamento de dados" era um computador da mesa, um bloquinho
de anotações e uma caneta. Os escritórios, as empresas, não precisariam ter arquivos
físicos de documentos e papeladas.Como já era um leitor compulsivo de romances,
didáticos, técnicos e jornais, imaginava se os livros computadorizados também.
Só não sabia como, era uma utopia (e paixão)."
Luís Peazê
Tenho tudo para repelir os livros
digitais, na verdade, se fosse por mim, não deixaria existir nem os livros de capa mole e
apenas colados, sem aquelas lombadas femininamente fornidas dos livros de capas duras.
Vivi em três países e sempre carreguei nas costas minha biblioteca particular, que não
para de crescer. Além do trabalho enorme, é dispendioso. Mesmo assim, não tenho nada
contra os livros digitais, pelo contrário. Os dois podem e irão coexistir... Os editores
e livreiros é que precisam mudar as suas mentalidades imediatistas, e investir em
criatividade. Luís Peazê |
Quando ainda era
analista de sistemas, tinha uma amiga japonesa, programadora de computador, e trocava com
ela cartinhas em hexadecimal. Éramos capazes de escrever na base hexadecimal como se
fosse a nossa segunda língua. Hoje em dia, como esqueci tudo e fiquei ultrapassado, um
jurássico na computação eletrônica, mas com um conhecimento prático histórico sobre
as arquiteturas de softwares, como eles floresceram no mundo e chegaram até aqui, me
pergunto: será que um leigo, que não tem a menor idéia de como funciona um computador
por dentro, ou por trás da dela, hoje em dia, sabe do poder (a seu favor e contra ele ao
mesmo tempo) de um simples clique, ou ´touch´?
Luís Peazê
Entrei literalmente nas histórias de
certos livros que li. On the Road, de Jack Keroack me fez repetir sua viagem pelos Estados
Unidos, de New York a Denver, San Francisco, LA e através do sul até a Flórida e de
volta a New York. Fiz isso num carrinho velho com o banco traseiro repleto de livros.
Passando pelo deserto de Mojave, lia Perfume, e parei no descampado por alguns dias,
sozinho, me sentindo um Jean Baptiste Grenouille; sem as suas barbaridades, é um
personagem estimulante, pela perseverança. Uma pena ter matado virgens para construir o
perfume do amor." Luís Peazê |
Os balconistas de drogarias entendem
mais do produto que vendem do que os balconistas de livrarias. Lembrando uma expressão
utilizada por Mario Quintana, cemitério de livros, as livrarias são câmaras ardentes de
títulos que não têm força para assanharem-se por muito tempo "nas pilhas" e
são guardados, lombadas lado a lado, nas prateleleiras e gradualmente vão escorregando
para o depósito, repatriados para as editoras ou reciclados, enterrados, um crime. As
livrarias deveriam ser como canteiros de hortaliças para se colher e consumir antes
de perecer. O Brasil é um país de subnutridos literários. Engordamos pobremente com
corantes, ingredientes cancerígenos, excesso de açúcar, gordura, amido, bobagens e até
com drogas pesadas." Luís Peazê |
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