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Jornalismo
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Discutir Jornalismo é Discutir Tudo
Por Luís Peazê Publicado em 14//12/2009 12:00:05
Ao contrário da conferência sobre o clima do planeta, que deveria ser de interesse vital
de todo e qualquer ser humano e cuja discussão tem sido apenas por parte de
especialistas e em torno de acordos incompletos a serem
ratificados (ou não) pelos países participantes (lembremos da Agenda 21,
esquecida, de Kioto, perdido em discussões, e outras tantas convenções e protocolos),
quanto dinheiro será necessário e quem pagará a conta da cura da Terra, a discussão do
jornalismo, na 1ª Conferência Nacional de Comunicação - CONFECOM
(de 14-17 de dezembro de 2009), deveria ser menos cínica. Do início ao fim,
especialmente a conclusão e tomadas de decisão.
A começar por deixar bem claro que, o Capital manda, dá as cartas, sempre foi assim na
história das civilizações, se não for aceito explicitamente que é o Capital que manda
nos jornais, nas redações, nos jornalistas e nos leitores, então esta e qualquer outra
Conferência será inócua, medíocre e assim todos os seus partícipes. Feito isso que se
instale o status quo da irreverência, da intransigência, inclusive da anarquia
intelectual, no mais amplo sentido intelectualizado desses termos.
Pronto, temos uma Conferência Nacional de Comunicação coerente com o estágio
tecnológico mundial, de informação disseminada, velocidade de veiculação e absorção
das massas e dos indivíduos mais engajados e capazes de mudar (ou intuir) o curso de
atividades humanas, de influenciar o pensamento humano, de interferir nas complexas
engrenagens das sociedades, cada vez mais interligadas e interagindo, contrariando a
força suprema do Capital ou fazendo com que elas rolem umas sobre as outras pelo menos
com aparente suavidade. Por que é isso que o homem quer, ver a vida rolar ao seu redor e
através dele com suavidade, no final das contas tudo é aparente.
A topografia da pauta para a Confecom parece acentuar-se em qual o modelo de jornal da
nova era, qual o papel do jornalismo e do jornalista na sociedade, a censura (pauta
cativa), o diploma do jornalista (no Brasil) e a Internet nesta Guerra do Paraguai (onde
ninguém sabe quem está atirando em quem e por que, onde todos estão perdendo).
É bom que os eruditos saiam do armário, brandindo suas Atas Diurnas (Actae Diurnae) sem
pudor nem acanhamento, que os acadêmicos abandonem por um momento suas salinhas de
orientação de mestrados e doutorados (uma trégua da leitura de textos patéticos e até
cômicos) e contribuam honestamente para o debate, que os mais experimentados jornalistas
em franca atividade dissequem em plenário o corpo das redações atuais, suas mazelas
diárias e et ceteras, que inclusive arrivistas dos jornais considerados menores e
estudantes (àqueles com o tal brilho nos olhos que reverbera uma intensa luz do futuro)
todos formem um incandescer grupal na Confecom, contudo que os tópicos daquela falsa
pauta sejam considerados isso mesmo, uma falsa pauta imposta pelos poderes entrincheirados
(termo muito utilizado nos bons tempos da imprensa marrom depois que surgiu a cor
sépia, os links mudaram de cor quando ativados e as hot words ficaram
sujeitas à monetização, os jornais e tudo o que ele envolve, até o peixe, virou um
aquário da insanidade, para gastar todas as metáforas neste texto que promete continuar
seco, duro e direto).
A pauta não equivocada
Se tomarmos como base que a censura é pauta cativa em todos os encontros sobre
comunicação, jornal, jornalismo e jornalista, temos todas as demais pautas inclusas.
Imaginemos um tempo em que a censura não seja pauta, imaginemos um tempo onde tudo seja
possível sem censura então não temos nada para discutir. No fundo, a essência da
comunicação, do jornalismo, dos jornais e jornalistas é possibilidade da falta de
censura. Existe a possibilidade de falta de liberdade (sinônimo de censura),
então o jornalismo está potencialmente vivo, é para isso que ele vive, para lutar pela
liberdade de expressão, permanentemente. Alguém levantará a mão e dirá: - não, é a
notícia. Ora, a notícia é o dia a dia, é a concorrência, é a ignição do repórter,
e o gol no jogo entre os jornalistas dentro até mesmo de um mesmo jornal. Não fosse
assim, aqueles dois repórteres do Washington Post não precisariam de um Garganta
Profunda para descobrir o furo; puderam investigar, puderam publicar, não
houve censura, havia o risco de vida (profissional), havia o risco de integridade física
(ameaças), houve todas as pressões imagináveis.
Os demais tópicos são menores. O modelo de jornal? Que os empresários decidam, desde
que o jornalista possa discutir suas pautas, investigar, apurar, publicar.
O diploma? Com ele ou sem ele, que o jornalista sinta-se livre para lutar pela liberdade
de expressão (há um viés nesta pseudo-pauta que ninguém parece discutir: uma vez o
jornalista encurralado no curral pela união, pelo sindicato, pela teia
jurídico-trabalhista-acadêmica, perderá toda a sua liberdade visceral); claro, se o
jornalista possuir um diploma, melhor para ele, para o jornal, para todos, mas se não
tiver, ele terá que ter em dobro todo o talento e vivacidade que um diplomado pode não
ter. Uma possibilidade interessante seria diplomados e não diplomados competirem na busca
de uma notícia bombástica a cerca de um tal juiz do supremo tribunal da justiça que
disse que o jornalismo não profissão.
A Internet? Ora, primeiro ela era inofensiva, passou menos de uma década ela vai se
tornando o vilão, o terror, o fator de erosão dos jornais, dos jornalistas, do
jornalismo. Errado. Há um enorme equívoco, há um paradigma falso pautado
equivocadamente nas comparações de outras épocas (Gutenberg, rádio, telefone, TV em
preto e branco e depois a cores, fax, linotronics, imagens em tempo real). A Internet não
passa de tudo o que Gilgamesh gostaria de ter à mão quando noticiou o dilúvio, mais de
2000 anos antes de Cristo. A internet, os googles, a web metrics, as tags, as
compatibilizações de instrumentos eletrônicos (telefonia, redes por satélite,
posicionamento geodésico, etc) são as novas máquinas de escrever, só isso, e quem não
souber datilografar procure outra atividade.
A diferença, o marco zero da nova era, a linha divisória que ninguém ousou demarcar
entre o hoje e o ontem, ainda, é que as empresas jornalísticas já assimilaram essas
ferramentas, vivem do Capital que na realidade, como já assumimos no início, manda. É o
indivíduo, o jornalista, a começar pelo repórter de campo, o ponta-de-lança, o soldado
da linha de frente (mercenário ou não) que tem a responsabilidade de se rebelar
(permanentemente) contra o status quo.
Um mau exemplo: dois dos mais bem pagos repórteres (com seus microfones em punho diante
de sofisticadas câmeras no prime time líder de audiência) noticiaram a conferência
sobre o clima em Copenhague de maneira patética (para quem tem um pouco de informação),
de maneira cinematográfica (para o povo desmiolado);
primeiro, a principal e mais dramática notícia que permeia aquele evento não deveria
ser o Capital (conforme foi noticiado) e quem vai pagar a conta, é o fato de a Terra
estar aquecendo a níveis insustentáveis e tudo (de que forma, onde, como, quem são os
responsáveis locais, regionais, internacionais, globais, etc) tem que mudar radicalmente
o quanto antes, inclusive a forma de noticiar o problema, mais profunda e diariamente;
segundo, um país como a Noruega (só para citar uma notícia parcial e maliciosamente
insípida) não é o exemplo de implementações sustentáveis.
A Noruega é um dos menores países da Europa, tem o rei milionário mais pobre dentre os
países que ainda conservam a aberração da monarquia, não tem área para erigir
indústrias poluentes, não tem clima, não tem muitas características produtivas, nem
gente a Noruega tem, capazes como o Caribe, o Brasil, México e a África do Sul, onde ela
investe capital, dinheiro (uma nova forma de conquista além mar dos monarcas modernos) em
empresas de navegação, mineração e petroquímicas (dentre as mais poluentes do
planeta), onde ela investiu em florestamento de mata homogênea (eucalipto) desde a
década de 70 (coincidente com o governo militar, cessionário de terras devolutas para
parceiros estrangeiros) para produção de celulose (uma das indústrias mais poluentes do
planeta, parte generosa desta plantação equivale a duas Noruegas e mais uma Bélgica em
área plantada) e de uma espécie híbrida de eucalipto para a indústria moveleira e
civil (Lyptus) cujo tratamento, após o corte, em ambiente climatizado recebe uma
substância cancerígena passível de contato direto com os seus usuários finais, enfim,
países como a Noruega, aplaudidos em Copenhague não mereceram uma investigação,
digamos assim, mais apurada de nossos jornalistas com uma pauta equivocada na mão, ou um
salário a preservar.
Daí, discutir jornalismo só será eficaz, e honesto, se tudo estiver sendo discutido.
O debate eclodiu: o jornalismo morreu?
por Luís Peazê Publicado em 08//12/2009 16:00:05
Peazê debate com o Mestre Alberto Dines
O artigo de Alberto Dines para o Observatório da Imprensa
publicado dia 08/12/2009 deixa em suspenso a possível idéia de que o jornalismo estaria,
digamos assim, à beira da morte.
Ao abordar a questão da invasão da telefonia na veiculação de notícias (embora seja
improvável que qualquer notícia que se preze caiba integralmente em 140 caracteres)
mostra na verdade o poder de fogo de penetração da Internet como fonte de desejo (e
persuasão) na vida do público em geral. Sim, além das mensagens curtas (SMS), os
telefones inteligentes também veiculam imagens de vídeo, reportagens teoricamente
completas, inclusive, ao vivo, claro, tudo pela Internet. Pois a telefonia é apenas um
mero usuário (oportunista) da tecnologia, a world wide web, cuja artilharia viral e
fomentada pela web metrics atinge quem e quando ela quiser. Quem garante que um telefone
inteligente não possa ser conectado a uma tela plasma de alta definição adeus
antenas escama de peixe e parabólica.
Neste caso é um fato, é a notícia da nossa era, você nunca mais vai ler jornal do
mesmo jeito. Quantas matérias numa só frase, quantos ângulos numa só afirmação
temporalidade, jornal, jornalismo (duas coisas meio diferentes), leitura (hábito e
costumes de uma prática que pauta o desenvolvimento da inteligência humana, até prova
em contrário), texto (faculdade de escrever, em franca deterioração).
A princípio parecem perguntas banais. Mas não é a partir de perguntas banais que
se começa uma bela, séria e imparcial reportagem?

Dines também lembra-nos que a produção de um jornal (inferindo um jornal tradicional)
é feita por uma equipe que transpira. Não vejo porque esta equipe pararia de transpirar
se fosse contratada por um web site de conteúdo. A propósito, o diretor de conteúdo do
iG me informou (por escrito), para meu espanto e dos patrocinadores, que o portal vai
mudar radicalmente, passará a focar em informação. Ué, não focava? Os anunciantes
foram avisados? Permanecerão fiéis ao veículo com a provável mudança de gabarito de
leitor ávido por informação? Perguntas que não acabam mais.
Giro: em 2003 pude coordenar a visita do Prof. Roger Chartier ao Brasil para falar da
história da leitura na Jornada Literária de Passo Fundo e sua acalorada aula sobre o
assunto para mais de 7.000 pessoas sob uma lona de circo na fria cidade de Passo Fundo,
para mim, ficou marcada por vários motivos, um deles a centena de vezes que ele repetiu a
palavra pantalla (tela em espanhol) pausa para o comic relief: Chartier
é francês e palestrava em espanhol, no Brasil. Do tempo em que se lia (o clero)
caminhando com as mãos para trás, enquanto serviçais seguravam e desenrolavam longos
rolos de pergaminho, ao nosso tempo, o hábito de leitura mudou muito, mas arrastou-se de
século em século, de décadas em décadas até que uma determinada mudança se
instalasse definitivamente. A diferença hoje é que a mudança tanto do modo de ler,
quanto do estímulo, tanto do veículo e do modo de escrever, quanto de outras
circunstâncias que permeiam qualquer leitura de texto, é tão veloz, se instala de modo
tão invasivo e persuasivo a tal ponto de ser muito difícil avaliar instantaneamente os
demais aspectos que se lhe envolvem. O contexto de um jornal e do jornalismo, por exemplo.
Daí o debate ser fundamental. Já. Do contrário estaríamos sim presenciando a morte do
jornalismo, pelo menos daquele que era feito antes, e de fato jamais leremos jornais do
mesmo jeito.
Queremos ler jornais do mesmo jeito que líamos antes?
O Observatório da Imprensa não perguntou
se queríamos, mas prometeu que não o faríamos nunca mais. E então, mudamos a maneira
de ler jornais? Afinal de contas, o jornalismo mudou ou não mudou, por conta da entrada
da Internet no cenário das redações?
O outro nó gordiano da questão é o fenômeno dos motores de busca, sejamos menos
cínicos, o poderoso Google, que deflagrou (mesmo que seja uma coqueluche tecnológica)
uma tendência no mínimo difícil de reverter, a da disponibilização e,
consequentemente, contextualização de notícia e informação. O Prof. Chartier acha que
o Google dispersa dados, amontoa informação e não contextualiza. Mas seria o papel do
veículo, do suporte, contextualizar? O amigo Carlos Eduardo Novaes me enviou e-mail
confessando que não entendeu minha afirmação de que o Google seja uma ferramenta
de comunicação. Razoável o comentário de Novaes, mas é a minha opinião, o
Google é uma ferramenta de comunicação, pode não parecer, pode não dizer que é, mas
é. Voltando ao ponto da contextualização, não são os atores humanos, jornalista
e leitor, os responsáveis por esse mal necessário? Ligar um ponto ao outro, intelectual,
livre e espontaneamente?
Dines lembrou Harold Evans que afirmara que o público primeiro seduz-se com opiniões e
truculência, em seguida busca informação trabalhada, investigada, obtida com muita
transpiração. Certo. Mas será que este mesmo leitor, que nunca mais leu jornal do mesmo
jeito, continua buscando informação trabalhada? Será que ele encontraria hoje em dia?
Me ocorre a lembrança de um sobrinho porra louca de Freud, Edward L Bernays, o verdadeiro
pai da arte do relações públicas. Baseado nos estudos do tio, foi o responsável (no
final da década de 20) pelo começo da utilização da persuasão do público. Um de seus
primeiros clientes foi a indústria do cigarro, que por sua vez (leia-se Philips Morris)
financiou por mais de vinte anos não só a criação, mas a publicação do JAMA, o
jornal da associação americana de medicina. Não por acaso a indústria do lobby
nasceu ali, exatamente no lobby dos hotéis dos Estados Unidos. Bernays acreditava na
teoria (do tio) conhecida como herd instinct (instinto de manada), com base
nesta teoria criou a sua própria, chamada de persuasão das massas e
organizou a Easter Parade em New York, convidando as mulheres a se exporem publicamente
com um cigarro entre os lábios. Com isso, quebra uma barreira cultural e pavimenta
a entrada das mulheres no mercado de consumo de tabaco. A Life Magazine considera Berneys
um dos 100 mais influentes americanos do século 20. Ivy Lee, um contemporâneo de
Bernays, em 1920, cria o estilo News Release (NR) ou Press Release - uma nova modalidade
de se abastecer as editorias de jornais e rádios com informações. Hoje em dia,
cerca da metade das matérias veiculadas diariamente pelo Wall Street Journal são
oriundas de NR. Onde está a transpiração do jornalista? Assunto para debate?
Depois do lobby da indústria de petróleo, a AMA (associação de americana de medicina)
é considerada a maior lobista dos EUA. Influencia a linha editorial de jornais, revistas
especializadas e não especializadas, rádio, TV, FDA, indústria de seguro, Congresso,
tudo... A cada dia a AMA envia um minuto de mensagem para 5 mil estações de rádio; a
cada semana 4 mil news release para publicações científicas. Edita o
periódico mais lido pelos médicos, o JAMA com tiragem de 750 mil exemplares, ou mais.
Haja transpiração. Isonomia, que isonomia?
O debate não vai parar, o jornalismo não vai morrer, não deixaremos, mas com uma coisa
estaremos todos de acordo: mesmo com a tradicional gravata afrouxada, ou com o suado
coletinho de guerra, o ser de carne e osso, o jornalista, é infinitamente frágil diante
do roldão que forma a indústria tecnológica da Internet, da telefonia, do lobby e das
bolsas de valores.
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Luís
Peazê, que já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de
"Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária
Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal,
entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e
costeiro www.luispeaze.com/brcostal

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