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Etretenimento Comportamento
Crônico de Fofoca - fofoca em geral
Eu, tu, ele, nós,
voz, eles, ninguém escapa
por Luís Peazê Publicado em 05/11/2009 08:35
Há quem diga que a fofoca é um dos piores defeitos do homem civilizado.
Fofoqueira! Um grito assim pode ser o maior dos insultos, de uma mulher para
outra, num salão de beleza. Mas o que é a fofoca? E por que o exemplo no feminino?
Para a maioria, talvez, é o comentário inconveniente, de uma pessoa para
outra, sobre uma terceira, às vezes totalmente injusto, inverídico, com a intenção de
depreciar. Vou contar, mas você não vai sair espalhando por aí, viu. Se não,
nunca mais te conto um segredo.
Dessa perspectiva há variações infinitas, sejam aqueles comentários feitos em
família, entre amigos ou no ambiente de trabalho, sejam na sociedade, no meio político,
artístico ou em qualquer outro. E a mulher representa melhor o tipo fofoqueiro porque
fala pelos cotovelos. Seu aparelho de articulação da voz, como se sabe, é muito
superior ao do homem, a tal ponto que, diz-se, fala até sem querer. Frequentemente, fala
antes mesmo de pensar. Para a maioria dos homens isso chega a ser uma aberração.
É até comum uma mulher fazer fofoca do próprio marido para sua amiga.
- Não
sei, sabe, eu queria que o Arnaldo conversasse mais comigo...
Para a maioria das mulheres, conversar é falar simplesmente, não importa muito
a opinião do outro, ali a sua frente, ao seu lado, ou ao telefone... Pelo menos logo
assim tão cedo, como o homem faz, abre a boca e está tudo definido.
- Arruma coisas, vamos viajar.
- Ai, Arnaldo. Eu só queria discutir um pouquinho para onde vamos, quais as
nossas opções...
Não adianta. Elas gostam, elas querem, elas precisam falar. A mulher deixa cair
um ovo no pé e dá um gritinho, de susto, de sabe-se lá o quê. Emite sons pelo menor
pretexto. O homem, mais rígido e principalmente nas cordas vocais, solta um palavrão,
entre os dentes. Seria apenas pela diferença entre os aparelhos de articulação da voz?
Fica em aberto.

Mas isso não quer dizer que a fofoca não habite o meio masculino, em absoluto.
Sendo assim, vamos racionalizar: a fofoca é um privilégio da natureza humana. Vejamos os
bichos: não fazem fofoca. Aceitemos, a fofoca é uma necessidade intelectual. Digamos de
outra forma, é um benefício social.
Sem a fofoca a sociedade não teria como defender-se dos falsos, dos cínicos,
dos pernósticos, dos arrogantes, dos complexados, dos vaidosos em excesso e de um cem
número de tipos de indivíduos.
Como nenhum desses delitos estão sujeitos à lei alguma, a nenhuma punição, a
fofoca existiria para castigar os infratores, ou inibir aqueles crimes sem
lei. Mas cuidado, há um limite tênue entre a fofoca e a infâmia, para esta há
severas penas legais, e farta jurisprudência.
Você viu que horrível ficou o corpo dela, depois que aplicou silicone no
traseiro e nos lábios? E os olhos, reparou que repuxados parecem um sorriso de palhaço.
Ri de quê? Ou: - Olha só quem acabou de entrar, olha, vai sentar lá na mesa do canto,
ouvi dizer que roubou na empresa e arranjaram uma forma de demissão para o caso não vir
a público.
Do ângulo de quem defende a fofoca, comentários assim ajudam a evitar que mais
e mais mulheres cometam o equívoco do rejuvenescimento, ou correção, pela cirurgia
plástica, externa. Pelo menos se houvesse uma cirurgia estética da maturidade, da
psiqué, do espírito, da alma, do passado... E que pessoas inescrupulosas tenham um pouco
de receio antes de misturarem as suas coisas com as coisas alheias.
Claro, a fofoca sozinha não resolve fraquezas humanas tão maiores do que a
própria fofoca.
É possível que a maioria das pessoas, preocupada com o que dirão por aí,
esteja sempre se protegendo das fofocas. E somente as que não têm cura mesmo é que
permanecem matéria-prima fértil para as fofocas que inundam o nosso dia-a-dia. Neste
sentido, seria bom que nos soterrássemos de fofoca, seria um pandemônio, mas é
inegável que a fofoca perderia a sua importância. Ninguém iria acreditar mais nela(s).

Antes da conclusão, se ela for possível, diga-se: - é bom que a fofoca exista.
É bom que existam fofoqueiros. Embora, convenhamos: é preciso ter coragem para se fazer
fofoca. Que é chato é, mas alguém tem que fazer o trabalho sujo, não existe essa
expressão?
E há os que abusam dessa permissividade e fazem fofoca do nada, inventam,
mentem, cometem injustiças irreparáveis, é verdade. Isso é inaceitável. Mas fazer o
quê?
Fofoca é isso, e tem a ver, como dizem os americanos, com as boundaries;
no bom português, os limites. Até onde vai a liberdade de um e começa a liberdade do
outro. Nos Estados Unidos, por exemplo, as pessoas são educadas desde o berço a
demarcarem e respeitarem os limites uns dos outros. Em culturas mais ricas em
diversidades, como a nossa, como as Latinas de um modo geral, assim como da China,
Africanas, Indianas e da Europa Antiga, a fofoca é uma forma de demarcar, de modo tacanho
e incerto, essas boundaries. Visto por outro ângulo, é uma forma de curiosidade
instituída pelo outro mundo lá fora, mesmo que o mundo lá fora seja a vida do vizinho.
Ou seja, não há limites. Em outras palavras: fez fora do penico, à boca pequena todos
ficarão sabendo, mais cedo ou mais tarde. O problema é quando a gente tem pontaria, faz
tudo direitinho, preto no branco e vem um fofoqueiro e lambuza a nossa reputação.
Não se sabe se a fofoca faz algum bem, no final das contas. O que se pode
afirmar é que ninguém escapa na vida de ser o centro de uma boa fofoca, pequena ou
devastadora. Inclusive os americanos, aliás, há uma indústria do gossip nos
Estados Unidos. Não é por acaso que o reality show telvisado se espalhou para o mundo a partir da TV
Americana. Primeiro o indivíduo é compelido a espiar a vida alheia, depois ele fica
fofocando.
Concluindo: para a fofoca e os
fofoqueiros não há solução, a não ser ignorá-los. Quem consegue, é claro. E ainda
existem as pessoas que gostam de ouvir fofocas, compulsivamente. Então me conta,
quero saber de tudo, fala, vai. É mesmo, humm, e daí, e depois?
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