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lovelock.jpg (7516 bytes)setinha down.JPG (713 bytes)Ciência - Jornalismo - Saúde - Meio Ambiente - Mundo
Lovelock exclusivo para a Clínica Literária

Açúcar, Gordura, Sal e o Fim da Terra

por Luís Peazê      Publicado em 02/04/2010 11:10

“Prezado Peazê, a coisa mais importante a fazer é sobreviver.” Assim respondeu candidamente o Dr. James Lovelock com exclusividade à Clínica Literária, que lhe perguntou o que fazer enquanto não acontecerem as catástrofes, previstas pelos cientistas, devidas ao aquecimento da Terra, como conviver com a qualidade da água (precária) e sua disponibilidade (cada vez menor) no planeta, as drogas sintéticas da indústria farmacêutica e o alimento transgênico e irradiado?

As 08:08 horas, horário de Londres, do dia 30 de março, a BBC publicou uma entrevista (sonora) de Lovelock que, no dia seguinte foi reproduzida, parcialmente (transcrita), em todo o mundo. Apenas algumas afirmações do criador da hipótese (hoje promovida à Teoria) de Gaia, de que a Terra é um organismo vivo, receberam destaque da mídia internacional. A partir de um texto em português resumido da BBC Brasil, o primeiro a dar “a notícia” foi o IG, um minuto antes do Estadão, 24 horas depois da verdadeira fonte, daí em diante os principais veículos do país seguiram a esteira da mesmice, isto é, todos repetiram o mesmo texto parcial.

Apressado come cru

A Clínica Literária, sempre preocupada com esta parcialidade, com esta pressa em dar a notícia, com esta fome de chegar primeiro e, apostando que esta é uma das razões para a deterioração do comportamento humano e sócio ambiental no planeta Terra, não só quis ouvir a   entrevista na íntegra como aproveitou para renovar o contato com o jovial cientista de 90 anos de idade, que não está sendo levado a sério pela comunidade científica mundial atualmente, nem pelos ecologistas, os mesmos que lhe endeusaram na década de 1970.

Não é para menos, uma das afirmações em sua entrevista à BBC, não destacada naquele texto cotoco que circula por aí, é a de que os cientistas estão forjando resultados para garantir seus salários. Lovelock diz que no início de sua vida científica, a prática era mais apaixonada, os cientistas eram inclusive taxados de anticristo, tal a voracidade com que se entregavam às suas investigações; hoje, como há um número demasiado grande de jovens cientistas acedendo ao mercado a cada dia, preocupados com a carreira, em agradar seus patrões, negligenciam aquele ímpeto antigo que nunca deveria ter desaparecido. A outra afirmação foi a de que “as pessoas não poderão vividamente se transformar de uma hora para outra em verdes”, deixando os ecologistas de plantão de cabelo em pé.

Isso acontece também no jornalismo com muito mais freqüência, pela massa de produção diária, e talvez com tanto ou mais dano ao público em geral quanto à passividade dos protagonistas da ciência patrocinada pelo capital.

Do interior da Inglaterra, assessorado por sua esposa, a Sra. Sandra Lovelock, a Clínica Literária recebeu a simpática e imediata resposta às perguntas enviadas por e-mail logo após a audição e leitura de sua entrevista na BBC, do homem que, quarenta anos atrás surpreendera o mundo com uma hipótese científica revolucionária, todavia, segundo Francis Bacon, cogitada por Platão, num passado mais remoto, de que “a Terra seria uma criatura viva perfeita e inteira”. A partir de um bate-papo informal com o amigo de caminhada Lynn Margulis, que lhe sugeriu nomear sua hipótese através de uma personalidade mitológica grega, Gaia, Lovelock elaborou a tese que três décadas mais tarde (2006) lhe garantiria a Medalha Wollaston, da Sociedade Geológica de Londres, ocupando uma galeria de medalhistas com Charles Darwin. Segundo esta renomada sociedade científica, a teoria de Gaia, “abriu um campo totalmente novo para o estudo da Ciência da Terra”.

O mundo será destruído pela boca

Os mesmos veículos que reproduziram a entrevista parcial de Lovelock poderiam ter reproduzido também um material sobre um ex-alto executivo da poderosa agência reguladora americana a FDA-US, Administração de Alimentos e Drogas dos Estados Unidos, o Professor David Kessler, da Universiadade de Berkeley, que dera entrevista à mesma BBC de Londres, às 08:56 GTM (portanto logo em seguida a Lovelock) sobre o seu livro O Fim da Comilança (The End of Overeating).

O Prof. David Kessler defende a idéia, baseado em pesquisa e sua experiência à frente daquela agência, de que a indústria de alimentos descobriu que as pessoas são facilmente seduzidas pela fórmula açúcar, gordura e sal, todos os elementos combinados, parcialmente ou mesmo isolados. O Fim da Comilança faz um alerta assustador sobre a questão da obesidade e do consumo não inteligente de alimentos, fazendo uma relação direta com o mercado de narcóticos que vicia seus consumidores. As pessoas estariam viciadas irremediavelmente aos alimentos cada vez mais enriquecidos pela fórmula açúcar, gordura e sal. A exemplo dos viciados em drogas, somente um tratamento psicológico combinado com uma mudança drástica de hábito e comportamento alimentar as tirariam do vício. Sem falar dos aromatizantes artificiais, corantes e estimulantes de sabor, substâncias lesivas (cancerígenas) ao organismo.

Idiotia globalizada

Enquanto esse fato é negligenciado pela sociedade que não pára para enxergar a armadilha em que está metida, uma outra indústria dá suporte a esta cegueira, a indústria dos remédios sintéticos, associada à indústria tecnológica dos diagnósticos (que impõem novos protocolos médicos, cada vez mais rigorosos, com parâmetros cada vez mais acelerados), ambas bem amparadas pelos grandes grupos financeiros cujo único objetivo é o lucro por fração de unidade monetária a razão de bilhões.

bolha de agua.jpg (26507 bytes)Isso acontece enquanto a ONU faz revelações não menos alarmantes: a água mata mais do que as guerras e a população do mundo dobrará nos próximos quarentas anos, passando de 3,5 bilhões de pessoas a 7 bilhões.

As perguntas que ocorrem à Clínica Literária, contudo sem ninguém para responder, são: haverá alimento para toda essa gente em quarenta anos, a fome no mundo terá sido mitigada? Haverá água e de qualidade para toda esta população? Continuarão morrendo 5.000 crianças por dia em decorrência de sede, diarréia e doenças ligadas à qualidade da água ou simplesmente por desnutrição? O mundo terá solucionado o seu problema de produção de lixo descartado inapropriadamente, vetores de poluentes que afetam a cadeia alimentar e os ecossistemas? Sem falar de problemas “nenores” a serem resolvidos, tais como: chegaremos a conquistar integral e mundialmente os direitos humanos?

O pecado da mídia

Pauta complexa para os jornais e jornalistas cada vez mais inexperientes nas redações, pressionados por patrões ávidos por manchetes vendedoras, mas reduzir em notícias de consumo rápido lançamentos como O Fim da Comilança e os estudos e descobertas de Lovelock somente a um nome, Teoria de Gaia, e a idéia de que a Terra é um organismo vivo, é imediatismo midiático irresponsável, diante de questões tão importantes para a qualidade de vida das próximas gerações, já que a atual é irreversível.

As contribuições de Lovelock para a ciência contemporânea são várias: da descoberta da acumulação de CO2 na atmosfera, suas conseqüências para a camada de ozônio e o aquecimento da Terra, que originou a invenção (pelo próprio Lovelock) de um captador de elétrons que mede a quantidade de CO2 no ar,  a modelos computacionais, desde a sua primeira demonstração como pesquisador assistente, no final da Segunda Grande Guerra, de que uma gripe comum não contagia pelo ar, mas pelo toque. Contudo, Lovelock sofreu duras críticas durante décadas, foi ironizado inclusive e principalmente pelos biólogos, e somente em 2001 cientistas de vários países se debruçaram sobre a hipótese de Gaia, posto que uma hipótese, em ciência, é considerada apenas uma idéia que tenta explicar fatos, e a promoveram a teoria, isto é, cientificamente provada e, portanto, verdadeira aos olhos da ciência. Ei-la: (1) a Terra "se comporta como um único sistema de auto-regulação"; (2) "as atividades humanas estão influenciando significativamente o ambiente da Terra"; (3) o sistema da Terra é complexo e difícil de prever, e "as surpresas são abundantes"; (4) o sistema é caracterizado por "limiares críticos e mudanças bruscas"; (5) “o sistema Terra vem se movimentando bem fora do intervalo de variabilidade natural, apresentado ao longo do último meio milhão de anos, pelo menos."

A cara de desespero da Terra: o alerta final.

O mais recente livro de Lovelock, The Vanishing Face of the Earth: the final warning (tradução livre: A cara de desespero da Terra: o alerta final) prevê que a temperatura da Terra aumentará abruptamente a qualquer momento, seria a ignição para a catástrofe que redundaria na morte de bilhões de pessoas – antes disso, é provável, que haja um período de temperaturas extremamente baixas, segundo estudo de seu próprio modelo matemático. Daí Lovelock afirmar que, uma vez ocorrendo a catástrofe anunciada pelos cientistas que alardeiam as alterações climáticas da Terra e suas conseqüências, nas próximas décadas após a mortandade de pessoas sobrarão apenas perto de 1 bilhão de pessoas. Ocorrerá então uma migração em massa para regiões mais quentes, se o planeta estiver frio, e para regiões mais frias, se o planeta estiver pegando fogo.

É então possível contextualizar que as pessoas estão comendo desenfreadamente, a favor do capital, da economia de escala, da mesma forma que o mundo produz desenfreadamente levando o planeta, este organismo vivo, ao aquecimento global, a ingestão insustentável de calorias.

O organismo humano não tem condições de processar diária e eficientemente a quantidade de açúcar contida numa lata da coca-cola (por exemplo), da mesma forma a Terra tem reações proporcionais conseqüentes às atividades humanas, de produção e comportamentos individuais. No caso do homem ele pode ficar doente e morrer, no caso da Terra, antes de ficar doente ela reage dizimando ilhas e cidades inteiras, o caso das ondas gigantes, nevascas, enxurradas, secas, terremotos – sem falar das erupções e eventos físicos naturais tanto do indivíduo quanto sísmicos.

Entre uma coisa e outra há a massificação de um comportamento insano de consumo de qualquer coisa (dos programas reality shows aos celulares “inteligentes” e outras coqueluches), um mosto que justifica uma expressão criada por Lovelock: poliantroponemia, a condição em que os humanos super reproduzem-se até um ponto onde fazem mais mal a si mesmos do que o bem. Daí Lovelock afirmar na entrevista à BBC que “não há como salvar a Terra, se ela for salva se salvará por ela mesma, o que temos a fazer é aproveitar a vida enquanto é possível”, e foi mal interpretado pelos apressados jornalistas, que entenderam que Lovelock receita “não fazer nada”.

Para a Clínica Literária ele foi mais claro, contudo de uma forma antológica, projetando em cada um de nós a solução, para que os nossos semelhantes (filhos inclusos, naturalmente), num futuro próximo possam aproveitar a vida: “Peazê, nós somos uma parte importante da Terra e ela precisará de nós no futuro”.

Luís Peazê, que “já jogou bola”, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária – Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro www.luispeaze.com/clinicaliteraria

 

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