A quem competir possa: poucas idéias sobre a Terra têm unanimidade entre os homens
como a idéia do Natal. Embora sejam muitas as interpretações da história da sua
origem. É inegável que o Natal se resume em desarmar o espírito, aproximar-se do outro,
fraternidade. Um novelo interminável e uma coberta infinita a tecer envolvem as pessoas
na sua celebração.
A pura e simples idéia de celebrar o nascimento de Jesus Cristo é forte, todavia paire
como pano de fundo, feito o quadro da Santa Ceia pendurado na parede, dissolvido na
paisagem cotidiana até mesmo dos mais crédulos.
Em certos países, católicos, por exemplo, a importância do Natal é maior do que a mãe
na vida dos seus cidadãos, posto que prisioneiros recebem indulto temporário, para
desfrutarem a noite de Natal com suas famílias. Até os mais tisnados pela fogueira das
vaidades vestem-se com sorrisos néveos, pelo menos na hora de entregar o presente de
amigo oculto... Mesmo nos lugares onde a religião é outra, há tréguas similares, o que
mostra que a idéia de Natal, seja ela qual for, está dentro de todos.
A chama de Natal é realmente contagiante. Não há como escapar. Os tons e imagens
simbólicas combinam-se num cerco infalível ao coração de qualquer pessoa.
Como não afeiçoar-se a um velhinho sorridente dando a uma criança o presente sonhado o
ano inteiro? Como não derreter-se por uma atmosfera de bondade, quando atingem nosso
peito o badalar dos sinos anunciando o Natal, das igrejas às calçadas e aos shopping
centers? Como não largar as armas da batalha diária ao ouvirmos John Lennon cantar:
so this is Christmas/Então, é Natal? Como não refletir profundamente com a
poesia de Drummond, nos avisando que fazemos tudo errado, parando o mundo apenas por um
dia, para celebrar o Natal? Como não ser impelido a multiplicar os votos de Feliz Natal,
dos mais simplórios aos mais criativos na forma de desejar o óbvio?
A explicação, desconfio, deve ser um enorme cabo de guerra, entre o bem e o mal. Pois,
se é certo que o homem vive em permanente contradição, nas suas crenças, princípios,
valores, comportamento e atitudes em relação a tudo na vida, é certo também acreditar
que o Natal seja uma avenida de mão dupla ao redor de um enorme novelo fraternal.
Enquanto uns o enrolam para um lado, outros o fazem para o lado contrário, criando o
enredo é dando que se recebe, e alimentando com voracidade a terrível
fornalha comercial.
Que o bem seja competente, que vença o mais competente.
Feliz Natal para todos nós, agora e sempre.
Madeira: assim como a água e o CO2,
o ouro do futuro Apagão
florestal, sustentabilidade e a fogueira das vaidades.
Por Luís Peazê
Ratifico o
mote de artigo recente de um colunista de economia (seu nome omitido, omitida também,
desta forma, a inclinação política do artigo): o Brasil não está preparado para dar
certo, nem para dar mais errado do que já deu. Destrinchando: se, a curto prazo, o Brasil
der certo, por exemplo, na indústria naval, restritamente na construção de navios,
teria que dar certo numa série de outros vetores produtivos e sócio-econômicos que eu
talvez seja incapaz de listar. Vejamos alguns, apenas para verificar a complexidade da
demanda, e constatar que, pela complexidade do que tem dado errado no Brasil, o imbróglio
é indissolúvel:
Dar certo na
construção naval, a curto prazo, é viabilizá-la financeiramente, é corresponder à
demanda de aumento da nossa frota de navios, de cabotagem e de longo curso, é ser capaz
de construir no mínimo 20 navios dentro de cinco anos, graneleiros, de carga líquida,
petroleiros, e de outras utilizações; dar certo nesse setor do qual pouco se fala, do
qual pouca gente tem conhecimento, é ser capaz de formar, à taxa de milhares por ano,
técnicos de inumeráveis profissões, é ser capaz de profissionalizar instantaneamente
pequenas indústrias e prestadores de serviços diversos, e põe diversos nisso; é ser
capaz de produzir peças, equipamentos, ferramentas e materiais em uma infinidade de
áreas de produção; depois disso tudo, dar certo na indústria naval, a curto prazo, é
ser capaz de dragar todos os nossos portos, de acordo com as regulamentações
internacionais e órgãos internos de meio ambiente, é ser capaz de otimizar os portos,
segundos as recomendações da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e nossas leis
federais do trabalho e ambientais (quanto ao manejo de áreas costeiras, portos e rios);
por fim, sem esgotar o assunto, é ser capaz de garantir uma malha rodoviária,
ferroviária e pluvial de escoamento dos produtos que trafegarão na mão dupla de e para
os navios. Não é por acaso que o primeiro problema a solucionar é a viabilização
financeira. Pois, quem irá investir dinheiro num ninho de problemas tão grande? Não é
por acaso, também, que a atual frota naval que transporta produtos nacionais e nossas
importações é toda estrangeira. Até as nossas plataformas de petróleo são em grande
parte produzidas por empreiteiros de outros países, porque somos incapazes de fazer nós
mesmos as nossas coisas, porque não estamos preparados para dar certo. Em outras áreas
produtivas a situação é semelhante, por conta da mesma causa, por não sermos capazes.
Enquanto isso, um
efeito cascata cria situações sórdidas para a nossa economia, para a melhoria da
qualidade de vida de nós mesmos, indo direto ao ponto mais nevrálgico e importante aqui:
há navios de bandeira de conveniência do Caribe, cujo armador é sediado na Grécia, e
cuja empresa de navegação é do Oriente Médio, que trazem suas cargas para cá, as
descarregam no sudeste e sul de nosso extenso litoral, e, na falta de carga para a viagem
de retorno, sobem nossa costa para colherem gratuitamente água potável de nossos rios
amazônicos. Água, para quem não lembra, é o ouro branco, é o produto de maior valor
no mundo atualmente, é o produto que talvez tenha maior potencialidade de retorno
financeiro a médio longo prazo, é o que no Oriente Médio inexiste na mesma proporção
que existe o ouro negro por aquelas bandas.
A amazônia, diga-se de
passagem, com toda a sua decantada complexidade e legiões planetárias de defensores e
defloradores, tem sido o berço de pendengas sanguinárias com relação a inúmeras
áreas de interesse sócio-econômico para o futuro imediato que dependem de um Brasil que
dê certo, e que esteja preparado para dar certo. Tomemos a madeira, como exemplo mais
visível na amazônia, e perguntemos a nós mesmos o seguinte: como é possível haver
naquela região um grupo de empresas multinacionais, associadas a um conceito de
produtores florestais certificados (segundo padrões internacionais de exigência
ambiental), terem projetos multibilionários embargados, arrastando-se nos escritórios
governamentais, enquanto o IBAMA trava disputa com órgãos florestais do governo federal,
enquanto a Pastoral da Terra faz queda de braço com o INCRA na defesa de interesses de
populações ribeirinhas, enquanto ninguém se entende, enquanto exploradores ilegais de
terra e madeira continuam queimando e derrubando matas do tamanho de um país da Europa,
da noite para o dia? Como é possível o Japão ter o dobro do Brasil de área de floresta
plantada (10 milhões de hectares japoneses contra 5 milhões brasileiros)? No meio
madeireiro já se fala em apagão da madeira, pelo menos é fato a necessidade
atual do Brasil importar madeira para móveis e a construção civil. Enquanto madeiras
nobres reflorestadas, como o guarandi, entre outras, a primeira madeira brasileira
protegida por decreto imperial, que substitui espécies em extinsão, como o mogno,
permanecem escondidas pelo desinteresse da mídia.
Se na época do milagre
brasileiro (anos 1970), dos incentivos dos governos militares para o reflorestamento,
houve uma alavancada da indústria da celulose e do papel, que provocou o empobrecimento
de extensas áreas, pela produção massiva de eucaliptos e pinus, hoje, com a cultura
diversificada de florestas plantadas, pode haver uma alavancada semelhante em várias
indústrias, sem necessariamente haver empobrecimento de terras. Mas é preciso o Brasil
estar preparado para dar certo.
A água em
abundância nós temos, o ouro do futuro, e a estamos esbanjando irresponsavelmente a
ponto de ser iminente, e tardio, o nosso arrependimento; a madeira, contudo, não a temos
mais em abundância, como no passado recente, mas estão aí as iniciativas inteligentes.
De uma coisa se tem conhecimento hoje, a madeira é, ao lado da água e do CO2,
o ouro do futuro, uma combinação óbvia de elementos naturais e de sustentabilidade. O
resto é uma enorme e irremediável fogueira de vaidades.
Tarifa Livro. O que é isso?
Após lançar a campanha pela tarifa especial reduzida de envio de livros pelos Correios
fui questionado de diversas maneiras. A pergunta mais interessante que me fizeram... Leia mais >>>
Leia artigos em inglês de Luís Peazê
publicados no OhmyNews INTERNATIONAL
Brazilian Campaign: Special Mail Rate for Books
It is not fair to pay more for the mail than for the book - Strange enough is that, after knowing the well known certifiers, the major
bookstore chain called Siciliano (any relation with the Godfather film
about Mafia is a mere coincidence) Read more at>>>
Sécurité! Sécurité! Sécurité!
Traduções de notícias do estrangeiro soçobrando!
O que você faria, se ouvisse no
meio de uma metrópole uma voz apreensiva sussurrando, no seu ouvido, a chamada do
título? Se for um cidadão de qualquer profissão exceto do jornalismo, pensará que
está ficando louco, ouvindo vozes do além. Mas um jornalista entraria em estado de
alerta; em seguida iria querer saber de onde exatamente está vindo; daí em diante é a
rotina de apurar, apurar, apurar e, às vezes, traduzir corretamente antes de publicar a
notícia.
Recentemente fui pego como um
cidadão comum pela notícia de que Mike Tyson envolveu-se em confusão numa boate de São
Paulo, e li a matéria. Andava meio nocauteado de tanta notícia incerta sobre quem seria
indicado para punição na CPI do mensalão, e fiz um desvio para, como dizem os
americanos, limpar o sistema (em português talvez fosse melhor traduzir
clean the system para zerar a paisagem mental, mas, pensando
melhor, às vezes a coisa envolve zerar-se espiritualmente (com uma notícia sobre Mike
Tyson?), deixemos como está). Pois o que aconteceu foi eu ser nocauteado de vez,
literalmente pela tradução das respostas do famoso e bizarro boxeador.
Você diria, muito circunlóquio, não fui direto ao
ponto. Paciência, trabalhar com tradução é assim, parece que vai ser fácil, mas nunca
é. Contudo, é instigante, e vamos direto ao ponto, o espaço aqui é pequeno, como nas
redações, onde a pressa é um vício da notícia:
Após ler várias frases entre aspas, traduções de
respostas de Tyson ao repórter, desconfiei que havia sérios problemas de interpretação
do tradutor. Ao final não tive dúvidas dos danos na e da notícia. Deduzi que a
causa fora a pressa do redator ou a sua falta de experiência, injustificável em
qualquer dos casos, mesmo que repórter, tradutor e redator tenham sido a mesma pessoa, ou
não. A partir daí farejei uma notícia subjacente, ouvi um sussurro e fui investigar. E
a notícia é: as traduções de notícias estrangeiras e de entrevistas com
personalidades internacionais estão com sérias avarias, soçobrando em alto mar.
Bem ao final da entrevista com Tyson o repórter coloca
entre aspas uma de suas respostas, assim: tudo o que eu quero é ser deixado
sozinho. Dois parágrafos acima, Tyson havia revelado que após o seu declínio no
Box, sentia-se abandonado, logo conclui que a frase traduzida, com problemas, teria sido
all I want is to be left alone. A nossa língua também quer ficar em paz, ela
não precisa levar tantos socos assim. Problemas como esse soçobravam ao longo de toda a
matéria, que contou com um colaborador, dois jornalistas, e sabe-se lá quantos mais a
leram antes de ir para as páginas (impressas e digitais) do jornal.
Minha pesquisa na Internet e em jornais impressos
prosseguiu, tendo prospectado uma fábula de lixo perigoso, tanto na superfície dos
textos traduzidos, de notícias reproduzidas de agências internacionais, quanto em suas
profundezas. A última notícia, traduzida da Associated Press, que provocou este aviso de
acidente no mar da informação jornalística, foi a de um australiano e de um
neozelandês náufragos, encontrados à deriva num bote salva-vidas no 11o,
digo, 12o dia.
A manchete anunciava um dia a menos de deriva, até aí
tudo bem. Mas logo no primeiro parágrafo uma frase soou como um direto no queixo. Os
homens estariam trazendo um motor de iate de 60 pés para um cliente de Sydney,
Austrália. Ora, o texto abria com a localização da notícia em Hanói, Vietnam, como
poderiam estar trazendo algo? Certamente eles estavam levando, assim como a
gramática e a mente do leitor estiveram levando uma surra. Mas o pior estava para vir.
Investiguei no texto original de AP e de outros veículos chineses e australianos (graças
à Internet) e descobri que os pobres náufragos levavam um motor yacht, que
é um tipo de veleiro equipado com um possante motor, podendo fazer longas viagens sem
utilizar as velas. Descrição irrelevante para o leitor em português, pois, quem é do
ramo se refere a motor yacht assim mesmo, e tanto faz, continua sendo veleiro.
Grande. A propósito, tinha 20 metros, portanto, 6 pés a mais do que o noticiado. Quem é
do mundo dos barcos sabe quanta diferença isso faz.
Bem, o texto era um acidente atrás do outro. A frase
ao final, sem edição, sem copy desk, e com muita pressa ou pouca atenção, dispensa
comentários: Nos aconchegávamos juntos um ao outro como dois bebês para nos
mantermos aquecidos durante a noite. Durma-se com um barulho desses!
Entre a matéria do Tyson e esse naufrágio, encontrei
muitas outras semelhantes, isto é, com problemas graves de tradução. Não cito nomes
porque não se trata de um patrulhamento gratuito, nem pensar. Mas de um chamado de
distress, um alerta de problemas no horizonte, um apelo para que um salvamento
seja posto em curso, bens e vidas podem ser salvos. Por falar nisso, pelo código de
comunicação náutica, as expressões Sécurité! Sécurité! Sécurité! May Day! May
Day! May Day! Help! Help! Help! S.O.S não querem dizer exatamente a mesma coisa.
O aviso se justifica porque uma dessas expressões
utilizada na ocorrência errada pode causar pânico, ou socorro tardio, e, no caso das
traduções de notícias, é tão fácil resolver, não há necessidade de danos maiores.
Conversando com cientistas da
oceanografia tenho ouvido freqüentes reclamações quanto a péssimas traduções, assim
como de descrições impróprias em textos jornalísticos sobre eventos científicos em
geral. Isso não deixa de ser um problema de tradução, interpretação. Assim, o
público está recebendo desinformação, é aí que está o problema. Por isso, caros
colegas (repórteres, chefes de redação, diretores e donos de veículos), já que a
Internet, os editores de texto, os dicionários temáticos e de expressões idiomáticas
on-line facilitaram tanto a vida da gente, não custa investir um pouquinho mais de
atenção na hora de traduzir e interpretar, pelo menos.
Atenção, revisores de plantão:
este texto foi escrito, propositalmente com pressa, em exatos 40 minutos, com base no
repertório memorizado, portanto, mãos à obra.