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Lixo Marinho e os
Instrumentos de Mercado (II/II)
Uma solução aparentemente etérea, mas
é mais simples do que parece
por Luís Peazê Publicado em 14//11/2009 18:35
*Luís Peazê
Tomando emprestada uma frase do escritor Arthur Koestler, depois que a bomba nuclear
foi inventada não deu mais para desinventá-la, é uma boa tentativa de justificar
a utilização dos instrumentos de base de mercado aplicados como solução para o
problema global do lixo marinho. Isto é, depois que o mercado foi inventado, não dá
para deixar de utilizá-lo, para tudo, desde que ele regula de fato a atividade produtiva
sobre o planeta.
E é a atividade produtiva sobre o planeta a primeira culpada da produção do lixo
marinho. Quer dizer, se aceitarmos que a produção de bens de consumo duráveis ou não
duráveis, supérfluos ou de primeira necessidade, gerará resíduos, mais cedo ou mais
tarde, poderemos acreditar que potencialmente haverá lixo marinho. Resíduos, de toda
sorte, potencialmente chegarão ao mar por várias vias e por causa de várias práticas
inapropriadas, ou ilícitas.
Uma vez gerado o lixo, se não houver todo um sistema integrado a uma infra-estrutura para
o seu gerenciamento e processamento, pelo menos parte dele acabará entrando no mar. Suas
fontes de entrada no mar, para simplificar a compreensão do problema, podem ser de base
terrestre o lixo que foi gerado em terra e chegou ao mar por alguma razão
imprópria ou até mesmo insidiosa , e de base de oceano que foi gerado no
mar e perdido, descartado ou abandonado maliciosamente no próprio mar.
O problema começa justamente aqui, numa equação imperfeita: a) as águas dos mares e
rios que desembocam no mar são veículos de todo o tipo de lixo e não respeitam
fronteiras, circulam livremente com as correntes; b) um sistema local, regional ou mesmo
nacional (raro) integrado às melhores práticas de gerenciamento, manejo e processamento
de lixo, em terra e no mar torna-se imperfeito na medida em que não tem capacidade de
resolver o fator a) anterior; c) a produção de lixo é permanente e, pode-se
afirmar, crescente; resultando, esta equação, num problema de difícil, complexa e
aparentemente impossível solução.
Mas a realidade é mais simples do que parece
Estivéssemos enfrentando um problema abstrato, conforme infere as afirmações acima, de
que é a atividade produtiva a primeira culpada pelo lixo marinho e seus problemas, não
teríamos outra conclusão de fato, de que o problema é insolúvel. Mas a sua solução
é mais simples do que parece porque não se trata de um problema abstrato.
A atividade produtiva existe porque existem pessoas mobilizadas, estimuladas, motivadas a
produzir, de um lado por interesses variados indivíduos e grupos
interessados em gerar necessidade, em produzir para suprir essas necessidades superficiais
para obtenção única e exclusivamente de lucro monetário e retorno de investimento de
capital e, de outro lado massas de indivíduos idiotizados pela febre do necessitar, do
desejar e subsequentemente do suprir essas demandas impostas por terceiros. 
Vivessem as pessoas motivadas em primeiro lugar por outros impulsos diferentes do
consumir, do possuir, do exibir um certo status existencial relacionado a tipos de poder,
o problema do lixo marinho e de todos os demais tipos de lixo, inclusive existencial,
seriam potencialmente neutralizados por esse novo tipo de indivíduo, utópico. Por
exemplo, vivessem as pessoas dedicadas a se conhecerem mais, a conhecerem mais o seu
próprio corpo com o objetivo de produzir a sua própria saúde física e mental, em
primeiro lugar, começaria aí todo um novo padrão de produtividade, consumo e, por
conseguinte, produção de lixo e seu manejo, a nível individual e coletivo generalizado.
Utopia à parte, o fato é que nossa capacidade e motivações produtivas geram problemas
e um deles é o lixo. Salvo sermos capazes de mudar radicalmente nosso comportamento,
nosso modus vivendi, há apenas uma forma de resolvermos nossos problemas, pela via do que
nos é importante nesse estado de mundo em que nos embarafustamo-nos, ou seja, os
instrumentos de base mercado.
Dizia-se há tempos atrás que problemas de ordem pública comum de todos era uma
responsabilidade do estado, dos governos. Não é mais desde que o estado faliu de tanto
inchar pela via da politicagem, porque não funciona como uma empresa, movido pela
objetividade e voltado para o resultado no final do exercício fiscal, voltado para o
interesse de seus acionistas. Quando não atinge seus objetivos o estado simplesmente move
este objetivo para o próximo ano no calendário civil, e este ano pode muito bem ser o do
próximo governo.
Também nunca chegamos a assimilar e praticar o conceito jurídico da responsabilidade
solidária, porque, ora, se não somos solidários na acepção passional do termo, por
que seriamos na sua acepção jurídica? A ponto de ser, a responsabilidade solidária, um
lugar inexistente em nossa sociedade.
Então, embora estejamos ainda mancando em velocidade controlada na terceira via, onde
agências reguladoras e organizações não governamentais tentam estabelecer diretrizes,
ditar regras, sem contudo exercerem poder algum de imposição, sobra-nos os instrumentos
de base de mercado para forçar nossa mudança de comportamento no sentido de mitigar o
problema do lixo marinho, voltando para o nosso assunto original.
Assim, há o princípio do poluidor pagador (poluiu ou vai poluir então pague); há o
princípio do usuário pagador (vai usufruir ou usufruiu então vai pagar, a utilização
de uma praia, por exemplo); há o princípio da recuperação total de um bem natural de
domínio público (um sítio marinho, um manancial, um trecho de estuário, uma baía,
etc), quer dizer, neste caso, o dano causado pela poluição do ator tal será custeado
totalmente por ele; e há o princípio do depósito compulsório e seu respectivo
reembolso, isto é, por exemplo, o consumidor de um produto engarrafado deposita (paga uma
taxa) um valor na compra desse produto e obtém o reembolso de um valor relativo na
devolução da embalagem.
Artifícios (igualmente difíceis e complexos de implementação) superficiais de
imposição de comportamento mitigador de lixo marinho inspirados naquilo que é
importante para o homem dessa sociedade materialista, idiotizada pela produtividade
insana, nada inteligente.
O próximo artigo fará um esboço de uma sociedade utópica, onde não há lixo marinho,
e não há vários outros problemas que uma boa saúde física e mental neutraliza
naturalmente.

*Luís
Peazê, que já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de
"Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária
Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal,
entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e
costeiro www.luispeaze.com/brcostal
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Leia Também:
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Marinha do Brasil e a Imprensa sobre o Lixo Marinho

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