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Ambiente
Marinho - Ciência & Tecnologia - Mundo
Uma Onda Gigante de Lixo Marinho
por Luís Peazê Publicado em 31//01/2006 18:35 Na Conversa no Píer
A maior ameaça
dos novos tempos não é necessariamente a falta de água, de petróleo ou de comida,
porque para essas ameaças o homem não pára de procurar alternativas e encontrar
soluções. A maior ameaça vem do berço da nossa civilização. É o lixo. Que,
genericamente, poderia ser tratado por lixo marinho. Pois, já não se disse que tudo
acaba no mar?
Um relatório do UNEP/PNUMA
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, produzido em 2005, sobre o
problema do lixo marinho nos Mares do Norte, Europa, África, Australásia e Estados
Unidos, começa afirmando que o lixo marinho impõe uma enorme e crescente ameaça ao meio
ambiente marinho e costeiro. Ao final de aproximadamente 50 páginas, depois de relatar as
atividades, acordos, convenções, regulamentações, diretrizes e ações de agências da
ONU, governos, comissões internacionais e de um bom número de organizações da
sociedade civil organizada, nas últimas duas décadas, conclui que o problema do lixo
marinho persiste, grave, crescente e altamente ameaçador ao meio ambiente.
No Brasil não há estudo
similar, até porque naquele relatório da UNEP/PNUMA são mencionados estudos e pesquisas
feitas individualmente por entidades em vários países, mas, segundo o relatório, não
seriam válidas, porque não utilizaram metodologia padronizada, nem foram feitas num
período longo de observação, nem em uma área de amostragem representativa. Mas basta
um passeio em qualquer calçadão de qualquer uma das milhares de cidades litorâneas para
se constatar que, no Brasil, o lixo marinho faz parte da nossa paisagem do dia-a-dia.
O tamanho do problema
O lixo marinho é encontrado
em todas as áreas dos mares e oceanos do mundo não somente em regiões densamente
povoadas, mas também em lugares remotos, bem longe de qualquer fonte óbvia de lixo;
viaja longas distâncias pelas correntes oceânicas e com os ventos, sendo encontrado em
todos os lugares no meio ambiente marinho e costeiro, dos pólos ao equador, dos litorais
continentais a minúsculas e remotas ilhas; origina-se de muitas fontes e causa tremendos
impactos ambientais, econômicos, na segurança, na saúde e culturais; a lenta taxa de
degradação da maioria dos itens de lixo marinho, principalmente plásticos, e a sua
contínua e crescente produção, estão ganhando da disposição do homem de limpar o
planeta.
São estimadas que em torno
de 6.4 milhões de toneladas de lixo marinho são descartadas nos oceanos e mares a cada
ano. Cerca de 8 milhões de itens de lixo marinho são despejados nos oceanos e mares
todos os dias, aproximadamente 5 milhões dos quais (resíduos sólidos) são jogados de
navios. Mais de 13.000 pedaços de lixo plástico estão, atualmente, flutuando em cada
quilômetro quadrado de oceano. A Fundação de Pesquisa Marinha Algalita (AMRF), por
exemplo, afirma em um relatório de pesquisa que no giro central do Oceano Pacífico, ela
encontrou, em 2002, 6 quilos de plástico para cada quilo de plâncton próximo da
superfície.
A deficiência na implementação e
execução de padrões e regulamentações internacionais, regionais e nacionais (leia-se
prática eficiente de gestão do lixo) que poderiam melhorar a situação, combinada com a
falta de conscientização entre os principais interessados e do público em geral são as
maiores razões pelas quais o problema do lixo marinho não só permanesce, mas continua
crescendo mundialmente.
O lixo marinho é a maior
preocupação de saúde pública e ambiental em muitos países, que geralmente não
dispõem de um sistema apropriado de gestão de resíduos, desde a sua fonte até o seu
descarte ou processamento final.
A cara do problema e os maiores culpado
O lixo marinho é um problema
ambiental, econômico, de saúde e de estética. Causa danos e morte à fauna. Ameaça a
diversidade biológica marinha e costeira em áreas costeiras produtivas. Pedaços de lixo
podem transportar espécies invasoras entre os mares. Resíduos hospitalares e sanitários
constituem um perigo à saúde e podem prejudicar seriamente as pessoas. O lixo marinho
causa danos que implicam em grandes custos econômicos e perdas a pessoas, a propriedades
e a meios de subsistência, assim como impõem riscos à saúde e até a vidas.
Sem pestanejar pode-se
afirmar que o melhor representante do lixo marinho é o plástico. Basta olhar nas
praias de qualquer parte do mundo. Todas as pesquisas, válidas ou não, segundo o
UNEP/PNUMA, apontam os plásticos como os mais perversos itens de lixo marinho. Porque
são os mais persistentes; porque flutuam, ficam na coluna d´água e no leito dos mares;
porque ameaçam a fauna de variadas formas, pela ingestão e enredamento; porque, mesmo ao
se fotodegradarem, continuam sendo plásticos, e sujeitos a ingestão pelos menores
organismos marinhos. Mas isso não quer dizer que os demais itens de lixo marinho sejam
menos ameaçadores. Lixo é lixo. 
Quem são os culpados por colocarem
essas ameaças dentro dos mares? Por ordem: os navios da marinha mercante, pelo descarte
de lixo marinho no mar; as embarcações de pesca, mais especificamente os apetrechos de
pesca perdidos ou abandonados nos mares, e também pelo descarte de lixo no mar; por fim,
o descarte de lixo nas praias e por embarcações de recreio. Mas há uma outra forma tão
potencialmente ameaçadora quanto as apontadas acima: suas fontes estão baseadas em
terra, dos dejetos irregulares e criminosos, de indústrias, dos lixões próximos das
zonas costeiras, os esgotos sem tratamento, o lixo que desce pelo rios e chega ao mar, e a
falta de educação (problema cultural) das pessoas em geral. As pesquisas fazem essa
última afirmação de modo ponderado, acusando a necessidade de conscientização, mas a
realidade é que somos todos ignorantes com relação ao problema do lixo. Não
reconhecemos a gravidade do problema, para nós mesmos. Sem falar de outras ameaças ao
meio ambiente marinho, tais como os acidentes de derramamento de óleo de navios e
plataformas de petróleo.
Por que é tão difícil resolver
A solução vista pelo ângulo prático
é simples. Vista pela lente da realidade é inatingível, a curto prazo. De qualquer
ângulo o primeiro passo seria o ímpeto político; o segundo seria o tratamento adequado
do lixo, em depósitos projetados ecologicamente corretos, incluindo aí processos de
seleção, reciclagem, reuso e transformação de itens de lixo em energia, conforme o
caso e conformidade com as leis federais, estaduais e municipais com relação ao
lixo (leis não faltam); o terceiro passo, paralelo ao segundo, seria a implantação de
estações receptoras de lixo dos navios e barcos de pesca nos portos (assim como mini
estações em marinas) no Brasil não há um só caso exemplar. 
Por fim, o mais difícil: a mudança de
comportamento do público em geral. Essa é uma batalha potencialmente paradoxal. Como
fazer com que as pessoas produzam menos lixo, através da escolha inteligente de consumo?
Como internalizar nas pessoas a noção de que o lixo não existirá se ela não o
produzir, logo não poderá causar ameaça ao meio ambiente? Como fazer com que as pessoas
consumam menos, ou descartem seus resíduos de modo ambientalmente correto? Só se a
cadeia de produção inteiramente estiver engajada, desde a produção, através do
marketing de produtos e de suas propagandas com responsabilidade social. Mas aí fica
faltando a participação da municipalidade, com a gestão adequada do lixo. Sem falar que
as novidades de embalagens pseudo ambientalmente amigáveis, isto é, oferecidas com o
valor agregado da biodegradação, podem enviar uma mensagem equivocada ao público, de
que ele pode consumir sem culpa, porque o meio ambiente irá absorver. Neste caso, aquela
linha divisória entre o milenar comportamento nocivo ao meio ambiente e a prática
inteligente nunca será traçada.
O lixo marinho e todo o lixo do
mundo, de um modo geral, é como uma onda gigante que desaba gradualmente em pingos sobre
a cabeça de todos nós, todos os dias, enquanto disfarçamos que ela não existe.
Dado que o lixo marinho tem
origens baseadas no mar e em terra, medidas para reduzi-lo ou evitá-lo devem ser tomadas
em um número grande de lugares, dentro de um número grande de atividades, num vasto raio
de alcance de setores sociais, e por muitas pessoas, em muitas situações. Por isso é
tão difícil resolver o problema.
Existem
regulamentações (cito a MARPOL 73/78 e a Convenção de Londres, ratificadas por
centenas de países, incluindo o Brasil) internacionais, que exigem o descarte adequado de
lixo de navios em estações receptoras nos portos, e estabelecem com clareza a
importância da prática de gestão de resíduos tanto para fontes baseadas no mar quanto
em terra. Mas elas não têm o poder, a estrutura nem a função de polícia, e, para
piorar, elas mesmas prevêem que suas regulamentações, quanto à prática de descarte de
lixo de navios, só podem entrar em vigor, a ponto de provocar sanções pela não
conformidade, se as estações receptoras existirem. Uma responsabilidade dos municípios
e portos. Um paradoxo, criado pelos próprios criadores das regulamentações, pelos
grupos de pressão e pelas fraquezas políticas (a nível federal, estadual e municipal).
Leia-se indústria do transporte marítimo e da pesca, autoridades portuárias e os
chamados stake holders.
| Principais fontes de lixo marinho baseadas no mar: |
Principais fontes
de lixo marinho baseada em terra: |
| - Transporte comercial naval de carga e de
passageiros coletivos e navios de cruzeiro marítimo
- Barcos de pesca;
- Embarcações da frota militar e de pesquisa;
- Embarcações de recreio;
- Plataformas de petróleo ao largo da costa; e Instalações
de aqüicultura. |
-
Aterros municipais (lixões) localizados na zona costeira;
- Transporte estuarino de resíduos de aterros públicos,
etc, ao longo de rios e outras vias navegáveis internas;
- Descargas de
esgotos municipais in natura (sem tratamento) e águas pluviais (incluindo ocasionais
enchentes);
- Instalações industriais (resíduos sólidos de aterros
e águas residuais não tratadas);
- Turismo (visitantes recreativos da região costeira). |
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Leia Também:
Lixo
Marinho e os Instrumentos de Mercado (I e II/II)
- (I) Ou armas para educar à força
- (II)
Uma solução aparentemente etérea, mas é mais simples do que parece
Marinha
do Brasil e Imprensa sobre o Lixo Marinho
*Luís
Peazê, que já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de
"Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária
Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal,
entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e
costeiro www.luispeaze.com/brcostal

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