Planeta
Água
Água que nasce na fonte serena do mundo
E que abre o profundo grotão
Água que faz inocente riacho e deságua
Na corrente do ribeirão
Águas escuras dos rios
Que levam a fertilidade ao sertão
Águas que banham aldeias
E matam a sede da população
Águas que caem das pedras
No véu das cascatas ronco de trovão
E depois dormem tranquilas
No leito dos lagos, no leito dos lagos
Água dos igarapés onde Iara mãe d'água
É misteriosa canção
Água que o sol evapora
pro céu vai embora
Virar nuvens de algodão
Gotas de água da chuva
Alegre arco-íris sobre a plantação
Gotas de água da chuva
Tão tristes são lágrimas na inundação
Águas que movem moinhos
São as mesmas águas
Que encharcam o chão
E sempre voltam humildes
Pro fundo da terra, pro fundo da terra
Terra planeta água... terra planeta água
Terra planeta água.
Ficha Técnica:
Produzido por Fernando Adour / Arranjo e regência: Eduardo Souto neto / Direção
artística: Guti / Capa: Ruth Freihof / Foto: Paulo Vasconcelos.
"Águas de Março"
Tom Jobim
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumieeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
Uma ave no
céu, uma ave no chão
É um regato,
é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do
poço, é o fim do caminho
No rosto o
desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe,
é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo
pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe,
é um gesto, é uma prata brilhando
É
a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é
o dia, é o fim da picada
É a garrafa
de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto
da casa, é o corpo na cama
É o carro
enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo,
é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de
mato, na luz da manhã
São as águas
de março fechando o verão
É a promessa
de vida no teu coração
É uma cobra,
é um pau, é João, é José
É um espinho
na mão, é um corte no pé
São as águas
de março fechando o verão
É a promessa
de vida no teu coração
É pau, é
pedra, é o fim do caminho
É um resto de
toco, é um pouco sozinho
É um passo,
é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo
horizonte, é uma febre terçã
São as águas
de março fechando o verão
É a promessa
de vida no teu coração
Composição
de Tom Jobim, 1972.
História:
Em diferentes depoimentos, Tom Jobim narrou
em que situação a canção, "Águas de Março", foi composta. Ele estava no
sítio, Estado do Rio, numa casinha provisória, na beira do caminho, apelidada de
"barraco 2", enquanto construía uma maior, no alto do morro. Havia comprado
madeiras de lei, vigas imensas descarregadas por caminhões, deitadas ao relento, ao lado
de pedras e tijolos, num terreno enlameado.
Exaurido de tanto
trabalhar em "Matita Perê", quando sua mulher foi se deitar, começou a
cantarolar: "É pau, é pedra, é o fim do caminho". Da cama, ele comentou que o
tema era lindo. Então, ele pediu lápis e papel. Arranjou um papel de embrulhar pão, no
qual o compositor rabiscou a letra "Águas de Março".
"Águas de
Março" (1972) está para Tom Jobim como "Construção" (1971) para Chico
Buarque. Ambos compõe em cima dos ritmos do Campo e da cidade, demonstrando um alto grau
de maturidade no trato com as palavras, atingindo um patamar raramente alcançado por seus
contemporâneos. Antonio Carlos
Jobim tinha 45 anos de idade quando compôs
"Águas de Março".