Velejar
é se soltar numa pipa sobre o marChico comprou papel de seda de várias cores
e caixas de carretéis com linha zero. As talas para produzir as pipas ele conseguiu de um
tio que tinha um buritizal com muitas e enormes palmeiras.
Os garotos
não só de seu bairro mas de outros distantes e até adultos, principalmente os pais, lhe
encomendavam pipas. Só ele sabia fazer pipas tão lindas, coloridas, obras de arte, aves
de papel, tinham alma, voavam alto e balançavam tão graciosas que até os pássaros, no
céu, as apreciavam. Com o lucro da venda das pipas chegou a comprar a sua primeira
bicicleta. Confessava aos mais íntimos que não era bom empinador e trançador, mas sabia
fazer pipas como ninguém.
Esta é uma das histórias de
Francisco Gregório Filho*, o Chico, contador de
histórias, artista de pipas, cafifas, pandorgas, papagaios, caixões de quê mais
já as chamamos?
E qual o moleque que não teve seus primeiros impulsos
de empreendedor confeccionando e comercializando seus próprios brinquedos? Por que não
se segue vida à fora brincando de fazer o que se gosta, mesmo que isso implique em ganhar
dinheiro? Revela o livro Difícil Passagem que Chico, a certa altura, se deu conta de que
desenvolvia um negócio que o fazia permanecer criança, menino, garotão. Mas ele
desejava participar de um negócio de rapaz, de homem. Com isso na cabeça decidiu parar
de fabricar pipas. Quantos de nós não tomou a mesma decisão errada, crescer
abruptamente, ou cortar com cerol a criança que se nos habita para sempre e perde-la,
deixá-la ir à Bahia?
Pipas,
carrinhos de lata, arinho, carrinho de rolimã, jogo de taco e tantos outros brinquedos
que povoam os shopping centers da nossa imaginação, tudo feito à mão que butique
alguma pode suprir tão bem quanto nós mesmos nós, bem entendido, do século
passado serão os elementos que animarão os seminários ao ar livre da Aventura no
Brasil Costal que contará com a participação de escritores como Antonio Torres, Moacir
C. Lopes, Moacyr Scliar e artistas de tablado, poetas, repentistas e contadores de
histórias como Chico. E tudo isto será mostrado numa exposição no Museu Naval do Rio
de Janeiro, entre recifes artificiais, uma experiência da alta tecnologia da engenharia
marinha, e de inumeráveis exemplos de atividades em águas costeiras.
E o que uma
coisa tem a ver com a outra? Você pode não ter percebido, mas no momento em que fazemos
os nossos próprios brinquedos com materiais reciclados, como antigamente, ou
desaceleramos nosso ritmo pós moderno embarcando numa vida de qualidade em detrimento da
quantidade, estamos tendendo ao desenvolvimento sustentável, ou pelo menos estamos
permeáveis à sua compreensão.
Nós, da
Aventura no Brasil Costal, estaremos velejando e promovendo este mundo de atividades pelo
litoral acima e abaixo, e gostaríamos que você nos acompanhasse nesta velejada. A única
coisa que pedimos é que você solte a sua imaginação, pois velejar, para nós, é se
soltar numa pipa sobre o mar.
Luís Peazê
* Francisco Gregório Filho é escritor, contador de histórias
e especialista em pipas artísticas, feitas em pano e madeira, trabalha do Passo Imperial
Rio de Janeiro, e antes do Difícil Passagem publicou Guardados do Coração,
Grávidas Histórias e Lembranças Amorosas.
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