ABC


Difícil Passagem
Francisco Gregório Filho
Ed. Santa Clara
ISBN 85-87042-40-8

Velejar é se soltar numa pipa sobre o mar

Chico comprou papel de seda de várias cores e caixas de carretéis com linha zero. As talas para produzir as pipas ele conseguiu de um tio que tinha um buritizal com muitas e enormes palmeiras.

Os garotos não só de seu bairro mas de outros distantes e até adultos, principalmente os pais, lhe encomendavam pipas. Só ele sabia fazer pipas tão lindas, coloridas, obras de arte, aves de papel, tinham alma, voavam alto e balançavam tão graciosas que até os pássaros, no céu, as apreciavam. Com o lucro da venda das pipas chegou a comprar a sua primeira bicicleta. Confessava aos mais íntimos que não era bom empinador e trançador, mas sabia fazer pipas como ninguém.

Esta é uma das histórias de Francisco Gregório Filho*, o Chico, contador de histórias, artista de pipas, cafifas, pandorgas, papagaios, caixões – de quê mais já as chamamos?

E qual o moleque que não teve seus primeiros impulsos de empreendedor confeccionando e comercializando seus próprios brinquedos? Por que não se segue vida à fora brincando de fazer o que se gosta, mesmo que isso implique em ganhar dinheiro? Revela o livro Difícil Passagem que Chico, a certa altura, se deu conta de que desenvolvia um negócio que o fazia permanecer criança, menino, garotão. Mas ele desejava participar de um negócio de rapaz, de homem. Com isso na cabeça decidiu parar de fabricar pipas. Quantos de nós não tomou a mesma decisão errada, crescer abruptamente, ou cortar com cerol a criança que se nos habita para sempre e perde-la, deixá-la ir à Bahia?

Pipas, carrinhos de lata, arinho, carrinho de rolimã, jogo de taco e tantos outros brinquedos que povoam os shopping centers da nossa imaginação, tudo feito à mão que butique alguma pode suprir tão bem quanto nós mesmos – nós, bem entendido, do século passado – serão os elementos que animarão os seminários ao ar livre da Aventura no Brasil Costal que contará com a participação de escritores como Antonio Torres, Moacir C. Lopes, Moacyr Scliar e artistas de tablado, poetas, repentistas e contadores de histórias como Chico. E tudo isto será mostrado numa exposição no Museu Naval do Rio de Janeiro, entre recifes artificiais, uma experiência da alta tecnologia da engenharia marinha, e de inumeráveis exemplos de atividades em águas costeiras.

E o que uma coisa tem a ver com a outra? Você pode não ter percebido, mas no momento em que fazemos os nossos próprios brinquedos com materiais reciclados, como antigamente, ou desaceleramos nosso ritmo pós moderno embarcando numa vida de qualidade em detrimento da quantidade, estamos tendendo ao desenvolvimento sustentável, ou pelo menos estamos permeáveis à sua compreensão.

Nós, da Aventura no Brasil Costal, estaremos velejando e promovendo este mundo de atividades pelo litoral acima e abaixo, e gostaríamos que você nos acompanhasse nesta velejada. A única coisa que pedimos é que você solte a sua imaginação, pois velejar, para nós, é se soltar numa pipa sobre o mar.

Luís Peazê

* Francisco Gregório Filho é escritor, contador de histórias e especialista em pipas artísticas, feitas em pano e madeira, trabalha do Passo Imperial – Rio de Janeiro, e antes do Difícil Passagem publicou Guardados do Coração, Grávidas Histórias e Lembranças Amorosas.


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