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O porquê do hímen

Duas pessoas iniciaram conversa comigo, esta semana, dizendo que iriam abrir um site na internet. Uma disse que iria deixar de trabalhar para o jornal da faculdade, e começar o seu próprio veículo na internet.

- Mas eu não sei nada sobre internet - disse-me o rapaz. Depois eu volto a ele.

A outra pessoa foi um pequeno empresário bem sucedido, disse que após se aposentar, iria aprender tudo sobre a internet e ganhar dinheiro com ela. Contou que um amigo teve a idéia genial de vender livros usados pela internet, um sebo virtual.

Estranhei as duas abordagens como quem recebe um envelope branco de papel linho rígido com um cartão, também em linho, impresso em letras douradas e em arabescos, com o seguinte título: Convite para o Himineu de Sonia e Ronaldo.

Desculpas às Sonias e Ronaldos, não me ocorreram outros nomes, e eu precisava exemplificar o convite para casamento em epígrafe.

Da mesma forma que ninguém convida para a cerimônia matrimonial de sua filha, se referindo a mesma como himeneu, embora himeneu queira dizer festa de núpcias, e nada mais, ninguém deveria começar nenhum negócio sem conhecer um mínimo necessário da natureza desse negócio. E se você não vê nenhuma relação nas duas afirmações é porque não sabe o porquê do hímen, ou nunca parou para pensar nele como um significante e não um significado.

A delicada membrana que protege “parcialmente” a entrada do vestíbulo vaginal, símbolo da virgindade, foi significado capaz de provocar guerras na idade antiga, intrigas sangrentas na idade média e milhares de roturas familiares e de crimes passionais na nossa era. No entanto, uma vez desterrado o tabu da virgindade, foi-se a função do hímen riacho da existência afora.

Não bastasse a evolução social, hoje sabemos que o pobre hímen pode romper-se, ou simplesmente relaxar e distender-se, pela prática do esporte, andando de bicicleta e outras manobras até bem mais distantes do sexo apressado, vamos dizer assim.

Ele definitivamente não participa mais das discussões decisórias sobre a hora do sim e do não na frente do altar. Momentos esses que escassearam à raridade. Pelo menos eu não tenho visto há muito tempo, como via na infância aos sábados, aquelas filas de automóveis vagarosamente indo da igreja para uma casa do bairro, o último carro levando a noiva e a gurizada seguindo o comboio para furar a festa.

Perdi a conta de festas que eu penetrei, muitas tão fáceis com os seus portões escancarados, outras que me custaram muita sedução e estratégia e até algumas que precisei deflorar primeiro para depois me entregar também e me afundar na comilança. Época de fartura nas festas de casamentos.

Aquele rapaz do início, que irá abrir um jornal da internet, está tentando deflorar a net e isso tem as suas conseqüências, ou ainda está no tempo em que se protegia o hímen como um selo da virgindade, representatividade de um elenco de certezas e garantias de antecedentes e futuras com relação à mocinha.

A mesma afirmação serve para o empresário obsceno que pretende recostar-se na rede da aposentadoria e brincar de ganhar dinheiro na internet. Mas é incrível a proliferação de web sites com intenções de negócios que surgem dia-a-dia no universo da rede mundial, e eu desconfio que muita gente – mulher e homem –, da mesma forma que nunca viu um hímen, não sabe nem o que significa o www dos endereços virtuais.

O ponto é: os pais continuam constrangidos (pois são filhos da época em que o hímen era rei) em conversar com as suas filhas sobre a função do hímen, e não imaginam que se deva conversar sobre o mesmo assunto com os filhos homens, e sobre a anatomia do pênis também, por dentro e por fora, e idem para as filhas sobre este, e assim por diante.

É aí que começa a ingenuidade, o desconhecimento, e petrificação de um mito que não existe, e a ignorância propriamente dita. Depois, sem conhecer a engenharia e arquitetura empresarial implicada no mais simples negócio, não adianta denunciar o rapaz na delegacia e dizer que ele fez mal à mocinha.  Não é o caso do dito popular que aconselha àquele que não tem competência que não se estabeleça, mas não deixa de ser um pouco disso e a resposta certa começa no nosso próprio umbigo.

De qualquer jeito, eu saquei o título para esta coluna de um livro que o missionário R.R.Soares anuncia na televisão. Toda vez que eu clico no controle remoto para zapear pelos canais, passo pelo canal do missionário e lá está ele falando para uma multidão de fiéis. Neste domingo eu dei uma paradinha, pois vi uma coisa que eu nunca tinha visto, o R.R.Soares anunciava um livro com o título: O porquê do hímen. Logo imaginei que aquela multidão não sabia a resposta, no mais amplo sentido do termo já que eu misturei aqui dois, ou quatro, assuntos desviando do himeneu para a hermenêutica.


Leia também de Luís Peazê:

-Vigário Geral - O Contra Ponto da Chacina
http://www.gilbertogil.com.br/ondazul.htm
http://www.luispeaze.com/luispeaze/artigos/htm/

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