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A Clínica Literária está presente na Internet desde 1998. São milhares de edições armazenadas, mais de 2000 mil crônicas de Luís Peazê. Abaixo algumas edições mais lidas:

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PQSDcapa.jpg (15254 bytes)Lançamento Bienal do Livro
São Paulo, 15 à 25 de abril

Por Quem os Sinos Dobram
E. Hemingway
Tradução de
Luís Peazê

John Hemingway, neto de Ernest Hemingway, Prêmio Nobel de Literatura, 1954, com O Velho e o Mar, e autor de extensa obra, editada pela Bertrand Brasil, me contou que leu Por Quem os Sinos Dobram aos treze anos de idade, em 1973. Ficara tão impressionado, que colocara o poema de John Donne, da abertura do livro, em sua carteira, onde está até hoje. Curiosamente só então John se dera conta da magnitude do avô Ernest, da sua importância para a história da literatura americana, e universal.

Para John "Por Quem os Sinos Dobram é um livro que vai ao âmago de tudo o que meu avô acreditava. Sacrifício, coragem, abnegação, tudo expressado lindamente no poema de John Donne que inspirou o título".

A história central pode ser resumida em cinco linhas, como todos os clássicos, de Ilíada a Romeu e Julieta a Dom Quixote.

Robert Jordan, jovem professor americano, engaja-se na Brigada Internacional que apoia a guerrilha antifascista, na Guerra Civil Espanhola (1937). Sua missão é explodir uma ponte, mas, ao encontrar-se com um bando de guerrilheiros, se apaixona por Maria e começa a questionar valores e princípios éticos e morais, as guerras, inimigos e aliados, o suicídio do pai, o amor, a vida e a morte.

E, como todo o clássico, desdobra-se numa cadeia interminável de venturas, referências histórico-culturais, intrigantes questões e, no caso de Hemingway, tudo verossímil. Sua própria vida confundiu-se com a sua obra. Ele experimentava apaixonadamente ambiências verídicas utilizadas em seus romances, como as touradas, caçadas, pescarias em alto mar, guerras e os conflitos sociais e individuais mais humanamente plausíveis.

Sobre o seu estilo elíptico, desadjetivado e seco, Hemingway dizia que tentava escrever sempre com base no princípio do iceberg, que tem sete oitavos de seu volume submerso. Ele acreditava que qualquer coisa que o escritor saiba, por experiência própria, que possa ser eliminado de sua obra, a fortalecerá ainda mais. O acadêmico americano David Lodge, comentando o seu recurso da "repetição lexical" diz que Hemingway rejeitava a retórica tradicional, por razões literárias e filosóficas ele achava que a literatura refinada falsificava as experiências, assim, esforçava-se para escrever as ações que realmente aconteciam, as coisas reais que provocavam a emoção que alguém experimentava, usando uma linguagem denotativa, purgada de decoração estilística.

A única exigência que sua literatura impõe é uma entrega, e por que não uma dose de coragem, do leitor, para aceitar o seu estilo único, rico em diálogos, onde cada linha foi exaustivamente esculpida não à perfeição, mas à realidade.

Luiz Antônio Aguiar apresenta Por Quem os Sinos Dobram ao leitor, comentando este romance diferenciado de Hemingway a maior de suas novelas e cuja linguagem tem tratamento especial, não por acaso simplória, e pulverizada de sutilezas, como é a vida, onde cada ínfimo detalhe tem um porquê.

Ao final da leitura, é quase impossível não se voltar ao início respondendo o por que disso e daquilo. Mas uma resposta nós já temos antes de começarmos, revelada por John jamais pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.

Luís Peazê é membro da Hemingway Society - USA

 

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Cinco Marias na Clínica Literária, exclusivamente.

Entrevista com o poeta jornalista Fabrício Carpinejar

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Foto: Renata Stoduto

Luís Peazê - Tuas Marias, pelo jeito, te deram muita dor de cabeça. A Clínica Literária quer saber se há uma ordem lógica nesta dor, isto é, primeiro foi o pai, depois foi a mãe, muito sutilmente, agora é a mana, faltam duas, quais seriam?

Fabrício Carpinejar: Não, Cinco Marias me deu prazer. Não sou masoquista para fazer livro e sofrer. Nem o livro sofre, muito menos eu. Aliás, fico ocupado em ser os outros que não sobra tempo para me cumprir. Já fui um velho antecipado, um filho revoltado, um pai, a mãe, acho que a família está completa. Ao fugir de mim, eu me encontrei. O melhor de mim está na estranheza. Sou uma cidade derramada no pátio.

LP - Tua poesia parece uma chuva atual de palavras formadas por uma evaporação longíncua, da infância. A gente lê, pingo por pingo e quando menos espera se está ensopado. Confirme: a cada livro tu cresces um pouco? Neste caso, no sexto livro, tu já terias seis décadas de vida, te sentes velho? É por isso esta mania de brinca(dor) com as palavras?

FC: As palavras brincam comigo. Elas me puxam como uma pandorga. Pandorga é assim, bem sabes, um fio enrolado e não se encontra mais o céu. Arte de extremar a corda, esticar os nervos, alargar o violão do mar até seu tom mais grave. Eu acho que estou desescrevendo cada vez mais. Aprender a escrever não é tão difícil perto de aprender a desescrever. Quero ser tão simples, a ponto de ninguém notar que o poema foi escrito. Que a poesia seja simples como barulho de pratos. Busco escrever como quem assobia. É para chamar Deus para mais perto do homem. Minha cultura é viver nos telhados, mexer nas calhas, na chuva, na terra ainda não vasculhada pela respiração. Perco os dentes fora de época para ganhar mais espaço para a língua.

LP - Rapaz! Então desescrever seria uma forma de reler o mundo, sem o uso das palavras?

FC: Isso mesmo! Desescrever é quando os pensamentos são mais rápidos do que a leitura. O livro pensa o leitor antes do leitor pensar o livro. Minha ciência é viver. A arte existe para ser invisível. A poesia não é feita para alfabetizados, é feita para alfabetizar de novo. Contar histórias para se manter acordado durante toda uma vida. Todo amor é uma história de suspense. Eu me conservo no suspense e no mistério. Mastigo as palavras como frutas,  cuspindo a semente cada vez mais longe de mim e próxima da terra. Eu sempre guardo a esperança de que a semente vai germinar as pedras.

LP - Olha, vivo mentalmente sobre um barco, e, como tu sabes, velejo como se me soltasse numa pipa sobre o mar, e acho que a língua é um leme. Fico impressionado como, ao contrário da Clínica Literária, tu desvias tão bem da metáfora e recria sentidos novos para as palavras. Violência, por exemplo, em você teria o sentido do efeito de uma viola? Viola, neste caso, significa que me viu em algum lugar? Não, acho que não, tu vais além do antineologismo. Socorro. Faça uma pergunta para você mesmo.

FC: Não há maior violência do que a suavidade, do que a ternura. O corpo explode ao mais leve vento. Quem fica arrepiado sabe. Eu vivo no porão de um violino há exatos 31 anos. O violino tem um teto de parreiras e pode servir de barco (neste ponto Carpinejar me olhou bem fundo nos dedos e disse: - quer um gomo do violino?). O barulho nunca é sufocante porque imita a respiração de uma mulher dormindo. Perder-se é uma maneira de fazer novos caminhos e quebrar a rotina. Ninguém acha um atalho sem se perder antes. Eu procuro o avesso do senso comum. Em Cinco Marias, eu trago o desabafo de cinco mulheres, uma mãe e suas quatro filhas. Eu já havia escrito sobre o pai pródigo e o universo masculino em Um terno de pássaros ao sul. Esse livro é o avesso. Me dei conta de que a pessoa que fica cuidando da casa, que assume a guarda e permanece com a família é a mais criticada depois pelos filhos. Quem se afasta cedo acaba por ser perdoado. Quem assume as dores é mais exigido e cobrado. Por quê? A convivência traz uma dependência maior, uma simbiose, uma confusão íntima entre as identidades. Essa obra explora a proteção maternal, o desejo agressivo que há em todo amor. O amor não é carência, o amor é a liberdade para se fazer ou se destruir.

LP - Fabro, me corrija por favor, se for o caso: a tua poesia alterna ficção (tuas frases curtinhas contam histórias fora de ti mesmo) com desabafos bem íntimos.

FC: Sim, é uma narração do que jogamos fora, uma narração que é urgência. A poesia não enrola, diz a verdade com toda a sinceridade que há inclusive na mentira. Ela não adia, não aceita adiar o cotidiano, pede que ele seja cumprido com a disciplina do fogo. Meus livros funcionam como um romance versificado, uma série de fábulas sobre o núcleo familiar. Todo livro continua a mesma história, apesar da possibilidade de serem lidos separadamente. Eu procuro escrever como quem conversa, sem intermediários ou saída de emergência ao dicionário. Não preciso bancar o difícil, a vida já é difícil. Cabe descomplicar a vida, torná-la legível ao entendimento

- Obrigado, Fabro.

- Maravilha, abração.


Fabrício Carpinejar
Cinco Marias, Bertrand Brasil, R$ 19

Responsabilidade Solidária

Por andré Hermmany Tostes*

Tudo o que é de todos, e só injustamente pode ser apropriado por alguém, é bem de uso comum do povo. Estão nessa categoria as águas em geral; os espaços urbanos dedicados à circulação; o ar, e, mais que todos os bens, o meio ambiente, como conjunto de relações entre o ser humano e os bens naturais, que permite, abriga e possibilita para sempre, quando conservado, o desenvolvimento da vida humana.

O comportamento da grande maioria da população brasileira, denotadamente a sua elite, aponta traço cultural que inverte esse valor. Valoriza somente o que é individualmente apropriável, isto é, considera de ninguém o que é de todos.

Resulta dessa desconsideração que os bens de uso comum jamais merecem cuidado, tornam-se consumíveis ou degradáveis. Sobram exemplos dessa atitude – abandono generalizado de lixo (dos menores aos mais degradantes) nas ruas, praças e vias públicas; rios e mares poluídos pelo despejo irresponsável de rejeitos industriais e domésticos e esgoto sem tratamento adequado; desflorestamento sem critério; caça predatória, etc.; tudo isso demandando maior esforço do poder público.

A mudança desse quadro pressupõe uma atuação educativa que contemple, dentre outros valores, um aprofundamento da noção jurídica da solidariedade.

A noção de solidariedade, em direito, está muito associada à relação obrigacional típica do direito privado. Uma obrigação é solidária quando tem vários credores, que podem, cada um isoladamente, exigir todo o crédito; ou vários devedores obrigados a pagar, também isoladamente, toda a dívida. Já em direito público a solidariedade é mais notada pelos efeitos rigorosos das condenações na reparação de danos materiais. Ambas as noções estão marcadas pela idéia do conflito.

A noção jurídica de solidariedade, para evoluir, carece do valor altruístico e humanístico do ser solidário, de modo a incorporar, em sua acepção jurídica, o valor de que o exercício da solidariedade é feito também em benefício do próximo, não apenas do titular de um direito. Transcender do conflito para o compromisso e a colaboração.

O direito já oferece essa oportunidade evolutiva, objetivamente. O artigo 225, caput, da Constituição Federal, tem a seguinte redação:

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

A parte final do caput do artigo, ao indicar também o próximo – as presentes gerações – e os que ainda estão por vir – as futuras gerações -, como os beneficiários do direito e do dever comum da defesa e da preservação do meio ambiente, incorpora o altruísmo no valor jurídico da solidariedade.

A incorporação do altruísmo aumenta a carga de exigibilidade – e logo das possibilidades de conflito - do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Pode-se agir agora, para garantir resultado num tempo em que o agente não mais exista. Mas também ampara os mais sensíveis para agir espontaneamente por simples desejo de fazer bem ao próximo, de defender o bem comum, o que não é pouco.

André Hermmany Tostes é Advogado, membro da OAB, Sócio de Tostes & Associados - Advogados (RJ); Procurador do Município do Rio de Janeiro, desde 1988; Autor de: “Sistema de Legislação Ambiental”, Editora Vozes, RJ, 1992; Ex-Assessor Jurídico de Herbet José de Souza, "Betinho"; Áreas de atuação: Direito Ambiental, Administrativo e Constitucional; Licitações e Contratos Administrativos; Contratos; Direito Tributário e Planejamento Tributário; Contencioso.

Autor de   "Sistema de Legislação Ambiental"
Editora Vozes
ISBN 85.326.1163-x


 

 

 

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