Dr. Paulo Hardgreaves, do
Laboratório de Engenharia Oceânica do COPPE/UFRJ, palestrante do 4. Seminário sobre
Meio Ambiente Marinho, realizado pela SOBENA Sociedade Brasileira de Engenharia
Naval, no auditório da sede da Petrobras no Rio de Janeiro, entre os dias 19 e 21 de
novembro, provocou espanto num grupo de biólogos e oficiais da Marinha do Brasil, durante
o coffee break que era uma verdadeira tribuna de debates daquele evento que reuniu
cientistas, profissionais da gestão ambiental e da indústria naval do mais alto nível
em oferta atualmente no Brasil.
Dr. Hardgreaves, desajeitado num terno e gravata pois, mesmo
contornando os cinqüenta anos de idade, mantém a atitude de um jovem surfista apaixonado
pelo mar, trouxe à tona dois assuntos polêmicos dentro de uma já polêmica discussão
na qual às vezes ninguém sabe quem é quem nesta guerra do Paraguai. Você sabia, por
exemplo, que no Japão há pressão para uma espécie de mercado imobiliário no fundo do
mar? Você já pensou que as tintas anticrustantes utilizadas nos navios liberam camadas
na ordem de toneladas/ano, feito cebolas químicas de metais nocivos às comunidades
microbiológicas do ambiente marinho colocando em risco toda a cadeia alimentar do
ambiente marinho e portanto a própria vida humana? Falando em vida, você sabia que o
cemitério de navios descomissionados é a alegria (incerta) dos pescadores? Mas para o
Dr. Hardgreaves temos que parar de atrasar projetos de desenvolvimento sustentáveis por
causa das recomendações de infinitos riscos feitas pelos biólogos, assim como devemos
anexar oficialmente as 200 milhas náuticas, consideradas apenas zonas economicamente
exclusivas e não territoriais, ao território brasileiro. Estas afirmações orais com o
maneirismo da dialética do surfe podem soar meio irresponsáveis e não inspirar
credibilidade, não fosse a experiência do Dr. Hargreaves de décadas de estudos no
Japão e Estados Unidos e à frente do Projeto Petropesca de Múltiplo Uso do Espaço
Oceânico do COPPE/UFRJ.
Felizmente o cenário era o ideal para a discussão, este
seminário da SOBENA/Petrobras, e toda a polêmica uma vez protegida por barreiras e
absorventes acadêmicos, não deixando poluir o ambiente do grande público com
informação mal depurada, era bem-vinda. O que se discutia e os trabalhos apresentados
derivavam da macro e micro gestão ambiental, dos planos de contingência das empresas,
dos recursos tecnológicos disponíveis no mundo (quatro países estavam representados no
seminário), às questões de licenciamento e normatização ambiental, fim de um navio
velho, por exemplo, e acidentes de grande impacto social e ambiental, como o caso
Prestigie, o navio que derramou toneladas de óleo na costa européia não muito tempo
atrás.
Um elogio se faz necessário à Petrobras, posto que a empresa
já recebeu duras críticas do público em episódios infelizes de impato social e
ecológico. Ao comemorar seus cinqüenta anos de vida a empresa atinge um nível de
percepção de imagem institucional saudável e singular, no mundo. A primeira palestra do
seminário foi proferida pelo Gerente Executivo de Gestão Ambiental, Cláudio Fontes
Nunes, que de uma certa forma pontou o alto nível de conteúdo do que seria o seminário
dali para frente. Cláudio Fontes Nunes entretanto se destacou pela versalidade na
matéria, e especialmente pela coletânea de programas desenvolvidos pelo seu
departamenteo de segurança, meio ambiente e saúde. Um retardatário desatento poderia
entrar no auditório e pensar que se tratava de um curso de pós graduação em gestão
ambiental sem exagero. A Petrobras chega a correr o risco de ser confundida como a
fonte de recursos para qualquer problema ecológico em águas marinhas, dado o seu knowhow
e aparelhamento tecnológico e recursos humanos.
Outro painelista peso pesado, o Dr. Silvio Jablosnki,
professor de biologia da UERJ, chamou a atenção dos presentes ao seminário para as
limitações dessas soluções mágicas de reprodução artificial de habitats marinhos
objetivando formar pesqueiros produtivos. Não passam de experiências, dependem de
monitoramento criterioso e futura administração, leia-se: quem, quantos, quando e o quê
se poderá pescar na área de um velho cargueiro afundado.
Excetuando as poucas opções especializadas, como a TN
Petróleo e alguns sites na Internet, a imprensa brasileira não abre espaço para
matérias deste tipo porque elas demandam uma introdução muito longa, talvez, e
conhecimento mínimo necessário para que se compreenda o que afinal isto pode representar
na vida do indivíduo comum no seu dia-a-dia. Um dono de um veículo disse uma vez que
gostaria que o seu produto fosse a primeira coisa que o homem utilizasse antes de sair de
casa para saber desde a previsão de tempo, às condições do trânsito, surtos
políticos e promoções imediatas de mercado e culturais.
Com a feliz efervescência em torno das questões ambientais
atualmente, chegou a hora dos veículos de comunicação assumirem de vez sua parcela de
responsabilidade na disseminação da informação científica, neste caso em linguagem
palatável para o grande público, do contrário passarão à audiência uma falsa
expectativa como foi a matéria do Jornal Nacional deste Sábado, mostrando um navio que
foi afundado na costa do Espírito Santo como solução espetacular para a produção de
pescado antepara artificial para o florescimento de vida marinha.
Ao público incauto, por sua vez, os demais estão absolvidos,
cabe selecionar cada vez mais as suas fontes de informação e não ter medo de adquirir
conhecimento que aparentemente não lhe diz respeito, ou seja muito complicado. Do
contrário será pego pela boca aberta e vazia, como o peixe, e merecerá um veículo de
informação ultrapassado ou basicamente sensacionalista, que hoje em dia não deveria ser
utilizado nem para embrulhar um bagre.