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Literatura - BookBusiness - Tecnologia - Tendência
livros e ebook.JPG (29405 bytes)Editoras assustadas com a explosão da era digital.
Por Luís Peazê
publicado em 05/08/2010 08:05

O consumidor corre para testar as últimas novidades eletrônicas, sem preconceito, e, atônitos, os profissionais da cadeia produtiva do livro não sabem o que acontecerá com a sua margem de lucro.

A Clínica Literária entrevistou,  com exclusividade para esta matéria,
especialistas internacionais do livro e da leitura:

Roger Chartier – French historian, École des Hautes Etudes en Sciences Sociales.
Mike Shatzkin – New York, The Idea Logical Company
Joshua Tallent – Texas, eBookArchitects
Ronaldo Lemos – RJ, Fundação Getúlio Vargas, Direito Tecnologia e Cultura
Carlos Viceconti – São Paulo, DigiSign
Brian Solis - autor de  briansolis.com and Engage! Palestrante do Digital Age 2.0
São Paulo, 18 e 19 de agosto, no Sheraton WTC Hotel

John Thompson – Londres, Universidade Cambridge, The Book in the Digital Age
Rich Jaroslovsky – San Francisco, Bloomberg, criador do Wall Street online
Adam Hanft – New York,
New York, Creative Director at Faith Popcorn's BrainReserve


Em plena explosão da era digital de produção de livros, que força inclusive a globalização do anglicismo “e-book”, paira no ar uma preocupação com a morte, ou doença crônica, das impressões em papel e práticas tradicionais de leitura. Felizmente, como em toda explosão, nunca o estampido ou as conseqüências imediatas aparentes dão a conta exata da realidade. Esta feliz descoberta foi feita pela Clínica Literária ao entrevistar vários especialistas no assunto, incluindo dois convidados internacionais participantes do Fórum Internacional do Livro Digital (10 e 11 de agosto de 2010), que integra a programação oficial da 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Aliás, evento este que estimulou esta matéria.

A Clínica Literária buscou opiniões na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil sobre esse objeto digital que anda, globalmente, atraindo tanta atenção. E confirmou que há em curso uma confusão no meio editorial, com reflexos em toda a cadeia produtiva do livro; de escritores a editores, destes aos gráficos e aos distribuidores e livreiros. Aparentemente os leitores sentem apenas reflexos benéficos, ao poderem testar novidades de leitura como se fossem brinquedos de luxo. Entretanto, os dois extremos dessa cadeia, escritores e consumidores, no Brasil, podem estar sendo lesados, como veremos na entrevistas.

E, como em toda confusão, não há unanimidade sobre o que mais interessa, ou seja, em que extensão o livro de papel cederá lugar para o livro digital. Mas todos aceitam que a novidade, como já disse o escritor americano Arthur Koestler sobre a bomba nuclear: “não dá mais para desinventá-la”.

Situando o problema: o livro por cálice de vinho

A situação é a seguinte: antes do surgimento do primeiro livro digital, sorrateiramente nascido na Internet ao virar o milênio, as editoras praticavam um modelo antigo de produção e a distribuição era quase idêntica à criada pelo escritor Monteiro Lobato quando ele foi dublê de tradutor e editor até mesmo enquanto esteve preso, na primeira metade do século passado. Isto é, um autor era aceito pela “casa”, que lhe garantia 10% de direitos autorais pela sua obra, impressa em papel em tiragens medianas de 3000 exemplares (ultimamente 2000 ou menos e somente de cinco dígitos para Best Sellers tais como Paulo Coelho e a invasão de estrangeiros); os lançamentos eram previamente negociados para as pilhas nas portas das grandes redes de livrarias (isso nas últimas duas décadas), precariamente levados às demais livrarias por distribuidores que não necessariamente gostam de ler, ou se interessam pelo contexto cultural do objeto livro (característica de muitos livreiros também), e parcialmente explorados por cadernos literários de jornais cada vez mais magros (em volume de páginas e com mais fotos em detrimento de linhas impressas), isso se concordarmos em misturar os tipos de livros por conteúdo, sejam didáticos, técnicos, ficção, auto-ajuda, infantil, etc.

Neste cenário o nó do sistema sempre foi a distribuição, a
tarifa_livro_ect_banner_.jpg (18523 bytes) logística do livro, e, o preço do livro, o ponto mais nevrálgico. Ao sair da gráfica até o consumidor final, (lembremos que livro ocupa espaço e é pesado) o preço do livro sofre um esquartejamento. Resguardados os 10% (naco menor) do autor, os atores na esteira da cadeia produtiva do livro retêm seus quinhões, cada um brigando por uma fatia maior, e o leitor é quem paga a conta. Incluído aí os ganhos dos Correios brasileiros, quando se trata de enviar um livro para um amigo, ou biblioteca. Os Correios não praticam política alguma de incentivo à leitura ou educação, não há uma tarifa especial de envio de livros em nosso país. Enviar um livro de 300 páginas do Rio de Janeiro para Porto Alegre pode custar mais do que o próprio livro.

Não é por acaso que algumas mega redes de livrarias obtiveram junto aos Correios suas franquias próprias (instaladas no interior dos seus centros de distribuição) para melhor administração financeira de seus custos. Mas com todos os atores identificados, as tensões desse meio se resumiam em reagir aos humores da economia do país, forçar e conseguir pequenos incentivos fiscais (sobre o papel, sobre os empregados e o próprio livro pronto), resistir a inovações ocorridas em outros países, como o caso do preço fixo do livro muito praticado lá fora, e, claro, as tensões naturais entre editoras e livrarias de acordo com os seus tamanhos, regiões e idiossincrasias. O livro saía das gráficas na forma códex, uma capa mole ou dura, com orelha ou sem orelha, folhas costuradas e ou coladas, o ISBN marcado como em uma rês para o matadouro e, aparentemente tudo ia bem de acordo com a vontade dos mais fortes, e antigos. Matadouro não, cemitério de livros, conforme analogia de Mário Quintana.

Os números eram os seguintes, no Brasil: muito mais editoras do que livrarias, em menor número do que de farmácias que são várias vezes mais numerosas do que as bibliotecas (há mais municípios no Brasil sem uma única biblioteca pública do que municípios com bibliotecas), há inclusive uma massa crítica de escolas sem bibliotecas. Ou seja, o livro vai mal, trôpego, no Brasil, e não é de hoje. E havia, até então, um consolo financeiro para alguns privilegiados: o governo comprava livros a peso de ouro para o sistema de ensino, o suficiente para manter algumas editoras em pé, mas insuficientes, contudo, para fornecer livros de graça para todos os estudantes do país, estimular o hábito de leitura. Triste.

A prova desse triste diagnóstico é a média de leitores por habitante/ano, muito baixa, especialmente se comparada com alguns países menos privilegiados economicamente do que o Brasil. Neste caso parece haver uma crise ideológica entre os patologistas: a cabresto do PNLL (Plano Nacional do Livro e da Leitura) e de entidades tais como a CBL e SNEL (respectivamente Câmara Brasileira do Livro e Sindicato Nacional do Livro), dois organismos que, dependendo das suas gestões periódicas, ora antagonizam-se, ora aglutinam interesses patronais ou setoriais, ambos com fachada nacional, mas com atuação local (São Paulo e Rio de Janeiro) e forte influência federal, divulgam os Retratos da Leitura no Brasil, um estudo que mostra 4,7 livro por habitante/ano.

Enquanto isso o blog Observatório do Livro alardeia um número irreal de meio milhão de livro lidos no país até junho, informando que isso é calculado pela aritmética simples de dividir o número de brasileiros a partir de cinco anos de idade por aquela média nacional de leitura. No minuto seguinte, tudo indica que esse livrômetro acuse mais livros lidos. Impossível. Definitivamente, não são números confiáveis, pois, numa mesma newsletter deste mesmo blog aparece outro índice de 1,9 livros ano lido por habitante /ano, atribuído a uma declaração do presidente da ANL – Associação Nacional de Livrarias. O mesmo blog exibe outro índice 2,7 nesta newsletter bombardeada semanalmente, no mínimo confundindo qualquer análise interessada.

De outro ângulo, a ANL apresenta em seu website uma pesquisa feita pela CERLAC (Centro Regional Para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe) onde aparece o índice de 1,8 livros por habitante/ano (provavelmente bem mais próximo da realidade), o que põe a leitura em nosso país igualada ao que precisamos aumentar em termos de consumo de vinho (um cálice) por habitante, para alcançarmos o consumo de países grandes consumidores da bebida dos deuses (bebemos 1,8 litros hab/ano), isto é, mais um cálice à noite, lendo um livro, e chegamos a dois litros de vinho por habitante. Ilações várias são inevitáveis.

Outro sinal patológico pode ser constatado num texto publicado no web site da própria ANL, onde seu presidente o Sr.Vitor Tavarez, confunde e-book com e-reader (o dispositivo de leitura de e-book, de livro digital), ao afirmar que o primeiro e-book que “entrou” no Brasil custa R$1.000,00, e defende que os livros digitais deveriam ser adquiridos nas livrarias e não na internet. Algo como exigir que telespectadores de TV utilizem um controle remoto adquirido em lojas do ramo, a cada vez que forem ligar o aparelho. Isso foi admitido pelo Sr. Vitor Tavarez no contexto de sua defesa em favor do livro de papel e denota o tamanho do susto que o livro digital está dando na cadeia produtiva do livro, em editores, distribuidores e livreiros. Enquanto esta matéria era redigida, Rich Jaroslovsky, um dos entrevistado aqui, informava de San Francisco (EUA) que e-readers acabam de chegar ao mercado por até US$139.00 (menos de R$245,00).

Os próprios profissionais do livro parecem não se importar com essa confusão. Mas, diferentes dos empresários das vinícolas, capazes de produzir vinho australiano até no interior do nordeste brasileiro, estão assustados por desconhecerem como ficará sua margem de lucro, depois do modus digital, por ignorarem os seus operandi e vivendi.

WORKSHOP BANNER ROTADO web2.jpg (84700 bytes)O problema é que os livros digitais se oferecem aparentemente muito fáceis na Internet. Fornecedores de dispositivos de leitura, como o Kindle, Nook, Cooler, Ipad e uma dezena de outros, estão sendo lançados à razão de meses entre uma novidade e outra, nos últimos cinco anos, acelerando cada vez mais a febre.

Esses livros digitais disponíveis aos consumidores de novidades eletrônicas nascem com o benefício de um preço muito menor do que o livro convencional e trazem intrinsecamente uma ameaça ainda maior ao mercado: a possibilidade da proliferação do autor-editor, potencialmente guindado à best seller com o apoio das redes sociais.

Nessa enchente súbita de ofertas de leitura (não necessariamente de aumento de leitores e muito menos de aceitação generalizada do novo hábito de uso dos novos livros), vêm as obras que caíram em domínio público, que qualquer internauta um pouco versado na coisa pode criar e transformar em digital e disponibilizar gratuitamente na sua rede social, ou vender em seu blog.

Isso preocupa editores, que articulam uma forma de remuneração (i.e. contratos com autores, distribuidores e livrarias) de modo que não percam contribuição financeira. Mas não sabem como, ainda. Deste modo, emperram a evolução tecnológica, inutilmente.

Outro problema momentâneo, dessa enxurrada, é a miscelânea de formatos de arquivos. Sim, porque um e-book é nada menos do que um arquivo digital que pode ser aberto num computador, telefone inteligente ou dispositivo específico de leitura, os e-readers (para cada um desses “lugares” são necessários programas para de fato abrir os arquivos de leitura, são as aplicações, reduzidas no jargão do meio como “app”). Deste modo, há vários formatos de arquivos de leitura (PDF, ePUB, Kindle, Mobipocket, mobi, .prc, .azw, PDM/PML, etc).

Esse novo cenário criou uma espécie de Guerra do Paraguai. E a questão dos direitos autorais e práticas de mercado estão pendentes, até quando, qual será o desfecho?

Com a palavra os especialistas

Adaptada à área específica de cada um dos entrevistados, foi feita basicamente a mesma pergunta para todos, com o seguinte teor: como podemos afirmar algo confiável sobre o futuro do livro, dada a velocidade das mudanças nesta revolução digital que vivenciamos no momento e o profundo enraizamento histórico das práticas associadas com a indústria editorial e o hábito de leitura de livros? Trata-se do mercado empurrando tudo isso para frente, ou os “profissionais do livro” não estão considerando todos os fatores que envolvem os demais hábitos e costumes das pessoas e tendências de um modo geral?

Eu não viveria dos rendimentos de editor ou de vendedor de livros nos próximos dez anos

mike[1].jpg (24045 bytes)Começamos pelo americano Mike Shatzkin, cuja palestra abrirá o Fórum do Livro na Era Digital na véspera da Bienal do Livro de São Paulo, e porque ele faz uma confissão realmente para assustar. Ele é consultor muito conhecido no mercado editorial, fundador e cabeça da empresa The Idea Logical, com sede em Nova Iorque, co-idealizador do sistema online FiledBy, dedicado a autores independentes, muito similar à ferramenta de autopromoção para escritores autônomos da Amazon.com.

Mike Shatzin disse que “não podemos dizer nada confiável. Estamos todos apenas tentando adivinhar. Não acho que muitos “players” (profissionais do livro) estejam pensando em outros fatores. As mudanças são interativas. Tentamos algumas delas, para ver se funcionam. Se não funcionarem, modificamos. Uma coisa de cada vez.” É dessa maneira, cerebral, que com sua experiência de mais de quatro décadas ele vê o comportamento do mercado editorial.

Perguntado sobre o futuro modelo de negócio na indústria do livro ele concorda que este venha a atender a uma demanda por contextualização, mas coloca isso com as suas próprias palavras: “eu chamo isso de verticalização. É a chave da minha visão do futuro. Dito de outra forma, estamos mudando de “IP para Eye Ball”, isto é de um valor de propriedade intelectual para um valor de olhar individual. Penso que nos sentiremos em casa em comunidades online, as quais nos fornecerão bastante conteúdo, particularmente não ficção”.

Com relação à proliferação de formatos de e-books e à velocidade do aparecimento das novidades no mercado, onde e quando isso vai parar e quem ou o quê está liderando esta correria, os formatos, as aplicações (softwares) ou as máquinas (dispositivos) ele respondeu o seguinte: “penso que isso terminará nas “nuvens” (tecnologia que permite ao usuário acessar informação pessoal ou por demanda de qualquer lugar a qualquer hora, não precisa mais ter tudo gravado na sua máquina), com todos os nossos dispositivos capazes de exibir qualquer tipo de informação que esteja em nossas ´gavetas´ remotas. Mas demorará um pouco até que isso se consolide”. E conclui: “estamos experimentando uma grande mudança sim, e no geral eu não sou otimista nem pessimista. Mas não tentaria viver dos rendimentos como um editor ou vendedor de livros nos próximos dez anos”.

Apenas dois formatos de e-books

joshua[1].jpg (8693 bytes)Joshua Tallent, do Texas, é apresentado como o guru da formatação de livros digitais de todos os tipos e especialista dos exclusivíssimos arquivos digitais para livros compatíveis com o leitor Kindle da Amazon. Joshua, considerado (nos Estados Unidos) o guru da formatação de Kindle e dos demais formatos para dispositivos leitores de e-books, simplifica a aparente confusão de tipos de arquivos para este ou aquele leitor eletrônico (e-reader):

“Na verdade há apenas dois formatos que importam. O Kindle/Mobipocktet e o ePUB. Os principais dispositivos de leitura em cada país lêem arquivos ePUB, que é o formato utilizado pela Apple, Sony, Barnes & Noble e a maioria dos varejistas americanos de e-readers. Há outros formatos surgindo periodicamente, como o Blio, mas eles não são muito utilizados e acessíveis como o ePUB e enfrentarão problema para atrair a atenção do público.

A maioria dos e-books pode ser adquirida dentro dos dispositivos de leitura e aplicações típicas de e-book. Há um crescimento significativo do mercado de aplicações unicamente de e-book, mas eu acho que a maioria dos consumidores procura esses produtos em sites como a Amazon, B&N e na loja da Apple (iBookstore), não em lojas de aplicativos como o iTunes e no mercado Android.

Perguntado sobre a natureza de seus clientes, ele garantiu que a maioria é de autores independentes e profissionais, mas que já começa a sentir um crescimento de editores pequenos e de médio porte batendo a sua porta. A maioria dos clientes não é capaz de converter seus arquivos. Alguns lhe procuram como um único ponto de conversão e canal de distribuição (loja online). Em geral, aprender a converter arquivos para o formato e-book capazes de serem lidos em “e-readers” não é uma tarefa fácil para amadores.

Segundo Joshua, “o mercado americano está crescendo em ambos os tamanhos de e-books, de conteúdos curtos, que as pessoas gostam de apenas passar os olhos, e os de conteúdos longos que tomam mais tempo dos leitores. E não dá para negar isso, pois o IDPF (o Fórum da organização para comércio e padrões da indústria de edições digitais, de livros, revistas, jornais, softwares, etc, com sede no Canadá) rastreia as estatísticas de vendas. No caso de outros países, esse crescimento tende a ser menor e mais lento dada a dificuldade de importação de dispositivos de leitura, de absorção de técnicas de conversão de arquivos e de adaptação das editoras.”

A maioria ainda ignora a segurança

No Brasil, além da morosidade e incapacidade de adaptação apontada por Joshua, ainda temos mais problemas bem particulares, como é o caso da segurança dos meios digitais e quanto à legislação específica do direito autoral de obras digitais.

Para abordar estas questões foram ouvidos Carlos Viceconti, dono da DigiSign, que lança na Bienal do Livro de São Paulo um token (chave) chamado e-Bookey para segurança de propriedade e de leitura de e-books (e documentos em geral) em computadores pessoais - não é compatível, entretanto com os e-readers (dispositivos de leitura); e Ronaldo Lemos, Professor da FGV especializado em direito digital.

Segurança e legislação, duas áreas negligenciadas por editores e produtores digitais, o que pode com o tempo produzir um estoque de problemas para consumidores e pendengas judiciais.
Viceconti declara que muitos empresários sequer sabem distinguir as formas de segurança, certificação e proteção de documentos digitais. Seu problema não é necessariamente com a concorrência - diz ele - seu desafio é convencer clientes em potencial da importância de seus produtos, do quanto eles podem evitar problemas e perdas futuras num mundo cada vez mais digitalizado, e vulnerável.

Legislação inexistente, as faculdades não ensinam direito digital

Ronaldo Lemos é categórico. Ele diz que “a legislação brasileira de direitos autorais feita em 1998 não trata especificamente da internet, que acaba sendo regulada por regras gerais. Em alguns casos, essa regulação por regras gerais pode trazer custos elevados para produtores, editores e autores no processo de licenciamento e comercialização das obras. Tanto é assim que não temos ainda no Brasil uma grande loja internacional de conteúdos digitais como o iTunes. E o país acaba ficando de fora de diversas iniciativas internacionais de distribuição de conteúdo, como o Hulu.com para conteúdo de televisão, o Netflix para filmes e o Spotify para música.

Nenhum desses sites funciona no Brasil. E uma das razões para isso é a dificuldade de fazer o licenciamento e gestão de direitos no país. Essas iniciativas preferem trabalhar com outros países em que a legislação torna o licenciamento de conteúdos mais fácil e menos complicado. Por conta disso, o Ministério da Cultura abriu um processo de consulta pública para a reforma da lei de direitos autorais que, espera-se, pode facilitar e tornar mais eficientes os negócios envolvendo direitos autorais.”

Como Ronaldo é o responsável no Brasil pela Creative Commons (sistema online de liberalização de obras digitais, que contou no Brasil com o aval de Gilberto Gil quando estava Ministro das Culturas), pedimos que ele explicasse de modo simples do que se trata:

“O Creative Commons é um projeto que facilita o licenciamento de obras. Ele funciona como uma ferramenta que permite a qualquer criador intelectual dizer o que pode ou não ser feito com a sua obra. Além disso, ele é um tipo de licença que fundamenta a criação colaborativa. Por exemplo, a Wikipedia é licenciada em Creative Commons. Graças à licença do Creative Commons, qualquer pessoa que contribui para ela, melhorando um artigo já existente, não precisa pedir autorização, exatamente porque a autorização já foi concedida através da licença. Em outras palavras, sem o Creative Commons ou alguma outra forma de licenciamento similar, seria impossível a existência de um projeto como a Wikipedia.

Um dos principais pontos do Creative Commons é conjugar liberdade de acesso à obra com a possibilidade de gerar receitas. Um artista pode escolher uma licença que permita o acesso à obra apenas para fins não-comerciais. Se ela for usada para fins comerciais, os direitos autorais devem ser normalmente pagos. Por exemplo, meu livro Direito, Tecnologia e Cultura é licenciado por Creative Commons. É permitida a cópia e a distribuição para fins não comerciais. Mas ao mesmo tempo ele é publicado normalmente pela editora FGV que vende o livro em livrarias de todo o país. Na música é a mesma coisa. Muitos artistas licenciam suas músicas para livre distribuição comerciais. Mas quando aquela música toca no rádio ou na televisão, os direitos autorais devem ser normalmente recolhidos. Essa possibilidade de conjugar ampla distribuição com a exploração comercial da obra é Creative Commons.”

Perguntamos a Ronaldo sobre o volume de pendengas, perfil e áreas, tais como envolvendo obras antigas e atuais, e se temos profissionais especializados defendendo esses tipos de causas?

“São muitos os conflitos envolvendo a internet e a tendência é que continuem a aumentar” – responde ele e elabora: “uma das razões para isso é que passados mais de 15 anos de acesso público à rede no Brasil, ainda não temos uma legislação específica tratando da internet. Os casos que chegam ao judiciário tendem a ser decididos a partir de regras gerais. Isso faz com que as decisões sejam em muitos casos contraditórias: um juiz decide de um jeito e outro de forma totalmente diferente, ainda que os casos sejam similares.

Uma questão problemática é que hoje vivemos sem regulamentação específica da internet. Com isso, os casos de responsabilização de sites, provedores e blogs são decididos pelo judiciário sem o amparo de uma diretriz legal específica.

Por essa razão, a internet brasileira precisa com urgência de um marco regulatório. Mas ele deve ser um marco para garantir direitos fundamentais e não para criminalizar a rede. O que a internet precisa é da concretização dos direitos fundamentais que estão na constituição no âmbito digital, tais como liberdade de expressão e privacidade. Precisa também da definição de regras claras de responsabilidade para sites, blogs, redes sociais e assim por diante. O objetivo desse marco regulatório deve ser a promoção da inovação e do empreendedorismo na rede brasileira, na medida em que protege os direitos dos usuários.

Existem contradições que muitas vezes condenam os sites automaticamente por conteúdos de terceiros. É como se a companhia telefônica fosse condenada por delitos feitos pelo telefone. Essa regra precisa ser repensada

Desde outubro de 2009 estamos trabalhando junto com o Ministério da Justiça para a definição desse marco civil, através de um processo de consulta pública que está disponível no site www.culturadigital.br/marcocivil. O texto, resultado das inúmeras contribuições recebidas, deve ser encaminhado em breve para o Congresso.”.

Perguntamos a Ronaldo Lemos se ele percebe uma massa crítica de web sites e produtos na Internet brasileira preparada quanto às questões legais do direito, isto é: os produtores de obras oferecidas pela Internet no Brasil estão considerando estes aspectos ou haveria um vácuo?

“Há um desconhecimento enorme sobre direitos autorais no Brasil. Para se ter uma idéia, a maioria absoluta das faculdades de direito do Brasil sequer ensina direitos autorais. Com isso, mesmo entre os profissionais do direito, são poucos aqueles que dominam a área. Fora do campo do direito o conhecimento sobre direitos autorais é ainda menor. É fundamental pensar no longo prazo, repensar a disseminação do conhecimento prático sobre direitos autorais.”

Seus livros: Direito, Tecnologia e Cultura
Tecnobrega: O Pará Reiventando o Negócio da Música


Futuro do livro? Não se pode olhar muito longe na bola de cristal.

Jbthompson[1].gif (24694 bytes)O sociólogo americano radicado em Londres, John Thompson será o segundo palestrante no Fórum do Livro na Era Digital em São Paulo. Thompson é autor do livro Books in the Digital Age (Livros na Era Digital). Professor de sociologia da Universidade de Cambridge (Inglaterra), há duas décadas Thompson estuda a transformação da indústria editorial do livro. Suas pesquisas giram em torno da teoria social e política contemporânea, da sociologia da mídia e sua indústria, e o impacto social e político de novas tecnologias e formas de comunicação.

Thompson analisa a questão e prescreve uma data para o olhar na bola de cristal. Diz ele:

“A verdade é que não há muito o que podemos dizer sobre o futuro do livro, mais do que especular. Parte pelas razões citadas na própria pergunta. As tecnologias mudam muito rapidamente, enquanto as práticas sociais bem mais devagar. Além disso, as pessoas não absorvem as novas tecnologias simplesmente porque elas existem. A história está repleta de novas tecnologias que não deram em nada. No final dos anos 1980 e começo de 1990, muitas pessoas na indústria editorial pensaram que os CD-ROMs fossem uma nova tecnologia inteligente da época – revolucionaria o campo das publicações. Um monte de dinheiro foi investido no estabelecimento de unidades de desenvolvimento de CD-ROM em várias editoras, visando criar uma escala de novos produtos eletrônicos para consumidores; não deu em nada, as unidades foram fechadas e os editores perderam uma grande soma de dinheiro.

A mesma história de expectativa inflada ocorreu novamente no final dos anos 1990, quando muitos editores – estimulados por previsões de consultores como a Pricewaterhouse Coopers – começaram a se preparar para o que se pensava seria uma iminente e dramática explosão de vendas de e-books; isso não aconteceu, as previsões dos consultores erraram longe e estabeleceu-se entre os editores um período de desilusão sobre os impactos da revolução digital.

Eu mencionei esses exemplos somente para lembrar como é fácil encarar as coisas seriamente de modo errado, quando você tenta prever o futuro numa área tão complexa como a edição e o consumo de livros, onde as tecnologias interagem com fatores econômicos, práticas sociais e culturais e preferências e gostos pessoais de um modo extremamente complexo. Dito isto, indubitavelmente o que temos testemunhado nos últimos 2 ou 3 anos, especialmente nos Estados Unidos, é novo. Os dados mostram que, desde o lançamento do leitor Sony, em 2006, e do Kindle, em 2007, houve um aumento brusco das vendas de e-books – de meros $10 milhões de dólares em 2005 para mais de $165 milhões em 2009 – um crescimento de 16 vezes em quatro anos. Não só as vendas cresceram dramaticamente, mas a taxa de crescimento parece crescer também. E o lançamento do iPad no início de 2010 parece ter acelerado este desenvolvimento.

booksinthedigitalage.jpg (34565 bytes)Após muitos anos, quando as vendas de e-books eram tão pequenas quanto irrelevantes para as editoras, os e-books de repente tornaram-se uma das poucas áreas de real crescimento. A excitação é palpável e justificada.

Contudo, não devemos nos deixar levar por este desenvolvimento, mesmo sendo interessante e importante. Mesmo com essa grande atenção dada aos e-books, as receitas de vendas de e-books continuam representando uma pequena porção das vendas do comércio de livros em geral – provavelmente menos do que 2% nos Estados Unidos, e consideravelmente menos ainda na Inglaterra. Deste modo, a grande parte do que acontece na indústria editorial está fora dos holofotes dos e-books. Além do mais, não sabemos como as coisas se desenvolverão a partir deste ponto. Há todas as razões para esperarmos que as vendas de e-books continuem crescendo, mas até onde elas irão e qual a participação de mercado que irão eventualmente capturar, neste estágio, é muito incerto.

Há na indústria quem acredite que o Kindle seria o modulador e que o mercado de e-book iria crescer exponencialmente, alcançando 50% das receitas das maiores editoras em dez anos; mas esta é apenas mais uma opinião entre muitas, e pode estar errada. Pode ser que estejamos vendo, por exemplo, uma bifurcação no mercado, com alguns leitores tornando-se dedicados a e-books, enquanto outros (Quantos? Muitos?) continuarão preferindo ler livros em papel em vez de em telas, e ainda prefiram ter seus livros como objetos para colocá-los em prateleiras, compartilhar com outras pessoas e desfrutá-los como pequenas obras de arte.

A verdade é que, agora nós temos algumas evidências de sério crescimento do aumento do mercado de e-book e os novos dispositivos de leitura estão mais sofisticados e amigáveis para o usuário final do que há dez anos atrás. E os editores estão disponibilizando muito mais conteúdo e formatos eletrônicos. Mas continuamos sabendo muito pouco sobre como os leitores irão utilizar esses dispositivos, que tipo de leitor (usuário) irá utilizá-los, e como as práticas de leitura mudarão nesse ambiente, se elas mudarão de verdade.

Assim, não seria inteligente tentar olhar muito longe na bola de cristal e especular sobre como serão os livros e a leitura em cinco ou dez anos. A revolução digital é realmente uma revolução, e uma coisa a respeito de vivenciar uma revolução é que ninguém sabe realmente quais serão as suas consequências.”

Que os editores não atrapalhem as mudanças

jaroslovsky_rich_na.jpg (6215 bytes)Rich Jaroslovsky, editor da Bloomberg, criador da versão online do Wall Street Journal e fundador da ONA – Online News Association (associação de web sites de notícias com sede nos Estados Unidos) publicou recentemente um artigo que chamou a atenção da Clínica Literária ao se apresentar como uma pessoa que num vôo de quatro horas emite no máximo quatro palavras. Está sempre com um livro de papel nas mãos. Intimamente ligado a publicações online, entretanto e paradoxalmente, deu sua opinião à Clínica Literária sobre o assunto em pauta que no mínimo estimula a reflexão:

“Desde quando comecei o Wall Street Journal online, minha experiência com editores não me deixou uma boa impressão de sua abertura de cabeça para novos meios de se fazer negócios. Entretanto, é possível pensar que os editores de livros, ao verem o que aconteceu com as empresas de discos, jornais e outros que tentaram atrapalhar o curso das mudanças, ao invés de abraçá-las, aprendam com aquelas experiências. Pelo menos esperamos.”
Leia seu artigo na Bloomberg, ou ouça aqui.

Ou seja, que não atrapalhem.

Gradual erosão do mercado, pelos digitais

brian-solis-engage-book[1].jpg (52392 bytes)Brian Solis é o principal palestrante convidado para o evento Digital Age 2.0 (São Paulo 18 e 19 de agosto), reconhecido globalmente como um dos mais proeminentes líderes e autores sobre as novas mídias. Preside a Future Works e, entre seus livros, destaca-se BrianSolis.com and Engage! Não poderia deixar de ser ouvido pela Clínica Literária (com exclusividade). Respondeu Brian:

"O livros são uma parte importante da sociedade. Enquanto as inovações redefinirão a ´idéia´de livro, a dependência do papel que ele desempenha na educação e entretenimento permanecerá constante. Os e-books estão ganhando tração significante na medida em que são combustível natural para uma nova geração de dispositivos digitais. A Amazon relata que os livros digitais já estão superando as vendas de livros impressos, e por boa razão. Milhões de Kindles e iPads já estão transformando como nós pensamos o jeito de ler e, deste modo, só podem continuar crescendo. Entretanto, a conexão táctil e sensorial com os livros de papel continuarão fortes num futuro próximo. Através do tempo, contudo, os e-books não só expandirão sua participação de mercado, como irão gradualmente erodir o mercado de material impresso em papel."  

O livro de papel é um "mobiliário social"

  • Tendência - Faith Popcorn BrainReserve

  • Passado/Futuro - Roger Chartier

img-author-photo-adam-hanft_061250365582[1].jpg (2944 bytes)A Clínica Literária quis saber também a opinião de Faith Popcorn Brain Reserve - agência de New York conhecida mundialmente por fazer previsões de tendências. Fait Popcorn, sua presidente, notabilizou entre estrategistas de marketing de grandes conglomerados o Relatório Popcorn, de onde destacam-se inúmeros insights tais como a tendência do "Lo-Co" ou "Local Cocooning" (encasulamento localizado), que tem tudo a ver com a pauta desta matéria. Para colaborar com a Clínica Literária, encarregou seu Diretor de Criação, Adam Hanft, guru do marketing, co-autor com Faith Popcorn do "Dicionário do Futuro". Adam fez a  seguinte declaração em nome da empresa:

"De todas as formas de mídia e conteúdo transformadas pela tecnologia e a revolução digital, nas últimas décadas, os livros são de longe a forma mais carregada pessoal, íntima e psicologicamente.

Pense sobre como as experiências de consumo de livros são diferentes - em oposição ao cinema, televisão e até mesmo jornais e revistas.

A sua natureza singular de interface entre o cérebro e a fisicalidade pura do livro enquanto objeto, "um mobiliário social", impõe um contexto inteiramente diferente em relação às migrações produzidas por outras tecnologias. Por esta razão, mais do que especular sobre o falecimento do livro de papel, acredito que o discurso intelectual relevante seja sobre os caminhos nos quais o livro irá integrar-se com a tecnologia digital.

Daí, ao invés de uma casa sem livros - em um mundo onde o equivalente à Biblioteca de Alexandria é compactado em um tablete digital - imagino uma prateleira de livros repleta de livros digitais. A necessidade emocional e de status de exibição individual por possuir livros continuará a existir, e as inovações tecnológicas permitirão uma cópia barata de um John Grishman na forma digital que inclua texto, filme, comentário, conteúdo especial e outros elementos."

O futuro pode ser: um texto fragmentado e sem autor

roger-chartier[1].jpg (9147 bytes)Se para entrar no futuro é preciso entender o passado, a Clínica Literária procurou concluir esta matéria enviando a pergunta, feita aos demais entrevistados, ao papa da história do texto, do livro e das práticas de leitura, o Professor do Collège de France, Roger Chartier:

Como podemos afirmar algo confiável sobre o futuro do livro, dada a velocidade das mudanças nesta revolução digital que vivenciamos no momento e o profundo enraizamento histórico das práticas associadas com a indústria editorial e o hábito de leitura de livros?

É difícil para qualquer um, e é mais difícil ainda para os historiadores que são os piores profetas. Podemos apenas sublinhar que esta é uma revolução realmente nova, a digital, porque está associada a uma revolução tecnológica (do códex ao computador), morfológica (da página à tela) e cultural (da obra como tal aos fragmentos descontextualizados). Neste sentido, todas as condições estão estabelecidas para apagar as diferentes heranças do passado: o códex, o livro impresso, o direito autoral, a prática de leitura contínua. O único embargo desse diagnóstico de uma descontinuidade radical está ligado à coexistência, hoje e suponho no futuro também (até quando?), entre o mundo digital e as outras formas de composição, publicação e apropriação de textos (escritos à mão e impressos). O principal desafio é entender as diferenças de construção dessa coexistência de acordo com lugares, ambientes sociais, gerações e gêneros de textos.

É o único meio de diagnosticar sobre o futuro, salientando tanto o apagamento de nossas categorias clássicas da ordem de discurso (os conceitos da obra, direito autoral, propriedade, singularidade e originalidade) pelo novo regime de produção de discurso no qual os textos são fragmentados, maleáveis, abertos e sem autor, quanto à resistência do livro impresso para gêneros tais como ensaios, novelas, história, etc.”

Como não existe o fim da história, embora pudéssemos parar aqui, fomos um passo além e perguntamos: como o senhor vê a evolução dos hábitos de leitura com essa tendência digital?

“Para mim – responde o Professor Chartier – o mais importante não é a generalização da leitura fragmentada, descontínua, em frente à tela, mas as suas conseqüências: o apagamento da relação entre qualquer fragmento da obra com a sua inteireza. O códex (livro tradicional como o percebemos até hoje) permite, ou impõe, esta relação pela sua materialidade. Ninguém é obrigado a ler todas as páginas de um livro impresso, mas o próprio objeto impõe a percepção de sua totalidade, a coerência, a lógica de toda a obra. No mundo digital, o fragmento, como um dado em um banco de dados, ou em um website, é destacado da entidade textual da qual foi extraído. Neste caso, a prática cultural de atenção descontínua e a estrutura morfológica da textualidade eletrônica estão unidas para desafiar a definição tradicional do que é um livro, ou um texto. Esta definição, que é baseada na idéia de coerência do discurso tanto narrativo quando demonstrativo, será capaz de sobreviver? Ou, a nova ordem de discurso será uma justaposição de fragmentos textuais desconectados (...e sem autor)? Eu não sei. Quem saberá?”

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Luís Peazê, que “já jogou bola”, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária – Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro www.luispeaze.com/clinicaliteraria

 

gaucholer.jpg (8926 bytes)Literatura - Política - Comportamento
Era uma vez um sonho

Dia Internacional do Livro, 23 de abril
por Luís Peazê      Publicado em 23/04/2010 11:15

Era uma vez no ano 2000, recebi uma cartinha do Instituto Cervantes do Rio de Janeiro para participar das encenadas... Cartinha!? Reli a carta, com o selo real da Espanha, transformado numa criança com um presente nas mãos. Apaixonado pela obra prima de Cervantes, apelidado pela sogra – Ah, você é um sonhador! – de Dom Quixote, a participação com outros escritores na leitura desse livro que atravessa séculos cada vez mais sólido e, digamos, conveniente, era a realização de um sonho que nem cheguei a ousar. Foi um convite surpresa.

Seria em torno do Dia Internacional do Livro, instituido originariamente na Catalunha por decreto real do Rei de Espanha Alfonso XIII na data de nascimento de Miguel de Cervantes (7 de outubro), mais tarde pela UNESCO na data do seu falecimento (23 de abril) que coincidiria com outras datas de escritores famosos, incluindo Shakespeare (a este controversa, como é tudo a respeito do bardo).  Mas as encenadas deste ano de 2010 não ocorreram, no Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, embora no web site do Instituto haja um calendário de encenadas em várias cidades espanholas, o que me faz refletir se já não se sonha mais no Brasil como antigamente.

O Dia Internacional do Livro deveria, a meu ver, ser celebrado em todos os dias em que algo – gente, acontecimento, nascimento, vida e morte –, é celebrado; no meio do parto, uma pausa, no meio da dor, um minuto de silêncio, para a leitura de um livro, de uma linha pelo menos. Sonhar é preciso. O pai de minha sogra, por exemplo, sonhava, e a cada filha que nascia escrevia um poema, a cada chuva que caia, escrevia versos. Encontrei o seu caderninho outro dia - parei tudo e li - iniciado no final do século XIV. É isso, casei com o resulado de um parnasianismo da zona rural do interior das Minas Gerais.

Ultimamente, neste governo de um Presidente do Brasil iletrado, há um esforço de um certo gueto das esplanadas dos ministérios de realçar, alardear, enaltecer, superestimar (hábito comum em Brasília) o Plano Nacional do Livro e da Leitura que vem tentando implementar políticas, programas, iniciativas em prol do livro e da leitura, é verdade. Mas um olhar atento, que vem de longe, encherga fácil muito mais brechas do que buracos tapados, muito mais caminhos para abrir, do que ruas pavimentadas, muito mais por fazer do que poderia ter sido feito com uma simples canetada.

Mas não sejamos tão céticos, melhor uma migalha de livros aqui, uma bibliotecazinha ali, um incentivo fiscal acolá, do que nada, ora, não faz uma década ainda que o PNLL abriu a primeira página. Até porque há gente do bem infiltrada no meio dos cicilianos (é linguagem figurada, minha gente, não vão me enfocar por isso, obrigado) do Conselho Diretivo e da Coordenação Executiva do PNLL (relatados abaixo), então a chance do sonho realizado permanece.

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Peazê e Ziraldo na inauguração da Livraria da Bolívar (2006) quando Ziraldo aderiiu à
Campanha da Tarifa Livro

Mas eu insisto em sonhar, por exemplo, com uma tarifa especial, mais barata, dos Correios para envio de livros. Um livrinho meu de 250 gramas custa nas melhores casas do ramo perto de 35 pilas, entretanto, para enviá-lo de um estado do centro oeste para o Acre ou Chuí o custo nos Correios é maior (do Rio para São Paulo também). Exemplos abundam. Ilações, que venham as ilações.

Nem todos os sonhos são realizáveis, o importante mesmo é sonhá-los, não perder a chama da vontade indomável de realizar algo, é isto que revela a alma das pessoas, é isto que move a vida ao nosso redor para algum lugar melhor.

Não, não realizei aquele sonho que não havia nem ousado sonhar, o de participar das encenadas, ler e comentar em voz alta Dom Quixote de La Mancha. Sacara da estante minhas duas edições no original, meu exemplar em português, uma versão infantil com destaque para as belas gravuras de Doré a bico de pena, relia-as, mergulhei na cela onde Cervantes escrevera sua obra durante nove anos, bebi vinho, me embriaguei, fui Sancho Pança, fui Qixote, fui até um moinho mulher, e no dia das encenadas surgiu uma demanda particular importante e não pude participar. É a vida.

Serviço: O Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) é instituído pelo governo federal, por meio do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação. Sua estrutura de gestão é composta por:  Conselho Diretivo do PNLL: João Luiz Silva Ferreira – MinC; Muniz Sodré – FBN/MinC ; André Luiz de Figueiredo Lázaro – MEC; Jeanete Beauchamp – MEC; Tânia Rösing – Universidade de Passo Fundo/RS ; Moacyr Scliar – Academia Brasileira de Letras; Oswaldo Siciliano – Câmara Brasileira do Livro; Órgão Assessor: Organização dos Estados Iberoamericanos – OEI. Coordenação Executiva do PNLL - José Castilho Marques Neto – Secretário Executivo; Jéferson Assumção – MinC; Carlos Alberto Xavier – MEC; Eliane Pzczol – PROLER/FBN; Márcia Rosetto – FEBAB; Núcleo de Apoio Técnico: Luciana do Vale; Luís Gustavo Simões; http://www.pnll.gov.br/

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“ Minha primeira experiência profissional com livros foi aos oito anos de idade. Cuidava para meus tios, da Editora Nacional, as caixas de saldos fora das barracas da Feira do Livro de Porto Alegre. Lembro que uma de minhas diárias foram pagas com uma escolha; meu pai me perguntou o que eu queria e, como ficara encantado com a história que ele me contara sobre uma índia e um índio, respondi que queria o Guarani. Nunca mais parei de adquirir e trabalhar com livros.” Luís Peazê

 

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“ Tenho tudo para repelir os livros de papel, quando eu era analista de sistemas, na virada da década de 1970 para 1980, dizia para meus amigos e escrevia em colunas de jornal que a minha idéia de "processamento de dados" era um computador da mesa, um bloquinho de anotações e uma caneta. Os escritórios, as empresas, não precisariam ter arquivos físicos de documentos e papeladas.Como já era um leitor compulsivo de romances, didáticos, técnicos e jornais, imaginava se os livros  computadorizados também. Só não sabia como, era uma utopia (e paixão)."   Luís Peazê  

 

“ Tenho tudo para repelir os livros digitais, na verdade, se fosse por mim, não deixaria existir nem os livros de capa mole e apenas colados, sem aquelas lombadas femininamente fornidas dos livros de capas duras. Vivi em três países e sempre carreguei nas costas minha biblioteca particular, que não para de crescer. Além do trabalho enorme, é dispendioso. Mesmo assim, não tenho nada contra os livros digitais, pelo contrário. Os dois podem e irão coexistir... Os editores e livreiros é que precisam mudar as suas mentalidades imediatistas, e investir em criatividade.”   Luís Peazê  


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“ Quando ainda era analista de sistemas, tinha uma amiga japonesa, programadora de computador, e trocava com ela cartinhas em hexadecimal. Éramos capazes de escrever na base hexadecimal como se fosse a nossa segunda língua. Hoje em dia, como esqueci tudo e fiquei ultrapassado, um jurássico na computação eletrônica, mas com um conhecimento prático histórico sobre as arquiteturas de softwares, como eles floresceram no mundo e chegaram até aqui, me pergunto: será que um leigo, que não tem a menor idéia de como funciona um computador por dentro, ou por trás da dela, hoje em dia, sabe do poder (a seu favor e contra ele ao mesmo tempo) de um simples clique, ou ´touch´?”   Luís Peazê  

 

 

“Entrei literalmente nas histórias de certos livros que li. On the Road, de Jack Keroack me fez repetir sua viagem pelos Estados Unidos, de New York a Denver, San Francisco, LA e através do sul até a Flórida e de volta a New York. Fiz isso num carrinho velho com o banco traseiro repleto de livros. Passando pelo deserto de Mojave, lia Perfume, e parei no descampado por alguns dias, sozinho, me sentindo um Jean Baptiste Grenouille; sem as suas barbaridades, é um personagem estimulante, pela perseverança. Uma pena ter matado virgens para construir o perfume do amor."   Luís Peazê  

 

 

 

 

 

 

“Os balconistas de drogarias entendem mais do produto que vendem do que os balconistas de livrarias. Lembrando uma expressão utilizada por Mario Quintana, cemitério de livros, as livrarias são câmaras ardentes de títulos que não têm força para assanharem-se por muito tempo "nas pilhas" e são guardados, lombadas lado a lado, nas prateleleiras e gradualmente vão escorregando para o depósito, repatriados para as editoras ou reciclados, enterrados, um crime. As livrarias deveriam ser como  canteiros de hortaliças para se colher e consumir antes de perecer. O Brasil é um país de subnutridos literários. Engordamos pobremente com corantes, ingredientes cancerígenos, excesso de açúcar, gordura, amido, bobagens e até com drogas pesadas."   Luís Peazê  

 

 

 

 

 

 

 

 

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