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setinha down.JPG (713 bytes)Jornalismo
   
O mundo sucumbiu à ciência - "
meeting the time"
    A útima esperança era o jornalismo, não é mais

por Luís Peazê      Publicado em 05//11/2009 08:35

Começando pelo título, o mundo sucumbiu à ciência. E justamente a única profissão que desde a sua origem teve o salvo conduto para divergir, desconfiar e investigar todos os ângulos de uma situação de trabalho antes de se decidir qual o caminho a tomar, a profissão do jornalista, foi corrompida também, o mundo definitivamente sucumbiu à ciência, a esta precária representação do conhecimento humano. O quê?

Sem esgotar comparações, o advogado, por exemplo, teria mais ou menos o mesmo salvo conduto, mas ele já começa tendo obrigatoriamente que se decidir pelo lado do seu cliente, então não decide o caminho a tomar pela desconfiança da informação, da investigação, os ângulos da situação, do contrário no meio do caminho a grande parte desses profissionais passaria para o ataque ao invés da defesa ou vice versa, seria um pandemônio, pior do que já existe na intricada capacidade de malabarismo da esfera jurídica, onde quanto mais dinheiro de um lado da balança, maiores são as chances de vitória, e o objetivo é a vitória, não é a verdade. Não me ocorre outra profissão que goze do privilégio do jornalista. Privilégio ignorado. Assim, de cínico, porque se obriga a ver vários ângulos, procura ver de tudo e mais cedo ou mais tarde verá mesmo, antes de usufruir daquele privilégio, torna-se pateticamente passivo, e pior, parcial.

A ciência é adotada inexoravelmente como um dos supremos poderes em nossa sociedade, ela mesma alimenta, fornece subsídios para o outro único poder, o capital, e troca esforços com este poder para que juntos sejam de fato a supremacia, que os demais pseudopoderes fiquem submetidos às suas leis, aos seus interesses e é assim que o mundo funciona. Desnecessário buscar a história para defender esta afirmação, mais desnecessário ainda rebuscar na arquitetura de texto, é isto o que acontece em nosso mundo. E isso afeta as nossas vidas de modo tão direto quanto é a simplicidade da razão que dita se a ciência chegou a algum ponto esperado e para qual direção avançar, da mesma forma acontece com o capital. Para a ciência, vale algo desde que se prove, aos olhos dela mesma (um absurdo para qualquer filósofo de botequim, um insulto para os verdadeiros filósofos, obsoletos, uma maldade para o homem comum, e isso não é pouco); para o capital é mais simples ainda, resume-se em uma única palavra: lucro.

O Dr. Lovelock me disse por telefone, anos atrás que a Terra está buscando o que é dela, parece que não vai resistir, mas somos nós que não resistiremos se não pararmos de abusar da sua capacidade de produção, algo assim, e defendeu o uso da energia nuclear – fiquei chocado, confesso, e fui estudar porque não sabia quase nada sobre o assunto. Complexo. Alistei-me num grupo online gerenciado por cientistas que defendem esta tese do Dr. Lovelock, para tentar entender o que esta gente pensa, e fiquei mais chocado ainda, tendo esta ingênua idéia de artigo. Pois me lembrei de outro estudioso jurássico, o Prof. Aziz Abi Saber, autor da Revanche das Areias e isso me levou a resgatar uma idéia que tive na adolescência quando resolvi que iria escrever um livro. Eu tinha um título, só não sabia como desenrolar a narrativa, não sabia nada mais, na verdade, só sabia que o tempo é uma coisa impalpável que a gente nunca compreenderá, se compreender, um dia, ele já não será mais útil – e, na minha arrogância juvenil criei o título em inglês mesmo, “meeting the time”, achei-o bonito assim e jamais soube eu mesmo traduzi-lo.



Do homem da caverna aos nossos dias, nosso estômago é o mesmo, mas comemos imensamente mais

Penso que seja como desenrolar uma bala, a gente põe a guloseima na boca e joga o papelzinho fora, tendo feito uma bolinha bem miúda entre os dedos, pois assim não pesa na consciência jogá-la em qualquer lugar. Lixo por lixo, já acabamos de jogar mais de uma colher de açúcar para dentro de nossas veias, quatro ou cinco diferentes tipos de corantes e substâncias artificiais, já intoxicamos nosso organismo a tal ponto de todas as suas reações físico-bio-químicas se desorganizarem, sem falar do que ainda faremos o resto do dia. Mas que nada, a ciência está aí para descobrir a cura para o câncer, do pâncreas ela já descobriu, trocar o fígado não é mais mistério, o estômago pode ser diminuído, assuntos triviais da medicina, uma arte humana que sucumbiu à ciência, espere um pouco: as nossas tripas têm o mesmo comprimento desde a época das cavernas, quando era preciso gastar muitas calorias para correr atrás de uma caça para nos alimentarmos? Hoje em dia é só esticar a mão numa gôndola de supermercado e encher o carrinho – o mundo não é avisado disso, mas comemos imensamente mais do que precisamos. É a ciência, neste caso a sub ciência da economia de mercado, movida pelo marketing.

Aparentemente é uma derivação no texto, um fio da meada perdido, mas não é não. Paciência, vamos “meeting the time” aqui, já que estamos passando alguns minutos juntos.

Neste sentido o jornalista não passa de uma charge publicada no Jornal do Brasil décadas atrás, uma cabeça com a boca aberta para cima recebendo uma chuva de letrinhas, os olhos sem expressão alguma.

Toda a notícia científica, especialmente nos meios de comunicação de massa, é dada, espetáculo à parte, como um passo importante da sociedade, um potencial de melhoria de vida para as pessoas. E não se trata apenas do tom com que é dada a notícia, não se trata de um contexto específico em que ela foi necessariamente inserida. Ocorre mesmo um fenômeno irreversível, ambos emissor e receptor acreditam no que estão expostos. De um lado o recipiente da informação disposto, permeável, crédulo à noção de que “olha só a ciência está descobrindo isso, aquilo, aquilo outro”. Do outro, ora, um pobre escravo, sem vontade própria, sem independência alguma.

Raríssimas vezes aquelas descobertas, aquelas notícias, podem ser encontradas no supermercado ou outro local de sua natureza para usufruto imediato, é sempre para “daqui a algum tempo”, ora, a ciência acaba de descobrir, vamos esperar. Quando chegam às “prateleiras”, aos hospitais, às fábricas, aí o Capital já terá roubado a cena e o caso não é mais um caso da ciência, e tampouco é notícia. Pois, ora, lançamento de produtos são os colegas das relações públicas e publicidade encarregados de comunicar.

Mas onde está o problema, este artigo tem o tom de ataque à ciência, ao jornalista, parece o autor um soldadinho de chumbo com o passo trocado convencido de que o batalhão inteiro está errado.

O problema está em que até a arte, sublime manifestação, a imensa potencialidade intelectual e de percepção sensorial, da sua alma e de um vasto mundo interior do ser humano e do resultado da sua existência em conjunto com outros seres humanos e elementos naturais, sucumbiram implacavelmente também à ciência e ao capital. Tudo gravita abaixo ou em torno desses dois poderes, a própria religião, desvinculou-se totalmente da sua ferramenta de trabalho, a crença, e agarrou-se a um desses poderes tão logo ele mostrou ao mundo que nasceu para mandar em tudo.

Daqui de fora, quando posso sair, é claro, vejo que restou apenas um sobrevivente nestes escombros, a poesia, e ela talvez traduza “meeting the time” para a minha língua.

Luís Peazê, que “já jogou bola”, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de "Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária – Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal – BRCostal, entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e costeiro www.luispeaze.com/brcostal

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