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Esporte - Comportamento -
Jornalismo
A ética no jornalismo esportivo brasileiro
por Luís Peazê
Publicado
em 13/06/2010 23:45
Na apresentação da TV Manchete, da sua programação para a Copa do Mundo de 1990 em
Roma, ouvi do próprio João Saldanha uma frase recorrente no mundo da bola seguida de
risos saudosos, mas que esconde, ou revela, nas entrelinhas, a fragilidade potencial da
deontologia na cobertura setorial do futebol, por jornalistas brasileiros: jogador
não casa com a minha filha.
Era um almoço, com a presença de Adolfo Bloch, para um grupo seleto de profissionais de
mídia, da bola e o time que cobriria a Copa em Roma, por aquela extinta emissora; de
repórteres a ex-jogadores, de comentaristas a juiz de futebol; Armando Marques
representava esta última categoria, Falcão aqueles outros, e com o saudoso João
Sem Medo presente, tenho certeza que os demais jornalistas daquele almoço da
sede da antiga Manchete não ficarão chateados se eu não mencioná-los. Porém, daquele
breve convívio, e juntando com outros episódios que presenciei no meio do futebol,
carrego a sensação de que a ética, tanto normativa, quanto a ética de um modo geral
são negligenciadas com freqüência, e impunemente, no jornalismo brasileiro.
A indústria do esporte e a natureza deste, que é uma das atividades humanas mais
espetaculares do planeta, são um desafio sem precedente para o jornalista. A visibilidade
e dependência cada vez maiores da figura do patrocinador no cenário das quatro linhas,
que encerram 23 homens correndo atrás de uma coisa redonda, cada vez mais ligeira, são
forças corruptoras muito fortes. O terceiro bico deste triângulo das bermudas, os meios
de comunicação, enquanto empresas, completam a pressão aos jornalistas.
Uma declaração de Ezequiel Fernández (jornalista argentino) no Seminário de
Periodismo, realizado no final de 2009 em Medelin, às vésperas do campeonato Sul
Americano, e repetida no Primeiro Encontro sobre Ética no Jornalismo Esportivo, realizado
em Buenos Aires, na Universidade de Palermo (maio último), talvez levante a questão que
pode estar ameaçando a ética nas coberturas de futebol, uma questão que não temos
discutido aqui no Brasil há algum tempo, pelo menos em evento reunindo profissionais de
todo o país:
Os mundos do esporte e do jornalismo esportivo se baseiam no resultado, quando o
importante são os fatos. E ele completa, o que todos nós sabemos, mas que na
cobertura diária do futebol não é levado a sério: informação não se compra
nem se vende.. para o jornalista não é necessário mentir, basta omitir...
A isso eu acrescentaria o que tem sido evidente como nunca, ou como sempre foi, entre os
setoristas dos boleiros, mas que já no início da cobertura desta Copa do
Mundo de 2010 na África do Sul tem sido, a meu ver, demasiado: a prática de fabricar
notícia pela provocação da polêmica.
Talvez seja a contenda por audiência, entre as equipes de coberturas de veículos
concorrentes; talvez seja a diferença de preparação e aparelhamento profissional de
umas equipes em relação a outras; talvez seja a vivência longeva dessas duas
circunstâncias verídicas dos repórteres e jornalistas de redação, ou estúdio; ou
talvez seja o simples esquecimento do que seja a ética normativa, ou ética de um modo
geral.
A pauta dentro da pauta
Com a globalização (mais uma vez esta senhora é a culpada), o esporte consolidou-se
como um espetáculo de massa de importância sócio-econômica incomparável, não há
dúvida. Diferenciado de outros espetáculos, como o teatro, a música, a dança, a
exposição de vacas e o circo... Pelas exigências da FIFA (Federação Internacional das
Associações de Futebol), e submissão dos países protagonistas (este detalhe é muito
importante e demandaria uma análise à parte), o futebol de longe supera o automobilismo,
por exemplo, ainda que este seja multimilionário; superou há muito tempo as corridas de
cavalos (cada vez mais elitizadas); facilmente deixa os esportes olímpicos a vários
corpos de distância, por ser este fragmentado, de interesse e praticado por grupos
menores de pessoas (infelizmente). O goal aqui é lembrar que nenhuma outra
atividade esportiva, nenhum outro espetáculo, se arrasta ao longo do calendário civil, e
ao longo de uma escalada de níveis de competição (regional, nacional, entre continentes
e por fim entre países) como o futebol. Isso explica o interesse político, as demandas
complexas de logística e de melhores práticas do mundo moderno e, por fim, a
mobilização de toda a cadeia produtiva e comercial. Todos os segmentos da sociedade são
afetados, de um jeito ou de outro, pela indústria do futebol; de modo contínuo, escalar
e apoteótico.
No entanto parece que a pauta dos homens das latinhas, da telinha,
das antigas pretinhas e hoje em dia do ratinho têm estado presa
ao espetáculo jogo de futebol e ao potencial de entretenimento. Como diriam os
intelectuais aborrecidos, à anestesia social, à alienação, ao consumismo a qualquer
preço. Sem dúvida, as utopias e paixões ficaram lá no tempo das chuteiras de travas de
couro e prego.
Daí, enquanto o jogo não começa, durante a semana, em torno dos treinos, os setoristas
se comportam como meros paparazzi, caçadores de gafes, ou de possíveis intrigas que lhes
dariam a foto e a manchete de primeira página. Patético, para uma profissão, a de
jornalista, que tem à mão as ferramentas e o manancial de material informativo e
profusão de fatos para comunicar como nunca se viu na história do jornalismo.
No caso do Brasil, em que meninos oriundos de comunidades carentes alcançam a fama
internacional, e ganhos multimilionários, numa mesma temporada de estréia no futebol
profissional, ainda no fim da sua puberdade, talvez esteja na hora de cercar a cobertura e
formato de entrevistas (em especial) com mais criatividade e aparelhamento por parte dos
jornalistas. Há inúmeras alternativas de pautas dentro da pauta, mas o jornalista que
cobre um certo clube parece contentar-se com uma espécie de onanismo informativo. Sem
falar do visível deslumbramento de muitos profissionais por este e aquele jogador em
particular. Sem falar do jabá. Isso existe? Quem puder provar que não, por favor envie
e-mails para este observador.
De qualquer forma segue uma sugestão de leitura: Jabá Journal of Applied
Behaviour Analysis (vá direto ao artigo: Os efeitos do treinamento de deslocamento de
atenção sobre a execução das habilidades no futebo, uma análise preliminar)
http://seab.envmed.rochester.edu/jaba/jaba-sportsperformance.html ). A propósito, um
outro cliente, de Chicago, desenvolveu e comercializa um software de análise de uma
partida de futebol com tantos parâmetros que eu não imaginaria poder existir quando fiz
a preliminar de Internacional e Corinthians na decisão do Campeonato Brasileiro de 1976.
A concentração durante o jogo era tão grande, daquele menino apelidado de centro-médio
e que jogava de centro-médio, a energia que vinha da torcida, ensandecida aguardando o
jogo de fundo, 100 mil pagantes no Gigante da Beira Rio, que ao final da partida eu não
lembrava de nada, só que havíamos ganho e de algumas poucas jogadas, parecia que tudo
ocorrera em poucos segundos, ou que durara uma vida inteira, eu perdera cinco quilos de
líquidos que recuperaria até o dia seguinte.
Falando em perder quilos, tenho um cliente na Austrália, ligado ao ramo gastronômico,
que faz durante a Copa de Futebol 2010 promoção semelhante à de restaurantes de Belo
Horizonte, assim como conheço cervejarias do norte da Califórnia que repetem o mesmo
tipo de promoção: no jogo de uma seleção (país) contra outra, o menu e as gratuidades
para estimular o consumo são em torno das bandeiras nacionais.
Por fim, um recado aos emburradinhos jornalistas que criaram manchetes tais como os
jogadores estão comendo na mão do Dunga e que reclamam dos treinos fechados da
seleção brasileira: ensinem aos demais jornalistas a sua capacidade (ou truque) de
memorização de escalações, escores de partidas de futebol e fichas pessoais de
jogadores (não há banco de dados melhor do que um jornalista com esse tipo de memória);
passem também a vontade de penetrar e arrancar imagens dos treinos e horas de privacidade
da seleção, para os jornalistas de outras áreas praticarem na política, na indústria,
e especialmente nos laboratórios de pesquisa acadêmica e industrial. Os jornais
voltariam a ficar mais gordinhos. E a ética?
Talvez seja necessário e oportuno realizar um seminário sobre ética no jornalismo
esportivo brasileiro, após a Copa 2010. Quem se interessar, estou à disposição para
organizá-lo.
Luís
Peazê, que já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de
"Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária
Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal,
entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e
costeiro www.luispeaze.com/clinicaliteraria
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Comentários:

Valdeia Camargo
21/4/2010 - 10:56:31
Gostei muito, e principalmente de saber sobre Luiz Fernando Bindi.
Goleiro fazendo gol contra de bicicleta é fantástico, hein?
Gostaria de vê-lo comentando sobre Armando Nogueira,
de quem fui e sou fã, autor da frase:
-"O Botafogo é bem mais que um clube -,
é uma predestinação celestial". Valeu!
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