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Jornalismo - Mundo
Relatório Confidencial Alemão
Medidas de Proteção Global dos Oceanos Têm Falhado
Por Axel Bojanowski
(tradução Global Garbage/
Luís Peazê) Publicado em 08//02/2009 12:35
Milhares de toneladas de lixo são jogadas no mar a cada
ano, colocando em risco vidas humanas e selvagens. Um relatório confidencial do governo
Alemão, obtido pelo SPIEGEL ONLINE,
indica que os esforços das Nações Unidas e da União Européia para limpar nossos
oceanos têm falhado completamente.

Lixo ao longo da costa: um ambientalista retira lixo do oceano ao
longo de uma praia em Hong Kong. AFP - Mais fotos e informação no site da Global Garbage
Dada
a imensidão de nossos oceanos, poucas pessoas encontram problema para despejar lixo
nesses corpos d´água. Mas enormes quantidades de plásticos, que degradam a uma taxa bem
baixa, podem ser encontradas a rodo em nossos oceanos. As vidas selvagens consomem
pedaços pequenos de plásticos levando muitas delas a morrer, dado que os mesmos estão
repletos de venenos. E, conforme advertem os especialistas, atingimos um ponto em que
está ficando perigoso até mesmo para humanos consumir peixes e frutos do mar.
Consideradas
tais condições, a comunidade internacional vem desenvolvendo por quatro décadas
massivos esforços burocráticos na busca de liberar os oceanos do lixo. Em 1973, as
Nações Unidas patrocinaram um pacto protegendo os oceanos do despejo. Adicionalmente, em
seis diferentes ocasiões, provisões (destinadas à poluição marinha) têm
sido agregadas à chamada Convenção Marpol. Há nove anos, a União Européia publicou
diretrizes que proíbem qualquer despejo de resíduo marítimo no oceano enquanto as
embarcações estiverem nos portos.
Entretanto,
de acordo com o documento de estratégia confidencial do governo alemão, obtido pelo
SPIEGEL ONLINE, se você somar todos os benefícios de tais medidas, o resultado é zero.
O fato é que, conclui o documento confidencial, os esforços internacionais buscando
proteger os oceanos falharam em todos os sentidos. Nossos oceanos se transformaram num
vasto aterro de lixo.
Até
mesmo leis rigorosas não têm feito qualquer coisa para ajudar os oceanos, estabelece o
documento. Tome o caso dos mares Norte e Báltico. Embora o despejo nesses mares têm sido
ilegal, desde 1988, o montante de lixo ali encontrado permanece sem melhoria.
O governo estima, também, que a cada ano 20.000 toneladas de lixo encontram seu caminho
só para o Mar do Norte, principalmente de navios e da indústria da pesca. O documento
conclui que todos os acordos internacionais relacionados com o assunto têm sido
infrutíferos."
Enchimento de Lixo no Armário Azul
A
princípio, talvez pareça que a União Européia esteja fazendo muito para limpar o lixo
dos mares. Por exemplo, a mais recente diretriz da UE sobre o assunto, em julho de 2008,
busca a garantia de boas condições dos mares da Europa em 2020. Entretanto,
nesta terça-feira, a Comissão Européia anunciou sua intenção de estabelecer "uma
agência dedicada (
) para atacar os problemas subjacentes da má implementação e
execução da legislação européia sobre lixo."
Quer
dizer, o documento de estratégia alemã não coloca muita fé em tais planos. Do jeito
que seus autores vêm as coisas, é extremamente improvável que um consenso
efetivo sobre não poluir os oceanos emergirá num futuro previsível. A verdade é que,
os especialistas do governo parecem acreditar que martelar sobre novos acordos não é o
caminho certo para abordar a questão. Em vez disso, eles acreditam que a praticabilidade
de futuros pactos buscando proteger os oceanos deve ser investigada em primeira
mão.
Em
público, por outro lado, o governo federal da Alemanha assume um tom muito menos
cáustico. Em abril de 2008, a então grande coalizão dominante feita pela
chanceler Angela Merkel do partido de centro-direita União Democrática Cristã e pelo
Partido Social Democrático de centro-esquerda declarou que reconheceu as
regulamentações existentes buscando conter a inundação de resíduos como em
princípio suficientes." Na quinta-feira o Ministro do Meio Ambiente, da
Conservação da Natureza e da Segurança Nuclear Federal da Alemanha declinou fornecer
qualquer comentário adicional para O SPIEGEL ONLINE.
Oportunidades de Descarte Insuficientes
A
proteção ambiental advoga, por outro lado, não estar acanhada para dar voz a sua
consternação. "Na existência de controles e penalidades, diz Onno Gross, o
presidente da Deepwave, uma organização de conservação do oceano baseada em Hamburg,
"estão aparentemente tentando se livrar de seu lixo no ´armário azul´."
Permanece, de acordo com o documento interno do governo, que o descarte da maneira
apropriada de lixo marítimo não é fácil como deveria ser. Da forma como os autores do
documento vêm isto, as oportunidades insuficientes de descarte nos portos, altas
taxas e logísticas complicadas frustram tais esforços.
Mesmo
assim, eles também admitem que colocar um basta em mais poluição é urgentemente
necessário. Os especialistas por trás do relatório observam a piora de um
problema ecológico e econômico que terá efeitos negativos sobre animais marinhos
assim como custos imensos."
Eles
também alertam para sérias consequências relacionadas com a saúde humana. Por exemplo,
partículas de plástico podem desalinhar completamente nosso complexo equilíbrio
hormonal, de acordo com um estudo publicado no ano passado por cientistas do Hospital
Universitário de Caridade de Berlim. Da mesma forma, segundo Richard Thompson, um
biólogo marinho da Universidade de Plymouth na Grã-Bretanha, pedaços de plástico podem
transformar-se, da noite para o dia, em substâncias armadilhas venenosas, embutidas nelas
mesmas, causadoras de câncer, tais como DDT. Na verdade, o estudo mais recente coloca a
concentração de tais venenos, das pontas dos plásticos, como sendo milhões de vezes
maior do que o normal. E, conforme alerta Gross, "quando as pessoas consomem peixe,
elas trazem o veneno para dentro de seus corpos."
Quando
Thompson olha para esse problema, ele se preocupa sobre as chances de haver uma perigosa
cadeia de reações. Quanto mais alto um animal estiver na cadeia alimentar, é provável
que ele tenha mais veneno em seu corpo. Os cientistas estão atualmente procurando
descobrir quanto veneno os humanos ingerem quando comem coisas que vêm do oceano.
Comendo Plástico até Morrer

A praia em Mumbai, Índia: mais plásticos do que plâncton. REUTERS
Mais fotos e informação no site da Global Garbage
Os
pássaros muitas vezes têm dificuldade em distinguir entre pequenos pedaços de plástico
e comida. Segundo um estudo conduzido em 2002, 80 por cento dos pássaros examinados ao
longo do Mar do Norte continham partículas de plástico em suas bocas. Da mesma forma, os
pesquisadores do Centro de Pesquisa e Tecnologia da Costa Oeste, da cidade de Büsum do
nordeste da Alemanha, determinaram recentemente que quase todos (93 por cento) os
pássaros mergulhadores do Mar do Norte têm pedaços de plástico em seus estômagos.
Outro
estudo encontrou, ainda, uma média de 32 pedaços de plástico nos estômagos de Fulmarus glacialis, equivalentes aos petréis. Com todos esses pedaços em
seus estômagos os pássaros sentem-se cheios, desta forma eles consomem menos, adquirem
menos nutrientes e, em muitos casos, morrem. Um painel de especialistas disse, à EU, que
pássaros migratórios alimentam seus filhotes na Antártica com pedaços de plástico que
eles encontram no Oceano Atlântico.
De
acordo com o Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas, há, em média, 18.000
pedaços visíveis de plástico flutuando em cada quilômetro quadrado do mar. Algumas
nódoas de lixo flutuante são até mesmo visíveis em fotos de satélite. Pesquisadores
da Fundação de Pesquisa Marinha Algalita pesquisaram 11 sítios randomicamente
escolhidos no meio do Oceano Pacífico e descobriram uma massa de plástico seis vezes
maior do que a massa de plâncton. Através do tempo o plástico se desintegra em pedaços
cada vez menores, mas leva séculos até que ele desapareça completamente.
O Fundo do Mar do Norte Está Saturado de Plástico
Um
exemplo particularmente flagrante de lixo marinho é apresentado pela Angra Alemã, uma
parte do Mar do Norte na costa da Alemanha. Ao todo 8 milhões de pedaços de plástico
podem ser encontrados ali. Na parte sul do Mar do Norte, uma média de 575 pedaços de
rejeitos pode ser encontrada por quilômetro quadrado.
Ao
longo das praias do Mar do Norte e do Atlântico Norte, segundo o relatório do governo,
perto de 712 pedaços de lixo podem ser contados em cada faixa de 100 metros, em média.
Algumas faixas contêm até 1.200 pedaços. "Não é suficiente apenas varrer as
praias de vez em quando, diz o biólogo marinho Gross. Na verdade, até 67 por cento
do lixo afunda até o fundo do mar. Abaixo das águas do Mar do Norte descansam 600.000
metros cúbicos de entulho, de acordo com os cálculos oficiais grosseiramente o
volume de duas pirâmides de Giza. Cada quilômetro quadrado do Mar do Norte contém um
metro quadrado de lixo.
Não
faltam sugestões sobre como atacar o problema. O documento estratégico do governo
alemão propõe começar devagar. Primeiro de tudo, diz ele, deve-se trabalhar num
critério para um mar saudável e a vida marinha deve ser melhor pesquisada para corrigir
o estado difuso de nosso conhecimento." A questão, se os padrões de métodos
de pesquisa são suficientes, permanece um problema sem uma solução
satisfatória."
Mas
o governo também possui algumas medidas concretas que ele gostaria de ver implementadas.
"Sacos de lixo reforçados" devem ser distribuídos aos pescadores de modo que
500 deles possam servir de coletores de lixo do Mar do Norte. O relatório do governo
aponta também para redes de pesca sem âncoras, como um problema importante que a vida
marinha enfrenta no Mar do Norte. O documento estratégico aconselha uma avaliação sobre
a necessidade das redes de pesca serem equipadas, no futuro, com dispositivos de
localização.
Os
sistemas de reciclagem também devem ser promovidos a bordo dos navios, propõe o
documento. A separação de lixo é também desejada mas não prensas de lixo,
porque desta forma o lixo não pode ser mais identificado." "Controles
mais rigorosos e penalidades mais altas," devem ser introduzidas.
"Os
livros de registro de lixo devem, finalmente, nos dar insights sobre o montante atual de
lixo produzido, diz Onno Gross da Deepwave. Um navio contêiner padrão produz alguns 100
kg de lixo por dia. Caso os navios descartem um montante suspeitavelmente menor de lixo ao
aportar, deveriam ser forçados a pagar penalidades drásticas, diz Thilo
Maack do Greenpeace.
Gross
propõe utilizar as taxas portuárias para financiar o descarte de lixo. "O sistema
que alguém tende a encontrar em acampamentos de lazer deveria também ser utilizado em
navios," diz ele. Mas o governo alemão não tem grandes esperanças para
melhorias. O documento argumenta que o descarte de lixo deve permanecer livre de
cobrança, se alguém esperar mudar o comportamento dos marítimos.
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Global Garbage.org (farto
material sobre o assunto)
*Luís
Peazê, que já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de
"Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária
Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal,
entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e
costeiro www.luispeaze.com/brcostal

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