













|
O conteúdo deste site é propriedade intelectual privada e
toda e qualquer reprodução do mesmo em parte no todo sem a prévia autorização será
considerada violação de direitos autorais e estará sujeita a ação penal. Para
permissão e-mail
Ambiente
Marinho - Ciência & Tecnologia - Jornalismo - Mundo
Marinha do Brasil e a Imprensa
sobre o Lixo Marinho
por Luís Peazê Publicado em 31//12/2009 18:35
Um dos maiores problemas que ameaçam a saúde da Terra, a níveis
já insustentáveis, é o lixo marinho. Trata-se do mar e como tal é plausível que, aqui
no Brasil, a Marinha seja contextualizada na questão, a cuja gravidade do problema a
imprensa tem sido reticente.
Entenda-se por saúde da Terra, a saúde dos seres humanos, a preservação de espécies e
da vida selvagem, desde a cadeia alimentar, à produção do oxigênio nos oceanos e ao
clima no planeta.
É necessário que a imprensa inclua o assunto em sua pauta sistemática, e não
esporádica e aleatoriamente como vem fazendo, irresponsavelmente. Nunca é tarde, estamos
às vésperas do IV Congresso Brasileiro de Oceanografia - CBO, que celebrará 40 anos da
primeira turma de oceanologia do país, na Universidade Federal de Rio Grande, e às
vésperas também da primeira conferência internacional sobre lixo marinho no Brasil, que
reunirá especialistas em lixo marinho não só do Brasil, mas de agências da ONU,
Europa, Estados Unidos e de outros cantos do mundo, em franca articulação feita pela ONG
Global Garbage,
que aliás é a fomentadora principal do primeiro seminário sobre lixo marinho a
realizar-se dentro do IV COB.
Um equívoco histórico
Desde os tempos do Império Romano, o mundo gira em torno do crescimento, do
desenvolvimento econômico, da capacidade de produtividade dos países e das pessoas e
somente a partir da década de 1970 (Estocolmo, ONU) incluiu na agenda o meio ambiente.
Porém, a questão ambiental e o clima da Terra nunca foram tratados como prioridade ou
com a importância vital que merecem. Até mesmo têm sido utilizados como moeda de
manobra política e de desenvolvimento econômico, o caso dos créditos de carbono e dos
instrumentos de mercado para pressionar mudanças de comportamento (um salvo conduto para
a economia de escala manter a importância suprema). 
Por uma via, a contínua corrida pelo aumento do PIB, na competição entre as economias
mundiais, multiplicou a produção mundial não ecologicamente sustentável, fonte do
aquecimento da Terra; por outra, a população mundial dobrou tendo adquirido hábitos
sofisticados, dependentes de um ambiente industrializado. O problema está na bifurcação
dessas duas vias, na geração de lixo e poluição do mundo, que acompanhou a febre de
crescimento e produção, e nada foi feito de concreto para evitar o crescimento deste
componente resultante da atividade humana, perniciosa ao próprio homem é o homem
o gerador de poluição, não há outro culpado. Esse giro irracional do modo de viver da
nossa sociedade formou uma onda gigante de lixo
desabando sobre todos nós.
Esta é uma onda que envolve todas as pessoas, governos dos âmbitos municipais, estaduais
e nacional, o setor privado, a sociedade civil organizada e o meio acadêmico. E, se é um
assunto de utilidade pública, local, regional, nacional e internacional, deve ser pauta
obrigatória. Deve ser investigado pelo viés jornalístico. Há uma lei de crime
ambiental e vigor quem são os criminosos ambientais, de qualquer calibre? Há uma
vigilância operante? Quem são os responsáveis e o que está sendo feito aqui e
no mundo para mitigar o problema, quais serão as conseqüências, se nada for
feito para reverter o quadro? As perguntas são inumeráveis, perguntas que não acabam
mais, tudo o que um jornalista que se preza gosta. Mas, a tomar pelo número de linhas e
minutos de imagens reservados pela mídia ao assunto, não parece que a imprensa está
preocupada com esta fonte de notícia.
Problema complexo de ciclo muito fácil de entender
Embora o problema seja complexo, encerra um ciclo muito fácil de justificar a sua
gravidade, da seguinte maneira: os buracos na camada de ozônio assim como o aquecimento
da Terra, responsáveis pelas variações agressivas do clima, estão intimamente ligados
à produtividade escalada da produção, à demanda desenfreada do homem por bens
de consumo e suas inumeráveis atividades produtivas, recreativas, e em sociedade; quanto
maior esta produtividade, maior é a geração de lixo, de resíduos sólidos, de tipos
variados de poluição. A maioria dessa poluição chega ao mar, o início da cadeia
alimentar do planeta, o início do ciclo das águas da Terra, o lugar fonte do oxigênio
de que os seres vivos precisam. E, enquanto a sociedade como um todo não encarar esse
problema como uma prioridade vital, não desenvolverá a sua gestão de modo eficiente e
consistente, integrada ao seu dia-a-dia com a importância que merece.
Invariável e equivocadamente o homem moderno tem confundido o aumento do produto interno
bruto e crescimento da economia dos países como o objetivo fundamental para o aumento de
IDH, índice de desenvolvimento humano, ou, na melhor das hipóteses, para o aumento da
qualidade de vida dos indivíduos. Como se não houvesse alternativa conceitual (ou
filosófica) de desenvolvimento das sociedades, aquele equívoco é a ignição subjacente
de todas as fontes potenciais de lixo, de poluição, de lixo marinho, de doença da Terra
e do próprio homem. 
E a imprensa não está de prontidão permanente à porta da cadeia que encerra esta
questão complexa; e a Marinha do Brasil, da mesma forma, não está sendo contextualizada
publicamente. Parece haver no Brasil a consolidação de um ressaibo antiquado, que relega
à caserna assuntos de caserna, aos demais três setores (estado, público e privado) os
respectivos assuntos; ao meio acadêmico a pesquisa científica e nenhuma atividade de
cunho prático; no máximo órgãos de governo ligados à pesquisa científica e à
gestão ambiental aparecem casualmente juntos, com atores ambivalentes, quando o assunto
envolve verba de apoio subsidiado; por fim, as organizações não governamentais perdem o
fôlego ativista na medida em que conseguem aumentar os aportes de apoio financeiro
oficial e de marcas de reconhecimento público, tornam-se chapa-branca. Quem perde com
isso? Todos nós, o ambiente marinho, o planeta.
Quem deve fazer a proteção ambiental marinha?
O Brasil possui uma agenda sobre a poluição marinha, sobre a proteção ambiental
marinha? A mídia brasileira acompanha as iniciativas nessa área? Qual a realidade no
Ministério do Meio Ambiente quanto ao gerenciamento costeiro ou ao projeto orla, às
áreas costeiras de sensibilidade e mananciais? Algum jornal se arrisca a publicar que
esta realidade é, no mínimo, risível? Onde foi parar a Agenda 21? Tornou-se
potencialmente lixo no fundo de uma gaveta? A imprensa brasileira investiga essa
irresponsabilidade do governo, da sociedade, do setor privado? Nossos portos estão
preparados para receber e gerenciar lixo marinho gerados em navios nacionais e
estrangeiros? Possuímos aterros sanitários eficientes e gerenciamento de lixo gerado em
terra para que ele não chegue ao mar? Temos manchetes diárias sobre os acidentes
marinhos provocados por essa poluição? Ou a ingestão de partículas de plástico por
mamíferos e aves marinhas não é notícia? Ou o enredamento de espécies marinhas
ameaçadas não é notícia? Ou a diminuição de pescado por causa do lixo marinho não
é notícia? Ou as perdas econômicas produzidas pelo lixo marinho não valem a pena
noticiar? Afinal, o mar precisa de proteção ambiental? Longe de esgotar (aqui) as
perguntas que a imprensa poderia fazer diariamente, mas será que ela sabe o que
perguntar?
Há na Marinha do Brasil, inserida na Diretoria de Portos e Costas, a gerência de meio
ambiente que atuou como especialista na implantação da Gestão de Meio Ambiente da
própria Marinha, posto que o contingente e as atividades da Marinha são potencialmente
geradoras de lixo e poluição, como toda e qualquer outra concentração de atividade
humana. Gera lixo na construção e manutenção da frota naval (combustível, resíduos
sólidos e outros tipos de lixo), no exercício e manipulação bélica (munições e
outros artefatos pertinentes à atividade militar naval) e das edificações e
concentração do seu contingente de aproximadamente 50.000 marinheiros, além de atuar
também no monitoramento de manchas de óleo no mar e em outras atividades pertinentes à
poluição marinha. A ligação da DPC com a atividade portuária da marinha
mercante e, portanto a necessidade (militar, comercial e oecanográfica) de
interagir com organismos internacionais tais como a IMO (Organização Marítima
Internacional, uma agência da ONU) e outros, quanto às regulamentações pertinentes ao
espaço marinho, conduziu a sua Gerência de Meio Ambiente a especializar-se
constantemente e, por conta do mérito individual de seus profissionais, alargou no
cenário ambiental marítimo e marinho sua área de atuação ao longo do tempo. Um
cenário onde todos querem opinar, todos querem ingerir, todos querem ter verba para
coexistir junto à questão (poluição marinha), mas que isoladamente nenhum ator é
competente o suficiente para arcar sozinho com tal responsabilidade
independentemente da situação política.
Então, a quem ou a qual organismo na estrutura governamental brasileira compete aglutinar
e liderar as iniciativas, estudos, regulamentações e o cumprimento das leis pertinentes
ao lixo marinho, à proteção ambiental? Que lugar de Estado ou da sociedade civil
organizada abriga especialistas com vocação, formação e prática longeva em questões
marinhas e marítimas, do direito marítimo jurídico e das questões complexas da
economia do mar? O Ministério do Meio Ambiente? O IBAMA? A Secretaria Interministerial
para os Recursos do Mar? O Goos-Brasil (capítulo brasileiro do Sistema Global de
Observação dos Oceanos, patrocinado pelo IOC, UNEP, WMO e ICSU)? A Marinha do Brasil?
A resposta pode ser óbvia, ou, no mínimo, é uma questão importante que demanda
resposta imediata. Só não está óbvio por que a imprensa brasileira não se importa com
a poluição marinha, com a proteção ambiental marinha.
-----------------------------------
Leia Também:
Lixo
Marinho e os Instrumentos de Mercado (I e II/II)
- (I) Ou armas para educar à força
- (II)
Uma solução aparentemente etérea, mas é mais simples do que parece
Uma
Onda Gigante de Lixo Marinho
O Maior Aterro de Lixo do Mundo está Localizado
no Meio do Oceano
Por Capt. Charles Moore, traduzido por Luís Peazê
Uma bomba-relógio no fundo do mar
Por John Hemingway traduzido por Luís Peazê
Global Garbage.org (farto
material sobre o assunto)
*Luís
Peazê, que já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de
"Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária
Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal,
entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e
costeiro www.luispeaze.com/brcostal

Comentários:
-------------------------------------------------------------- |


Passagens
Aéreas
Loja do Peazê


Crônico de Lixo clique, ouça
e leia gratuitamente
 |