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Ambiente
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O maior aterro de lixo do mundo está localizado no
meio do oceano
By Capt. Charles Moore (traduzido por Luís
Peazê) Publicado em 07//08/2004
(título original:
World's Largest 'Landfill' is in the Middle of the Ocean CAPT. CHARLES MOORE, Marine
Research Foundation)
Há uma grande parte no centro do Oceano Pacífico que ninguém nunca visita ou poucos já
passaram. Os velejadores evitam esta parte como a uma praga porque ali falta vento.
Pescadores deixam-na de lado porque a sua carência de nutrientes a transforma num oceano
deserto. Ela faz parte da latitude dos cavalos, por onde os antigos navegantes
ficavam à deriva, e, sem comida e água, tinham que jogar suas cargas de animais ao mar.
Surpreendentemente, esta área é o maior domínio oceânico do nosso planeta, mais ou
menos do tamanho da África, passa de dez milhões de milhas quadradas.
Uma montanha de ar, que é aquecida no equador e começa a descer lentamente em espiral no
sentido horário a medida que aproxima-se do pólo norte, cria este domínio oceânico. Os
ventos circulares produzem correntes oceânicas espiraladas para o centro onde há uma
ligeira força centrífuga. Os cientistas conhecem este fenômeno atmosférico como alta
pressão sub tropical, e a corrente oceânica que ela cria é conhecida como corrente
central do Norte Pacífico ou giro sub tropical.
Por causa da estabilidade deste lento redemoinho, a maior expressão de uniformidade
climática da Terra é, também, um acumulador de entulhos da civilização. Qualquer
coisa que flutue, não importa de onde venha, dentro dos limites do círculo norte do
Oceano Pacífico, acaba a sua viagem ali, às vezes após derivar pela periferia por doze
anos ou mais. Historicamente, os entulhos não acumulavam porque eventualmente degradavam
pela ação de microorganismos transformando-se em dióxido de carbono e água. Hoje em
dia, entretanto, no afã de armazenar mercadorias contra a deterioração, nós criamos
uma classe de produtos que desafia até a mais criativa e insidiosa bactéria. Esta classe
de produtos são os plásticos.
Os plásticos estão virtualmente por toda parte na sociedade moderna. Bebemos neles,
comemos neles, sentamos nele e até nos locomovemos neles. Eles são duráveis, leves,
baratos e podem ser transformados virtualmente em qualquer coisa. Mas são justamente
estas propriedades úteis que fazem dos plásticos tão nocivos quando abandonados na
natureza. Os plásticos são como os diamantes: para sempre!
Os plásticos não são biodegradáveis, eles são fotodegradáveis um
processo no qual suas partículas quebram-se pela ação do sol em partículas cada vez
menores, todas, porém, mantendo a característica original. Isto é, continuam sendo
plásticos, polímeros, eventualmente na sua menor representação em moléculas
individuais de plástico, indigestas para qualquer organismo. Há cinqüenta anos, todas
as peças de plástico que chegaram ao Oceano Pacífico oriundas do continente,
quebraram-se em partículas e acumularam-se no giro central do Pacífico.
Oceanógrafos como Curtis Ebbesmeyer, conhecido mundialmente pela sua especialidade em
despojos de naufrágios, se referem a essa área do oceano como o grande Remendo de Lixo
do Pacífico. O problema é que não se trata de um remendo, tem o tamanho de um
continente, e está sendo entulhado por lixo plástico flutuante. Minhas pesquisas tem
documentado 6 libras de plástico para cada libra de plâncton nesta área. Em minha
última viagem de pesquisa de três meses de ida e volta (2003) chegamos mais perto do
Remendo de Lixo do que na anterior, e achamos níveis de fragmentos de plástico muito
maiores por centenas de milhas. Consumimos semanas documentando os efeitos que provocam as
areias que flutuam nesses plásticos nas criaturas que vivem nesta área. Nossos
fotógrafos capturaram imagens de águas-vivas irreversivelmente enredadas em linhas, e
organismos filtradores transparentes com fragmentos de plásticos coloridos em suas
barrigas.

A medida que nós derivávamos para o centro deste sistema, fazendo fotografias debaixo
dágua dia e noite, começamos a nos dar conta do que estava acontecendo. Um prato
de papel jogado ao mar simplesmente permanecia conosco, não havia vento ou corrente para
movê-lo para longe.
É ali que acabam todas as coisas que são carregadas rio abaixo para o mar. Em outubro
10, durante o nosso retorno para Santa Bárbara, descobrimos uma coisa que jamais
havíamos documentado uma Corrente de Langmuir de entulhos de plástico. Correntes
oceânicas com a rotação contrária criam longas linhas de material, visíveis de cima
como listras no oceano. Normalmente elas são formadas por organismos plantônicos ou
espuma, mas nós descobrimos uma feita de plástico.
Tudo desde enormes mangueiras até minúsculos fragmentos formavam uma linha de uma milha
de comprimento. Pegamos centenas de libras de redes de todos os tipos arroladas neste
sistema, junto com todo o tipo de entulho imaginável. Algumas vezes correntes deste tipo
derivam para cima das ilhas havaianas. É quando as praias de Waimanalo e Oahu ficam
cobertas de areia de plástico azul e verde e com acumulação de grandes entulhos. Mais
ao nordeste das ilhas havaianas, na Reserva do Ecossistema de Corais, focas, os mais
ameaçados mamíferos dos Estados Unidos, ficam enredadas nos entulhos, especialmente em
redes baratas de plástico abandonadas pelos pescadores industriais.
Noventa por cento das tartarugas verdes do mar havaiano aninham-se ali e comem aqueles
entulhos, confundindo com alimento natural, como também fazem os albatrozes. Na verdade o
estômago dos albatrozes se parecem com uma prateleira de isqueiros em loja de
conveniência, de tantos que contêm. Entretanto, os problemas causados por entulhos de
plástico não são apenas o enredamento e a indigestão. Há uma face ainda mais perversa
da onipresença da poluição marinha pelos plásticos. Como esses fragmentos flutuam por
aí, eles acumulam os venenos que nós fabricamos para várias aplicações e que não
são biodegradáveis. Acontece que os polímeros de plásticos são esponjas para o DDT,
PCBs e nonofenóis óleos tóxicos que não se dissolvem em água do mar. Chegou-se
ao cálculo de que pellets de plástico (pequenas pelotas) acumulam até um
milhão de vezes o nível desses venenos que flutuam abandonados na água.
Isto não é como os metais pesados nocivos que afetam os animais que os ingerem
diretamente. É mais do que isso, eles são o que chamamos segunda geração
tóxica. Animais evoluem receptores para moléculas orgânicas chamados de hormônios, os
quais regulam a atividade do cérebro e a reprodução. Hormônios receptores não podem
distinguir aqueles tóxicos do hormônio estrogênico natural chamado de estradiol, e,
quando os poluentes ancoram nestes receptores em vez de nos hormônios naturais, eles têm
demonstrado inúmeros efeitos negativos em tudo, de pássaros, em peixes e em humanos. A
questão das desordens hormonais tem se transformado num dos, se não o maior, problemas
do século 21.
Desordens hormonais tem implicações na baixa produção de esperma e aumento da taxa de
nascimento de fêmeas tanto em animais quanto em humanos. Incontrolavelmente, esta é uma
tendência à extinção de qualquer espécie.

Trilhões de vetores poluentes estão sendo ingeridos pelos mais eficientes aspiradores
naturais que a natureza já inventou: as redes de mucos de águas vivas e salpas que vivem
lá no meio dos oceanos. Estes organismos são, por sua vez, comidos por peixes e
certamente, em muitos casos, por humanos. Podemos cultivar orgânicos sem agrotóxicos,
mas pode a natureza produzir um peixe isento de pesticida? Depois do que eu vi no
Pacífico, tenho minhas dúvidas. Muitas vezes eu me pergunto por que não podemos aspirar
aquelas partículas de plástico. Na verdade isto seria mais difícil do que aspirar cada
polegada quadrada de todo o território dos Estados Unidos. Além de ser um espaço maior,
os fragmentos estão misturados e abaixo da superfície às vezes até trinta metros. Sem
falar que inúmeros organismos seriam destruídos durante o processo. Por fim, não há um
recurso econômico que seria beneficiado diretamente por este processo. E nós ainda não
aprendemos a fatorar a qualidade do meio ambiente em relação ao nosso paradigma
econômico.
Mas devemos trabalhar nesta fórmula de cálculo rapidamente, pois uma quebra da bolsa de
valores não será nada em comparação a um colapso ecológico em escala oceânica. Sei
que quanto as pessoas pensam nas profundezas azuis dos oceanos, vêem imagens de águas
puras, limpas e sem poluição. Depois de colhermos amostras da superfície das águas do
Pacífico Central, não consigo mais ver imagens primitivas quando eu penso nas
profundezas das águas salgadas. Tampouco consigo imaginar uma solução de limpeza das
praias. Somente a eliminação das fontes do problema podem resultar num oceano longe do
risco do plástico, e este resultado será visto apenas por cidadãos do terceiro milênio
DC. A batalha para mudar o modo com que produzimos e consumimos plásticos apenas
começou, mas eu acho que ela deve ser travada agora. O nível de partículas de plástico
no Pacífico no mínimo triplicou nos últimos dez anos e multiplicar-se por dez na
próxima década não é um raciocínio irreal. Deste modo, seis vezes mais plásticos do
que plânctons estarão flutuando na sua superfície.
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Captain Charles Moore (tradução: Luís Peazê)
Aboard Oceanographic Research Vessel, Alguita www.alguita.org
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Leia Também:
Marinha do Brasil e a Imprensa sobre
o Lixo Marinho
Lixo
Marinho e os Instrumentos de Mercado (I e II/II)
- (I) Ou armas para educar à força
- (II)
Uma solução aparentemente etérea, mas é mais simples do que parece
Uma
Onda Gigante de Lixo Marinho
Global Garbage.org (farto
material sobre o assunto)
*Luís
Peazê, que já jogou bola, é escritor e jornalista (MTB 24338), tradutor de
"Por Quem os Sinos Dobram" de Ernest Hemingway. Dirige a Clínica Literária
Consultoria e Agência de Notícias e o Instituto Brasil Costal BRCostal,
entidade sem fins lucrativos dedicada à difusão das questões do meio ambiente marinho e
costeiro www.luispeaze.com/brcostal
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